quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A par e passo 70


Atentemos, então, no autor de uma obra. A que se assemelha a condição deste trabalhador?
Na verdade, a literatura, tal como ela é, aproxima-se singularmente de alguns destes trabalhos feitos em casa, como existem ainda tantos em Paris; e ela será assim mais um por vários aspectos. O poeta faz-nos pensar nesses pequenos industriais engenhosos que fabricam, tendo em vista o Natal ou a passagem do Ano, brinquedos notáveis pela invenção, pela surpresa organizada e que são feitos com materiais de acaso. O poeta fundamenta os seus na linguagem normal. É belo evocar o céu e a terra, imaginar tempestades, reanimar as nossas emoções, sugerir tudo aquilo que há de mais delicioso ou de mais trágico no íntimo dos seres, dispor da natureza, do infinito, da morte, dos deuses e da beleza, e ele não é menos, aos olhos de um observador dos seus feitos e dos seus gestos, que um cidadão, um contribuinte, que se encerra a determinada hora do dia, com um caderno de páginas em branco, e que o vai preenchendo, por vezes silenciosamente, outras vezes dando-lhe voz, e andando ao mesmo tempo no espaço entre a porta e a janela. Até 1840, um Victor Hugo é um autor muito lido que habita burguesmente um apartamento no Marais; paga o seu alojamento, os seus impostos: é um produtor modelo. Mas o que é que ele faz? O que produz? E qual é o tipo da sua indústria? O mesmo observador, friamente exacto, constatará que os produtos desta pequena indústria têm um valor variável, tão precário como aqueles do fabricante de brinquedos, que trabalha, também ele, em sua casa, a dois passos dali, na rua dos Archives ou na rua Vieille-du-Temps.
Mas este valor, o que sairá das mãos do poeta, é complexo, é dúbio, e, nos dois casos, ele é essencialmente incerto.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pgs. 245/6/7).

Civilidade (30) : feminina e victoriana...


Memória (84)


Pelos 150 anos do nascimento de Edvard Munch (1863-1944), este auto-retrato, feito em 1909, pelo Pintor expressionista norueguês.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Beethoven / Brendel


Nadir Afonso


De Nadir Afonso (1920-2013),  frequentei, sobretudo e aqui há uns anos, com alguma regularidade, os painéis de azulejos da estação de Metro dos Restauradores, por onde eu entrava em Lisboa. E as palavras que ele, cidadão do mundo, lá fez inscrever, que me lembravam Cesário e os seus versos de O sentimento de um Ocidental. Mas mais que as penedias transmontanas, desalinhadas e agrestes, o que eu lá via era a geometria limpa das grandes metrópoles e alguns céus estranhos de abstractas nuvens singulares, e em revoada. Era uma pintura que arrumava a alma, se assim o posso dizer, porque o sentia.
Nadir Afonso deixou-nos, hoje, com 93 anos completos. E soube-o através de Artur Costa, pelo seu blogue O Linguado. Os transmontanos nunca se perdem entre si...

Para continuar no registo inicial do dia...


Com agradecimentos a A. de A. M..

Os crimes imperfeitos da NSA


Os tolinhos da NSA devem andar com insónias. Matutino, um dos pides da NSA, às 6h58, veio por duas vezes ao Arpose. Através das siglas:
31. 13. 99 e
173. 252. 102.
Amadoristicamente, os pulhas alienados deixam sempre rasto...

Em tempo: e actualizando, mais duas entradas, cerca das 13h00-
Colorado, Colorado Springs 69. 171. 248
Missouri, Springfield 66. 220. 152.

P. S. : já de 12/12/13, mais 5 entradas, com mais 3 siglas diferentes:
173. 252. 112,
173. 252. 103,
California, Simi Valley 199. 30. 20. .

P. S. 2 :  relação da romaria dos alienados obsessivos da NSA, na madrugada de 14/12/2013 -
173. 252. 77,
Colorado, Colorado Springs 69. 171. 229,
Colorado, Colorado Springs 69. 171. 233,
Colorado, Colorado Springs 69. 171. 237,
num total de 6 visitas de espionite maluca, ao Arpose, na noite de sábado - não devem ser judeus...

Moral ou conclusão (por agora):  o que acho mais curioso - eu, modesto amador, mas atento a estas intromissões soezes - é que o Google (Mountain View), que tudo regista do mundo cibernético, não seja capaz de detectar e bloquear estas entradas abusivas dos paranóicos da NSA!?
Há que rematar, em jeito conclusivo, com o título de um filme de Martin Scorsese (1942): são "Tudo Bons Rapazes" (Goodfellas, 1990). E marcanos... God bless America!

Já agora...


...e para manter a boa disposição, esta insólita notícia que o DN trazia, ontem.

Comic Relief (81)


Com "Amarcord", de Fellini, para um bom começo de dia.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Lembrete 12


Manoel de Oliveira faz, amanhã, 105 anos. A antiguidade é um posto - como se dizia na tropa -, sobretudo, para quem tem uma vida tão cheia de realizações...

Danças do período barroco


Para MR, e que me perdoe a voz algo pernóstica, por vezes, estridente da Senhora explicadora dos passos.

Pelo aniversário do nascimento de Emily Dickinson


Uma porta que se abriu de súbito na rua -
E eu perdida, ia a passar -
Um amplo instante de calor se desprendeu
E me envolveu de companhia.

A porta de súbito fechou-se, e eu,
Eu, mesma, perdida, ia a passar, -
Perdida duplamente, mas por contraste fundo,
Numa dor iluminada.


Emily Dickinson (1830-1886).

Uma fotografia, de vez em quando (23)


Esta fotografia, que o Tejo divide na horizontal, de lavra doméstica e devida à objectiva atenta de HMJ,  pouco deverá à arte, mas praticamente tudo à felicidade do momento fixado.
Especulemos.
Os dois funâmbulos destemidos, à esquerda na foto, um olhando a Norte, o outro ensimesmado no Sul do horizonte, embora parecendo dois pais natais sobre a enorme chaminé, estão realmente mais longe, em cima do telhado de zinco da Escola de Belas-Artes, contemplando os extremos da paisagem possível. Um bem agasalhado, o segundo, em mangas de camisa. E, este último, decerto menos friorento (e se estava fria, a manhã de Dezembro!...), denuncia, talvez, a sua vocação de artista plástico, porque parece trazer consigo, na mão esquerda, uma folha branca de desenho, ainda virgem...

Regionalismos transmontanos (17)


1. Cabeço - nata do leite.
2. Cabonde - bastante. Suficiente (o m. q. abonde).
3. Cabra esfolada - diz-se do céu quando se apresenta com cor vermelha, à noite, anunciando calor para o dia seguinte.
4. Cabrioleira - rapariga mandriona.
5. Caçapo - indivíduo baixo e atarracado.
6. Cachafrelho - malsim, o que denuncia, que espia. Guarda Fiscal.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um livro


Há já largos meses (mais de um ano?) que não leio um romance, novela ou um conto que me agrade inteiramente. Uma obra de ficção, em suma.
Será uma verdade, à marechal de La Palice, eu dizer que o que distingue uma obra ficcional, de uma biografia, é sabermos que, nesta última, as personagens que a integram existiram e os factos foram reais. Há, no entanto, em toda a literatura, obras híbridas, em que a ficção e a realidade se entrelaçam, numa harmonia perfeita. Estou a lembrar-me, por exemplo, de "Viagens na minha Terra", de Garrett, ou de "Os cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rilke, para referir apenas dois casos.
É este hibridismo perfeito, segmentado, embora com maior peso biográfico, e que, pela antologia valeriana (ficção, poesia e ensaio) se torna compósito, que caracteriza o livro que ando a ler, com imenso agrado. Intitula-se "Paul Váléry" (Editions Pierre Charron) e foi (bem) escrito e organizado por Pierre Caminade. E que recomendaria, não fora o facto de ter sido publicado em 1972, sendo por isso, decerto, difícil de encontrar.
Para além disso, é um prazer folheá-lo: é uma edição cuidada, tem ilustrações invulgares e bonitas, vendo-se que foi produzido por quem tinha muito bom gosto estético.

Eleni Karaindrou / Maria Farantouri


Filatelia LXXX : Grécia, período clássico


A filatelia, às vezes, também dá que pensar...
É, no mínimo, curioso que, ao contrário dos primeiros selos de outros países europeus sob regime de monarquia (Portugal, Espanha, Inglaterra, Bélgica, Holanda...), a Grécia não tenha escolhido para motivo iconográfico o seu soberano, Jorge I (1845-1913), nem mesmo qualquer outro motivo régio (coroa, brasão...).
A escolha recaiu na figura de Hermes (o Mercúrio romano), mensageiro dos deuses, patrono das comunicações. Por alguma razão, a Grécia foi o berço da Democracia...
Dos selos, em imagem, há que esclarecer que pertencem às primeiras cinco emissões helénicas, de 1861 (início do selo adesivo na Grécia) até ao ano de 1889. As impressões foram feitas em diversos locais (França, Bélgica e Atenas), sendo que diferem em qualidade, umas mais finas, outras, mais grosseiras. Por uma questão de curiosidade, posso informar que o primeiro selo com efígie do rei, na Grécia, ocorreu apenas no ano de 1936...


Pinacoteca Pessoal 65


Nascido em Antuérpia, Joris Hoefnagel (1524?-1601) é um pintor flamengo muito considerado, na Inglaterra. A sua obra emblemática, "The Fête at Bermondsey", retrata um casamento, nessa localidade, com uma fidelidade quase fotográfica, reproduzindo uma série de figuras (algumas já identificadas), com trajes de festa, da época elizabetina, com uma riqueza de pormenor que permitiu reconstituir, melhor, a iconografia de moda, do século XVI britânico.
A tela, que terá sido pintada por volta de 1569 (Hoefnagel estadiou na Grã- Bretanha, de 1569 até 1571), pertence a uma colecção particular, mas poderá ver-se na National Gallery, até 5 de Janeiro de 2014, integrada na mostra Elizabeth and her People.

Da Janela do Aposento 40: Exorcismos, a montante 1



Uma boa conversa entre amigos consegue, com frequência, esse prodígio de nos elevar, à semelhança da imagem, e olhar para as nossas vidas numa perspectiva sublimada, embora partindo de coordenadas muito rasteiras e contidas no recente jargão "a montante" e "a jusante". 
De experiências vividas em comum, "a montante", o meu amigo lembrou-se, com a sua perspicácia, do poema "Exorcismo" de C. Drummond de Andrade, que se reproduz na íntegra:


A elevação, a propriedade e a devastadora ironia do poeta sobre os desvarios do(s) estruturalismo(s) e de linguístas permitiu-nos, à distância e com boa disposição, recordar os exorcismos.
Convenhamos que, no meio desta "floresta de enganos", a pretensa polémica sobre o Acordo Ortográfico representa, somente, um acidente de percurso menor e uma acha para a fogueira de certos poetas do actual regime.
De facto, o grito de Drummond de Andrade já nos libertou, a nós, mas, "a jusante", o desvario continua, sob novas roupagens, a fazer os seus estragos e exorcismos, Dos "semas, sememas, semantemas" passamos aos "marcadores de discurso", e outras "cerejas" semelhantes, porque ainda não se compreendeu bem o sentido último do poema.
Libera nos, Domine !

Post de HMJ 

domingo, 8 de dezembro de 2013

Loussier sobre Beethoven : Allegretto da 7ª Sinfonia


Apontamento 32: A Europa precisa de um Golpe de Estado !



Uma conversa entre Helmut Schmidt e Joschka Fischer, parcialmente publicada pelo DIE ZEIT na sua edição de hoje, representa uma "lufada de ar fresco" no cinzentismo dos actuais líderes europeus.
A exclamação é do próprio Helmut Schmidt que, com frases lapidares, traça um quadro negro do estado da UE, a começar pela evidência "eloquentíssima de que nem no topo da Comissão Europeia temos um homem de primeira ordem" (!). 
Quanto aos dois intervenientes, muito críticos quanto ao papel da Alemanha na Europa, H. Schmidt remata que "seria possível, se houvesse vontade" mudar o rumo presente, sublinhando que, de momento, apenas o BCE, sob a direcção de M Draghi, funciona bem.
J. Fischer, nascido em 1948 e sendo "filho da esperança", como ele diz, transmite a sua preocupação perante o paulatino esvaziamento da ideia da Europa, designadamente no que respeita à solidariedade e aos princípios que tornaram a Europa numa construção viva, alertando para o perigo de que o crescente vazio, assim gerado, se possa preencher de novos e velhos nacionalismos.
Aliás, a "prestação" paupérrima dos actuais comissários, nomeadamente do "trauliteiro" Olli Rehn, negociado, segundo parece, como sucessor do "Zé Manel", confirma, tão só, a deriva e a opinião dos dois antigos estadista da Alemanha.
A versão completa das conversas entre Helmut Schmidt e Joschka Fischer sairá, brevemente, sob o título "Mein Europa" [= A minha Europa].

Post de HMJ

Citações CLXIV


Respeitar os adversários e não humilhar os inimigos será difícil, mas é uma forma superior, nobre e inteligente de humanismo cavalheiresco.

Ludwig von Dichter (1701-1770).

Presente!


Quando o peso dos anos convidaria ao descanso (até para a tranquilidade venal de muitos..), a presença pode ser um dever cívico e ético. Para quem sempre foi solidário com os outros e sempre se bateu pela Liberdade - Mário Soares (1924), no dia do seu aniversário, ontem, em Viana do Castelo.

sábado, 7 de dezembro de 2013

89 anos


"...- foram precisos muitos anos para aprendermos que são raros, raríssimos, os homens que resistem à corrupção do poder; que são poucas, pouquíssimas, as coisas pelas quais o homem poderia aspirar à ressurreição. Isto, ele também o sabia. O que não sei se saberia, e a mim me parecia pura evidência, é que os homens se tornam prisioneiros do próprio poder, a sua liberdade é mera aparência. Não sei se lhe disse isto, ou se apenas o pensei, já metido no frio dos lençóis de Mateus, onde o sono demorava a chegar. Demorava a mim, porque o meu amigo já deveria ter adormecido. «Mesmo na cadeia, tirava o casaco, punha-o a servir de travesseiro, e dormia até ao interrogatório seguinte...», dissera-me há bocado. Só quem tem a consciência tranquila pode dormir assim. Continua a chover; a terra vai ficar ensopada: o peso sobre o rosto dos mortos."
S. Lázaro, 16.6.90
Eugénio de Andrade

Beethoven / Schiller / Karajan

Para afastar os "vampiros" desta noite e dar lugar ao Sol maravilhoso deste sábado de Outono...

Herberto Helder


traças devoram as linhas linha a linha dos livros,
o medo devora os dias dia a dia das vidas,
a idade exasperada é ir investindo nela:
a morte no gerúndio


Herberto Helder, in Servidões (pg. 96).

De que falaremos hoje?


Neste sábado soalheiro, mas de frio fino e persistente, em que esperamos Amigos, de que falaremos?
Do asilo de alienados que dá pelo nome de NSA que, saudosamente decerto (para eles), nos visitou esta noite, várias vezes, sob, entre outras, mascaradas siglas:
- Colorado, Colorado Springs - 69. 171. 245.
- Colorado, Colorado Springs - 69. 171. 248.
- Missouri, Springfield - 66. 220. 152.
- 173. 252. 12;
talvez porque o jornal Público titulava, ontem:  NSA acompanha movimentos em todo o mundo através dos telemóveis?
Sendo que seria mais nobre e preferível falar e citar António Guerreiro que, também no jornal Público de ontem, de algum modo e a propósito de Herberto Helder, referia: ...Os entrepostos de livros em que se transformaram as livrarias só aos mais incautos conseguem esconder que, na verdade, à grande quantidade de títulos novos expostos não corresponde uma real diversidade. A diversidade torna-se mais facilmente encontrável nas poucas e pequenas livrarias independentes que ainda restam, mas que vão sucumbindo em cadeia. ...
Como também mais nobre seria ainda falar da unanimidade grata, que se fez roda, em agradecimento à vida de Nelson de Mandela, que nos deixou anteontem.
De que falaremos hoje?
Dos pulhas tolinhos da NSA, ou dessa nobre figura negra e sul-africana, que nos deixou a todos um pouco orfãos?
Porque o mundo há-de sempre ser feito de pulhas e de almas nobres, num extremismo vincado e eterno...
De que falaremos hoje?

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Gassman fala (e diz) de Rafael Alberti


Marcadores 12


Mais 2 marcadores de livros, com a particularidade de serem da temática de gastronomia. O mais pequeno publicita uma livraria de Colónia, especializada em obras de culinária e receitas. O segundo faz reclamo a um Chianti italiano, tinto.

A par e passo 69


Considerada na pessoa do autor, a literatura é uma profissão singular. O material reduz-se a uma caneta e algumas folhas de papel; a aprendizagem, o ofício é aquilo que se quiser: de curta ou infinita duração. A matéria-prima é também aquilo que quisermos, encontra-se em qualquer lado; na rua, no coração, no bem e no mal. E, quanto ao trabalho em si, ele é indefinível, porque cada um pode dizer que pertence a esta profissão e quer vir a ser um mestre. (...) Afastemos a imagem romântica do poeta de cabelos compridos, de longa fronte fatal, que se sente transformar em lira ou harpa no meio das tempestades ou pela noite, ao luar, na margem de um lago... Nada de bom se faz nestas circunstâncias extraordinárias. Os melhores versos amadurecem no dia seguinte da inspiração.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pgs. 244/5).