domingo, 26 de maio de 2013

6 greguerías ramonianas


1. O lápis só escreve sombras de palavras.
2. As violetas são actrizes retiradas no outono da sua vida.
3. Há quem se guarde para dar esmola aos pobres que houver à porta do céu.
4. A morcela é uma transfusão de sangue com cebola.
5. Na manhã do domingo há luz do Vaticano.
6. A cada disparo o canhão recua como que assustado por aquilo que acaba de fazer.

sábado, 25 de maio de 2013

Jardim e Horta na Varanda


Logo pela manhã visitei o meu jardim na varanda. Encontrei três flores que abrem de manhã e morrem ao fim do dia.


Na outra varanda vi uma flor amarela, mas é o primeiro sinal de um pepino a desenvolver-se.


Por fim, olhei para as folhinhas de alface que vão aumentando lentamente. 


Até ao dia em que irão para a travessa. Para uma salada para duas pessoas ainda deve chegar !

Post de HMJ, dedicado a MR

Pinacoteca Pessoal 51


Algo enigmática, esta obra de Vittore Carpaccio (1460?-1525?), intitulada "Duas Venezianas num Balcão", pintada no final do séc. XV, parece personificar o tempo morto de uma espera, onde duas mulheres, ricamente vestidas e com colares de pérolas, se vão entretendo com vários animais domésticos (cães, rolas, papagaio...). Não será bem um retrato, mas não chega também a ser uma história.
Carpaccio terá aprendido a sua arte com Bellini. O quadro pertence ao Museu Correr, de Veneza.

Herberto Helder, claramente


Há, neste livro, uma súbita clareza, inesperada. De versos quase lineares, não para fazer o favor aos leitores, mas porque a idade já nada tem a perder e, quase todos, temos connosco um segredo impossível de guardar, para sempre. E é preciso confessá-lo, antes que seja tarde demais.
Este Servidões, de Herberto Helder, é uma fresca primavera neste "inverno do nosso descontentamento". Merece-o quem respeitar a Poesia, e saiba onde ela começa. Ou acaba.

Léo Ferré cantado por Wende Snijders : "Avec le Temps"


De Manoel de Barros (1916), um poema em prosa


VIII

Idiotas de estrada gostam de urinar em morrinhos de formigas. Apreciam de ver as formigas correndo de um canto para outro, maluquinhas, sem calças, como as crianças. Dizem eles que estão infantilizando as formigas. Pode ser.

Manoel de Barros, in O Guardador de Águas (pg. 19).

Regionalismos minhotos (39)


Mais uns quantos regionalismos minhotos coligidos por M. Boaventura no II volume da obra Vocabulário Minhoto (F-Z), donde seleccionei, da letra S, os seguintes:

1. Sobar - vergar o barro.
2. Sodéga - sujo (região de Barcelos).
3. Soêlha - névoa tenuíssima sobre a água, indicadora de calmaria.
4. Solejar - fazer sol e chuva ao mesmo tempo.
5. Solipa - bofetada.
6. Somítego - somítico, avarento.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A par e passo 42


Simetria

Há uma espécie de simetria entre a necessidade e o objecto, (ou a imagem do objecto), que a satisfará.
Eu não penso em beber: mas este copo à minha beira dá-me sede.
Eu tenho sede, e imagino o copo de água com delícia.
Estes fenómenos são simétricos, - com a diferença aproximada que há entre uma coisa e a sua imagem.

Paul Valéry, in Tel Quel II (pg. 238).

Coincidências


No mesmo dia (hoje), de três locais diversos (Jornal de Negócios, Revista ípsilon, jornal Público), três articulistas de quadrantes políticos diferentes (António Guerreiro, Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares) debruçam-se sobre a pálida figura que se alberga, temporariamente, no Palácio de Belém. Num tom mais ou menos sério, de forma mais ou menos inteligente. Mas, curiosamente, com um mesmo sentimento.
Deixo aqui, em imagem, o texto (de António Guerreiro, na ípsilon) que me parece mais bem articulado. Bastará clicar sobre a imagem, para a aumentar, e ler.

Liszt / Barenboim


No extremo Norte


Em Viana do Castelo, e no próximo dia 25 de Maio, inaugura esta exposição da designer Mariana Mattos, na rua dos Manjovos, nº 32. Para quem andar por perto...

Benefício da dúvida, em tom provocatório


Sempre me perguntei, porque é que alguns autores, sobretudo do séc. XVIII português, são considerados secundários, em benefício de um cânone literário eternizado por selectas literárias de antologiadores preguiçosos e acríticos que se limitaram a perpetuar o que já vinha de trás. Tenho para mim que o excessivo sucesso de "O Hissope", de Cruz e Silva, soterrou a leitura do poeta lírico que ele também foi, e de alguns sonetos de muito merecimento, que quase nenhum leitor conhece, hoje em dia. A menorização do Abade de Jazente, por exemplo, sempre me pareceu injusta, também.
O jornal Le Monde (17/5/13) dá notícia da saída recente de um livro de Eric Dussert (Une Forêt Cachée. 156 Portraits d'Écrivains Oubliés, La Table Ronde), onde o crítico faz a apologia e propõe à apreciação vários autores franceses que não constam do cânone literário conservador gaulês, presentemente.
E, nós, por cá? Será que não haverá por aí, nenhum José X ou António Y que tenham ficado soterrados, muito injustamente, sob o peso massacrante e obeso das adílias lopes e dos vários hugos mãezinhas? Pelo menos, há que investigar, para ver...

Geminando...


...com o poste de MR, hoje, no Prosimetron. É provável que o livro da Taschen, pelo menos do ponto de vista iconográfico, de autoria de F. Kober, seja de melhor qualidade. Mas este, na minha posse, é bem interessante. Para quem se interesse por Simbologia. É uma tradução portuguesa (1996) do original inglês, de Miranda Bruce-Milford.

Na Gulbenkian


O último grande Senhor da Europa virá no próximo dia 5 de Junho à Fundação Gulbenkian. É no Auditório 2, às 18h30.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Apontamentos 11: Uma Toalha à Bordalo


Recentemente, uma infeliz ocorrência de saúde, ou falta dela, ensinou-me, de novo, o valor da amizade que agradeço sensibilizada.
Um amigo trouxe-me uma mezinha, "creme de baba de caracol". Apesar de não gostar de caracóis, nem de caracoletas, rendi-me aos encantos da dita baba. 


Mensagens de cuidado, atenção e amizade eram diárias, fruto de uma dedicação extrema dos amigos. 
Por último, recebi de um familiar o que se pode chamar um "presente de consolação". Uma toalhinha de mesa, com caracóis e outros bichos, assim como legumes, que me fizeram lembrar a louça de Bordalo. 


Com agradecimento a todos, deixo um aviso aos leitores: não aceitem trocas de medicamentos "pelo princípio activo", sobretudo genéricos da marca ACTAVIS, porque me causaram provações várias que não recomendo.

Post de HMJ

Adagiário CXXXI : Bigodes


1. Bigode de homem não se corta.
2. Viva quem tem bigode, quem tem cavanhaque é bode.

Nota pessoal: este cavanhaque do rifão deu-me água pela barba, se assim se pode dizer... No Torrinha, nada. Fui ao Morais, e nada consta, no Lacerda, idem. O Caldas Aulete também não regista. Salvou-me o Antenor Nascentes (Dicionário Etimológico, R. de Janeiro, 1932) que anota: "de Cavaignac, nome de um general francês". Ora este francês bigodudo, de nome Louis-Eugène Cavaignac (1802-1857) foi primeiro-ministro e Governador-geral da Argélia. E tinha, como se pode ver pela imagem, um bigode farfalhudo que justifica, amplamente, o ditado... 

Georges Moustaki



Faleceu Georges Moustaki.

Post de HMJ

Retro (28)


Mesmo que centenária (17/10/1911), esta pictórica sobranceria masculina (fosse o cavalheiro músico ou poeta), em relação à submissa jovem ajoelhada, na altura, já não seria de muito bom tom, nem politicamente correcta... Que diabo!, já estavamos em plena República.
Seja como for, o cerne da mensagem, no verso do postal, revela o grato reconhecimento da Feliciana para com a Dona Maria do Carmo Santos, do Chalet Cabral Pinto, em Algés, por causa da oferta de um vestido que "está muito ao meu gosto fás muita vista, parece um vestido caro."

Citações CXXXIII


"A juventude é uma aquisição da idade madura."

Jean Cocteau (1891-1963).

quarta-feira, 22 de maio de 2013

J. Haydn / J. du Pré

Paisagem


Poderíamos, decerto, estar no triálogo, interminavelmente, mas o nosso Amigo tinha de se ir embora.
Agora e contra a aguarela exterior azul e rosa, acendo a luz amarela interior da sala. O Tejo empresta ainda o azul cobalto, firme. Falta apenas o verde, mais o negro da noite, para compor o arco-íris do quadro. A inocência do branco já não é chamada para aqui, nem pela idade nem pelo tempo que passa.
Estamos soterrados pelo lixo claustrofóbico e superior de quem nos governa. Vai sendo cada vez mais difícil vir à tona. Outrabandistas e ténues, entre amarelo e branco, as  primeiras luzes que se acendem, numa esparsa solidão, ao longe. Logo a seguir ao rio.

Apontamento 10: Os Coveiros da Europa



Os "Young Urban Professionals", ou mais popularmente conhecidos como "Yuppies", começaram a sua vida encostados à Finança. Agora, muitos deles chegados à "meia-idade", como o exemplar em epígrafe, mudaram de posto e infiltraram-se nos centros do poder económico. São Presidentes do Eurogrupo ou candidatos, como parece ser o nosso Vitinho, a Comissário. 
E, quanto ao nosso mago Gaspar, já há muito desconfiava que ele arrasou o país e humilhou um povo numa estratégia pessoal do "seu projecto de vida". 
Afinal, os "YUP" começam a definir-se, claramente, como os coveiros da Europa.

Post de HMJ

Os poetas esquecidos e a memória dos jacarandás


Na 24 de Julho, os jacarandás já começaram a florir como, lá para Outubro, se hão-de lembrar, como brasileiros de origem, de voltar a florescer, num destino de fidelidade genética imorredoura e fatal, de Primavera sul-americana.
Queixamo-nos, por vezes, do esquecimento que paira sobre alguns poetas, mais sóbrios e discretos que, talvez por sabedoria ou vontade própria, desapareceram sem ruido, na paisagem efémera do tempo. E eu penso que a única forma de os agarrarmos à vida é, no fundo,  trazê-los de cor (coração)  na nossa memória e, no silêncio mais íntimo, silabarmos caladamente os seus versos.
Discretos, esquecidos estarão Saúl Dias e João José Cochofel. Convoquemos este último:

Este nó na garganta
que nem os olhos molha
tem alguma parecença
com o cair da folha.

Despedem-se em silêncio
de coisas sem memória
levadas na poeira
da morte transitória.

Alfred Schnittke : da "Cantata Fausto"


Por razões obscuras, esta Cantata Fausto, de Schnittke, fez-me lembrar a frase lapidar do pintor Manolo Millares (1926-1972) sobre uma das suas telas: "O quadro foi parido assim, porque foi feito num tempo feio."

Recomendado : trinta e nove - Eça / Campos Matos


Terá sido uma das últimas edições da Parceria António M. Pereira, este livro que saíu em 2011, e que foi composto e investigado com a minúcia e seriedade de um arqueólogo afectuoso, por A. Campos Matos, arquitecto. O autor já nos tinha dado o portentoso "Dicionário de Eça...", editado pela Caminho que, a cada nova impressão, surge acrescido de novos verbetes. Este porfiado trabalho em louvor de Eça de Queiroz só terá equivalente, porventura, na fidelidade que Gomes de Amorim consagrou a Garrett.
Poderá visitar-se Lisboa, com este "guia" na mão, reconhecendo, a par e passo, as ruas, praças e ruelas, bem como os números das portas onde Eça de Queiroz situou toda a sua ficção magistral. Acompanhando as transcrições da prosa respectiva. A capa do livro, do meu ponto de vista, é infeliz, mas o conteúdo é imprescindível para quem goste de Eça e de Lisboa. Por isso, aqui fica a recomendação.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Regresso ao Futuro


Apontamentos 9: Modas


O nascimento, a 5.5.1813, de Sören Kierkegaard foi objecto de um artigo, no nº 5745 do Times Literary Supplement, sobre a sua obra. No entanto, o que primeiro chamou a minha atenção foi um desenho do filósofo, datado de 1836.


Concluí, pois, que a moda da "poupa" já vinha de longe, tendo encontrado novos adeptos nos tempos recentes. De facto, tenho visto "poupas multi-tosquiadas", de estética mais apurada ao corte rasca, tipo "crista de galo".
Para mim, e dentro da limitada variação possível na tosquia masculina, a figura de Kierkegaard, com "poupa", não ganha com a moda. Com o devido respeito, parece um "tolinho".

Post de HMJ

O parágrafo do dia


"O que é espantoso é que parece ter-se instalado o consenso sobre Cavaco Silva: todos o tratam como tratariam o idiota da aldeia, com paciência e benevolência, às vezes com um sorriso de comiseração, sem esconder aqui e ali um lampejo de irritação, mas garantindo-lhe sempre a inimputabilidade que os costumes, a moral e a lei concedem aos pobres de espírito."

José Vítor Malheiros, in jornal Público, de hoje.

Imaginação e notável iniciativa


Com base na, impropriamente chamada, obra "Ronda da noite", de Rembrandt, esta performance que surpreendeu positivamente os clientes de um centro comercial holandês. A AVP, os meus agradecimentos mais cordiais.

Os murais do PREC (2)


Mais felizes no traço, uns que outros, nalguns casos já invadidos ou sombreados pela vegetação nascente ou delidos pelas intempéries, estes graffiti constituiram a arte urbana militante da segunda metade dos anos 70. Depois, desapareceram ou alguém, superiormente, os mandou apagar em nome do decoro artístico ou do asseio estético. O que tem vindo a seguir é estandardizado, normalmente feio, tresanda a americanice exuberante. E, na maioria dos casos, revela uma enorme falta de imaginação e um mau gosto tremendo.

P.S. : perdoe-se a distracção, mas no melhor pano cai a nódoa...
A fotografia da direita alta está ao contrário.