sexta-feira, 13 de julho de 2012

Não há duas sem três


Convida-se o prezado leitor a acompanhar-nos numa viagem insólita a uma "gruta de Ali-Bábá" representada na imagem acima. Não obstante os avisos prévios, apelando à paciência, condescendência e tolerância do viajante, voltei a reincidir, por dever de ofício, neste trajecto que, há anos, não percorria. Longe estava de imaginar que a estrada de acesso se tinha degradado, mau grado o desenvolvimento rodoviário do país. Sabia, é certo, que, entretanto, surgiram as portagens, com os incómodos inerentes. Não esperava, no entanto, que as salas das estações de serviço se tivessem tornado em bebedouros públicos de garrafas de água de litro e meio. Por último, verifiquei que o "pessoal" ao serviço das estações aprimorou a sua competência social - ou seja, a conversa fiada - sem ter aprendido o essencial da poda, confundindo café com meia de leite.
Dizem os entendidos na matéria que não vale a pena reclamar do péssimo serviço, acautelando maiores dissabores futuros. Contudo, e seguindo a máxima de que à terceira é de vez, resolvi "pronunciar-me".

Passando da ficção à realidade, aviso que o acesso do cidadão ao ANTT implica:
1 - Solicitar, por escrito, autorização para consultar determinado livro. Passado duas semanas poderá ter que responder a perguntas suplementares sobre o perfil e idoneidade do consulente, aguardando, pacientemente, o despacho. Se tiver o azar de pretender consultar um "livro em mau estado", comunicam-lhe que, pagando o restauro de circa de 200 Euros (!), terá direito de o ver.
2 - Quando o investigador ainda consegue ter acesso a um livro, já restaurado, recebe instruções - rigidíssimas - sobre o seu manuseamento. No entanto, e finalmente sentado perante o livro, olha em volta e descobre o insólito: uma garrafa de água, de litro e meio, colocada, "discretamente", debaixo da secretária de uma outra leitora! 
3 - Pense bem antes de preencher o "Formulário electrónico de Pedido de Reprodução", uma vez que o ANTT já não dispõe de um auto-serviço de reprodução de microfilmes. A máquina desapareceu - sabe-se lá porquê - obrigando o utente a mais um empecilho e tempo antes de, e mais uma vez, dar com os "burros na água". De facto, o insólito espreita onde menos se esperava. Ou seja, de uma confusão entre os conceitos de foliação e paginação, além de uma leitura pouca atenta de um pedido de reprodução de 3 páginas - verso de uma folha inicial + frente e verso do 1º fólio do manuscrito seguinte - o utente recebe, passado duas semanas, uma fotocópia. Pois claro, era a imagem do fólio, marcado manualmente com o número três !

Afinal, o ANTT tem "pessoal" com enormes competências sociais, de conversa fiada, carecendo de uma formação profissional que lhe devia permitir cuidar, devidamente, da descrição bibliográfica das espécies bem como da sua reprodução. Nesse particular, e infelizmente, não se distingue do exemplo que lhe vem de cima.

Post de HMJ

De Brian Crain: "Reminiscence"

Auden, ainda


De Shorts II

O que tocamos é sempre
um Outro: eu posso afagar
a minha perna, não a Mim.
...
Quando eu era pequeno...
Porque será que esta frase inacabada
me incomoda tanto agora?
...
O que é a Morte? Uma Vida
desintegrando-se em
pequenos simples.

A ética (portuguesa) em diagonal

Comprometi-me, comigo mesmo, a não abordar mais, aqui no Blogue, o caso rasteiro e reles das ervas daninhas, ou relvas, se preferirem que eu seja mais explícito - é que o assunto já fede.
Mas estranho que o MEC (ministério da Educação...) e o magnífico Conselho de Reitores não tenham uma palavra a dizer. É pobre, é lamentável, é a prova provada da indigência destas instituições: parecem estar todos a esbracejar na sarjeta dos dejectos, tentando nadar, caladíssimos, para sobreviver. Assim vai a Ética em Portugal.

Maqueta-protótipo para uma árvore genealógica


Schubert para Miss Tolstoi, pelo seu aniversário

Que tenha um dia feliz, e conte muitos!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Uma rapidinha açoreana, para ter bons sonhos esta noite

Com vivos agradecimentos a ms.

Geleia de Limão - Do engenho e da Arte

Há algum tempo recebemos, por gentil oferta, uma quantidade de citrinos, limões e laranjas. Depois de encher o olhar com a frescura dos frutos, resolvi procurar receitas para aproveitar e prolongar a vida da dádiva, em frascos, fazendo geleia.

A receita era simples:
30 g de gelatina (que usei em pó)
1 kg de açúcar
9 laranjas (quantidade que tanto usei para as laranjas como para os limões)

Eis o engenho da feitura:
Com o sumo dos citrinos e o açúcar fiz uma calda, deixando-a apurar um pouco ao lume antes de juntar a gelatina, dissolvida em 60 g de água. Depois de juntar a gelatina à calda, fui mexendo até obter uma calda em "ponto de pérola", deitando, no final, as raspas da casca de vários limões (ou laranjas) para embelezar a geleia. A receita simples acolheu a aprovação, após degustação, de amantes de culinária e nasceram frascos, no PROSIMETRON, como os representados abaixo.


Para além de ter passado o engenho da receita, estava longe de imaginar que uma simples habilidade culinária se transformasse em Arte verdadeira que, de facto, não domino.
Ei-la ! E com o consentimento do artista, aqui vai o fruto de uma história, não de "perdizes", mas de citrinos.



Post de HJM, dedicado a A. de A.M.

Beethoven / Backhaus / Böhm (2)

Osmose (35)


Pode ser uma alma alucinada que corre, vertiginosa, pelas ruas da Baixa, ou uma tensão de rosto, agressiva, que não chega a deflagrar, à beira-rio. Em qualquer  dos casos é o vinagre da vida, o vinho de juventude que azedou, definitivo.
Até pode haver atenuantes de um branco excessivo, uma inveja corrosiva que pede uma felicidade gustativa igual, um sabor de fruto inexistente. Mas que a memória recorda para sempre, expulsa que foi do Paraíso. Que, aliás, nunca existiu.
Despedimo-nos sem pena e, muito menos, saudade. O rio há-de esquecer-nos, e há-de continuar a passar por outros olhos. Que importa, se já não estaremos aqui?

Crime na Biblioteca


É conhecida a história de um escritor português, que fora também Inspector das Bibliotecas e Arquivos, e que, à data da sua morte, tinha em casa vários livros da BNP; também se sabe de um cronista reputado de gastronomia, já falecido, que terá rasgado páginas de livros raros de cozinha da BNP, para usufruir da sua posse e consulta, no remanso da sua habitação...
Mas nada que se compare à rapina organizada e criminosa de que foi objecto a Biblioteca (Girolamini) de Nápoles, que possuía um riquíssimo acervo de manuscritos e livros raros. Tudo começou com a nomeação, para director, de Marino Massimo De Caro, a 1 de Junho de 2011, italiano relacionado com Il Cavaliere.
E a pilhagem começou, sendo as câmeras de vigilância desligadas, para facilitar os roubos de milhares de livros e manuscritos raros.
Um Dante de 1502, manuscrito iluminado, uma "Jerusalem Liberata", de Tasso, impressa em Paris, no ano 1610, a "Teseida" de Boccacio e muitíssimos outros foram sendo desviados e vendidos, com a ajuda de gente de Leste, para grandes alfarrabistas, importantes casas leiloeiras e, até, ricos bibliómanos.
Não fora um investigador se ter apercebido ao querer consultar uma obra rara, desaparecida, e os roubos teriam continuado. O caso está, agora, entregue à Justiça italiana, e De Caro foi preso, segundo conta "Le Nouvel Observateur", saído hoje.

Circos


Havia um apresentador que dizia, ao microfone: "With you, avec vous, convosco... Miss Codónis, que domina a pantera na ponta de um alfinete!..."
Mas esta Miss Corina, mulher-bala, nunca eu tive a felicidade de ver, nos circos que frequentei. Foi pena...

Recomendado : vinte e nove - introdução à bibliofilia


Não se aprenderão coisas excessivamente importantes, sobre bibliofilia, neste "O Bibliófilo Aprendiz", do brasileiro Rubens Borba de Moraes (1899-1986), livro da Letra Livre, saído em 2011. Mas algumas regras básicas são transmitidas, normalmente, através de exemplos concretos ou de histórias saborosas.
E, para quem gosta de livros, sobretudo antigos, este manual simples e despretencioso, lê-se com muito agrado e interesse. Por isso o recomendo.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Beethoven / Backhaus / Böhm

Curiosidades 56


Comprovadamente garantido e com suporte sólido documental, o anel, em imagem, pertenceu a Jane Austen (1775-1817), e terá sido vendido ontem, pela Sotheby's,  com uma estimativa inicial entre 20.000 e 30.000 libras esterlinas. A pedra, semi-preciosa, estava na moda no início do séc. XIX, sobretudo em França.
Estas relíquias, despojos ou pertenças de pessoas célebres sempre foram muito apreciadas ou valorizadas, desde os relicários religiosos, os caracóis de cabelo ou, cá em Portugal, os objectos pessoais usados pelos famosos. Tudo depende da veneração que despertam e esta idolatria é uma das circunstâncias humanas.
Um caracol de Napoleão, o osso lascado de um Santo, a máquina de escrever de Fernando Pessoa, uma gola usada por Carlos I, são memorabilia que podem atingir preços exorbitantes que, o comum dos mortais, mal pode imaginar.

Coruja ou Mocho?


Em bom rigor, não sei se será uma coruja ou um mocho, mas inclino-me para a primeira opção. Embora não seja tão interessante quanto a de Albrecht Dürer, esta ave de Johan Andreas Naumann (1780-1857), aguarelada em finais do séc. XVIII ou início do séc. XIX, tem, para mim, um encanto especial, pelo seu olhar estremunhado e fixo. Mas para quem quiser comprá-la, tem um preço arrebatador: 17.000,00 euros!
E aqui fica, para dar os bons dias, a quem vier visitar o Blogue.

James Rizzi


Confesso a minha ignorância relativamente ao artista "pop" James Rizzi (1950-2011), representado na imagem acima. Tomei conhecimento das suas obras através das minhas amigas da Colónia Agrippina e julgava, para além do apreço da sua obra na Alemanha, que fosse um artista conhecido. 
Recentemente, trouxe, na minha bagagem de Colónia para Lisboa, uns marcadores e um caderno de notas com desenhos de Rizzi. 
Parece que James Rizzi não é um artista tão conhecido cá como julgava, na profundeza da minha ignorância.


Post dedicado a MR e EN

Post de HMJ

terça-feira, 10 de julho de 2012

Uma valsa de Eleni Karaindrou

Intimidades


Dos telemóveis, amplificadores da vida privada, na via pública ou nos transportes, até às revistas róseas onde celebridades medíocres, normalmente, vendem (às vezes, com os próprios filhos menores) a sua intimidade, há um mundo às escâncaras que se desnuda, venalmente ou por mero exibicionismo, em todo o seu patético de existência fútil. Para ouvintes ou leitores ávidos poderá constituir o sal de uma vida excessivamente pobre e sem história, para outros, apenas, uma excrecência sórdida dos tempos que passam.
Mas há que pensar que, em tudo isto, há também democracia e liberdade. E opções pessoais e humanas. Por isso me ocorre citar Henry James (1843-1916): "...um homem tem o direito a escolher, tanto quanto possa, o que o mundo deve saber dele, e aquilo que não deve saber".

Linguagem das Flores (2)


Mais completo que o anterior postal, que publicámos há dias, este código amoroso permite uma gama mais alargada de sentimentos e mensagens. É uma espécie de oaristo especializado, do antigamente.

O azul, humor e a música, gregos, para bem começar a tarde

Regionalismos minhotos (18)


Retirados da mesma obra que temos vindo a consultar, mais 7 regionalismos de que só conhecia o primeiro e o sétimo. Em imagem, um pormenor da bela e rústica igrejinha de Bravães, próxima de Ponte da Barca. E aí vão os regionalismos:
1. Melado - achacoso, molarengo, fraco.
2. Meruja - certa planta a que também chamam orelha de rato (que também não conheço).
3. Mestre-farelo - linguareiro, palrador.
4. Mijicar - fazer qualquer coisa vagarosamente.
5. Minhão - pessoa que tem os incisivos muito salientes.
6. Moitar - calar, não dizer nada.
7. Mojiganga - bonequice (fazer momices, brincadeira); coisa sem valor.

Adagiário XCVIII : temática Justiça


1. Ladrão endinheirado, nunca morre enforcado.
2. Prendeu-me o alcaide, soltou-me o meirinho.
3. Deus te guarde de parágrafo de legista, de infra de canonista, de et coetera de escrivão e de récipe de    mata-são.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Schumann / Brendel

Fraquezas


Estava eu dividido por pruridos de exigência e qualidade poética, quando fui castigado (pelo destino?) com um pequeno acidente doméstico de transvase, com inúmeros estilhaços de vidro... Eu simplesmente resistia à  inclusão, no Arpose, de um poema (O Chale) do esquecidíssimo Afonso Lopes Vieira (1878-1946).
Porque sempre andou por aqui (em Portugal, e no Brasil, ainda é pior) uma enorme confusão entre juntar versos e fazer um poema, porque são coisas que não têm nada a ver, uma com a outra. E eu, com a idade, estou cada vez mais ortodoxo e intransigente. Mas, hoje, para me penitenciar, vou lançar, neste espaço virtual, uns versos de Lopes Vieira que, no meu entender, estão na fronteira, entre uma coisa e outra.
Por outro lado, este poeta leiriense, que também andou pelos brasis, sempre me foi simpático, apesar de monárquico - enviezamento que tardo em entender... Tinha ortografia teimosa e própria, usava monóculo, mas era um cavalheiro que amava Portugal - e, isto, não se pode nem deve esquecer. 
E o poema, embora fraquinho, é dos melhores que encontro em "Canções do Vento e do Sol" (1911). Aí vai, portanto, com a minha benção contrita:

O Chale

Sobre os teus hombros, leve e assim poisado,
está o teu chale agora semelhando
as asas de algum anjo fatigado
que se cansassem pelo ar, descessem,
e abatessem, fechadas, palpitando.

E as tuas mãos quietas, que se ageitam
sob o chale, que as cobre com carinho,
são duas rolas tímidas que espreitam
da branda calentura do seu ninho.

E se de leve no ar palpita e esvoaça
sobre os hombros flutuando,
o chale, quando a ti o vais cingindo,
ha no gesto subtil aquela graça
que se desnuda, sorrindo,
e se agasalha, corando...

Em tempo...


com agradecimentos a C. S..

5 reflexões de Valéry

´
1. A ignorância vacila entre a audácia extrema e a extrema timidez.
2. A intuição sem inteligência é um acidente.
3. Variações sobre Descartes
     Por vezes, penso; por vezes, eu sou.
4. O acordar atribui aos sonhos uma reputação que eles não merecem.
5. A amargura vem quase sempre de não receber um pouco mais do que aquilo que se dá.
    O sentimento de não ter feito um bom negócio.

Paul Valéry (1871-1945), in Tel quel I.

domingo, 8 de julho de 2012

Revivalismo Ligeiro LXXVI : Marie Laforêt

Costumes atávicos


É uma dicotomia que, quando posta em confronto, é difícil de opção definitiva: a saúde mental, ou a saúde física. Eu próprio nunca me tinha apercebido de que, entre muitas outras coisas comuns, os judeus e os árabes praticam ambos a circuncisão. Operação que os ocidentais (homens, pelo menos, creio) encaram de forma oblíqua e incómoda.
Entretanto, o tribunal de Colónia (Alemanha) considerou que a circuncisão de uma criança devia ser considerada como "uma ferida corporal infligida, e passível de uma condenação" pela Justiça humana. Diga-se, em abono da liberdade democrática, que foi (apenas) uma interpretação meramente racional. Mas este simples acontecimento, ou facto, contribuiu para o impensável: unir, numa estreita aliança de repúdio, os árabes e os judeus, na cidade de Colónia. Oxalá continuem fraternos!
Concluiria, com ironia e a favor da Paz, que há males que vêm por bem...

Idiotismos 2


Segundo Alexandre de Carvalho Costa, no seu "Gente de Portugal / Sua Linguagem - Seus Costumes" (Portalegre, 1981), a expressão idiomática Andar numa fona (que eu gosto imenso de usar, com o significado de: andar atabalhoadamente e depressa), pode ter várias origens, sobretudo pelo valor significativo de fona. A palavra, em si, pode ser considerada equivalente a "atafona", que quer dizer: azenha, moínho... Em Alcantara (Lisboa) há, por exemplo, uma Travessa das Atafonas, o que indicia lá ter havido, provavelmente, azenhas, talvez movidas pela água da ribeira de Alcantara, hoje soterrada. Neste caso, Bluteau atribuiu-lhe origem árabe. Mas Alexandre Costa informa também que, segundo Abílio Roseira a palavra fona pode ser uma corruptela abreviada de Mafoma - continuamos no domínio árabe...
E ainda deve ser considerada a possibilidade de a palavra ter o significado de "faúlha que se desprende do lume e volita no ar, já apagada e em forma de cinza". Mas há também uma pequena ave, tipo pardal, muito irrequieta que, em Miranda do Douro, é chamada fona.
Seja como for, a expressão, no essencial, vale por: andar numa lufa-lufa, numa roda viva.