domingo, 1 de março de 2020

Adagiário CCCVIII


Parentes são os meus dentes, mais chegados os da frente e leais são os queixais.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Exposição na Tate



Numa espécie de glosa actualizada e de novos temas, a artista norte-americana Kara Walker (1969) expõe até 5 de Abril de 2020, na Tate Modern, a sua Fons Americanus, inspirada no Memorial da Rainha Victória (Londres), mas com motivos quase opostos, como é explicado neste vídeo. E em que a monarca britânica é substituída ou representada pela deusa africana Yoruba.

arte menor (30)





Nem tudo aquilo a que o desejo nos convoca
sobrevive. Também as raízes morrem
e os frutos definham
se não forem colhidos
pela tarde fresca
ou pela noite mansa.


Sb., 22/ 29-2-20.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Inventário e modelo


O prédio albergava, divididos pelas 32 fracções dos 8 andares, onze cães e nove gatos. Os pequenos felinos eram tutelados, maioritariamente, por viúvas inconsoláveis; os canídeos, por famílias com criancinhas muito sensíveis. Havia também canários pelo prédio, que não incomodavam ninguém. E peixes, em vários aquários, que não tugiam nem mugiam, por isso nem se dava por eles. O Silva do PAN considerou-o um prédio modelo, e propôs ao PR que lhe fosse concedida uma venera simbólica e benefícios fiscais aos utentes moradores.
Quando souberam disto, os pobrezinhos que brincavam na Comporta, resolveram fazer uma marcha silenciosa de protesto até S. Bento e Belém.
Compreensível, aliás!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Mercearias Finas 154


Por esta altura do ano, costumo dar uma volta à adega, quanto aos tintos. Pelo Verão, é a vez dos vinhos brancos darem uma volta e eu retirar alguns, já mais antigos, para abate e por precaução... E se, para estes, 5 anos, com raras excepções, pode ser um limite de idade, para os tintos sou sempre muito mais tolerante - já bebi alguns (poucos) nacionais com mais de 40 anos, que estavam um esplendor!
Anote-se, previamente, que dos vinhos tintos retirados, os mais novos contavam quarenta anos e os dois mais velhos 46 de idade.

Vistoria feita, procedeu-se à retirada para prova e consumo das seguintes garrafas:

1. V. Dão Painel, Garrafeira de 1974 (numerada: 476), 12º - Caves Império.
2. Garrafeira Carvalho, Ribeiro & Ferreira, 1974 *, 12,3º - C. R. & F.
3. Garrafeira Carvalho, Ribeiro & Ferreira, 1978, 12º - C. R. & F. (que custou Esc. 1.100$00).
4. Bairrada, Reserva 1980, 12º, Adega Cooperativa de Cantanhede, 2 gfs. (Esc. 626$00, cada).
5. Quinta de Fontoura, Garrafeira Particular de João Girão, Douro (Lamêgo), Colheita 1980, 12,5º.
6. Vale Pradinhos, Pinto de Azevedo, Casal do Valle, Colheita de 1980, 13º.

* Foram postas no mercado 300.000 garrafas.

P. S.: já provados os 4., 5. e 6., todos em boas condições, sendo o último o mais apreciado.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Cotações no mercado


Se há escritores que não perdem, após a morte, a sua popularidade e cujas obras se vão continuando a imprimir e vender, como os livros de Simenon, por exemplo, outros há em que a crítica começa logo a questionar a qualidade da sua ficção, a seguir ao falecimento do autor, como foi o caso de John Updike. Ou mesmo em vida, como parece estar a acontecer, agora, com a avaliação que se tem feito  das últimas obras de J. M. Coetzee.
Na Inglaterra, a perda de interesse pela obra de Françoise Sagan (1935-2004) tem sido progressiva (o TLS regista-a) e raros, dos seus livros, têm sido reeditados, encontrando-se esgotados na sua maioria, talvez porque esse clima fluído e leve da ficção da escritora francesa, que lembra a atmosfera cinematográfica de um Rohmer ou de um Truffaut dos anos 60/70 ( certeiro, oTLS dixit), se tenha perdido para sempre, nos dias de hoje.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Duas reflexões ou estratégias de defesa


1.
Com a gente do Sul aprendi que a ternura tem que ser protegida com dureza e que a dor não nos pode paralisar.

Luis Sepúlveda, in As Rosas de Atacama (pg. 131).

2.
A ironia é uma atitude defensiva que deve permitir-se a quem se aventura a navegar no elemento movediço das formas humanas, com a consciência nítida da própria impossibilidade de distinguir os corpos das sombras.

Antonino Pagliaro, in A Vida do Sinal (pg. 4).

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Simetria a Sul...


... vista de baixo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Ultimas aquisições (21)


Não são livros recentes, mas são 2 obras de qualidade. E digo-o, porque já os comecei a ler. O livro de Sebald não deixa de ser desconcertante: uma ficção em forma de poema percorrendo três temas, um dos quais sobre o pintor Matthaeus Grünewald (1470?-1530?). Quanto à obra de Luis Sepúlveda, fez-me acreditar que, hoje, ainda é possível escrever de forma comprometida, sem que, por isso, a ficção perca a beleza e a qualidade.

Osmose 113


Se houvesse além, havias de já ter dito alguma coisa, depois de arrumares as tuas roupas, livros e  outros pertences, ao chegares. Sempre foste mais arrumado que eu - lembro-me bem. Excepto no final dos teus dias, já mais complicados.
Mas tenho imensa dificuldade em situar-te, agora. Saiba embora que estás nalgum lado: mas qual o espaço eleito, o cenário preferido para te recordar? A Norte ou a Sul? A Foz húmida dos últimos dias ou a Caparica, ainda quase juvenil e luminosa dos antigos Verões despreocupados e dos Agostos imensos encantados e alegres, povoados de crianças que eram nossas?
Sei, porém, que é em mim, no presente, que te hei-de encontrar.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Apontamento 130: Instrução




Pese embora o aumento da escolaridade obrigatória, constata-se uma degradação acentuada no que se refere a uma instrução básica, ferramenta essencial para uma realização pessoal digna desse nome.

A minha constatação, não sendo recente, encaminhou-me, desde sempre, para obras com o tema genérico da “ensinança”, desde os “espelhos dos príncipes”, “tratados sobre a educação dos nobres” até aos “vademecuns” como o acima reproduzido.

Confesso que sempre aprendi imenso. Do livrinho de Francisco José Freire, e recordando um verso de Luís de Camões, sobre o seu “discreto secretário”, ficamos, pois, a saber que uma das principais perfeições do secretário é, como não podia deixar de o ser, a “observância do segredo”.

Passando das qualidades às imperfeições, não deixei de reparar nos defeitos da prolixidade, sobretudo olhando ao panorama que nos rodeia no quotidiano.

Assim, explica o autor o defeito da prolixidade: “Chamo prolixidade a huma certa vastidão, e grandeza de Cartas, que dizendo pouco em muitas palavras, causa fastio a quem lê. Livra-se por tanto o Secretario de amplificações, digressões, e de outras semelhantes, e fastidiosas locuções. Fuja de multiplicidade de textos, e authoridades: e busque sempre ser breve, com tanto que naõ tire a energia ao conceito, de que usa na sua Carta.”

Sublinhei, portanto, os conselhos de superior sabedoria do autor, muito recomendáveis a escrevinhadores actuais, aduzindo que ele associa a prolixidade à “escuridade no dizer” e, claro está, à ignorância“, quão grande defeito seja em hum Secretário.”

Post de HMJ

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Em tirocínio para máxima


O futebol é o divã psicanalista dos pobrezinhos mentais. Deus o conserve - assim se evita muita violência doméstica inútil e uma enorme despesa clínica.

Citações CDXXVII


Quanto menos ideias as pessoas têm para expressar, mais elas falam alto.

François de Mauriac (!885-1970), in Le Feu sur la terre.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Adagiário CCCVII


Gato que nunca comeu azeite, quando o come, se lambuza.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Exposição


Até 29 de Fevereiro de 2020, na Cisterna / Galeria de Arte (R. António Mª. Cardoso, nº 27, Lisboa), encontra-se aberta uma exposição de fotografia de Álvaro Rosendo (1960), em que será difícil não encontrar instantâneos dos mais conhecidos nomes dos anos 80 e 90, portugueses. De Maria João Pires a Cabrita Reis, de Al Berto a Sérgio Godinho, e muitos outros, num conjunto a que o fotógrafo deu o nome de Aos meus amores 2.0.

Desabafo (53)


Segundo notícias recentes, os médico pretendem ter o mesmo ordenado que os juízes. Concordo.
A formação académica é tão exigente nos juízes como nos clínicos. Possivelmente, até mais, nestes últimos. Por outro lado, na minha vida, precisei muito mais de médicos do que de magistrados. E se um médico faz uma asneira, está feito e até pode ser irradiado pela Ordem. A um juiz, nada lhe acontece, por muitos erros e asneiras que faça. E andam por aí montanhas de exemplos...
Finalmente, os meritíssimos, na sua grande maioria, são lerdos e, normalmente, tiranetes à portuguesa..

Recomendado : oitenta e três


A recomendação é porventura tardia, porque este Dicionário Sentimental do Vinho (Casa das Letras), de Bernard Pivot (1935), saíu em 2007 e, provavelmente, será difícil, hoje, ainda o encontrar à venda nas livrarias. Acontece que a obra me foi oferecida há pouco e só agora a  estou a ler.
Grande divulgador cultural francês (Lire, Apostrophes...), o autor tem uma escrita elegante e animada, além de fornecer variadíssimos informes úteis sobre enologia, sobretudo gaulesa. Fiquei, por exemplo, a saber que o conceituado néctar Châteauneuf-du-Pape, que eu julgava existir apenas tinto, tem também a sua versão em vinho branco.
Recomenda-se, abertamente, este livro!

agradecimentos cordiais a H. N..

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Memória 133



Das minha cantoras de ópera preferidas, Mirella Freni (1935-2020), uma semana depois de falar dela, aqui no Arpose ( Um CD por mês 10 [3/2/20]), pela última vez, faleceu em Modena (Itália), cidade onde nascera.
Recordámo-la, agora, numa ária de ópera de W. A. Mozart.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pinacoteca Pessoal 161


Alemão de origem judia, o pintor Felix Nussbaum (1904-1944) chegou a ter grande sucesso público nos anos 20 e início dos 30 do século passado, até que a ascensão do nazismo, em 1933, determinou a sua fuga, com a mulher, pela Itália, Bélgica e França. Vindo a ser preso pelas autoridades de Vichy.


A fase inicial da sua obra, entre o expressionismo e o surrealismo, parece incorporar ténues influências de Chagall e Chirico, para gradualmente vir a assumir uma personalidade própria que culmina na tensão dramática dos seus últimos quadros, pintados no campo de concentração de Auschwitz, onde veio a ser assassinado em Agosto de 1944.



O auto-retrato, em imagem inicial, é de 1943 e representa o pintor exibindo o seu bilhete de identidade de judeu. A penúltima tela (Triunfo da Morte) e a final, com uma cena de Auschwitz, são quadros pintados no último ano da sua vida (1944).

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Palavras de anteontem


Viriato Soromenho-Marques (1957) em clarividente entrevista, ao jornal Público, em 9/2/2020.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Da leitura 35


A expressão dos sentimentos ( e emoções ), em conversas correntes e escritos do dia a dia, assume por vezes a transgressão da ignorância, a boçal incapacidade e impropriedade verbal, bem como, muitas vezes, o exagero próprio de quem não tem, nem terá nunca, a noção do grau e da medida.
De A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann (1875-1955), é conhecida  a clássica , brilhante e intensa, mas simples declaração de amor do romance, que diz: "Tu és o tu da minha vida." Inultrapassável por lapidar, ainda hoje, no meu entender.
Quanto à amizade, eu creio que foi Michel de Montaigne (1533-1592) que, em relação ao seu afecto por Étienne de La Boétie (1530-1563), melhor soube expressar, em os Essais (1595), o sentido e valor do seu sentimento (Parce que c'était lui, parce que c'était moi), e de forma linear. Mais uma vez, inultrapassável.
Para melhor contextualizar a expressão, passo a traduzir o parágrafo em que ela se integra:
"...aquilo a que chamamos habitualmente amigos e amizades, não são mais do que conhecimentos e familiaridades, através das quais as nossas almas se entretém. Em amizade, que é aquilo de que falo, elas misturam-se e confundem-se uma com a outra, numa mistura tão universal, que se esbatem as costuras por onde elas mesmas se juntam. Se insistirem em me perguntar porque gosto dele, creio que poderei responder: Porque era ele, porque era eu" (I, 27, 290-291).

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Citações CDXXVI


O espaço é um corpo imaginário tal como o tempo um movimento fictício.

Paul Valéry (1871-1945), in Tel Quel.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Ainda vai a tempo


Com a qualidade a que nos habituou a BNP, para celebrar o centenário do nascimento de Jorge de Sena (1919-1978), apresenta-nos uma magnífica mostra alusiva, até 29 de Fevereiro de 2020.


Composta por bibliografia de e sobre o Escritor, correspondência e um acervo iconográfico notável.
A não perder, absolutamente.

Registe-se...


... com agrado que o último Le Monde des Livres (31/1/2020) dedica a sua primeira página à tradução francesa do livro de Mia Couto (1955), "Les Sables de l'Empereur" (As Areias do Imperador). Com uma recensão crítica muito favorável, de Gladys Marivat.
A versão francesa do romance foi trabalhada por Elisabeth Monteiro Rodrigues, e saiu com a chancela da editora Métailié.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020