
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Contra a obscuridade

Os pântanos e as areias movediças, às vezes, são terríveis: não permitem avançar, enredam-nos, pegajosamente. Fomes de séculos, ignorâncias genéticas de gradual degenerescência, tontices de pouca cultura : são alguns dos suspeitos do costume, para além da prosápia bacôca, quando não de uma hipocrisia de sacristãos que "manquejam" do cérebro, como Camões "manquejava" de um olho. Há questões fracturantes na sociedade portuguesa, são reais e há que tê-las em conta.
Sobretudo quando são dialogadas de forma limpa, alta e digna. O problema é que há uma gentinha a puxar "para o chinelo" que quer arrastar os outros para o pântano da treta, da desconversa, da demagogia dos "clichés" e do politicamente correcto. Que maçada!...
Jorge de Sena, no seu prefácio a "O Reino da Estupidez (I), escrevia: "...O espírito religioso não tem que ver, a não ser em subsistência de ritualismos primitivos, com uma ordem moral. Quando, por um gesto mal feito, o homem temia ofender a divindade, era compreensível que, teocraticamente, fosse organizada e mantida uma normalização ética no seio de uma natureza hostil. Mas, quando o progresso das ciências postula que a religiosidade é, inescapavelmente, uma situação interior, cuja liberdade deve ser protegida e respeitada, qualquer normalização que extrapole esses limites, quer impondo aos outros uma conduta que nos seja atraente, quer tentando regulamentar aquela situação, viola os direitos sagrados da dignidade humana, essa dignidade que nunca soubemos tão bem, como hoje, qual deverá ser."
Por palavras de Jorge de Sena, disse. E acrescento, no ano do 1º centenário: Viva a República!
P. S.: para JAD e MR, solidariamente.
Nota: pedi a Eugénio de Andrade o título, deste poste, emprestado.
Médico e Poeta

Não se sabe muito sobre Miguel do Couto Guerreiro (1723?-1793) para além de ter nascido em Grandola, ter vivido grande parte da sua vida em Setúbal e se ter licenciado em Medicina, pela Universidade de Coimbra, em 1751. Publicou, em vida, vários livros de poesia, entre eles uma tradução da "Arte Poética" de Horácio. Foi, portanto, poeta e médico. Façamos votos para que tenha sido melhor médico, do que foi poeta... Escreveu, no entanto, alguns epigramas com certa graça de que damos uma pequena amostra.
LXXVII
Eu ando na diligência
Seja, por que preço for,
De me fazer comprador
De calos para a paciência
E orelhas de mercador.
XCIV
Se alguma pessoa ignora,
Porque venho tão pasmado,
Ouvi dizer ainda agora
Uma sogra bem da nora
E de seu amo um criado.
CXXX
Eu não sei por que caminho
Sucedem tantas passagens:
Um, que ontem com murmurinho
Vendia panos de linho
Hoje já fala em linhagens.
Para JAD, "glosando" o retrato do Poeta
Rubén Darío (1867-1916), grande poeta da Nicarágua e da língua castelhana, escreveu "Filosofia":
Saúda o sol, aranha, não sejas rancorosa,
Dá graças a Deus, sapo, pois que existes.
O peludo caranguejo tem espinhos de rosa
E os moluscos reminiscências de mulher.
Sabei ser o que sois, enigmas sendo formas;
Deixai a responsabilidade às Normas,
que a hão-de remeter ao Todo Poderoso...
(Canta, grilo, sob a luz da lua; e que dance o urso.)
Etiquetas:
Alberto Soares(trad.),
JAD,
Leal da Câmara,
Poesia,
Rubén Darío
terça-feira, 11 de maio de 2010
Biber, para os que merecerem a "Battalia"
Etiquetas:
Francisco Manuel de Melo,
Heinrich Biber,
Música Clássica
Citações XXVI : Francisco Manuel de Melo

"...Pois em se descuidando, talvez com a idade lhe chega sua hora de velhice, contra quem não valem todos os estofos, e badulaques, que inventou a vaidade, e a incontinência. Porque a prata se mareia, o ouro se denigre, as esmeraldas embaçam, as pérolas desmaiam, os rubis descoram, o aljôfar se perde, o cristal estala, e tudo muda, não só a forma, mas a substância, do que era."
Francisco Manuel de Melo (1608-1666) in "Relógios Falantes".
Heinrich Biber, a propósito
Somos um país de escassa criação musical, pelo menos no passado. Não temos, que eu saiba, uma "Missa Lisbonensis", ou quejando. A "Missa Salisburgensis" de Heinrich Ignaz Biber (1644-1704), compositor austro-boémio, é uma obra-prima da música sacra e foi terminada em 1682.
Sendo eu agnóstico, embora com raízes de infância e adolescência católicas, não me repugna dar as boas-vindas a Bento XVI, através desta obra musical de que gosto, particularmente. Tendo Biber uma obra musical laica apreciável, pensei primeiro na "Battalia" - porque este Papa tem andado debaixo de fogo -, mas acabei por optar, finalmente, por um excerto da "Missa Salisburgensis".
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Os "papabiles"

Hoje, entre as 20,15 e as 20,30hrs., as três principais estações de TV portuguesas sobrepuseram-se, decalcaram-se cristã e piedosamente, na expectativa de anunciar os 23 (24) jogadores de futebol convocados para a selecção portuguesa que irá jogar na África do Sul. Pontificava Carlos Queiroz que virá a ser bestial ou besta, consoante o objectivo a conseguir.
E falava-se, na época do Salazar, dos três "efes" excessivos... Agora, até os intelectuais se benzem, respeitosamente, na água benta do futebol, antes de entrar em cena. "Não posso com tanta ironia", para citar Fernando Assis Pacheco que até gostava de futebol, mas com moderação.
Etiquetas:
África do Sul,
Carlos Queiroz,
Fernando Assis Pacheco,
Salazar
Archibald MacLeish : Ars Poetica

Archibald MacLeish (1892-1982) é um poeta americano muito estimado. Para além de ter sido, como bibliotecário, o grande reorganizador da Biblioteca do Congresso, exerceu cargos políticos, na área da Cultura, nos mandatos do Presidente Franklin D. Roosevelt. Viveu em Paris, entre 1923 e 1928, tendo convivido com Hemingway, Scott Fitzgerald, Picasso. Dramaturgo e, sobretudo, poeta, é autor do bem conhecido poema americano "Ars Poetica" que iremos traduzir, em seguida.
Um poema devia ser palpável e mudo
Como um fruto redondo,
Calado
Como velhos medalhões ao toque do polegar,
Silencioso como a pedra gasta na moldura
Das janelas onde o musgo rompeu -
Um poema devia ser sem palavras
Como o voo das aves
*
Um poema devia estar imóvel no tempo
Assim como a lua vai subindo,
Deixando, tal como a lua desprende ramo a ramo
As árvores entrelaçadas pela noite,
Como a lua deixa para trás as folhas
De Inverno, memória por memória, na alma -
Um poema devia estar imóvel no tempo
Assim como a lua vai subindo
*
Um poema devia ser igual
À inverdade
Por toda a história do sofrimento
Uma porta vazia à entrada, uma folha de ácer
Por amor
O inclinar das ervas e duas luzes sobre o mar -
Um poema não devia querer
Dizer, mas simplesmente ser.
domingo, 9 de maio de 2010
Bibliofilia 15 : encadernações


Nenhum dos volumes encadernados, que se reproduzem, são propriamente raros. Mas as encadernações, feitas por HMJ, e devendo ser chamadas "de amador", fazem as minhas delícias.
O voluminho de "A Voz da Razão" (Paris, 1826), de José Anastácio da Cunha, com encadernação inteira de pele, é porventura o mais valioso. O "Esmeraldo de Situ Orbis" (1905), edição crítica e anotada por Augusto Epiphânio da Silva Dias, tem encadernação meia-francesa, com papel de origem inglesa. Foram encadernações trabalhadas com afecto, zêlo e minuciosa atenção de quem, como eu, gosta muito de livros. E, onde entra afecto, não devemos misturar números...
P. S.: para MR, por múltiplas e óbvias razões.
Dietrich Buxtehude por duas razões
1. Dietrich Buxtehude faleceu a 9 de Maio de 1707, tendo nascido em 1637. É um dos grandes compositores para orgão da época barroca. Apesar de organista da Marienkirche de Lübeck, a sua obra "laica" é vasta.
2. O Papa Bento XVI visitará Portugal a partir da próxima terça-feira, 11 de Maio de 2010.
Etiquetas:
Bento XVI,
Dietrich Buxtehude,
Música Clássica,
René Saorgin
Limão : do verde ao amarelo

"Ao princípio era o verbo..."
Eu diria: ao começo era o limoeiro e, depois, o limão. E as limas, mais claras e translúcidas - as antigas. Na memória, os dentes brancos, rijos das minhas primas a trincar os gomos ácidos, numa alegria juvenil que quase me parecia crueldade. Recapitulando: no início era o limão. Na infância, na adolescência, na velhice. No quintal, ontem. Na varanda, virada a sul, hoje.
Liso, ameno
como um rosto
o verde do limão.
Fruto de inverno
por onde passa
o verão.
(1966)
sábado, 8 de maio de 2010
Biblioteca Infanto-juvenil XIV: Colecção Fantoche

A Colecção Fantoche (120 x 90 mm) foi editada pela Empresa Editorial Édipo, Lda., com sede na Travessa do Noronha, 28, Lisboa.
No acervo de APS conserva-se, apenas, o volume nove, dos idos de 1951, e que se vendia a 3$50. Como diz na contracapa, o menino leitor ainda se habilitava a um sorteio de uma bicicleta, embora não conste que o nº de senha tenha dado a sorte de receber um velocípede.
O livrinho, de Suzanne Cernaz, e de que se reproduz também a capa, contém três historietas. Para além de "Os Ratinhos Endiabrados", aconselha-se a leitura de "Os dois Pardais" e, por fim, de "A Burra e o seu Burrinho".
Para recordar o mês de Março, segue uma pequena conversa de pardalecos:
"Andam inquietos os nossos dois pardais; vêm, falam sem cessar, volteiam-se em mil passeios durante o dia todo, e não reentram uma única vez sem trazerem no bico alguns fios de lã ou alguma peninha. (...)"
Boas leituras, especialmente para MR
Post de HMJ
Etiquetas:
Biblioteca Infanto-juvenil,
Colecção Fantoche
Para um sábado bem disposto, embora com chuva
Esta cena de "Amarcord", de Federico Fellini, foi uma das que nunca mais esqueci: o pobre tolo a gritar "Voglio una donna!", em cima da árvore e sobre o descampado.
Memória 23 : Dia da Vitória
sexta-feira, 7 de maio de 2010
O afundamento do Lusitânia
O transatlântico "Lusitânia", da Cunard Line, foi afundado, a 7 de Maio de 1915, por um torpedo lançado de um submarino alemão, ao largo da Escócia. Os passageiros civis (cerca de 1.100) foram, na prática, usados para dissimular o transporte de armas que o navio trazia (balas Remington, explosivos, etc.) para a Grã-Bretanha. No naufrágio morreram cerca de 600 passageiros. O facto apressou a entrada dos Estados Unidos na I Grande Guerra, ao lado da Inglaterra.
O pequeno vídeo que acompanha este "post", da autoria de Winsor Mccay, feito em 1918, é um dos primeiros, se não o primeiro documentário/reconstituição, em desenho animado, de um acontecimento real.
Foi-me dado a conhecer pelo Miguel, a quem agradeço.
As pupilas

O empregado de mesa só apanhava fragmentos dispersos, farrapos do tecido das frases, pequenos sons que se cruzavam no grande espaço, quase vazio. Porque o restaurante era amplo, havia futebol e, para o jantar, apenas quatro mesas estavam ocupadas. O casal idoso, habitual (que morava perto), outro par de idades desirmanadas que permitiam supor alguma clandestinidade; e, depois, um pai e uma pequena filha (11/13 anos?), meia-cega, com a bengala extensível encostada à mesa, do mesmo lado (esquerdo) em que a pupila branca e bogalhuda da rapariga parecia a órbita de uma garoupa ainda fresca. Ao lado, com intervalo de uma mesa, um pequeno grupo de três homens abancava ao canto, junto da coluna. Falavam da pintura do painel na parede, e diziam: "...é do Dourdil, de certeza!" O empregado olhou para a parede e focou a vista, na semi-obscuridade, no vago contorno acinzentado de duas mulheres sentadas, expectantes. Nunca achara grande graça ao mural. Da mesa do casal idoso, o sr. Leal quase lhe gritou: "- Não se esqueça da minha água de Luso, senhor Augusto!"
Mas Augusto estava agora um pouco distraído, ou concentrado e admirando a nobre compostura da menina meia-cega cuja pupila esquerda trepidava um pouco, gelatinosa, como a clara de um ovo estrelado, mal passado. (Como lhe assentava bem o saia e casaco castanho claro e o cabelo penteado e disciplinado sobre a testa...e lá foi buscar a água para o sr. Leal.)
Levou depois a vitela assada para o casal de idades muito diferentes e aproveitou para reencher o copo do homem, com o tinto "Casa de Santar" que estava sobre a mesa. Notou, entretanto, uma tensão dramática no ar. A mulher ainda com um resto de juventude, apesar do cabelo crespo e desalinhado, ele de cabelos já embranquecidos e rareando. Foi talvez o ríctus marcado no rosto do homem e o silêncio pesado da mulher sobre a conversa subitamente interrompida. Regressou à copa onde estavam a acabar de empratar os bifes com ovo e batatas fritas nas travessas rectangulares, destinadas à mesa dos três homens. Só quando os serviu é que reparou nos seus narizes, tão diferentes: um, arrebitado, outro aquilino, e o do homem mais novo, mais curvo e comprido. Era o dono deste nariz que dizia: "...é «Burberrys», o casaco?, onde o compraste?" Augusto não chegou a ouvir a resposta. Houve um ruído próximo. A bengala extensiva da menina meia-cega tinha caído ao chão. O empregado acorreu a levantá-la e reparou nos suaves sapatos castanhos, pequenos, que a menina tinha calçados. Pareciam tão macios, pareciam mesmo de veludo - talvez camurça. A rapariga agradeceu, numa voz meiga, suave, e Augusto, subitamente, ficou aparvalhado, tímido, tão bloqueado que nem sequer respondeu: " De nada..."
Depois foi a longa espera até à meia-noite. Os últimos a sair foram os três homens, muito bem dispostos, que lhe deixaram uma boa gorjeta. Nessa espera morosa, Augusto teve tempo para se lembrar de tudo aquilo que lhe marcara a vida no passado mais recente. As últimas viagens nos paquetes de cruzeiro a servir americanos e ingleses reformados, a filha que lhe morrera havia cinco anos num estúpido acidente, a morte do pai, no ano anterior. Fez-se à rua.
E, após o comboio sonolento, quando abriu a porta de casa, na Linha de Sintra, o foco de luz incidiu sobre aquela reprodução do quadro que tanto gostava. Tinha-o visto na sala de jantar de um paquete onde andara quase cinco verões. Em França, conseguira comprar uma cópia que emoldurara: era um olho quase vazio, mas povoado de núvens e, ao fundo, o céu azul. (Tinha um nome: Magritte. Devia ser de alguma pintora francesa.) Augusto deitou-se e adormeceu. Toda a noite uma pupila branca e gelatinosa alternou com um olhar azul cheio de núvens claras, num sono de pesadelos sucessivos. Mas, curiosamente, na manhã seguinte, Augusto acordou bem disposto e repousado.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Principes de Gales sexagenários

Passam hoje exactamente 100 anos sobre a morte de Eduardo VII que emprestou o seu nome a um dos mais equilibrados e bonitos parques de Lisboa. A sua subida ao trono inglês deu-se quando tinha quase 60 anos, mercê do longuíssimo reinado de sua mãe, a Rainha Victória que morreu em Janeiro de 1901. Eduardo nascera a 9 de Novembro de 1841. Foi até há bem pouco tempo o titular recordista como Príncipe de Gales. Agora, para o Guiness,o novo recordista é o Príncipe Carlos, filho de Isabel II, que no próximo Novembro fará 62 anos. Com a longevidade das raínhas inglesas é bem possível que Carlos não chegue nunca a ser rei...
Etiquetas:
Eduardo VII,
Isabel II,
Principe Carlos,
Raínha Victória
Mais greguerías para afastar os coiotes

Ainda de Ramón Gómez de la Serna, mais 7 greguerías:
I. A girafa é uma grua que come erva.
II. O melhor das estátuas jacentes é que não têm que lhes fazer a cama todos os dias.
III. Os números romanos vâo sempre a cavalo.
IV. O cemitério é uma farmácia fracassada.
V. A velhice é como quando o comboio vai partir e já não há tempo para comprar uma revista.
VI. O q é o p que regressa do passeio.
VII. Era tão moralista que perseguia as conjunções copulativas.
Obsv.: o retrato de R. G. de la Serna, do post anterior de greguerías, é de Diego Rivera (1915).
P.S.: este post é especialmente dedicado a MR, c. a., e ao Luís.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Moody's : o uivo do coyote

A agência norte-americana de rating Moody's, que em português literal e rústico se poderia traduzir por "Dos mal-humorados", foi fundada, em 1909, pelo Sr. John Moody (Sr. João Mal-humorado). Dava boas notas aos Lehman Brothers (Irmãos Lémures), semanas antes da falência. "Dos mal-humorados" consideravam, também, a Islândia um "país modelo" um mês antes da bancarrota. Agora ameaçam Portugal de lhe baixar a nota, contribuindo na sua infalibilidade "papal"- testada tão clamorosamente no passado recente-, para aumentar os nossos juros internacionais. Com uivos de coiotes destes o que é que se pode fazer, senão desmascarar a sua incompetência anterior? Ou, então, corrê-los à pedrada...
P. S.: Mais uma vez para Mountain View (Califórnia), com ternura.
Greguerías

Greguería, palavra castelhana, é uma espécie de jogo de palavras, ou metáfora em prosa, dito de espírito, normalmente, com comentário humorístico sobre a realidade. Por vezes, parece um aforismo, outras quase lembra um hai-kai em prosa. A sua criação, ou nome de baptismo, é atribuido a Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), na segunda década do séc. XX. Este truculento escritor é autor de cerca de 10.000 greguerías, além de obra vasta em vários domínios literários. Damos, em seguida, alguns exemplos de greguerías da autoria de Gómez de la Serna:
1. "A cidra queria ser «champagne» mas não o pode ser porque nunca foi ao estrangeiro."
2. "As pirâmides são as bossas do deserto."
3. "As passas são uvas octogenárias."
4. "O «Pensador» de Rodin é um jogador de xadrez a quem retiraram a mesa."
5. "O caracol devia tocar o trombone que leva às costas."
6. "A água não tem memória, por isso é tão límpida."
7. "A couve-flor é um cérebro vegetal que nós comemos."
8. "A girafa é um cavalo alargado pela curiosidade."
9. "A verde lagosta põe-se vermelha de cólera quando a fervem."
10. "Dante ia todos os sábados à barbearia para que lhe aparassem a coroa de louros."
Etiquetas:
Diego Rivera,
Greguerías,
Ramón Gómez de la Serna
Uma minhota aculturada da Amadora
Com lembranças ao Luís Barata, do Prosimetron, que me lembrou os ditos...e também ao Miguel que mos deu a conhecer.
Etiquetas:
Amadora,
Ana Bacalhau,
Fado,
Fado Toninho,
Música,
Os Deolinda,
Prosimetron
terça-feira, 4 de maio de 2010
Um Baedecker moderno

Livros há que, não intencionalmente, vou lendo de forma vagarosa. Creio que para os saborear melhor ou para que não acabem muito depressa. Isto acontece, presentemente, com duas obras. Uma delas tem como autor Claudio Magris (1939) e por título "Danúbio". A tradução, de grande qualidade como sempre, foi feita por Miguel Serras Pereira. Magris faz uma espécie de descrição de percurso cultural, seguindo o rio Danúbio que passa pela Alemanha, Áustria, Hungria, Roménia, antigas Checoslováquia e Jugoslávia, e Bulgária. Grande parte das referências culturais de que Claudio Magris fala, são para mim desconhecidas. Mas os textos estão tão bem escritos e são tão sugestivos que eu tenho vindo a ler "Danúbio" como se fora um Baedecker do século passado por onde eu me preparasse para visitar um país ou região de uma Europa desconhecida. Passo a transcrever, em seguida, um pequeno excerto da obra (pg. 138):
Em 1908 Francisco Fernando, arquiduque da Áustria-Este e herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, definira a coroa dos Habsburgos como uma coroa de espinhos. Esta frase sobressai numa sala do museu que recorda o arquiduque no Castelo de Artstetten, a cerca de oitenta quilómetros de Viena, não longe do Danúbio, onde se encontra sepultado juntamente com Sofia, a consorte muito amada. Os tiros de pistola de Serajevo impediram Francisco Fernando de usar na cabeça a coroa, mas ainda que tivesse sido imperador e tivesse reinado longamente como Francisco José, não teria sido enterrado na Cripta dos Capuchinhos, como os seus avós: queria repousar ao lado da sua esposa, e esta última, Sofia Chotek von Chotkowa und Wognin, era apenas condessa, pertencente embora a uma das mais antigas famílias da nobreza checa, e como tal não tinha o direito de ser recebida na Cripta imperial dos Habsburgos, do mesmo modo que a sua linhagem demasiado modesta a impedia , depois do casamento com o herdeiro do trono, de residir em Hofburg e de ter acesso às carruagens ou aos palanques imperiais..."
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Memória 22 : D. João II

D. João II nasceu a 3 de Maio de 1455 e veio a falecer " sem pai, nem mãe, sem filho, nem filha, sem irmão, nem irmã, e ainda com muito poucos, fora de Portugal, no Reino do Algarve em Alvor muito pequeno lugar", em 1495, como escreveu Garcia de Resende na sua Crónica.
Rui de Pina compõe-lhe assim o retrato: "Foi El-Rei D. João II homem de corpo, mais grande, que pequeno, mui bem feito, e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido, que redondo, e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos, e corredios; e porém em idade de trinta e sete anos, na cabeça, e na barba era já mui caão, de que mostrava receber grande contentamento, pela muita autoridade que a sua Dignidade Real suas caãs acrescentavam: e os olhos de perfeita vista, e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e magoas de sangue, com que nas cousas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam o aspeito mui temeroso. E porém nas cousas d'honra, prazer, e gasalhado, mui alegre, e de mui Real, e excelente graça: o nariz teve um pouco comprido, e derribado algum tanto sem fealdade. Era todo mui alvo, salvo no rosto que era corado em boa maneira. E até à idade de trinta anos foi muito enxuto de carnes, e depois foi nelas mais revolto. Foi Príncipe de maravilhoso engenho, e subida agudeza, e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha, muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber..."
Etiquetas:
D. João II,
Garcia de Resende,
Memória,
Rui de Pina
domingo, 2 de maio de 2010
Citações XXV : Manuel Ribeiro
"Lembro-me de minha Mãe quando o amor me chama, não quando o Comércio ma quer lembrar."
Manuel Ribeiro (1944-1989)
Manuel Ribeiro (1944-1989)
Subscrever:
Mensagens (Atom)