terça-feira, 14 de junho de 2016

O TLS, as elites, o brexit e os hooligans


Eu até compreendo que os ingleses sejam desconfiados em relação ao Continente europeu. Os motivos da História não faltam: os romanos, os normandos, Napoleão, Hitler...
Mas não estava à espera que o circunspecto TLS se viesse a intrometer na refrega, pugnando pela manutenção da Grã-Bretanha no seio desta confusa e controversa comunidade europeia.
Provavelmente, os intelectuais e as elites estão mais preocupados do que os hooligans em relação ao próximo referendo e ao Brexit. O que dá para desconfiar imenso.


O nobre desporto


Desta vez, foi em Marselha. Mas há que lembrar Heysel (Bélgica), em 1985, Albufeira, em 2004...
Brexit? Porque não?...

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Clara Schumann (1819-1896)

11 anos depois da morte de Eugénio de Andrade



Citações CCLXXXIX


Num exemplo famoso, a centopeia chegaria a um impasse suicida se pensasse no próximo passo a dar.

George Steiner, in Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento (pg. 41).

domingo, 12 de junho de 2016

Resgatados do olvido


Quase todos os livros têm um prazo de validade, raros são os de eterna leitura. E, destes, uma grande parte deles são apenas folheados por académicos abnegados ou leitores exóticos, em busca de singularidades.
Noutra sintonia, hoje, eu estava a pensar não deixar nada de novo no Arpose, depois do gentil poste de HMJ sobre as nossas pré-anunciadas abóboras, na varanda a Leste. As visitas ao Blogue têm sido poucas, os comentários, ainda menos; porque hei-de eu desaproveitar estes luminosos e amenos dias de Junho, para escrevinhar umas coisas que só os amigos fiéis ainda vão lendo?
Mas há coisas que têm o seu tempo para serem ditas ou escritas...
A tarde saldou-se por duas recordações muito antigas, que me vieram da memória, por associação.
A primeira, e mais rica, por sentimental, foi uma cadeira de lona preta, na praia da Póvoa de Varzim. Primeva e familiar, no seu peso inteiro de madeira maciça, ferragens de metal puro, lona grossa, inteiriça também.
Quanto à segunda. Na sexta-feira passada estivemos no Montijo e eu, num feira de usados que mais parecia de ciganos, comprei por 2 euros o livro que aparece em imagem. É um livro ligeiro, para ler na varanda ou na praia. Mas lembrei-me, ao lê-lo, dos meus tempos de estudante em que fiz exames e pensei que, hoje, finalmente já estou livre deles, para sempre. Foi uma grata constatação.


Apontamento 79: Abóboras [não] no Telhado, mas na varanda a leste



Embora tenha escolhido, ontem à noite, um livro de Aquilino Ribeiro para reler, não quero falar das Abóboras no Telhado. As nossas, como mostra a fotografia, estão a espalhar-se num recanto da varanda a leste.

Sem ter experiência anterior, parece que já há vários rebentos de flores. Se assim for, não sei como possa segurar, depois, as ditas abóboras, porque vieram de uma “mãezinha” bem grande. Aliás, o caso foi assim.

Antes do Natal, e para fazer os meus bolinhos de Jerimú, recebi uma enorme abóbora-menina. Abri-a e aproveitei quase tudo. No meio, descobri umas pevides com a casca aberta e rebentos já “verdinhos”. Ora, resolvi pôr pevides num vaso vazio, mas com terra, na varanda.

Surpresa das surpresas. Há umas três semanas, a nossa abóbora não pára de crescer e tomar conta de um espaço da varanda. Hoje foi o dia de colocar novos tutores para ver se ela se disciplina na sua ânsia de procurar novos caminhos.

E Bom Domingo !

Post de HMJ

sábado, 11 de junho de 2016

Comic Relief (126)


Julgo que uma das mais valias do sucesso do humor de Buster Keaton (1895-1966) residia na inexpressividade dos traços do seu rosto. Mesmo em momentos fílmicos de grande tensão e perigo, o actor mantinha uma impassibilidade quase total.
O vídeo, acima, documenta e explica alguns dos truques e técnicas das filmagens, ajudando a perceber melhor o rigor que era posto ao serviço dos resultados bem humorados ou cómicos que iam sendo alcançados. Não por acaso...
Ainda hoje se podem encontrar influências dos seus trabalhos, em recentes realizadores de cinema, como o vídeo exemplifica.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Uma fotografia, de vez em quando (83)


Especializado em madeiras e diplomado nessa área, Stéphane Lavoué (1976) foi surprendido, numa deslocação profissional ao Brasil, pela obra de Sebastião Salgado, que foi marcante na sua vida. O mundo do trabalho, nos seus aspectos mais árduos e de piores condições, tem sido fixado pelo fotógrafo francês, de forma muito impressiva e constitui uma das suas temáticas mais constantes.
Uma estadia prolongada na Finisterra, recente, permitiu-lhe retratar os trabalhadores da indústria de  transformação do pescado, nas suas múltiplas actividades. Por entre o que poderia ser uma iconografia lírico-cristã (a trabalhadora de rosto angelical) até às figurações fantasmáticas de uma fantasiosa ficção científica, aqui ficam 3 retratos de trabalhadores, que ilustram bem a obra de Lavoué.
Todas as fotos pertencem a uma reportagem que o penúltimo L'Obs publicou sobre o fotógrafo.


Schumann / Richter


Dia de Camões e das Comunidades


Já aqui no Arpose falei (8/5/2011) do bom humor do nosso grande Poeta. E como hoje é dia de celebrar Camões, aqui deixo duas estâncias do chamado episódio de Veloso, marinheiro que se aventurou a ir a terra, durante viagem de ida para India, mas ia sendo mal sucedido e morto, se não fugisse correndo, para longe de alguns indígenas africanos, ameaçadores e sanguinolentos. O episódio espelha bem o sentido de humor do autor de Os Lusíadas. Como se pode ler:

...
E sendo já Veloso em salvamento
Logo nos recolhemos para a armada
Vendo a malícia feia e rude intento
Da gente bestial, bruta e malvada:
De quem nenhum melhor conhecimento
Podemos ter da Índia desejada,
Que estarmos ainda muito longe dela
E assim tornei a dar ao vento a vela.

Disse então a Veloso um companheiro
(Começando-se todos a sorrir)
Ou lá Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer que de subir:
Se é, responde o ousado aventureiro
Mas quando eu para cá vi tantos vir,
Daqueles cães, depressa um pouco vim
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.
...

Luís de Camões, Os Lusíadas (Canto V).

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Ascensão e queda


Dei-me conta, há dias, que das três empresas privadas onde trabalhei, durante a minha vida activa profissional, nenhuma delas sobrevivera, independente, tendo sido engolidas por outras, em qualquer dos casos, maiores.
Na última delas, onde laborei 28 anos, tive até oportunidade de presenciar a sua ascensão (1984) e o princípio do seu declínio que começou em 1995, até que foi comprada e absorvida por outra, em 2015, já eu lá não estava, felizmente.
E encontrei razões e similitudes nos três processos. Bem como causas maiores: inveja e gula. Que, como se sabe, na mitologia cristã, são pecados capitais. Ou do capitalismo?

A par e passo 168


Pensemos numa pequena criança: esta criança traz em si um conjunto de possibilidades. Ao fim de alguns meses de vida, ela aprendeu, quase simultaneamente, a falar e a andar. Adquiriu, assim, dois tipos de competências. Isto é, possui agora duas espécies de possibilidades, cujas circunstâncias acidentais de cada instante fornecerão resposta às suas necessidades e imaginações diversas.
Tendo aprendido a utilizar as pernas, essa criança virá a descobrir que não só pode andar, mas também correr; e não somente andar e correr, mas ainda dançar. E isto é um grande acontecimento. Ela inventou e descobriu, ao mesmo tempo, uma espécie de utilidade de segunda ordem, para os seus membros inferiores, uma generalização da sua fórmula de movimento. Com efeito, enquanto a marcha é, em suma, uma actividade monótona e pouco especializada, esta nova forma de acção, a Dança, permite uma infinidade de criações, de variações e até de figuração.

Paul Valéry, in Variéte V (pgs. 148/9).

Nota: a pintura de P. Valéry, que encima o poste, é um auto-retrato.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Tuxedomoon : "Ship of Fools"


Mercearias Finas 113


Li há dias que o ano de 2011 terá sido generoso e bom para quase todas as regiões demarcadas portuguesas, no tocante aos vinhos produzidos. Ainda me lembro da década prodigiosa que foram os anos 60, do século XX. Porque os 70 foram de uma miséria franciscana... Mas, dantes, era fácil sabê-lo quer pelos prémios da Junta Nacional do Vinho, quer pelas Vintage declaradas, no Douro. Hoje, quase todos se fecham em copas e nós, os amadores, andamos às cegas.
Vou tirando, no entanto, as minhas conclusões e atrevo-me a afirmar que, para vinhos brancos, o ano de 2015 foi fracote. Dos três que já provei, achei-os muito inferiores ao habitual. Até o Colheita Especial 2015, branco, da Adega de Pegões, que costuma assegurar alguma qualidade, deixa muito a desejar. Está chocho.
Era um vinho branco que desde, pelo menos 2008, custava no sítio do costume, sempre 2,99 euros. Pois está em promoção, e a 2,49 euros, presentemente - um bodo aos pobres, aparentemente.
Esse grande patriota, que dá pelo apelido de Soares dos Santos e que já foi patrão do P. D. e do António Barreto, deve ter-se apercebido da pobreza da colheita e mandou rebaixá-la, talvez por interposta pessoa, nas gôndolas das suas superfícies. Para os pategos galegos escoarem esta colheita de 2015, e ele poder mandar os seus habituais proveitos para a Holanda... Deus o abençoe, na sua infinita misericórdia!

terça-feira, 7 de junho de 2016

Livros em leilão


Nos próximos dias 20, 21 e 22 de Junho, terá lugar mais um leilão de livros, no Palácio da Independência (às Portas de Sto. Antão, Lisboa), promovido por José Vicente (Livraria Olisipo).
O acervo pertence à biblioteca de Ramiro Teixeira (1938), crítico de literatura, e é também acrescido de outras proveniências, segundo indicação do catálogo.
Por diversas razões, gostaria de destacar alguns lotes e respectivas estimativas de venda. Como se segue:
399 - Definições// E Estatutos...Da Ordem de Christo...Lisboa, 1628..............175/ 300 euros.
579 - Guimarães, Delfim...Arquivo Literário (1922/29), 16 volumes..................... 75/ 150 euros.
598 - Helder, Herberto - O Amor em Visita (Lisboa, 1958), 1ª edição................250/ 500 euros.
1414 - Cortez, Jeronymo - O Non Plus Ultra... Lisboa, 1757.................................75/ 150 euros.

Ad usum delphini (4)


Paulo Portas, de acordo com as últimas notícias, vai ser conselheiro (comercial?) da Mota-Engil. Ou seja, vai fazer o seu branqueamento para a vida civil. Nada de mais natural: segue, no fundo, as pisadas de Jorge Coelho, depois da tragédia de Entre-os-Rios. E na mesma empresa de construção civil. Que não tem nada a ver com o Grupo Lena. Apenas se dedicam, ambas, à mesma temática industrial. Embora a primeira esteja cotada em Bolsa.
Eis um tema interessante para a CMTV desenvolver, com a sua habitual isenção, na justiceira linha do seu projecto editorial.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Bob Dylan : (in) "Melancholy Mood"


Na varanda a Leste


Há que procurar outra música, porque as que trago comigo parecem já cansadas de si mesmas, na sua perpétua multiplicação. E a luz ainda há-de crescer para iluminar os dias de Junho, por mais de duas semanas. Depois, será a vez da noite, que irá, pouco a pouco, ganhando mais espaço. Num ciclo natural limitado que, ciclicamente, se repete, sempre.
Poucas aves, defronte no meu ângulo de visão, mas sempre o costumeiro casal de rolas tímidas, rotineiras, que não voam nunca mais alto que os 30/40 metros de altura, num circuito de horizonte cerrado. Morreu a melhor roseira e o ano não tem sido bom para os limoeiros. A safra vai ser diminuta. Valha-nos a pequena oliveira, floridíssima.
Dizia, há pouco, Manguel, quando o li na página 314 (Uma História da Curiosidade, 2015): "...Além de nos ser impossível apreender a nossa própria morte, à medida que envelhecemos tornamo-nos mais conscientes da progressiva ausência dos outros. É-nos difícil dizer adeus. Cada despedida assombra-nos com a secreta suspeita de que poderá ser a última; tentamos continuar a acenar à porta durante o máximo de tempo possível. ..."
Um poema pode muito bem ser uma espécie de adivinha. Porque não responde, nem se clarifica por si, antes pergunta quase sempre, e restitui às palavras - quando de verdadeira poesia se trata - uma força antiga, inicial que, muitas vezes, já não conseguimos entender completamente.

Vampiros de segunda geração


Parece-me que agora é de vez. Pré-anunciada, frequentemente, a ressurreição da memorável Colecção Vampiro, o jornal Público, de Domingo, em extenso e informado artigo de Luis Miguel Queirós, atesta a sua concretização pela Porto Editora. E tenho que me congratular porque, nos primeiros números, haverá algumas reedições de S. S. van Dine (1888-1939), o meu escritor de policiais preferido, e de quem, por aqui, já falei.
Não sei é se o preço de 7,70 euros será justo. Para quem ainda compra antigos Vampiros, como eu (faltam-me 89 números, para completar a colecção original, composta por 703), sabe que, usados e em razoáveis condições, se podem adquirir entre 1 e 3 euros. Excepto os autores de culto, mais procurados, que podem ir dos 6 aos 12 euros (Agatha Christie, Simenon, E. S. Gardner). Preços intermédios (3 a 5 euros) custam normalmente os Hammet, Chandler, Ellery Queen, Sayers, van Dine...
Seja como for, foi uma boa notícia, esta da ressurreição da celebrada Colecção Vampiro.


domingo, 5 de junho de 2016

Ainda as modas, ou o que se fazia e já não se faz...



Bancos de imagens e motores de busca


Já se sabe, o Pinterest é o pimp de serviço...
Mas, mal de nós, se temos de procurar iconografia através dos motores de busca da internet!
Em matéria de imagens, o Bing é de uma indigência atroz. O Yahoo! (como o próprio ponto de admiração indicia) é foleiro e pobrete. Escapa o Google, embora com excesso de palha para alimentar convenientemente a carneirada, algoritmos a mais e apoucado de clarividência.
Valha-nos a biblioteca  de cada um!, que melhor corresponde à exigência de cada qual...

sábado, 4 de junho de 2016

Curiosidades 56

Não sei se a indumentária humana, na Antiguidade, estava tão sujeita a alterações, como hoje. Mas estou convencido de que, presentemente, a moda feminina é mais volúvel. Quero eu dizer: muda mais depressa e com mais frequência do que a indumentária masculina.



Apesar de os chamados Painéis do Infante, de Nuno Gonçalves, serem um manancial precioso para a identificação dos usos, modas e costumes do traje português antigo, escasseia a iconografia lusitana sobre o vestuário civil anterior ao século XVI, tirando o aspecto militar, mais representado em imagens. Sendo que, a nível legislativo, já o uso de roupa dos cortesãos tinha sido objecto de atenção especial de D. João II, por motivos de ordem económica, principalmente.


Considerado o primeiro livro sobre a Moda, o Trachtenbuch é resultado do interesse obsessivo que Matthäus Schwarz (1497-1574?), alemão vaidoso, dedicava à sua roupa e à forma como se vestia. Fez-se assim representar (e pintar por Narziss Renner) ao longo da sua vida, com múltiplas indumentárias, através de imagens onde eram anotadas, minuciosamente, as datas e a idade deste alto funcionário dos Fugger. Acima pode ver-se a representação dos pais de Mattäus, estando a mãe grávida dele próprio. Abaixo, deixo a primeira representação de Schwarz, aos 19 anos, e a última que aparece no Trachtenbuch.
A pintura, que acompanha o início deste poste, é o retrato de Matthäus Schwarz, aos 63 anos, executado por Christoph Amberger (1505-1562). O quadro integra o acervo do Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Franz Liszt / Jorge Bolet


Recomendado(s) : sessenta e dois


Com amável periodicidade, a ípsilon, do jornal Público, reserva-me uns minutos de prazenteira prosa. Mas hoje, foi um fartar vilanagem... Foi quase uma hora de boa leitura e de pontos nos is. Uma análise de Diogo Ramada Curto, a modos que queirozianos, sobre uma biografia, não autorizada, de António Barreto e ainda umas variações divertidas, de António Guerreiro, sobre as idiossincrasias de Francisco de Assis. Por isso, as recomendo, em prol da saúde pública...



Ideias fixas 5


Será talvez a pedra no pântano...
Às vezes, vale a pena comprar uma polémica. Outras, acontece entrarmos nela sem querer. Há dias, por um mero equívoco, indirectamente e por gmail, comprei uma - inútil, como quase todas, no resultado final. Mas pode ser salutar, no entretanto: vem sobressaltar-nos a vida, faz-nos respirar melhor, agita as águas mansas da pasmaceira, da existência cumpridora e ordenada. E incomoda o outro que, religiosa ou politicamente, só diz coisas correctas e bonitas, esperando obter o aplauso geral ou o silêncio cúmplice. Como diz o meu amigo António: desmanchar a regra; porque uma bem-pensância é sempre um estorvo na vida que se deve combater, nicar, para o pôr a pensar noutros comprimentos de onda, que não sejam os dos manequins da rua dos Fanqueiros...

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Natureza morta, com livro


A família Dashwood há muito que se tinha estabelecido em Sussex. Os seus domínios eram vastos e a sua moradia em Norland Park, no centro da propriedade, onde por muitas gerações tinham vivido de uma maneira respeitável, de forma a conseguirem grangear um óptima opinião por parte dos seus vizinhos. O mais recente dono da propriedade era um homem solteiro, já com idade avançada, e que por muitos anos tinha contado com a permanente companhia e governo da casa de uma irmã. Mas a morte dela tinha acontecido dez anos atrás, antes da sua, provocando grandes alterações na rotina da casa;...

Jane Austen (1775-1817), início de Sense and Sensibility (1811).

Revivalismo Ligeiro CCXXX




Nota: há um remake de Freddie Mercury, digno de se ouvir. Aqui fica a dica.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Usos, abusos e desusos


Dia Internacional da Criança? Pois seja...
Quando eu era infante, aqui há muitos e muitos anos atrás, uma das coisas que eu mais gostava era de ir, com a Maria, à Praça, logo pela manhã. E, no Mercado, onde eu mais gostava de entrar era no talho do Zé Bento, marchante corpulento, de bigode saraivado, mas que tinha, além dum vozeirão, um sorriso menino acolhedor. Parecia-me entrar numa segunda casa... E talvez seja por isso que eu gosto, ainda hoje, das pinturas de Soutine. Além disso, era rara a vez em que eu não encontrava, lá dentro, alguma coisa preciosa, no chão. De uma vez, foi uma moeda de 2$50, uma fortuna para a época e para a minha altura, que tinha 1$00 de semanada; noutra ocasião, foi uma medalhinha de S. António, em ouro, que ainda conservo.
Ora hoje, Dia Internacional da Criança, ao folhear a revista da minha Freguesia,  nas páginas dedicadas às Marchas Populares de Lisboa, dou de caras com o senhor "Vítor Silva (, que) foi marchante durante 20" (anos). Claro que me lembrei logo do Zé Bento, marchante vimaranense. De boa memória, na minha infância. Mas depressa se desfez o encanto e houve um curto-circuito de memória. Porque este Vítor Silva nunca foi cortador, como se chama em Lisboa aos marchantes. Usa, impropriamente, um atributo nobre minhoto. Este alfacinha é apenas um vulgar acompanhante das Marchas Populares lisboetas... Não é um Zé Bento, notável artífice na arte da desmancha ou desossa de carnes.
E assim se desfez mais um sonho vocabular de infância, na criança que eu, outrora, fui.

Adagiário CCLIII : Junho (7)


1. Junho floreiro, paraíso verdadeiro.
2. Junho abafadiço, sai a abelha do cortiço.
3. Pelo S. João (24), lavra e terás palha e pão.
4. Guerra de S. João, paz de todo o ano.