quinta-feira, 7 de abril de 2011

Em louvor da Amizade, e de um bom "diseur"

Osmose (15)


Há sempre alguns nomes, fixos, na memória, depois de uma longa travessia. Mas são menos os que ainda fazem estremecer o coração. Pode até ser, e apenas, uma desvanecida máscara retalhada pelos sulcos de uma vida. Ou um olhar já sem brilho, muito líquido, mas intenso num último fulgor, quase hipnótico, por momentos. Que desperta do sono e do silêncio, para dizer: "Tenho tanta paixão pelos que ficam!" E depois mergulhar, por 6 dias em delírio, até desaparecer.

Revivalismo Ligeiro XLIV : Petula Clark





E também porque é o Dia dos Moínhos.

Filatelia XIX : Moínhos


Celebra-se hoje o Dia dos Moínhos como, aliás, foi lembrado nos Blogues amigos: Memórias e Imagens, e no Prosimetron. Não quis, porém, deixar de me associar à ideia e comemoração, por via filatélica. Reproduzindo a série portuguesa, de 1971, sobre os moínhos portugueses e, também, 2 selos da Holanda (1962-1963) sobre o mesmo motivo, que vão em imagem.

O incrível acontece


Vem nos jornais (Zeit Online, por exemplo) que, por não ter havido acordo entre o Presidente Obama e os Republicanos, relativamente ao aumento de endividamento público, é muitíssimo provável que, a partir do próximo sábado, 9/4/2011, vários Museus e Serviços públicos americanos fechem as suas portas por tempo indefinido. Assim vai o Mundo...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cuidem-se!


Portugal junta-se, hoje, à Irlanda e à Grécia, neste suicídio, para já, microcósmico europeu. Por erros próprios, é certo - também. Mas cumprindo uma estratégia obscura, de natureza económico-financeira que visa a destruição do euro, como moeda comum e solidária, e minar a coesão dos paises da Europa. Fatiar para enfraquecer, ressuscitar os egoísmos de sobrevivência, é o objectivo mais imediato. E recuperar aquilo que as ratazanas cinzentas perderam com a crise recente e anterior. Embora alemã, a Sra. Merkel nunca deve ter lido Brecht. Muito menos o napoleãozito de ascendência húngara, com os tacões das botas reforçados, que deve ter ficado todo contente por poder mandar bombardear a Líbia - ele, que nunca tinha entrado numa guerra. E já nem falo no "Camarão"...

Seguir-se-ão a Espanha, a Bélgica, a Dinamarca, a Itália... - a sequência é arbitrária para as agências de ratos (rating agencies), desde que consigam atingir os seus crapulosos objectivos.

Mas, à falta de solidariedade europeia, soma-se o provincianismo sedento de poder e a falta de coesão nacional portugueses. Seria pior o P.E.C. IV do que a entrada do F.M.I., em Portugal? Quem se lembrar dos anos de chumbo de 1983-4, com certeza, sabe a resposta.

Leilão de Primavera


No próximo dia 18 de Abril, segunda-feira, José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz) levará a cabo, na Casa da Imprensa (R. da Horta Seca, 20, Lisboa), mais um leilão de livros que terá início, às 21 hrs.. Os 404 lotes são, maioritariamente, de edições do séc. XX. Um destaque para três lotes de livros infantis, da autoria de Ana de Castro Osório, que não é muito frequente aparecerem à venda. O primeiro (lote 259), "Contos, Fábulas, Facécias e Exemplos...", tem uma base de licitação de 40,00 euros. Boa sorte a quem lá for!

Bergson, a propósito do humor e do riso


Da obra de Henri Bergson (1859-1941), Le Rire:

"Numa sociedade de inteligências puras não se choraria, provavelmente, nunca mais, mas rir-se-ia, talvez, ainda;"

"Não será um raciocínio análogo ao de Giboyer em «Effrontés»? Fala-se de uma noiva de quarenta anos que leva flores de laranjeira nos seus cabelos de núpcias: «Ela teria direito a laranjas» diz Giboyer."

"Théophile Gautier disse do cómico extravagante que é a lógica do absurdo."

Pinacoteca Pessoal 9 : Albrecht Dürer



Sendo, como é, um dos meus pintores favoritos da Renascença, torna-se difícil escolher, da sua vasta obra, a preferida. Optei pelo belíssimo "Auto-retrato com flor de cardo" de 1493 (tinha ele 23 anos, apenas), que tem a inscrição «My sach di gat / Als oben schtat» (As coisas acontecem-me / Como foi fixado lá no alto). Albrecht Dürer nasceu a 21 de Maio de 1471, em Nuremberga, e na mesma cidade veio a morrer, a 6 de Abril de 1528. É considerado, pelas suas singulares aguarelas, um dos primeiros pintores paisagistas europeus. A aguarela reproduzida, que se encontra no Louvre, intitula-se "Moínhos nas margens do Pegnitz", e data de 1498.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A relatividade, o humor e a cegueira


Dizem que os cegos não gostam que se lhes toquem, sem avisar primeiro. Mesmo para os ajudar a atravessar uma rua, para os encaminhar, ou para os proteger de algum degrau traiçoeiro. Convém preveni-los, primeiro, com uma palavra mansa, antes de lhes tocarmos o braço. A concentração da emoção apenas em 4 sentidos, deve sobrecarregá-los excessivamente. Mas têm sentido de humor: já vi cegos a rir, suavemente. O humor é uma qualidade que, na minha opinião, reside na inteligência. Curiosamente, não há humor, tanto quanto me lembro, nos Livros Sagrados. Sejam eles do Oriente ou do Ocidente - tirem-se as conclusões apropriadas.

Há uma história interessante, contada por Albert Camus (creio que nos Cahiers), de 2 cegos vindos, no mesmo passeio, mas de sentidos contrários, que chocam um com o outro. Silêncio, por momentos. Apercebem-se que são ambos cegos e que não há mais ninguém na rua. E desatam a rir às gargalhadas...

A má da fita


Ruth Elizabeth Davis (1908-1989), conhecida, no cinema, pelo nome artístico de Bette Davis, nasceu a 5 de Abril. Tem vasta filmografia e conquistou 2 Óscares: em 1935 (Dangerous) e em 1938 (Jezebel). Especializou-se em papéis de figuras pouco simpáticas, vulgo: má da fita. Recordo-a, sobretudo, pelo seu desempenho de vagabunda e alcoólica, em "Milagre por um dia" (Pocketful of Miracles), realizado por Frank Capra, em 1961. Interpreta o papel de mãe de Ann Margaret, acompanhada por Glenn Ford e Peter Falk, então, no início de carreira. Bette Davis morreu em França, em Outubro de 1989.

Leituras Antigas XXX : Colecção Condor



Dentro da vasta gama de revistas de banda desenhada, editadas pela Agência Portuguesa de Revistas, com histórias completas, a "Colecção Condor" foi das mais populares. De tal forma, que chegou a ter uma irmã mais nova : a "Condor Popular" que era mais pequena, em formato, e mais barata. Custava apenas Esc. 1$00. Ambas se publicaram em meados dos anos 50 do século passado. Eu era um fervoroso admirador da Condor normal e, sobretudo, dos fascículos consagrados a Mandrake e ao seu africano ajudante, Lotário. A "Colecção Condor" tinha publicação semanal e custava Esc. 2$50. Creio que a BD de Mandrake era de autoria de Lee Falk, nos textos, e com desenhos de Phil Davis, no original.

Ondas do mar de Vigo - Martim Codax

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bibliofilia 44 : Tarcísio Trindade


Morreu há dias, pouco depois dos idos de Março, com quase 80 anos, em Lisboa, mas era natural de Alcobaça. Era um homem que cultivava alguma distância, na sua extrema afabilidade educada. Profundo conhecedor dos mistérios e meandros da bibliofilia, Tarcísio Campos Trindade (1931-2011) desencantou das traças da antiguidade, em 1965, o primeiro incunábulo escrito em português (Tratado da Confisson, 1489) que manteve a sua posição primeva até que, em 1996, João Alves Dias nos deu a conhecer o "Sumario das Graças", impresso por volta de 10 de Abril de 1488. Desde os anos 70 que Tarcísio Trindade tinha casa aberta (até tarde, normalmente) na Rua do Alecrim, nº44, em Lisboa. Era um local de encantamento e descoberta para quem gostasse de livros. Lá conheci António Valdemar e Joaquim Braga, por lá passou, muitas vezes, Pina Martins, lá aparecia, e cavaqueava, Artur Anselmo. Os preços dos alfarrábios eram justos, daí que, frequentemente, alguns colegas de profissão lá fossem, para comprar obras que revenderiam, mais caras, depois, nas suas lojas. Era preciso passar todos os dias, porque, normalmente, todos os dias havia novidades expostas para venda. Lá comprei um folheto raro de Mariana de Luna, de 1641, uma primeira edição de Rubén Darío, com dedicatória, que pertencera a Alberto de Oliveira, a "Clepsydra" (1920) de Camilo Pessanha, na sua edição original, e tantas outras obras raras ou preciosas. Havia sempre uma pequena informação ou nota útil de Tarcísio Trindade, quando se fechava a transação, sobre o livro em causa. Passou o ofício ao filho, Bernardo Trindade, que herdou a amabilidade do Pai, e grande parte dos conhecimentos, mantendo a actividade, no mesmo local, com os mesmos princípios.

Vlaminck



Maurice Vlaminck nasceu a 4 de Abril de 1876, em Paris, sendo que o pai era de origem flamenga, e a mãe originária da Lorena. Os pais, ambos músicos e boémios, deram-lhe uma educação muito livre, o que o fez dizer, mais tarde, gabando-se, que nunca tinha ido ao Louvre. Chegou a escrever romance e poesia. Mas a sua pintura é um bom retrato do seu enorme gosto pela vida. Com André Derain (1880-1954) fundou a Escola de Chatou, em que o Fauvisme dominava. Uma das suas influências mais fortes terá sido a pintura de van Gogh, de quem viu uma exposição, em 1901, e que lhe fez dizer, com o excesso que lhe era habitual: "Gosto mais de van Gogh do que do meu pai!". Maurice Vlaminck morreu em 1957.

Mais umas "search words" hilariantes


Há mistérios insolúveis, para mim, que bem gostaria de desvendar. O último é a intensíssima procura e visitas a um poste em que se referia Gomes Freire d'Andrade (27/1/11). Será pelo fino recorte da gravura?, ou, como me dizem de lado, por causa da peça "Felizmente, há luar!" de Sttau Monteiro, que tem , no Ensino, implicações curriculares? Mas vamos então às "search words" extravagantes e seu encaminhamento googlesco:

1. Um(a) visitante escreveu: "goscinny, o pequeno nicolau martins jantes, são paulo 1986"; não sei, francamente, onde foi parar...

2. Um outro lançou: "madeira montaigne restaurant". Pretendia saber, decerto, de um restaurante da Ilha da Madeira, situado em ponto alto, para melhor desfrutar a vista da paisagem e do Atlântico. Mas o Google, prosaico, encaminhou-o para o poste "Montaigne, sobre a tristeza". Que pena!

3. Outro, ainda, escreveu como "search words": "gruta santa margarida arrábida telúrica". O Google levou-o até um poste sobre Miguel Torga. Não há dúvida que "telúrico" é um adjectivo privativo que vai sempre dar a Torga. E o Google está a par destas coisas.

4. Uma visita do Brasil pediu: "japão pessoal 2 reuters". Não sei porquê, o Google encaminhou-o para o poste "Pinacoteca pessoal 2 : Laocoonte" ??? Provavelmente, foi o algarismo 2.

5. Finalmente, como "search words", alguém escreveu: "creio que não o que significa"; e o motor de busca despachou-o para a imagem de um chinês rindo-se às bandeiras despregadas...

Ainda não desesperei, de encontrar nas "search words", alguém a perguntar: " Deus existe?"; e ver o motor de busca levar esse visitante até ao Céu.

Um súbito silêncio


As orquídeas, tão pejadas já, tardam a florir, abrindo as pequenas cápsulas verdes. Dou por elas, secretas, ao passar para a varanda a leste e quando sinto um friozinho ligeiro, vindo de fora. Quase não há pássaros no ar, apenas 4 ou 5 andorinhas, inquietas no seu voo, procurando talvez o lugar ideal para os seus ninhos. Volteiam marcando o declínio da luz, ao fim da tarde.

A inocente criatura, em baixo e no campo improvisado, está sozinha. Chuta, continuadamente, para a baliza desguarnecida e, para se acompanhar, nesta solidão do final do dia outrabandista, sopra, com timidez e brandamente, a vuvuzela vermelha, quando a bola amarela entra nas redes vazias. Por cima, nuvens esparsas, de uma cor inesperada que não me lembro de ver - castanhas. Penso, por momentos, em Fukushima. Porque também há nuvens de um cinzento que parece fumo.

O "aladino", às 20,25, anuncia-me a noite, formal e matemático. Ninguém veio chamar a inocente criatura para ir jantar, mas ele também não parece preocupado. Continua a chutar e a tocar, parcimoniosamente, a vuvuzela vermelha. Em volta há um silêncio absoluto e inquietante, neste princípio de noite primaveril. Como se expectante ou antecedendo um acontecimento decisivo. Não há pessoas na rua, nem corpos visíveis nas janelas e varandas das casas, ao longe. As nuvens cruzam-se entre 2 ventos: de norte para sul e do mar para leste. De repente faz-se-me luz. O Benfica-Porto é o responsável por este enorme e súbito silêncio. A inocente criatura, nos seus pueris 6 ou 7 anos, se calhar, foi expulsa de casa, ainda sem jantar, pelos extremosos pais que quereriam assistir ao "ofício divino" na TV, e em sossego. Abençoado futebol da gente simples!, que instaura o silêncio nas ruas e a expectativa nas almas.

domingo, 3 de abril de 2011

Uma lição da História contra a sobranceria



O conhecimento da História do próprio país e da Europa no seu conjunto é, cada vez mais, um imperativo contra sobrancerias várias. Julgamos que o desdém - particularmente de um determinado tipo de alemães - se alimenta tanto da enorme ignorância do passado como do esforço em apagar da memória momentos de privações extremas. No entanto, certa altivez alemã não encontra eco na generalidade da população como têm demonstrado as últimas eleições em vários estados da Alemanha.

Seria, pois, conveniente recordar dois ensinamentos de "cartilha", transmitidos aos meninos da primária, no pós-guerra, numa linguagem simples, mas convincente.

1º - Com vista a impedir uma ameaça futura, houve quem se opusesse, numa primeira fase a seguir à 2ª Guerra Mundial, à reconstrução do potencial económico alemão destruído. Como todos sabemos, tal intenção não se concretizou, permitindo à Alemanha um caminho de prosperidade, por motivações várias, que não cabiam ao menino da primária perceber inteiramente.

2º - A imagem acima reproduzida encerra a essência do segundo ensinamento. Para além de relatos familiares, de viva voz, sobre experiências extremas no final da guerra, também houve quem se lembrasse, com uma alegria contida, da recepção, a partir de 1948, de uma encomenda especial, o "CARE-Paket" com viandas. Ainda hoje existe esse movimento de solidariedade [www.aktion-deutschland-hilft.de], com uma afirmação certeira: "auxílio primeiro para a Alemanha, depois auxílio na/da Alemanha."

Terminamos os ensinamentos úteis recebidos na escola com uma citação retirada do texto de H.N. (publicado recentemente, no ARPOSE, sobre Camus), cuja leitura nos encaminhou, certamente, para a elaboração do presente "post". Reza, assim, a citação: "a pobreza «que não se escolhe mas que pode guardar-se» ... "

Post de HMJ

José Afonso : ...o pintor morreu...

Três Andamentos


1. Outubro de 86, num café do Porto: um pintor e um poeta. Este pergunta ao Pintor se ele sabe o paradeiro de todos os quadros que fez. O artista responde que há dois que não sabe onde estão. E, num guardanapo de papel, com pequenas e breves hesitações de traço, desenha-os, linearmente. O Poeta diz-lhe: "- Do triangular, sei quem o tem!" O Pintor explica que o título do quadro é "O Massacre de Chicago", em homenagem à liberdade de associação sindical; e, depois, interroga: "- Onde está?" O interlocutor responde, cauteloso, em termos vagos: "- O dono, sei que está em Madrid..." O Pintor, após um ligeiro silêncio, exclama: " - Diga-lhe que pode ficar com ele."

2. Maio ou Junho de 86, um pai e um filho, depois de jantar (o filho dirá, mais tarde, que foi antes do jantar e que nem chegaram a comer juntos), dirigem-se para a Feira do Livro, no Parque Eduardo VII. Vão comprar, aproveitando os descontos, um livro com um auto de Gil Vicente, de que o jovem precisa para a Escola. Junto do Pavilhão Carlos Lopes há um monte de lixo e sucata, restos de fórmica e esferovite espalhados pelo chão - despojos da exposição-celebração do 15º aniversário da CGTP. Mas, no meio, e nas costas de um contraplacado de 1,20 x 1,20, há um nome: Angelo de Sousa. O filho não sabe quem é, mas o pai sabe. E, uma hora mais tarde, o quadro, de táxi, atravessará o Tejo, em direcção à Outra-banda.

3. Algures no séc. XXI, de novo, no Porto. O Pintor e o filho do homem encontram-se e conhecem-se durante uma exposição. O jovem fala ao Pintor (que se parece com o João César Monteiro, mas é menos desbocado), já sexagenário, do quadro "O Massacre de Chicago" e confirma-lhe que o pai o tem, pendurado, na sala do pequeno apartamento de Lisboa. O Pintor pede, então, ao jovem que tire uma fotografia da obra e lha mande. O jovem diz que sim. Mas com a falta de tempo e os trabalhos, nunca chegará a enviar a foto. E, entretanto, como diz a canção do José Afonso - "O Pintor morreu..."

para A. de A. M. e ms, e à memória de Angelo de Sousa.

Comic Relief (27) : com voz de Brando


sábado, 2 de abril de 2011

O Baú dos Brinquedos 13

O interesse demonstrado pelos leitores do nosso último "post" levou a um reavivar de memória sobre outros brinquedos, ainda do baú da menina e de um país distante. A presença física e real dos brinquedos acima reproduzidos pertence a um passado longínquo. Sobrou, felizmente, uma fotografia que espelha a feitura e o acabamento de três brinquedos.

Uma mercearia ao fundo, ao lado um baloiço em forma de ganso e, em acabamento, a pintura do carrinho de bonecas.

Expliquemos, então, a história oculta da fotografia. Um tio, insigne marceneiro, actualmente com 97 anos feitos, já tinha terminado o que pertencia ao seu ofício, i.e., a concepção e execução dos brinquedos em madeira. Os "trolhas" na foto, o irmão, com chapéu (!), e o cunhado procediam, sob o olhar distante da matriarca, ao retoque final das pinturas. Aproximava-se o Natal e era preciso concluir a obra, até altas horas da noite.

A mercearia, com gavetas para os produtos - e até um relógio - destinava-se à menina mais velha; o carrinho de bonecas à do meio. Obviamente, o baloiço de ganso era para a mais pequena.

Fixou-se-me na memória o desgosto quando um dia de manhã encontrei o ganso todo inchado. Tinha ficado no jardim, à chuva, e a "madeira compensada" descolou-se, mostrando as várias camadas de que era feito.


Post de HMJ

Para H.N. como complemento do relato oral.

Max Ernst



Max Ernst nasceu em Brühl, próximo de Colónia, a 2 de Abril de 1891. É um dos nomes mais importantes do Dadaísmo, ao lado de Hans Arp. Muito embora tenha sido também um dos pintores mais significativos do Surrealismo. As suas obras entrelaçam, sempre com um sentido estético singular, elementos de humor, estranheza, horror e de fantástico. Mas transmitem também um pendor sentimental evocativo que apela para as profundidades da alma humana. Tudo isto, aliado a uma grande coerência plástica. Max Ernst morreu em 1976.

para JAD, naturalmente.

Livro Infantil



No dia em que se celebra o Livro Infantil, imagens da colecção Contos de Encantar/Joaninha que foi, indiscutivelmente, a mais emblemática da minha infância. E a reprodução da capa do último livro infantil que comprei, já passava dos 40 anos, porque o seu autor era Eugénio de Andrade - História da Égua Branca.

Notas de Leitura I: Camus - "O Primeiro Homem"

O silêncio sobre a guerra da Argélia atravessa o texto em surdina: um eco de explosões e de brutalidade corta o bafo do sol mediterrânico e o peso da noite africana fechando-se rápida; na escrita de O Primeiro Homem desenha-se uma linha de melancolia e de ressonâncias bíblicas de que só a verdade é capaz.

O retrato difuso de um pai desconhecido, reinventado na figura do professor primário, por um protagonista simultaneamente criança, adolescente e adulto; a mãe que a pretexto de não ouvir traduzia o amor num olhar de silêncio com cristais de alheamento; o tio, surdo, que transformava o afecto em gestos; a avó que fazia do instinto de sobrevivência uma forma de sabedoria: recordações quase secas de passado, tenacidade e pobreza.

Por isso, mais do que a imagem improvável de Henry Cormery, morto em 1914 na batalha do Marne, Jacques Cormery quis, afinal, construir a sua própria memória, expurgando-a dos confortos da ilusão.

Os fios da realidade, que o tecido frágil da ficção não oculta, revelam-nos também, por força da incompletude e da intrínseca imperfeição desta derradeira narrativa de Camus, não apenas a oficina do escritor, a simplicidade dos seus materiais, a sua recorrência, mas, sobretudo, o modo como o fluxo da escrita confere a esses materiais simples a profundidade e o excesso próprios da vida, que se abre e se desenrola entre a chaga flor.

Quase não há análise psicológica em O Primeiro Homem, apenas registos de comportamento, e a diferença de Camus, o seu desajustamento relativamente ao ar do tempo, a frescura desta narrativa - que, recorde-se, foi encontrada na sua pasta, aquando do acidente que o vitimou em 4 de Janeiro de 1960 - está, porventura, nesse silêncio e nessa reserva, no reconhecimento da impenetrável obscuridade da natureza humana, oscilando entre o afecto e a indiferença, entre a crueldade e a compaixão, entre a contenção e a revolta. E é exactamente no sublinhar dessa estranheza, dessa dimensão algo bipolar no homem e na natureza, dessa alternância de luz e de sombra, que se encontra o melhor deste texto de Camus: uma forma de religiosidade sem crença, de generosidade laica, de amor sem objecto, que nasce da ânsia de viver e se alarga a uma espécie de fraternidade cósmica.


A pobreza é a circunstância, a condição “que não se escolhe mas que pode guardar-se”. E é no modo de encarar a pobreza, enquanto “fábrica de heroísmos mudos para a história” e onde nasce “a vergonha de ter vergonha” que O Primeiro Homem nos dá a ver, mais em forma de discurso do que em forma de romance – pois de que serviria contar a história da pobreza que não se escolhe e não dizer, de viva voz, com a veemência das palavras, o modo como a pobreza se guarda - , a maneira como, apesar do filtro burguês da educação, o pudor da coragem e o orgulho de ser capaz bastam para que o homem regresse sempre, sem trair, aos fundamentos da sua circunstância e aí reencontre, entre o rigor e a poesia, como sístole e diástole, o pulsar certo do coração da vida.

Tudo como se a virtude da pobreza tocasse a raiz de uma outra forma de aristocracia e alcançasse o luxo do despojamento sem a ganância da posse, num estado de acomodação da revolta transformada em destreza física, inteligência e emoção. Eis o retrato de Jacques Cormery e, porque não, do próprio Albert Camus.

Pela forma como excede o tecido da ficção e testemunha uma visão do mundo, por vezes incómoda nos seus silêncios, mas que cinge a condição humana na sua realidade mais profunda, em que o escrever e o pensar se conjugam e se confundem no vigor de um mesmo acto e na intimidade de um mesmo gesto, O Primeiro Homem escapa, por assim dizer, às demasias do tempo. Dir-se-ia que uma certa nudez ilumina, sem a querer explicar, a obscuridade que nos torna íntimos de nós e confere a este texto de Camus o eco de um registo clássico, uma espécie de triunfo da imperfeição, ao surpreender, nas marcas da sua incompletude, o momento em que, como diria René Char, “a lucidez é a ferida mais próxima do sol”.
Post de H.N.

PS: um agradecimento efusivo, embora discreto, a H.N. pela sua colaboração privilegiada, no Arpose.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A gíria, as galgas e o golpe palaciano


As modas passam depressa. E o próprio calão ou gíria, usados por uma geração, vão desaparecendo, na passagem de testemunho de uma para outra juventude geracional. São códigos próprios de uma classe etária em que a pujança imaginativa, a irreverência, a visão do mundo é diferente e se assume como tal, até no seu vocabulário. Na minha juventude, chamava-se à mentira: "galga". Ou "regadela", pelo menos, no Norte. Ora, ao terminar o dia, queria informar os meus estimados visitantes que o poste "Tentativa de Golpe Palaciano", no Arpose, de hoje, foi a minha "galga" do 1º de Abril - dia das mentiras. Aqui fica o esclarecimento.

Cromos 14 : Pinóquio



Foi das colecções que mais entusiasmo me despertou, na altura, mas, infelizmente, nunca a cheguei a completar. Era composta por 240 cromos, numa adaptação livre de Roussado Pinto, para a Agência Portuguesa de Revistas que editou a colecção, nos anos 50, creio. As imagens, de grande apuro gráfico, foram executadas na Fotogravura Nacional, Lda.. A caderneta custava Esc. 4$00. E os cromos da colecção baseavam-se no filme "Pinóquio" de Walt Disney, como na capa da caderneta é referido.

Tentativa de Golpe Palaciano


Por uma fuga de informação de que dois jornais diários, hoje, se fazem eco, terá havido uma frustrada tentativa de golpe palaciano na reunião do Conselho de Estado, de ontem. Assim, e segundo fonte não identificada, 3 Conselheiros de Estado teriam proposto e tentado convencer o PR Cavaco Silva a promover, perante a difícil situação económica e política, um Governo de Salvação Nacional de iniciativa presidencial. Evitando, deste modo, a realização de eleições cujo resultado se prevê muito duvidoso. Criar-se-ia, assim, a tão desejada credibilidade nacional e uma acalmia nos mercados internacionais.

Os três Conselheiros de Estado, não identificados na notícia referida, teriam até a lista de ministeriáveis, parte deles oriundos da própria Instituição, reunida, ontem, em Belém. Seria assim um Governo de Senadores respeitáveis e com provas de honestidade, competência e bom senso político, no seu passado. Um dos jornais, de hoje, traz parte da lista dos ministros desse Governo proposto. Segue:

Primeiro Ministro - Marcelo Rebelo de Sousa

Ministro da Administração Interna - Alberto João Jardim

Ministro dos Negócios Estrangeiros - Mário Soares

Ministro das Finanças - Medina Carreira

Ministro da Justiça - Pedro Santana Lopes

Ministro da Defesa - Ramalho Eanes

Ministro da Economia - Bagão Félix

Ministro dos Assuntos Parlamentares - Vasco Pulido Valente

Ministro da Saúde - Jorge Sampaio

Ministro da Segurança Social - Jerónimo de Sousa

Ministro das Obras Públicas - Passos Coelho

Ministro para a Religião e Minorias Étnicas - Francisco Louçã

Ministro da Cultura e Comunicação Social - Pinto de Balsemão

Ministra da Educação - Odete Santos

Ministro do Desporto e Artes Marciais - José Lello.

Ao que parece, a ideia e sugestão dos 3 Conselheiros de Estado colheu manifesto e vivo repúdio por parte do PR Cavaco Silva. Felizmente!

Adagiário XXXIV : Abril (2)


1. Por Abril, corta um cardo, nascerão mil.

2. Manhãs de Abril, boas de andar e doces de dormir.

3. Uma água de Maio e três de Abril valem por mil.

4. Em tempo de cuco, pela manhã molhado e à noite enxuto.

Nos 15 anos da morte de Mário Viegas