domingo, 13 de setembro de 2015

Adagiário CCXXX (estrangeiro e sobre acasalamentos...)


1. Um marido mudo e uma mulher cega fazem sempre um casal feliz.

Provérbio dinamarquês.

2. Casar uma vez é um dever, duas vezes uma tolice, três uma loucura.

Ditado holandês.

sábado, 12 de setembro de 2015

Curiosidades 47


Aconteceu, hoje, que encontrei uma moeda de um cêntimo, na rua, que levantei e guardei, mais por graça do que por cobiça... Como me tinha sucedido, pouco antes, ter folheado o IX volume dessa obra magna, de José Leite de Vasconcellos (1858-1941), intitulada Etnografia Portuguesa. Fragmentária, excessiva talvez, os seus dez volumes recolhem curiosidades, usos, filologia, arqueologia e costumes da terra e gentes portuguesas. Que, não fora Leite de Vasconcellos tê-los fixado, provavelmente, se teriam perdido para sempre. Por coincidência, desse nono volume da obra (página 5), transcrevi uma parte referente a achados e seu significado supersticioso, que passo a citar, pela curiosidade:
" ACHADO: 1) Achar na rua uma agulha de coser é galinhaço, isto é, azar, por ser objecto que pica (Ponte da Barca).
2) Achar cinco réis, e agora meio tostão, é azar (Por ser achado miserável?) Idem.
3) Quando se encontra uma ferradura, deve apanhar-se com a mão esquerda e levantar um pé para dar sorte (Algarve).
4) Achar um sapato velho dá sorte (Lisboa)."

Do último álbum dos Beach House : "Space Song"


F. A. P.


As notícias têm destas virtualidades benéficas. A nova sobre a reedição dos livros de F. Assis Pacheco (ver poste anterior) fez-me revisitar a obra. Aqui:

E assim:

volto a pensar : que queria eu na infância
o sol ? outro nome sobre o meu tão frágil ?

amo-te mais à noite portanto
quando dobro as calças e começo
quando esse gesto útil quando
bate numas pernas e vê-se
de trinta e cinco anos

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Uma louvável iniciativa (41)


Esgotada há muito, grande parte da obra (poesia e prosa) de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), foi com grande agrado que tive notícia de que os seus livros vão ser reeditados pela editora Tinta-da-China, já a  partir do próximo mês de Novembro. Data em que se completam vinte anos sobre a morte do Escritor.

Divagações 96


Canso-me dos poemas compridos, da enxúndia das palavras em excesso. Serei porventura injusto, mas se não envelhecermos para resumos do essencial, é porque não soubemos fazer a destrinça entre finito e infinito. Entre a gordura e a usura da elegância. A elegância, por aqui, é também um substantivo redundante.
(mea culpa!)

Germaine Tailleferre : "Valsa dos telegramas"


De Chirico e de uma sua frase, algumas incidências


Das óbvias, iniciais empatias dos meus primeiros anos (Botticelli, Da Vinci, Fra Angelico...), na descoberta da Pintura, retenho o entusiasmo, no final da juventude, que me despertaram algumas obras de Giorgio Chirico (1888-1978). De tal maneira, que me levaram a copiar, de forma inábil e autodidáctica, alguns quadros do pintor de origem grega. Um dos quais aqui deixo em imagem, e que tem por título Enigma da Partida.
Do seu breve namoro com o Surrealismo, pouco se fala, até porque, aceite complacentemente por Breton, dessa Escola em breve foi excluído ao abandonar a França, por Itália, onde inicia, como pioneiro, aquela que ainda hoje se denomina por Pintura Metafísica. E que os surrealistas achavam excessivamente clássica. Data de 1919 o seu livro Da Arte Metafísica, manual teórico do seu ofício, de que me importa destacar um conceito. Assim:
"Cada objecto tem dois aspectos: o mais comum que é percebido pelos homens, em geral; e o outro, espectral e metafísico, que é apenas pressentido por alguns raros indivíduos, em momentos de clarividência e de abstracção metafísica."

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Uma fotografia, de vez em quando (68)


A cultura e as circunstâncias formam o indivíduo, sendo um acrescento à sua condição biológica e genética. O exercício da vida e da arte de um ser humano reflectem também uma geografia e uma história. Se o soneto é uma criação da Europa, mais concretamente da Itália, também o haikai, na sua concisão poética, tem origem no Japão. Têm ambos a sua circunstância própria.
O fotógrafo japonês Toshio Fukada nasceu em Tóquio, no ano de 1928. Muito jovem, em 1945, fixou em foto o desenvolvimento aéreo da explosão da bomba atómica, provavelmente em Hiroshima, cerca de 20 minutos depois da deflagração. Chamou-lhe : nuvem cogumelo. Foi a sua circunstância.

Retro (78)


Perdoe-se o lado epopeico da locução e um certo branqueamento político e diplomático do texto norte-americano...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Palavras do dia (11)


Joaquim Letria foi (é) um dos mais competentes jornalistas portugueses. Que, com a sua inteligência e afabilidade, conseguia criar nas suas entrevistas um clima de distensão, ou como moderador uma harmonia de que resultavam grandes momentos televisivos. Destaco, por exemplo, o confronto Soares/Cunhal.
Pois, hoje, ter-lhe-á sido perguntado quais eram as expectativas dele, quanto ao debate Coelho/Costa. Respondeu que o confronto será o mesmo que assistir a um jogo de futebol entre o Arouca e o Tondela.
Oxalá a sua previsão se não verifique...

Si non è vero, è bene trovato


Negócios...

com agradecimentos a AVP.

O estado do Blogue


Dia em que Jean-Claude Juncker fará o seu discurso sobre o estado da União Europeia (que não é famoso...), em que logo à noite haverá o debate televisivo entre os dois candidatos a primeiro-ministro de Portugal; em que se vai reiniciando o ano activo e escolar, para muitos, e, a pouco mais de dois meses do Arpose completar 6 anos, talvez seja a altura de fazer um tentame de balanço.
Números, já que andamos na Idade da Economia: 7.872 postes (com este) e um pouco mais acima de 270.000 visitas. Algum cansaço, pouca inspiração e a noção concreta e real de que aquilo que tinha para dizer, em grande parte, já o disse. É evidente que todos os dias há notícias e factos novos, e que alguns deles merecem uma apreciação subjectiva e pessoal, porque nos importam ou estimulam. Nem diário, nem almanaque (embora não muito divergente), fragmentário sempre, o que será um blogue, senão o espelho polifacetado de quem o faz? Variam apenas na forma ostensiva de exposição ou na sua discrição levemente desvelada; na sua intensidade maior ou na leveza banal da superfície.
Às vezes, penso que já todos os países do mundo cá vieram (Presunção e água benta, cada um toma a que quer...), até que me aparecem, como recentemente aconteceu, visitantes da ilha de Reunião, das Antilhas holandesas ou do Cazaquistão, e eu me conscencializo de que há mais mundos, como dizia José Régio... Depois, há interrogações que não têm resposta, nem lógica, como por exemplo: saber porque é que vêm tantos visitantes, de França (!), sugar ao Arpose uma imagem de um quadro do pintor francês Nicolas Poussin? De forma vaga, poderia dizer que são os resultados da globalização... ou a pobreza bibliográfica e iconográfica das bibliotecas de muitos cibernautas.
E, já que há muito não falo das search words chegadas ao Arpose, para acabar com uma nota de humor (ou da iliteracia e ignorância), aqui vai uma, que chegou ontem, vinda de França, num português muito mascavado. Assim: "carri chas da caicha a berta a venda em portugal" (sic). E o Google, naquela sua sapiência de máquina parva algorítmica e marcana, indicou, ao cibernauta desleixado, o poste "Cromos 10 : Artistas de Cinema" (de 17/1/2011). Percebem? Eu, não.
Uma boa tarde, para todos os que visitem o Arpose!

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Anthony Holborne (1545?-1602) : Pavana e Galharda


Da leitura (4)


A escrita e obra de Simone de Beauvoir (1908-1986) parecem não ter envelhecido com os anos. Ando a ler "Balanço Final" (Tout Compt Fait, 1972) que me está a agradar mais do que a sua obra autobiográfica anterior: La Veillesse, de 1970. Naquele nota-se um estilo mais solto, uma voz mais liberta na forma de explicar algumas tomadas de atitude (políticas, afectivas...), dos seus últimos anos. E a obra ganha com isso.
Em tradução de Bertha Mendes, para a Bertrand, aqui deixo um pequeno excerto da página 29:

"...Toda a busca do ser está votada ao revés, mas este revés pode ser enfrentado. Renunciando ao vão sonho de nos fazermos Deus, podemo-nos simplesmente satisfazer com existir. Saber não é possuir e no entanto não me canso de aprender. Desejava participar na eternidade de uma obra em que me encarnasse, mas, antes de mais nada, queria fazer-me ouvir pelos meus contemporâneos. São as minhas relações com eles - cooperação, luta, diálogo - que durante toda a minha vida, maior preço têm tido para mim. ..."

Pinacoteca Pessoal 100


Nascida a 8 de Julho de 1867, em Königsberg (Prússia Oriental), a pintora alemã Käthe Kollwitz não viveu para ver amanhecer a paz, pois faleceu a 22 de Abril de 1945. A sua obra reflecte, obsessivamente, os horrores da guerra e a tragédia dos mais desfavorecidos, numa transição evolutiva com sequência coerente entre o naturalismo e o expressionismo. Mas, mais do que a pintura, é a sua obra gráfica que melhor identifica a exemplar qualidade do seu testemunho artístico e humano.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Citações CCLIV


A diferença de fundo entre o hipócrita e o cínico é que o hipócrita aceita incomodar-se e o cínico não.

Henri de Montherlant (1895-1972), in Carnets, 1930-1944.

Um enigma do caraças


Ainda nenhum dos meus amigos me conseguiu explicar este enigma que eu, em toda a minha inocência, também não consigo entender. Que foi o de um histriónico entertainer televisivo dos domigos e comentarista político, das bordas da direita, ter ido visitar uma celebradíssima festa da ferrugem, na margem esquerda do Tejo, na semana passada.
Porquê?
Terá sido para ouvir, in loco, um dos discursos do simpático Jerónimo de Sousa, ou terá lá ido para comprar, na barraquinha de Cuba, uns presentes e brinquedos para os netinhos?
Deus o abençoe, mesmo na dúvida!

John Surman (1944)


Adagiário CCXXIX


O que não se pode haver, dá-se pelo amor de Deus.

colhido em Glória (pg. 209), de Vasco P. Valente.

Recuperado de um moleskine (15)


Alguns demoram na resposta, fazem-se caros ou pretendem dar a ideia de criaturas reflectidas, enigmáticas. Tentam aparentar uma substância que é apenas gordura e contenção das águas. Eu prefiro os naturais, mesmo que rudes, directos, insensatos. Prefiro um cacto a uma pedra, um simples a um cosmético elaborado - são feitios, que se há-de fazer?

domingo, 6 de setembro de 2015

As maçãs


Chegaram-nos as reinetas (ou rainetas, no Minho), em boa hora e por mãos amigas, vindas dos lados da Lourinhã, terra de grande tradição agrícola. Eram grandes, muitas, limpas de nódoas e pisaduras. Jovens e frescas, recentes de seu primor, como agora se chamam a vinhos a vender antes de feitos, à moda de Bordéus.
Aciduladas, desfizeram-se no forno, ao assar, algumas delas. Sobremesa macia na boca, no jantar de hoje, foram servidas por um Fernão Pires, monocasta, de Palmela. Mereciam melhor branco, as reinetas saborosas...

Um agradecimento gastronómico, cordial a quem as trouxe. E a quem as trabalhou e delas cuidou...

Bach / Koopman


Cioran, sobre os filhos de J. S. Bach


4 de Janeiro de 1970

Sente-se nos filhos de Bach a vontade de se distinguirem do seu pai, não aprofundando mas multiplicando os desvios vistosos. A originalidade é sempre mais fácil do que a profundidade. Inventar é uma fuga; e chega-se lá através de um qualquer desregulamento; descer à intimidade das coisas ou de si mesmo implica uma concentração, um esforço com fadiga excessiva, não tanto do espírito mas da alma.

E. M. Cioran (1911-1995), in Cahiers - 1952/1972 (pg. 782).

sábado, 5 de setembro de 2015

Comic Relief (113) : o animal feroz


Cá por casa, desde que, na televisão e há alguns anos, passavam imagens de uma vaca de barriga inchada morta na árida planície alentejana, sempre que era preciso ilustrar a seca, costumavamos caracterizar essas repetições abusivas e redundantes, dizendo: "Lá vem a vaca sagrada!..."
Pois, preparem-se, amigos, visitantes e compatriotas, porque já começou ontem. As televisões irão repetir, nos próximos dias e até à exaustão, um clip breve filmado, à noite, onde se vê um jovem de meia idade, de t-shirt cinzenta, a entrar para uma casa, numa rua em obras, ladeado de polícias.
Vai ser um fartar vilanagem!
Para variar, aconselho-os a visionarem este pequeno, mas magnífico filme de Charlot, que aqui deixo - sempre é mais interessante. E divertido.

com os melhores agradecimentos a AVP.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Bibliofilia 123


Corografia, em explicação sucinta dos dicionários, é a descrição de um país.
Não parece ser nossa vocação, de portugueses, o trabalho extenso, moroso e aturado, no que diz respeito a obras de investigação profunda e ampla. O Dicionário de Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876), completado por Brito Aranha, com mais de 20 volumes, é uma das poucas excepções laboriosas, no abarcar alargado de escritores portugueses e suas publicações. A pioneira Biblioteca Lusitana, trabalhada pelo Abade de Sever, Diogo Barbosa Machado (1682-1772), entre 1741 e 1758, é outra obra de fôlego, nesta mesma temática.
Outro incansável investigador terá sido Augusto S. A. B. Pinho Leal (1816-1884), professor e combatente do Buçaco, que dedicou os seus últimos anos de vida à elaboração do seu Portugal Antigo e Moderno, obra maior em 12 volumes, de que, por morte, deixou o décimo tomo a meio. O remate foi efectuado pelo seu amigo Pedro Augusto Ferreira, abade de Miragaia.
A obra (1873-1890), com uma tiragem de 500 exemplares, foi em grande parte para o Brasil e é, por isso, rara na sua edição original. Em 1990, foi executada uma edição fac-similada, que é a que possuo. Muito completa, a obra dá descrições muito detalhadas sobre as cidades, vilas e muitos lugarejos portugueses. As informações vão dos aspectos históricos e arqueológicos até heráldicos e etimológicos. E é utilíssima.

Adenda pitoresca: quando o escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990) tomou posse como director do Museu Soares dos Reis, ao consultar a lista do pessoal deu conta de um contínuo que tinha um grande nome, e pomposo, terminado em Pinho Leal. Quis conhecê-lo, ficando então a saber que ele era sobrinho neto do autor de Portugal Antigo e Moderno. O Escultor falou-lhe com grande entusiasmo da obra magna de corografia, gabando-a sobre vários pontos de vista.  E o modesto contínuo comentou: "Talvez fosse por isso que, lá na aldeia (Vimieiro?), nos chamavam, por alcunha, os Portugais..."

De uma sugestão enviesada, vinda de outro lado da net...

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Vontade política e solidariedade europeia


Tenho de confessar, à puridade, que quase já me sinto incapaz, do ponto de vista de resistência humana, para assistir em jornais televisivos ou para ler, em jornais, artigos e reportagens sobre  mais mortes e tragédias de migrantes no Mediterrâneo.
O chutar da bola entre vários dos governos europeus, o negócio de ciganos, quanto a quotas de recepção de refugiados, por parte de alguns primeiros-ministros (o nosso, por exemplo, que é casado com uma guineense) deixa-me perplexo e quase revoltado.
Não quero exceder-me em considerandos, mas gostaria de lembrar alguns factos em que Portugal foi protagonista. Durante a II Grande Guerra, um número considerável de refugiados passou por cá. Alguns, aqui se fixaram, sem problemas. Entre 1945 e 1950, cerca de 1.000 crianças austríacas vieram e foram acolhidas por famílias portuguesas. Em Coimbra, e nos anos 60, tive um casal de austríacos como colegas universitários, que fizeram carreira académica notável. Entre 1974 e 1975, Portugal recebeu cerca de 500.000 retornados das ex-colónias, cuja integração se fez de modo quase exemplar, embora gradual.
Dirão alguns que eram outros tempos e outras gentes - é uma forma cínica de ver as coisas, uma maneira egoista de assobiar para o lado, na minha opinião. De qualquer forma, segundo as previsões, mesmo sem solidariedade, a Europa será um continente de mestiços, em 2050. Não vale a pena tentar iludir a realidade e o futuro. Era muitíssimo mais realista e clarividente prepará-lo, simplesmente.

Tendo em consideração os puristas...


...aqui vai, bisando, a genuína e autêntica receita da Fabada (Feijoada) asturiana. Acompanhada até por um castiço vinho da casa, sem nome famoso ou sofisticado. Para que conste.

A par e passo 146


O meu esboço limita-se a tentar apresentar-vos o estranho progresso duma certa mudança de linguagem em determinado sentido. O pudor na palavra parece literalmente pervertido; a reserva muda de objecto; o que se louvara outrora já não ousa enunciar-se; o que se censurava, o que se calava, expõe-se agora a despropósito. Assistimos, consentimos, participamos, sem resguardo, a um abandono universal da expressão directa das coisas antigamente mais veneradas ou mais sagradas.

Paul Valéry, in Variété IV (pgs. 170/1).