segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Pinacoteca Pessoal 70


Dificilmente encontraremos, na obra dos mais importantes pintores dos séculos XIX e XX, uma tão extensa profusão de cartazes publicitários, como em Toulouse-Lautrec (1864-1901).
O design inovador do seu traço permite reconhecer, normalmente com facilidade, os seus cartazes de propaganda, pela cor, movimento, e pendor caricatural ou satírico.
Homem de excessos, apesar da sua pouca altura (1m54) provocada por uma doença na infância, Henri de Toulouse-Lautrec morreu prematuramente, deixando-nos, no entanto, uma vasta obra (mais de 1.000 quadros e várias centenas de cartazes, além de aguarelas) de características muito singulares.

para MR.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

F. Chopin / V. Lisitsa


De Bashô, na versão de Jorge de Sena


Qual velha sem dentes
a cerejeira sem folhas
juvenil floresce.
...
Na manhã de neve
aqui estou só ruminando
salmão seco e duro.

Sinestesia e Poética


Não será desajustado de todo dizer-se que as sinestesias tiveram o seu momento alto com o Simbolismo, sobretudo na literatura. Mas nesse cruzamento analógico, de domínio sensorial, há também muito de inconsciente e inexplicável, como boa parte das sensações humanas, principalmente, quando se reportam a dois extremos: gostar ou não gostar.
Quando Rimbaud se permite cantar:

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai...,

alguma coisa, apesar de aceitarmos o desafio, pode escapar ao nosso prosaico entendimento.
Tenha-se em conta, já no domínio das vozes, da música e das cores, este poético exercício da cega de Fellini, no filme E la nave va, personificada por uma espectral, mas sublime, Pina Bausch, no pequeno vídeo, abaixo.
E, quem puder e souber, que entenda.



A par e passo 79


De que é composto este capital de Cultura e Civilização? É, à partida, constituído por coisas, objectos materiais - livros, quadros, instrumentos, etc., que têm uma duração provável, decorrente da sua própria fragilidade, da sua precaridade como coisas. Mas este material não basta. Tal como um lingote de ouro, um hectare de boa terra, ou uma máquina não são capitais, sem os homens que têm necessidade deles e se sabem servir deles. Notem-se estas duas condições. Para que um material de cultura seja um capital, ele exige, também, a existência de homens que tenham necessidade dele e dele se possam servir - isto é, de homens que tenham sede de conhecimento e que sejam capazes de transformações interiores, sede de desenvolvimento da sua própria sensibilidade; e que saibam, por outro lado, adquirir e exercer tudo aquilo que for necessário nos seus hábitos, de disciplina intelectual, de convenções e de práticas para usar o arsenal de documentos e instrumentos que os séculos foram acumulando.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pgs. 278/9).

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Distinção entre mistério e suspense, segundo Hitchkock


Filatelia LXXXVI : Postais Máximos


Dentro das peças filatélicas circuladas, existe uma temática interessante que conta com alguns cultores fervorosos. Não é o meu caso. Trata-se dos chamados Postais Máximos que, no seu conjunto, integram um ou mais selos que são colocados num postal alusivo ao motivo da emissão filatélica. Para sua melhor valorização, os postais deverão ser expedidos no primeiro dia da saída da emissão, para conterem o carimbo dessa mesma data.
Vão reproduzidos alguns exemplares portugueses (D. Maria II, Hóquei em Patins, Barco Rabelo e Moinhos), bem como um Postal Máximo alemão, alusivo à cidade de Hamburgo, de 1974.

Regionalismos transmontanos (25)


1. Chelpa - dinheiro.
2. Cheringalho - indivíduo mal-arranjado. Pessoa troca-tintas.
3. Cheta - vitela que ainda mama.
4. Chicha - carne.
5. Chilro - sujo, churro. Água chilra, água que contém impurezas e resulta da moagem da azeitona.
6. Chiquita - bebedeira.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Ferré / Aragon


As aparências iludem...


Não, não é um qualquer subúrbio problemático de Lisboa ou do Porto, mas Montmartre (Paris), em 1904.

Retro (41)


O dia dos namorados, ou de S. Valentim, é, indubitavelmente, uma celebração espúria na mitologia lusitana dos afectos. A que a globalização e o comércio deram consistência mercantil, fortificada, nos anos 60, pela canção "When I'm sixty-four", de The Beatles. Com algum humor negro, poderíamos acrescentar-lhe o Massacre de Chicago, ou de S. Valentim, introduzindo o terceiro pilar justificativo, para lembrar este dia.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Civilidade (31)


O cerimonial das refeições da corte portuguesa proporcionava, a alguns representantes das casas nobres lusitanas, ocupações que, hoje, consideraríamos insólitas ou difíceis de entender. Vamo-nos socorrer de Alberto Pimentel (Diccionario de Invenções..., Lisboa, 1876) para melhor as caracterizar e definir as suas atribuições. Assim:
"A côrte portuguesa costumava comer em publico, e com deslumbrante apparato desde o tempo de D. Affonso V. Assistia á mesa um trinchante, que cortava as viandas, até ao reinado de D. João III. D'ahi por diante os trinchantes foram dois, e no reinado de D. João IV eram três, escolhidos em outras tantas cazas nobres.
Á direita do trinchante ficava o uchão, e ao pé o servidor da toalha; á esquerda o mantieiro. Os moços de camara, precedidos habitualmente pelo prestes da cosinha e nas grandes festas pelo mestre-sala, traziam as iguarias. O servidor da toalha recebia os pratos, que punha na meza; o uchão chegava-os ao trinchante, que, depois de trinchados, os servia a el-rei, até que o mantieiro os tirava, e punha outros. O copeiro-mór era o fidalgo que chegava o pucaro de agua a el-rei. Quando el-rei fazia signal de querer beber, o copeiro-mór recebia do copeiro-menor o pucaro, e ambos se aproximavam acompanhados de dois porteiros da cana, que faziam cortezias, e ajoelhavam. El-rei bebia inclinado sobre a meza, e dava depois o pucaro ao copeiro-mór, que lh'o havia entregado. Nos grandes banquetes era ainda mais luzido o cerimonial. ..."

Gaetano Donizetti / Vera Dulova

O carrego de cada um


A harpa nem era muito grande, dentro do seu estojo, mas via-se a dificuldade da jovem música, apesar do carrinho de rodas de transporte e da ajuda de uma amiga (?), em fazer entrar o instrumento para o Teatro S. Luís.
Flautistas, violinistas, trompetistas, são uns felizardos, para não falar dos maestros, que só têm que levar a levíssima batuta para os concertos. Agora, imagine-se o violoncelista ou o homem da tuba a carregarem aqueles instrumentos enormes até aos auditórios!?...
Sorte têm os pianistas, porque as salas de concertos costumam ter piano privativo e residente...

Memória (87)


Passa hoje mais um aniversário sobre o nascimento, na Bélgica, do escritor Georges Simenon (1903-1989).

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

The Beatles

Dois Amigos


Há dias, descobri com agrado que Manoel de Barros (1916), insuficientemente conhecido e grande poeta brasileiro, fora grande amigo de João Guimarães Rosa (1908-1967). Sabê-lo, no entanto, foi como se uma evidência, para mim. Porque há neles, uma comum inocência humilde, mas forte, de querer decifrar o mundo, por outras palavras. Ou por o querer dar a conhecer, ao leitor, por palavras novas, mesmo que inventadas para se ajustarem melhor a misteriosas realidades. Um, pela poesia, o outro por uma prosa, tantas vezes, poética.
A simplicidade é, muitas vezes, desvalorizada; mas será bom pensar que ela só acontece através da sabedoria da experiência, e pela ousadia de repensar tudo de novo. Ou noutra perspectiva diferente da que aprendemos de forma automática e que, inconscientemente, nos parece inata e verdadeira, em absoluto. Só assim a Arte, seja qual for a sua expressão, consegue avançar por novos caminhos. Em literatura, através da reconquista de velhas palavras que deixámos de usar, ou que usamos, todos os dias, de forma adormecida e mecânica.

Citações CLXI


Fotografar, é colocar sobre a mesma linha de mira o olhar, o espírito e o coração.

Henri Cartier-Bresson (1908-2004).

Lembrete 14


Não abrangendo, embora, toda a obra, hoje conhecida, de Cesário Verde, a edição primeira de O Livro de Cesário Verde (1887), organizada pelo seu amigo Silva Pinto, teve uma tiragem de apenas 200 exemplares.
Será, por isso, de louvar que o jornal Público tenha feito imprimir a edição facsimilada da obra, que acompanhava a edição do jornal, de ontem. Ao preço módico de 5,95 euros. Aqui lembro o facto.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

J. S. Bach / J. E. Gardiner


Michel Onfray, sobre o erotismo em Arte


A religião católica proibiu a representação de corpos eróticos. Ora, em seu lugar, desenvolveu-se todo um campo imagético religioso marcado pelo erotismo do corpo maculado, do corpo martirizado. O martirológio cristão traduz-se em arte por um erotismo da morte, como por exemplo na imagem de S. Lourenço a ser queimado sobre uma grelha e, mais ainda, por S. Sebastião trespassado pelas flechas de soldados romanos. (...) Noutro registo, o martírio de Santa Ágata é uma verdadeira inspiração. Há todo um erotismo cristão de prazer no sofrimento, que irá culminar na obra do marquês de Sade - e até mesmo em Bataille.

Michel Onfray (1955), em entrevista a Le Nouvel Observateur (Hors-serie 85).

Nota: em imagem, pormenor da obra de Bernini, "O êxtase de Santa Teresa".

Dois pequenos fragmentos de H. H.


"...Qualquer poema é um filme, e o único elemento que importa é o tempo, e o espaço é a metáfora do tempo, e o que se narra é a ressurreição do instante exactamente anterior à morte, a fulgurante agonia de um nervo que irrompe do poema e faz saltar a vida dentro da massa irreal do mundo.
Não existe outra metáfora que não seja o espaço; aquilo a que chamam metáforas são linhas de montagem narrativa, o decurso da alegoria, o espectáculo.
(...)
A pintura tem um movimento potencial. Seria possível pôr um quadro a mover-se? Eu sei que a pintura anda de um lado para o outro; o segredo da sua trajectória refere-se à nossa intensidade mágica, ao que chamamos o milagre ou a maravilha orgânica do mundo. ..."

Herberto Helder, in Cobra (pgs. 12 e 14).

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Picasso


Bibliofilia 97


Raras são as obras do poeta Herberto Helder que não se esgotam, rapidamente, após a saída e constituem, depois, livro procurado e apetecido em alfarrabistas e leilões, onde os preços sobem sempre alto.
O folheto (24 páginas) O Corpo  O Luxo  A Obra teve uma tiragem de apenas 600 exemplares e custava, na altura (1978), Esc. 30$00.
O livrinho Cobra é anterior (1977), e terá sido - ao que dizem - objecto de uma impressão espúria, feita no Porto. O meu exemplar, da edição original, faz parte de uma tiragem de 1.200 e custou Esc. 70$00.
Um exemplar, semelhante a este último, constituía o lote 120 do Boletim Bibliográfico (nº 54, Fevereiro de 2014) da Livraria Luís Burnay, com o preço de venda de 85,00 euros.

Ravel / Sokolov


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Parvoíces ianques


Diariamente ou quase, há um robot ianque muito parvo, que nos visita e deixa, com frequência, um ou outro comentário mascavado, muito mal escrito, num inglês (?) de grunhos primitivos e desconchavados. Por aqui se pode ver o americano médio, rural, cavernícola e arrogantemente estúpido e convencido - é essa a sua mais legítima imagem, pese embora haver excepções, que só confirmam a regra. Porque o robot, que nos visita, terá sido programado à imagem do seu dono. Invariavelmente, e na sua imutável monotonia mecânica, dirige-se a três ou quatro postes anódinos e antigos, sempre os mesmos, comentando com disparates, reconhecíveis pela sua nulidade mental, despropositada.
Para nossa felicidade, e sem intervenção nossa, estes dislates infantis, são automaticamente postergados para o spam, como lixo ianque e inútil. Pergunto-me, às vezes, por que será que os norte-americanos (NSA, inclusa) se dedicam a estas futilidades tão pueris e paupérrimas... Não terão mais nada que fazer, na vida?

A imagem do dia


A arte povera ou a arte urbana dos feirantes que nos (des)governam.

Adagiário CLXXII : temática asinina


1. Burra velha de longe aventa as pêgas.
2. Burro e burriqueiro, nunca pensam do mesmo modo.
3. Burro velho não toma andadura e, se tanto lhe dá, pouco lhe dura.

O regionalismo das críticas


A crítica literária portuguesa, mesmo nos seus tempos áureos e mais dignificantes (que hoje assume, quase totalmente, meros aspectos publicitários), sempre esteve mais próxima da matriz francesa do que das recensões inglesas ou alemãs, clássicas. E não sou apenas eu que o digo e observo.
A propósito da recente saída, em França, do livro Un Été avec Montaigne, de Antoine Compagnon, no último TLS (nº 5783), Henri Astier, jornalista francês que trabalha para a BBC, refere, e passo a citar, traduzindo:
" A análise literária francesa tem a reputação de uma intricada abstracção. E isto não é apenas o resultado dos anos 60 estruturalistas; lendo Le Monde des Livres mesmo hoje, é muitas vezes difícil perceber sobre aquilo que são os livros recenseados. Contudo, o apetite do público Francês pela narratologia e pelo comentário opaco não deve ser sobrestimado. O bestseller surpresa do último Verão foi um delgado volume sobre Montaigne, escrito em lúcida prosa por Antoine Compagnon. ..."

sábado, 8 de fevereiro de 2014