quarta-feira, 18 de julho de 2012

Brian Crain : "Imagining"

Mercúrios


A frase "The past is a foreign country: they do things differently there" (O passado é um país estranho: fazem lá coisas de modo diferente) é conhecida, e considero-a um dos melhores inícios de romance  inglês, que conheço. A obra em causa, que li no original em 1965, é "The Go-Between" (O Intermediário), escrita por L. P. Hartley (1895-1972), publicada em 1953. O livro foi adaptado ao cinema, em 1970, por Joseph Losey, com script de Harold Pinter, e interpretado por Julie Christie (Marian) e Alan Bates (Ted), nos principais papéis.
O núcleo central do enredo reside nos amores clandestinos e impossíveis de uma jovem de família rica, que está noiva, com o caseiro da quinta, Ted. A jovem (Marian) usa Leo Colston, de 13 anos, para portador de mensagens, em encontros com o caseiro. O tema é também o da perda de inocência de Leo, ao descobrir as razões, e o sequente traumatismo que sofre pelas consequências do seu papel de Mercúrio - tendo sido descobertas as relações do par, Ted acaba por se suicidar. A acção do romance decorre em 1900.
Não sei se hoje ainda se usam mercúrios, ou intermediários, para o estreitamente de relações amorosas mas, no meu tempo de juventude, isso era frequente. Fui Mercúrio, por três vezes, na minha infância/adolescência, mas as relações que medeei não eram pecaminosas, nem tiveram consequências demasiado funestas. E, há que dizê-lo, também utilizei mercúrios, algumas vezes. Sem grandes resultados, aliás...

Nelson Mandela


Há pessoas que representam, para mim, aquilo que a Humanidade tem de melhor. Não serão muitas, mas Nelson Mandela (1918) tem, neste pequeno grupo, um lugar cativo. E completa, hoje, 94 anos. Parabéns! 

Giovanni Bononcini (1670-1747)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Arrenego encontrado num livro


"Guarde-vos Deus:
da ira do Senhor, do alvoroço do povo, da moça adivinha e de mulher latina, de pessoa sinalada, da mulher três vezes casada, do homem porfioso, de lodos em caminho, de longa enfermidade, de físico experimentador e asno ornejador, do oficial novo e barbeiro velho, de amigo reconciliado e vento que entra por buraco, de hora minguada e de gente que não tem nada."

Um exemplo para a Presidente da AR



No dia 16.7., o jornal DIE ZEIT deu destaque a um tema muito actual, a saber, os vencimentos escandalosos, e até perversos, dos "managers" das empresas alemãs. Considerava, e bem, que a diferenças dos seus vencimentos, quando comparados aos trabalhadores "normais", não se justificavam nem pelo seu empenho, nem pela diferença de responsabilidade. 
O Presidente da Assembleia da República alemã chegou ao ponto de dizer que "desconfiava" que os ditos senhores se estavam a "servir" a eles próprios.
Ora, o facto de o Senhor Norbert Lammert se insurgir contra a "falta de escrúpulos" podia servir de exemplo para a "nossa" congénere, numa das próximas reuniões:


Já que os membros da Missão acima representada ainda não chegaram a esse reduto, convinha, porventura, que a Senhora Presidente Maria de Assunção Esteves se recordasse do "aviso à navegação" do seu colega, até de cor política, do Parlamento alemão.

Post de HMJ

A distracção de Álvaro


No dia em que se fala, de novo, em baixar os salários, paupérrimos, de uma parte substancial da população, o ME Álvaro deve andar distraído. Esqueceu-se da promessa de juntar as administrações do Metro e da Carris de Lisboa, reduzindo os seus membros. Eles continuam a ser dez, não havendo dados sobre o conjunto dos vencimentos auferidos.
No entanto, ontem, e a propósito do alargamento da rede do Metro até ao aeroporto, falava-se na supressão de carreiras - e certamente de trabalhadores - da Carris.
Ora, se eu fosse Álvaro, despachava, em primeiro lugar, o trabalhador em efígie, Cardoso dos Reis:


Movia-lhe um processo disciplinar por "inadaptação ao posto de trabalho", com despedimento justificado, uma vez que recorre a "inverdades" e oculta responsabilidades no exercício das suas funções. Desconhece, por completo, o que é a prestação do "serviço mínimo" aos seus utentes, a saber, promover a saída das estações do Metro de Lisboa, cuidando do "equipamento" - i,e, das escadas rolantes e elevadores- que costumam estar "fora de serviço", sem fim à vista.

Post de HMJ

Nunca fiando...

A regra é dos economistas: nunca pôr os ovos todos no mesmo cesto.
In extremis, aqui vai um pequeno excerto de Karl Jenkins, da sua Missa para o Homem Armado, inspirada e dedicada ao Kosovo.
Para as visitas menos informadas, a Missa do Homem Armado era um ofício litúrgico a que assistiam os Cruzados, antes de partirem para a Terra Santa.
Aqui fica, dedicada aos modernos Cruzados, na sua denodada luta contra os bibliófagos. 

Guerra santa (geminando) aos bibliófagos

Em geminação com o Prosimetron (MR) e com os melhores votos aos Cruzados na guerra contra os parasitas, pese embora não terem assistido a nenhuma "Missa do homem armado"... Mas vão com benção laica, para apoiar este nobre propósito. Que a batalha no Campo do Gato Preto seja um sucesso!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A par e passo 2


O gosto exclusivo da novidade marca uma degenerescência do espírito crítico, porque nada é mais fácil de julgar que a novidade de uma obra.
...
O que há de mais humano.
Alguns acreditam que a duração das obras se deve à sua "humanidade". E esforçam-se por ser verdadeiros.
Mas haverá maior duração do que a das obras fantásticas?
O falso e o maravilhoso são mais humanos que o homem verdadeiro.
...
A ideia poética é aquela que, posta em prosa, reclama ainda o verso.
...
A expressão do sentimento verdadeiro é sempre banal. Quanto mais se é verdadeiro, mais se é banal. Portanto é preciso procurar não o ser.

Paul Valéry, in Tel Quel I (pgs. 21, 29, 35).

Reminiscências


Das pessoas de quem não temos nenhuma fotografia, muitas vezes, a memória parece suprir essa falta e, obstinada, num esforço improvável, conserva-nos um negativo - por vezes, mais...
Pode ser apenas um gesto, a cor nítida de um olhar, um transtorno de voz, no tempo. Ou a forma nebulosa de um corpo, na distância. Fielmente.
Porque dos outros, que já desapareceram, é das fotografias que vêm os traços, e de que nos lembramos. Estáticas, para sempre.

Leonard Cohen

Há manhãs...


Há manhãs em que penso que, até ao fim do dia, o vou encontrar - o Poema. Talvez como aquele de que falava Guilherme de Aquitânia (1071-1127) e que se propôs fazer: "Farei um poema do puro nada. ..." Mas é possível que eu nunca o encontre, na minha vida. Há, felizmente e no entanto, aproximações dessa poesia pura de que falava Guilherme.
Hoje, contento-me com estes versos de João Miguel Fernandes Jorge (1943), que encontrei em Lagoeiros (2011), sob o título Faltam-nos os anjos de outrora:

Esperava-o para o jantar. A cadeira de verga sob
o queixume do corpo
como se o vime tomasse a dor inteira e
a levasse na cor da palha queimada do verão antigo.
Faltam-nos os anjos de outrora
que rasgavam o azul com uma flor de liz
e nos davam a imagem das folhas
a passagem da água.

domingo, 15 de julho de 2012

Revisitar Gómez de la Serna, e as suas greguerías


1. Os orgulhosos dizem «coluna vertebral", e os modestos, «espinha dorsal».
2. Na visita à horta é encantador ver como dormem os melões.
3. A serpente mede o bosque para saber quantos metros tem e dizê-lo ao anjo das estatísticas.
4. O búfalo é o touro jubilado da pré-história.
5. O macaco observa-nos como se nos tomasse por pedagogos.
6. A imortalidade do caranguejo consiste em andar para trás, rejuvenescendo-se no passado.

para a MR, que as aprecia - como eu.

Iconografia moderna e laica (17)


"...Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos."

Mateus, 22: 14.

Favoritos LXVII : August Sander




Filho de um carpinteiro que trabalhava para uma empresa mineira, August Sander nasceu na Renânia-Palatinado, a 17 de Novembro de 1876, mas a sua actividade de fotógrafo foi exercida, principalmente, na região de Colónia. É, na minha perspectiva, um ascendente directo de Sebastião Salgado, pela abordagem que faz dos trabalhadores, dos simples, das circunstâncias sociais. A sua obra "Retratos do séc. XX" é um testemunho impressionante sobre a Alemanha da época. August Sander morreu em 1964. 

Saint-Saëns / Du Pré

sábado, 14 de julho de 2012

Mercearias Finas 55 : em louvor dos simples


O homem vinha do Ribatejo, com a mulher e os filhos, e plantava-se no meio do meloal, aí a uns bons quilómetros de Quarteira. Aboletava-se num barraco de madeira, tosco e sazonal, com a caçadeira sempre à mão, para intimidar os ladrões furtivos. A partir de Julho, e à distância, havia sempre uns ganapos que namoravam os melões da Sociedade Agrícola, mas o homem sabia bem como protegê-los. A safra colhia-se inteira. 
Hoje, comi uma talhada magnífica, ao almoço: suculenta, aromática, madura mas rija, q. b.. A sobremesa saiu, de tão barata, ao preço da uva mijona... E, em conversa com o dono do restaurante, soube que, no ano passado, ele tinha comprado os melões a 30 cêntimos, o quilo. "Este ano, estão um poucochinho mais caros" - disse-me ele. E eu lembrei-me do ribatejano, no Algarve, e perguntei-me quem ganharia com os melões, a preços tão baixos. Sobremesa de Verão, tão simples, e que pode ser tão deliciosa.
O homem que sabia de melões regressava ao Ribatejo, deixando Vilamoura, pelo começo do Outono. Fechava o barraco a cadeado e guardava a chave para o ano seguinte, pondo-se a caminho com a família. Pergunto-me, hoje, se o salário da safra, no Algarve, lhe daria para passar o Inverno, com algum desafogo.
Era, isto, nos idos de 70. 

Pelo centenário de Woody Guthrie

Woody Guthrie faria hoje 100 anos. Aqui fica um dos seus maiores sucessos a pedido e para HMJ.

Incursões Culinárias 16: Doce de Ameixa



Ora, sendo a época das ameixas, recebemos uma caixa delas, brancas e ainda com folhas. Como é costume, escolhi uma quantidade delas para consumo diário. Quanto às restantes, já tinham destino: doce para o Inverno como se fazia, na minha casa, antigamente.
No ano passado, tinha feito doce de ameixas vermelhas e achava normal que saísse um doce escuro. Desconhecia que também as ameixas brancas davam doce avermelhado. Mais uma lição culinária.
Para abrir o apetite dos nossos leitores mais lambareiros, fica a imagem do docinho que casa muito bem com um pão normal, ou um pãozinho de leite, ao pequeno almoço ou lanche.

Post de HMJ

A par e passo 1


Um homem que presta um juramento de...não pode ser senão um homem cego, ou então um homem que não tem uma  «vida interior» bem desenvolvida.
É um primitivo.
...
As mudanças de humor dão ao próximo a impressão da mentira alternando com a verdade. O outro encara sempre o mau pelo verdadeiro.
Tomamos sempre o pior pelo principal. Mas o principal não é bom nem mau, e não o pode ser.
...
Paul Valéry, in Tel quel (pg. 146).

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Não há duas sem três


Convida-se o prezado leitor a acompanhar-nos numa viagem insólita a uma "gruta de Ali-Bábá" representada na imagem acima. Não obstante os avisos prévios, apelando à paciência, condescendência e tolerância do viajante, voltei a reincidir, por dever de ofício, neste trajecto que, há anos, não percorria. Longe estava de imaginar que a estrada de acesso se tinha degradado, mau grado o desenvolvimento rodoviário do país. Sabia, é certo, que, entretanto, surgiram as portagens, com os incómodos inerentes. Não esperava, no entanto, que as salas das estações de serviço se tivessem tornado em bebedouros públicos de garrafas de água de litro e meio. Por último, verifiquei que o "pessoal" ao serviço das estações aprimorou a sua competência social - ou seja, a conversa fiada - sem ter aprendido o essencial da poda, confundindo café com meia de leite.
Dizem os entendidos na matéria que não vale a pena reclamar do péssimo serviço, acautelando maiores dissabores futuros. Contudo, e seguindo a máxima de que à terceira é de vez, resolvi "pronunciar-me".

Passando da ficção à realidade, aviso que o acesso do cidadão ao ANTT implica:
1 - Solicitar, por escrito, autorização para consultar determinado livro. Passado duas semanas poderá ter que responder a perguntas suplementares sobre o perfil e idoneidade do consulente, aguardando, pacientemente, o despacho. Se tiver o azar de pretender consultar um "livro em mau estado", comunicam-lhe que, pagando o restauro de circa de 200 Euros (!), terá direito de o ver.
2 - Quando o investigador ainda consegue ter acesso a um livro, já restaurado, recebe instruções - rigidíssimas - sobre o seu manuseamento. No entanto, e finalmente sentado perante o livro, olha em volta e descobre o insólito: uma garrafa de água, de litro e meio, colocada, "discretamente", debaixo da secretária de uma outra leitora! 
3 - Pense bem antes de preencher o "Formulário electrónico de Pedido de Reprodução", uma vez que o ANTT já não dispõe de um auto-serviço de reprodução de microfilmes. A máquina desapareceu - sabe-se lá porquê - obrigando o utente a mais um empecilho e tempo antes de, e mais uma vez, dar com os "burros na água". De facto, o insólito espreita onde menos se esperava. Ou seja, de uma confusão entre os conceitos de foliação e paginação, além de uma leitura pouca atenta de um pedido de reprodução de 3 páginas - verso de uma folha inicial + frente e verso do 1º fólio do manuscrito seguinte - o utente recebe, passado duas semanas, uma fotocópia. Pois claro, era a imagem do fólio, marcado manualmente com o número três !

Afinal, o ANTT tem "pessoal" com enormes competências sociais, de conversa fiada, carecendo de uma formação profissional que lhe devia permitir cuidar, devidamente, da descrição bibliográfica das espécies bem como da sua reprodução. Nesse particular, e infelizmente, não se distingue do exemplo que lhe vem de cima.

Post de HMJ

De Brian Crain: "Reminiscence"

Auden, ainda


De Shorts II

O que tocamos é sempre
um Outro: eu posso afagar
a minha perna, não a Mim.
...
Quando eu era pequeno...
Porque será que esta frase inacabada
me incomoda tanto agora?
...
O que é a Morte? Uma Vida
desintegrando-se em
pequenos simples.

A ética (portuguesa) em diagonal

Comprometi-me, comigo mesmo, a não abordar mais, aqui no Blogue, o caso rasteiro e reles das ervas daninhas, ou relvas, se preferirem que eu seja mais explícito - é que o assunto já fede.
Mas estranho que o MEC (ministério da Educação...) e o magnífico Conselho de Reitores não tenham uma palavra a dizer. É pobre, é lamentável, é a prova provada da indigência destas instituições: parecem estar todos a esbracejar na sarjeta dos dejectos, tentando nadar, caladíssimos, para sobreviver. Assim vai a Ética em Portugal.

Maqueta-protótipo para uma árvore genealógica


Schubert para Miss Tolstoi, pelo seu aniversário

Que tenha um dia feliz, e conte muitos!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Uma rapidinha açoreana, para ter bons sonhos esta noite

Com vivos agradecimentos a ms.

Geleia de Limão - Do engenho e da Arte

Há algum tempo recebemos, por gentil oferta, uma quantidade de citrinos, limões e laranjas. Depois de encher o olhar com a frescura dos frutos, resolvi procurar receitas para aproveitar e prolongar a vida da dádiva, em frascos, fazendo geleia.

A receita era simples:
30 g de gelatina (que usei em pó)
1 kg de açúcar
9 laranjas (quantidade que tanto usei para as laranjas como para os limões)

Eis o engenho da feitura:
Com o sumo dos citrinos e o açúcar fiz uma calda, deixando-a apurar um pouco ao lume antes de juntar a gelatina, dissolvida em 60 g de água. Depois de juntar a gelatina à calda, fui mexendo até obter uma calda em "ponto de pérola", deitando, no final, as raspas da casca de vários limões (ou laranjas) para embelezar a geleia. A receita simples acolheu a aprovação, após degustação, de amantes de culinária e nasceram frascos, no PROSIMETRON, como os representados abaixo.


Para além de ter passado o engenho da receita, estava longe de imaginar que uma simples habilidade culinária se transformasse em Arte verdadeira que, de facto, não domino.
Ei-la ! E com o consentimento do artista, aqui vai o fruto de uma história, não de "perdizes", mas de citrinos.



Post de HJM, dedicado a A. de A.M.

Beethoven / Backhaus / Böhm (2)