segunda-feira, 8 de junho de 2015

2 reflexões de Tolstoi, a propósito de "Guerra e Paz"


"...O historiador, considerando exclusiva e singularmente o indivíduo em relação ao fim que visa, admite os heróis. Para o artista, que considera as relações do mesmo indivíduo com os múltiplos aspectos da vida, não pode e não deve haver heróis, mas apenas homens. ..."
...
"...A actividade desses homens só me interessava como esclarecimento dessa lei psicológica segundo a qual o homem que realiza o menos livre dos actos forja uma série de raciocínios retrospectivos, a fim de se provar a si próprio que é livre."

Considerações de Tolstoi, publicadas na revista "As antiguidades russas" (1888).

Auto-crítico, e com muitos itálicos


Ontem, depois de um modesto, mas saborosíssimo almoço, acompanhado por um fresco Chardonnay, da Casa Santos Lima, decidi-me a fumar um Montecristo, que me fora  generosamente oferecido por um bom amigo. E bebi, à falta de uma Adega Velha, uma competente Fim de Século, com uma pedrinha de gelo.
Por momentos, senti-me na pele de um Rendeiro (caridosamente absolvido, no seu primeiro processo, pelos amáveis juízes lusos) contemplando, embevecido, a sua pinacoteca privada. Imaginei-me Oliveira e Costa, deliciado, a observar os seus Mirós, sem pulseira electrónica, em casa. Ou o paquidérmico e facilitador agente da cultura, na Ajuda e sem dívidas ao Fisco, fumando um Cohiba, enquanto era entrevistado por Le Monde. Ao mesmo tempo que ia rabiscando uns apontamentos para o próximo policial, post-funções, e convalescente. Faltou-me só transportar-me até um resort em Cabo Verde ou Aguiar da Beira...
Ou seja, durante cerca de 15 minutos paradisíacos, vivi acima das minhas possibilidades. Será que a dívida portuguesa, por isso, subiu mais uns pontos? Fiquei a matutar.
Mas, depois, foi a ressaca. Durante quase 60 segundos, fiquei cheio de remorsos esquerdistas.

para H. N., aromaticamente.

Uma fotografia, de vez em quando (62)


Artista gráfico, pintor e escultor, mas também fotógrafo, Alexander Rodchenko (1891-1956) nasceu em S. Petersburgo. Teve um papel decisivo na difusão e implantação do modernismo na Rússia e foi dos primeiros artistas a praticar a fotomontagem.

domingo, 7 de junho de 2015

Uma definição breve de C. Bukowski (1920-1994)


Missão cumprida


Para lá dos dois casamentos felizes (Natacha e Pedro, Sónia e Nicolau) - que Tolstoi sempre é mais comedido do que Camilo - que se pressentem, anteriormente, da leitura de "Guerra e Paz", as 42 páginas finais da obra são consagradas a reflexões do escritor russo, sobre a História, a liberdade humana e a necessidade. Embora extensas, têm o seu interesse.

Laus Deo!

Em sequência e consonância, Comelade: "The Return of Lux Interior the Magician"


Palavras em desuso


Patriotismo é hoje uma palavra em desuso. Pior, para muitos, é considerada perigosa ou, pelo menos, envergonhante. A par com o vocábulo Património, por muita gente tido como uma abstracção romântica, despida de sentido e sem rentabilidade económica. Engrossam, no fundo, a categoria desses abencerragens embotados de espírito que, na segunda década do século XX, levaram à votação, na Câmara de Guimarães, deitar abaixo o Castelo, para com as pedras da fortaleza se calcetarem as ruas da cidade. O Castelo salvou-se por um voto, e ainda lá está. Como por cá andam, ainda hoje, os utilitaristas modernaços, bem como os leiloeiros e merceeiros burocratas que têm vendido o país ao desbarato. Coisas e resultado de um internacionalismo de direita, acrítico e sem cultura, que encontra grande prazer em arremedar, nos seus discursos, um léxico mascavado a imitar a língua inglesa, mas de raiz americana. Senhoritos pobres que talvez sejam felizes e se sintam mais importantes, assim.
Quem não valoriza a pertença nacional de um Crivelli, ou a permanência em solo português de um significativo acervo de obras de Miró, na minha opinião, é um pouco rombo de cabeça ou pobre de espírito. Os patacos por que serão trocados, rapidamente serão gastos em munificências de discutível qualidade e breve duração. E o país cada vez ficará mais pobre, mais desinteressante como destino de turismo cultural - hoje, muito procurado. Ficarão apenas esses turistas do eléctrico 28, que pouco deixam, mas tudo fotografam sem critério nem sentido estético de gosto.
O último L'Obs dedica algumas páginas à agressiva caça ao tesouro de várias instituições culturais (norte-americanas e europeias), na sua gula por obras importantes e acervos culturais significativos de artistas famosos, de forma a enriquecer o seu património. Seja ele nacional, ou estrangeiro, de origem. Algumas precauções chegam a parecer-nos insólitas. Surpreendeu-me, por exemplo, que a BnF (Biblioteca Nacional de França) faça deslocar, periodicamente, um Conservador da instituição, a casa do escritor Pierre Guyotat (1940) para registar os últimos livros que ele comprou, os seus apontamentos e até os SMS do seu telefone portátil, garantindo assim, antecipadamente, um acervo tanto quanto possível completo do artista. 
Como quase sempre, Portugal continua atrasado e na cauda da Europa. Os agentes culturais viegas e quejandos despacham crivellis, para poder continuar a fumar Habanos, outros pensando ser modernos e desempoeirados querem vender mirós e as jóias de família, para com esse dinheiro comprar bugigangas inúteis que, na sua parolice mental, lhes parecem indispensáveis. Patriotismo? Património? Isso já não se usa e é redundante!...

sábado, 6 de junho de 2015

Os favoritos


O Centro Virtual Cervantes (Espanha) tem um estudo estatístico sobre buscas na Internet, tendo publicado algumas conclusões interessantes sobre as preferências dos cibernautas espanhóis. Deixamos aqui algumas indicações de nomes que ocuparam os primeiros três lugares, pela frequência na procura:
a) Escritores de língua castelhana:
1. Pablo Neruda
2. Cervantes
3. Jorge Luis Borges.
b) Pintores espanhóis:
1. Picasso
2. Dalí
3. Goya.
c) Cinema:
1. Antonio Banderas
2. Pedro Almodóvar
3. Luis Buñuel.
d) Escritores estrangeiros:
1. E. Hemingway
2. G. B. Shaw
3. J. R. R. Tolkien.
Seria curioso termos acesso a um idêntico estudo estatístico sobre os cibernautas portugueses.

Ainda Tranströmer


Postais sombrios

II


Acontece que, pelo meio da vida, a morte chega
para nos tirar as medidas. Esta sua visita
é esquecida e a vida continua. Mas o fato
vai-se cosendo sem darmos por isso.

D. Shostakovich / E. Kurtz


Adagiário CCXXII : provérbio russo


Senhor, ajuda-me a dormir como uma pedra e a levantar-me como o pão.

Nota: citado por Tolstoi (Guerra e Paz, vol. III, pg. 68).

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mercearias Finas 102


Petingas, leitões, passarinhos fritos, choquinhos, borrachos, anhos...eu sei lá!?... A pedo-gastronomia lusa é abundante, em tenros animais recém-nascidos. Mas a França e a Espanha não lhe ficam atrás.
Estes animaizinhos marinhos - e nunca eu os tinha visto tão pequenos! - estavam no mercado a 11 euros, o quilo. E a procura era muita. Vieram para o jantar, os jaquinzinhos. Fritos, foram-se com broa e uma bela salada, com todos os matadores. Do vinho, branco e fresco, não reza a história.

De uma entrevista já antiga


A entrevista de Clara Ferreira Alves a Michel Houellebecq foi publicada na revista do Expresso de 23 de Maio de 2015, e sendo já velha, não deixa de ser interessante. O pequeníssimo excerto, que deixo em imagem, não sendo propriamente uma pergunta, é uma reflexão de C. F. A., com certo grau de objectividade que me apraz aqui deixar, para memória futura.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

AO, na versão brasileira


Um íncola, provavelmente sertanejo, mas prolixo e assertivo, escreveu, hoje (e veio ter ao Arpose), assim ao Google, como as criancinhas ao Pai Natal, as search words seguintes: "bloque do roke um hmom morrel em alta felosedade como ficou a carra do braian o connor". Deve ter seguido, à risca, o AO, na sua versão brasuca.
No sentido de ordenarmos as tendências e as variantes, eu sugeria que o nosso PR dos cidadões se reunisse com o íncola brasileiro, de forma a encontrarem vias comuns, para nos entendermos, de uma vez por todas...

Mais Wim Mertens

Apontamento 68: Grau Zero de Democracia



A miséria mental – e passe a cacofonia – da imagem acima tem andado a perturbar o meu espírito. Se por um lado sinto uma revolta profunda perante este “grau zero da Democracia” que estes CIDADÕES nos pretendem ensinar, porque ainda se arrogam o direito de mandar ler o que, certamente, muitos antes dele já compreenderam, julgo, por outro, que qualquer escrito sobre semelhante gentinha não merece o meu esforço. Mas há dias em que a náusea intelectual é superior ao pragmatismo.

1 – Registei, com alguma divergência de leitura dos preceitos legais em vigor, que o Palácio de Belém passou a ser sede de campanha para as próximas eleições LEGISLATIVAS;

2 – Nas suas atribuições que, aliás, o PR tem usado com largueza de mão e não de espírito, uma das condecorações futuras será para um Markus Kerber, teutónico. Alguém saberá o que fez para o país ???

3 – Cabendo ao Provedor de Justiça providenciar, atender, remediar o acesso desigual dos CIDADÃOS –  e é este o plural CERTO – parece que o actual titular se enquadra nesse “grau zero”, anémico, sem actuação própria, aguardando no seu poiso, enquanto o CIDADÃO não reclamar e vir a sua pretensão recusada por uma qualquer Directora de Serviço. Que será de uma imensa minoria de CIDADÃOS, sem prática, nem acesso à Internet, impossibilitados de introduzirem “as facturinhas para descontar no IRS” ??? Quem os defende ??? A Senhora Directora de Serviços da AT, para quem o Provedor de Justiça manda reclamar pela ÓBVIA desigualdade perante a Administração Pública, tão distante dos “info-excluídos” e da realidade do país?

4 – Faltava uma benesse cratiana no seu esforço de repor o estudo da cultura clássica aos pequenos – porque de “pepino” se aprende, sem dúvida. O problema é a falta de mestres.

Dou graças à luz do dia que me desvia, entre outras, destas misérias. E a revolta intelectual levou-me a ler outras misérias, que julgava ultrapassadas, como o “Processo de Damião da Góis na Inquisição” – citado de memória para obrigar a pesquisas.

 Post de HMJ


Divagações 90


Tenho que me arrancar, quase à força, do sofá da sala e da leitura, para vir respirar este ar de luz, junto à janela, ao começo da noite, como coisa essencial do dia que vai acabando.
Dois dos mais importantes escritores franceses da actualidade, Modiano e Houellebecq, foram mal-amados na infância e na adolescência. Quase abandonados pelos pais. Eu não me posso queixar.
Há uma neblina cinzenta sobre o rio. As andorinhas, lá fora, parecem desenhar metereóricos voos loucos, paralelos à minha janela. Numa autêntica vertigem visual.
E zilram, zilram com o seu coro agreste e insólito. Como que a querer agredir a noite que vai, agora, começar. 

Citações CCXXXIX


Escrevi esta carta mais comprida do que é habitual, porque não tive tempo de torná-la mais curta.

Blaise Pascal (1623-1662), in Lettres Provinciales nº 16 (1657).

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Retro (71)


Era assim em Coimbra, no Mondego, há 80 anos...

Da leitura (2)


Há pessoas que são discretas, cuidadosas com os livros. Tratam-nos com desvelo e deixam-lhes poucos sinais, para os vindouros: uma pequena mancha, um pó minúsculo de tabaco, um vinco atenuado de marcação, ao alto de uma página, onde a leitura fora interrompida, um dia...
Outras, têm a mão pesada: os livros acusam acentuado desgaste, vêm sublinhados (a lápis ou esferográfica, até), têm comentários ( que, porventura, serão avaliados por outros, no futuro), anotações despropositadas, algumas cabalísticas e subjectivas mensagens, muitas vezes, ingénuas.
Do livro de Tomas Tranströmer, que acabei de ler - emprestado por um amigo, seu segundo dono - há vestígios grosseiros e abundantes da primeira proprietária, que o terá comprado na FNAC do Colombo, a 25/2/2012, segundo indicação manuscrita.
Imensos comentários a lápis enxameiam uma boa parte das páginas da obra, há muitos sublinhados, observações feitas numa caligrafia tosca, que parece de criança. Mas não é.
E despachou cedo, o livro, essa sua dona inicial. Em justiça poética - talvez pouco isenta e muito rigorosa -, eu diria que a obra de Tranströmer, por sorte, libertou-se. E veio a encontrar folheadores e leitores muito mais respeitosos da sua integridade, por agora.
Até os livros têm sorte e/ou azar...

Edvard Grieg (1843-1907)


A par e passo 137


O conhecimento e a liberdade não são, decididamente, apanágio da natureza. Aquele pouco que os homens obtêm, conseguiram-no pelo esforço e conservam-no pelo artifício. A natureza não é liberal e não há nenhuma razão para pensar que se interessa pelo espírito. O espírito luta e estabelece-se contra ela. Os homens agrupam-se para agir contra o seu destino, contra o acaso, contra o imprevisto, que são as mais imediatas das coisas. Não há nada de mais natural que o acaso, nem de mais constante que o imprevisto.

Paul Valéry, in Variété IV (pgs. 38/9).

terça-feira, 2 de junho de 2015

Da leitura


A inacção de Kutuzov e a (forçada?) retirada de Napoleão de solo russo, que vão a par com a lenta aproximação do Inverno, despertam-me sensações e atitudes contraditórias, à medida que avanço para o final de "Guerra e Paz". Se a inacção bélica e o recuo parecem contagiar-me ao ócio, verifico, entretanto, que a velocidade de leitura, deste terceiro volume da obra-prima de Tolstoi, tem sido maior. Das 10/15 páginas iniciais, passei para as 20/25 páginas diárias, que faço à luz natural da varanda a leste, pelo fim da tarde.
Natacha, lentamente, desperta do desespero; já morreram André e Pétia, e Pedro, o mação bom-selvagem e marido atraiçoado, encontra-se num estado lastimoso, do ponto de vista físico, quando os compatriotas o libertam de prisioneiro dos franceses. A situação de desgaste dos dois exércitos acentua-se, ferozmente, sobretudo o das tropas napoleónicas. Mas os soldados russos, transidos de frio, com os 18º negativos, têm que abater bétulas, todos os dias, para fazerem fogueiras e se aquecerem, minimamente.
Eu vou-me deixando trespassar de lassitude e mornidão, pela amenidade dos 26º, positivos, que inebriam a varanda a leste.

Tomas Tranströmer (1931-2015)


Música lenta


O edifício está fechado. O sol entra pelas vidraças
e aquece, do alto, as secretárias
sólidas bastante para suportar o peso do destino.

É o nosso dia de saída, para a longa extensão dos taludes.
Muitos vestiram os fatos escuros. Podemos apanhar sol
e fechar os olhos e sentir o vento que nos leva, suave.

Eu, que raramente venho até à beira-mar, aqui estou,
por entre os rochedos cobertos por algas macias.
Rochedos que, lentamente, souberam emergir das águas.


Tomas Tranströmer, in Klanger och Spär (1966).

Nova versão de uma canção antiga


Não fora o patrocínio (Piaget), e tudo seria perfeito...
Mesmo assim, o envoi é para MR.

Falar sobre o tempo


Quando nós, portugueses, temos pouco ou nada para dizer, começamos, normalmente, a conversa a falar do tempo que faz. Ou fez, no dia anterior. Sempre pensei que isto fosse um hábito nacional. Parece que não. Os ingleses fazem o mesmo.
Samuel Johnson (1709-1784) chamava-lhe obsessão e, em 1758, escreveu o seguinte: "Quando dois ingleses se encontram, as suas primeiras palavras são sobre o tempo; estão ansiosos por dizer, um ao outro, aquilo que cada um deles já sabe, se está quente ou frio, claro ou nublado, ventoso ou calmo. ..."

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Comic Relief (109)

Brincadeiras de crianças, no Dia mundial da Criança... São eles que não se levam a sério, ou nós que não achamos graça a esta informalidade excessiva?

com agradecimentos a AVP (e a RSL).

Regionalismos transmontanos 82


1. Veliqueiro - que come pouco, que debica, biqueiro. Guloso.
2. Velisca - beliscão. Incisão com a unha.
3. Vendediço - que se vende bem.
4. Ventana - janela.
5. Venteada - leviana.
6. Ver o lobo - arrepiar-se, assustar-se. Ter os cabelos em pé.

Miscelânea infantil


Cumpra-se, então, o Dia da Criança (que todos, um dia, fomos), também por aqui, no Arpose.
Da primeira colecção de cromos, que tive, oriundos de pequeníssimas pastas de chocolate, até uma das iniciais colecções de livros infantis (Série Joaninha, Liv. Clássica Editora), que li - aqui ficam testemunhos parcelares em imagens.
Dessas efémeras, infantis ocupações lúdicas, faltam, por perdidos no tempo, uns rabiscos que eu fazia, recorrentemente, tentando representar uma ilha. Que não era a do Tesouro, de R. L. Stevenson, que só vim a conhecer e ler mais tarde. Mas que tinha personificados alguns camponeses e guerreiros, em manobras, um castelo, árvores, um porto, barcos e algumas casas rudimentares...

Adagiário CCXXI : Junho (6)


1. Lavra por S. João (24), se queres haver pão.
2. Vaca de vilão, se no Inverno dá leite, melhor dá no Verão.
3. Cerejas e más fadas, cuidais tomar poucas e vêm dobradas.
4. Por S. Pedro (29), fecha o rego.