sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Urbano, em contra-ciclo
Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), falecido há cerca de 4 meses, celebraria 90 anos, hoje, se fosse vivo. Preocupado com as estridências do momento, o mundo cibernético dos blogues pseudo-literários já o deve ter esquecido e, com certeza, poucos o irão lembrar. Há mais mortos ilustres, e mais recentes...
Mas eu gostaria de o recordar, mesmo que fosse só pelo que lhe deve a minha juventude, através deste texto manuscrito de Mário Cláudio (1941), onde o escritor portuense fala, também, do Alentejo. Exemplarmente.
com agradecimentos cordiais a A. de A. M..
com agradecimentos cordiais a A. de A. M..
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O tempo, a forma e o conteúdo
Ao ler em "Le Monde" (29/11/13), um pequeno texto sobre a perda de influência e esquecimento a que foi votada a obra da poetisa Anna de Noailles (1876-1933), outrora muito lida em França, dei-me a pensar em como os poemas, ou grande parte da poesia, fica indefesa perante o Tempo. Muitas vezes por ser excessivamente datada ou porque dedicada a um motivo que, com os anos, vai perdendo importância.
Em tempo de veleidade juvenil, eu costumava dizer, peremptoriamente, que um poema, para subsistir, não devia conter palavras demasiado actuais e concretas, como por exemplo: telefone ou máquina de escrever que, no futuro, poderiam assumir novas formas ou, pura e simplesmente, desaparecer. E que para os leitores vindouros seriam objectos obsoletos, sem significado, nem simbologia perpétua.
Porque, de algum modo, uma peça de teatro ou um romance adaptado ao cinema, até mesmo uma ópera, cujo tema com o tempo se tornou desajustado ou naïf, através de uma nova encenação imaginosa e inteligente, poderá adaptar-se aos nossos dias. Um poema dificilmente ressuscita. A menos que nele haja algo de misteriosamente intemporal ou mágico. Lembremos:
O sol é grande, caem co'a calma as aves,
...
...
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
2 greguerías alfabéticas
2. O i é o dedo mendinho do alfabeto.
Ramón Gómez de la Serna (1888-1963).
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Em louvor e agradecimento
Penso, às vezes, que a poesia que tinha para ler, já a li quase toda. Até porque comecei cedo e aos vinte anos, pouco mais ou menos, já conhecia muito da boa poesia japonesa, americana, espanhola, inglesa e francesa. Tardios, vieram Char e Auden, e acontece, de longe a longe, aparecer um jovem poeta português que me surprende pela originalidade criativa ou pela voz fresca e singular, e que escapa à monótona versalhada narrativa do quotidiano que, sem chama nem talento, se vai publicando em Portugal, numa ladainha de versos banais.
Dizia eu que penso que o que havia para ler de poesia, já o fizera quase por completo e dentro do que é possivel nos limites de uma vida humana. Mas depois, quando menos se espera, há uma surpresa feliz, à esquina do dia, inesperada, que nos enche de júbilo. Pois, ontem, o meu Amigo H. N., sempre atento a uma amizade firme, sensível e inteligente, presenteou-me, principescamente, com seis antologias de Poesia da Penguin, que encontrara e adquirira num alfarrabista lisboeta. E de que, em imagem, mostro 4. Tenho, agora, muito a desfolhar...
E não posso deixar de, comovidamente, lhe fazer este público agradecimento.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Citações CLXIII
A sabedoria dos velhos é um engano. Não é mais sábios que eles se tornam, é mais prudentes.
Ernest Hemingway (1898-1961).
Hábitos, escolhas e expectativas
Todos os anos, pelo mês de Dezembro, o TLS pede a um grupo alargado de escritores, académicos e outros intelectuais que indiquem os livros que mais gostaram de ler, nos doze meses anteriores.
É sempre com grande expectativa que eu percorro as listas dos escolhidos, em busca de um nome familiar e português, que tenha sido eleito, no conjunto das traduções feitas para a língua inglesa.
Julgo que apenas uma vez fui recompensado, ao verificar que George Steiner optara pela tradução de "A Viagem do Elefante", de José Saramago, livro que mais tarde viria a ser galardoado pela excelente tradução.
Este ano, tive uma meia compensação grata. Karl Miller (1931) escolheu um português de adopção: Antonio Tabucchi (1943-2012). E o livro "Pereira maintains" (Canongate), tradução do romance "Afirma Pereira" (1993), cujo enredo decorre em Portugal, nos anos do salazarismo.
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terça-feira, 3 de dezembro de 2013
As "Mamsellchen" da Buchholz
Em geminação com o Prosimetron, resolvi juntar umas achegas à observação, muito oportuna, de MR sobre as "velhas" da Livraria Buchholz.
A palavra escolhida para título do "post" exige uma explicação. "Mamsellchen", palavra pouco conhecida mesmo em alemão, vem do francês mademoiselle e refere-se àqueles meninas aristocráticas que, empobrecidas, passaram a servir, normalmente como cozinheiras.
Comecei a frequentar a Buchholz, na Duque de Palmela, ao almoço, por uma questão de proximidade do emprego de então e desfastio. Contudo, a procura de alívio em breve se tornava, muitas vezes, em suplício por causa das criaturas da livraria.
O espaço físico até era agradável, a escolha bibliográfica criteriosa, embora perfeitamente escondida no meio da completa desarrumação. As cerejas, podres, em cima do bolo eram, de facto, as "Mamsellchen", como suposta encarnação da "cultura alemã" em terra de ignaros.
No princípio entrava, disfarçada de "lusitana", com o objectivo de "tirar o retrato" àquelas abencerragens. Incomodava-me o seu perfil de "cão de fila" atrás do cliente, quiçá presumível ladrão, bem como a sua fala, ostensivamente mascavada para se distinguir dos indígenas, e o seu ar de superioridade.
Com efeito, um dia resolvi pronunciar-me. Estava à procura de um livro no meio da confusão quando uma delas achou que me devia dar um raspanete. Rosnei-lhe, em alemão, que não podia encontrar o livro, porque nunca tinha visto uma livraria tão caótica, nem livreiros tão antipáticos e saí porta fora.
Mesmo assim, nunca se "restabeleceu o universo" com aquelas criaturas, porque pertenciam a uma camada, de traço germânico, que não se recomenda, nem no país de origem e muito menos fora dele.
O curioso é que este misto de sobranceria e encarnação da cultura alemã, reprovável, passou para uns docentes universitários lusos, julgando, certamente como as "Mamsellchen", que umas leituras em alemão lhes transmitia, por contacto directo, o estatuto de pessoa culta.
Engano puro. Como qualquer imitação, ainda se tornam mais ridículos.
Post de HMJ, obviamente dedicado a MR
Para variar, de José Tolentino Mendonça
Uma vela acesa
Onde nada ameaça
sobrevém inesperado o temor:
um coração desce
à morada de outro coração
De culto
O policial The Maltese Falcon (na tradução portuguesa da colecção Vampiro, O Falcão de Malta), publicado por Dashiell Hammett, em 1930, transformou-se rapidamente num livro de culto, a que John Huston, em 1941, acrescentou fama e solidez ao realizar o filme homónimo, com Humphrey Bogart protagonizando a figura do detective Sam Spade. No meio de tudo isto, a icónica estatueta do Falcão...
Que, diz-nos o TLS, foi vendida num leilão de Nova Iorque, num abrir e fechar de olhos, pela etérea quantia de 2,5 milhões de libras...
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Obsessões
Às vezes, gostava de ser detective, para poder descobrir alguns mistérios...
Nesta altura do ano, é bastante normal, por parte de visitantes estranhos, a procura frenética e sistemática, aqui no Blogue, de postes e imagens de presépios, de pais natais, de cartões de boas festas, numa massificação regularmente monótona e previsível, correspondente às inquietações interiores de tanta boa gente.
Mas também há casos insólitos que poderão configurar extravagâncias, obsessões, mistérios. Dá-se o caso, ultimamente, que 2 visitantes se têm multiplicado em visitas sucessivas aos mesmos postes, facto para que não consigo encontrar uma explicação racional ou justificativa. Nos últimos 2 ou 3 dias, há uma visita que, clicando sistematicamente "angelina e raul", vem repetidamente parar a um poste antigo (8/9/2010), sobre Raul Brandão. E continua... O outro caso, retrata ainda uma maior persistência obsessiva. O cibernauta, nestes últimos dois dias, já visitou mais de 10 vezes um poste que transcreve, apenas, um poema de José Tolentino Mendonça (aqui colocado a 20/11/2013). E, muito embora no Arpose, haja mais dois poemas do Padre-poeta, o visitante autista clica, visita, revisita, lê (provavelmente) e relê sempre o mesmo poema, numa fixação que me parece doentia.
Às vezes, gostava de ser detective...
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Regionalismos transmontanos (16)
1. Botaréu - muro que retém terrenos em declive.
2. Branil - lugar que produz muita fruta.
3. Broça - vianda, comida para os porcos composta por água de lavar a louça, restos de legumes, batatas e farelos (com o mesmo significado conheço, no Minho, a palavra: lavadura).
4. Brotão - rebento de couve galega.
5. Bufardo - murro, sopapo.
6. Burgesso - homem atarracado e tosco. Estúpido e ignorante.
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Ofícios, religião e patronos
É já do século XIV, em Portugal, a disposição régia que obrigava a que arruassem, no mesmo local das cidades, os mesteirais do mesmo ofício. Daí, ainda se poderem encontrar, em Lisboa, a rua dos Sapateiros, a rua dos Remolares (fabricantes de remos), a rua dos Correeiros... Ou, por exemplo, em Guimarães, existir uma zona da cidade que dá pelo nome de Caldeiroa. Do ponto de vista imaterial, também era comum os artífices das diversas corporações colocarem-se sob a invocação de um santo patrono. E, se a corporação fosse rica, até lhe erigiam capela própria, se não, davam assistência e cuidavam, numa igreja próxima, de um altar dedicado ao santo patrono do respectivo ofício. Variando, ligeiramente, de terra para terra, eis alguns dos patronos dos diversos ofícios:
Sto. Elói: ourives.
N. Sra. da Silva: ferreiros (no Porto).
S. Jorge: barbeiros, serralheiros, cutileiros.
S. Miguel: canteiros, luveiros, albardeiros.
Sta. Catarina: livreiros.
S. Crispim (às vezes em conjunto com S. Crispiano): sapateiros, curtidores.
N. Sra. das Mercês: pasteleiros, torneiros.
S. José: pedreiros, carpinteiros.
S. Gonçalo: vidraceiros, tintureiros e tecelões.
N. Sra. das Candeias: alfaiates.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Callas, pelos 90 anos do seu nascimento
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O francês e a sua perda de influência
Do século XVII e até à primeira metade do século XX, o francês era, por excelência, a língua usada na diplomacia, como língua franca entre os diplomatas dos diversos países. Mas não só, e, em Portugal, era o segundo idioma, a partir do séc. XVIII, falado pelas famílias de mais posses e pelas elites cultas do país. Em Coimbra, Alberto de Oliveira, grande amigo de António Nobre, comprava, no próprio ano de saída, as obras poéticas de Verlaine, vindas de França.
E sempre foi assim, quase até aos anos 80 do século passado, quando, inexplicavelmente, a sua influência começou a declinar, ano após ano. O inglês(-americano) absorveu, por inteiro, o espaço criado. Hoje em dia, são raros os portugueses, com menos de 40 anos, que saibam falar e ler francês.
Deixo, por curiosidade e em imagem, um livro do poeta francês Guilevic, saído em 1949, que Alexandre O'Neill terá lido em 1953, pela sua marca de posse, manuscrita. E que faz parte da minha biblioteca, desde Julho de 2008. Comprado num alfarrabista de Lisboa, o livro foi baratíssimo, porque os livreiros, nos nossos dias, têm já alguma dificuldade em vender livros em francês, usados. E põem-nos, frequentemente, a baixo preço.
Pinacoteca Pessoal 64 : Winslow Homer
Chamavam-lhe o Robinson Crusoé do pincel, ou ermita, porque, por volta de 1870, abandonou a vida social e se isolou passando a viver num farol, tendo a partir daí pintado magníficas marinhas, algo dramáticas, revelando a força da Natureza e a sua grande qualidade de paisagista. Winslow Homer (1836-1910), bostoniano, fez a sua aprendizagem com a mãe, que era uma aguarelista amadora, com algum mérito. Curtas estadias em Paris e na Inglaterra, permitiram-lhe o contacto com as novas correntes da pintura europeia. É, hoje, porventura considerado um dos grandes pintores de marinhas, americano. Como aliás se pode ver, por este óleo, Northeaster, pintado em 1895, e que, oferecido por George A. Hearn, integra o acervo do MOMA (Nova Iorque). O contraste entre o escuro do horizonte, de fundo, e a alvura emergente das águas revoltas, atesta a tempestade, o vento forte e as marés vivas, mas também a qualidade da obra de Winslow Homer, em toda a sua plenitude de Artista.
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domingo, 1 de dezembro de 2013
Filatelia LXXIX
Seria uma temática bem interessante, a dos selos relacionados com a ilha (ou pequeno arquipélago) de Helgoland, no Mar do Norte, se não se desse o caso de as primeiras (20) estampilhas, que circularam no território, então inglês, embora impressas em Berlim, não tivessem sido objecto de várias falsificações e sucessivas reimpressões. Que, pela sua perfeição, muito dificilmente se distinguem dos selos originais.
A história de Helgoland é deveras atribulada. Até ao século XVIII, era domínio da Dinamarca, tendo passado, depois, para a posse da Inglaterra. Daí, grande parte dos selos (de 1867 a 1889) da ilha terem, como tema principal, a efígie da rainha Victoria. Em 1890, pelo tratado de Heligoland-Zanzibar, a Inglaterra cedeu à Alemanha os direitos do pequeno Arquipélago (que dista apenas 46 km. das costas alemãs), em troca da ilha de Zanzibar (África oriental). A partir desta data, Helgoland passou a usar selos germânicos.
Periodicamente, a Alemanha emite selos com motivos sobre a ilha. Na fila de baixo, e da esquerda para a direita, reproduzem-se, em imagem, 3 selos alemães de 1940, 1952 e 1972, respectivamente.
Advento
Hoje, primeiro Domingo do Advento, já tinha recebido a minha coroa, com as quatro velas, uma para cada Domingo. De manhã, ao acender a primeira vela, lembrei-me logo da lenga-lenga que, na infância, repetíamos vezes sem conta:
Advent, Advent, ein Lichtlein brennt.
Erst eins, dann zwei, dann drei, dann vier,
dann steht das Christkind vor der Tür !
[ou seja, contar até quatro, ao acender uma vela cada Domingo,
à espera do Menino Jesu e, claro está, dos presentes.]
Ontem ficaram também prontos os bolos de Natal [= Christstollen], agora a repousar, para tomar gosto, como manda a lei.
Ao provar umas aparas, houve quem declarasse que não era preciso esperar tanto, porque já se comia muito bem !
Post de HMJ
Rosa de Dezembro
porque assim é a rosa!
Juan Ramón Jiménez
Nota: esta rosa (e como elas são difíceis em Dezembro!...) da varanda a leste, abriu entre Novembro e Dezembro, mas já estava prometida a sua imagem, antecipadamente.
O dístico perfeito de J. R. J., que traduzi, aplica-se objectivamente ao poema findo e completo. Mas também merece a beleza desta rosa perfeita.
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Traduzir, segundo D. Mourão-Ferreira e Valery Larbaud
Na introdução às Poesias de Guilevic, editadas pela Editora Ulisseia, em 1965, David Mourão-Ferreira, com a prática de tradução que lhe assistia, escreveu o seguinte:
"... O que mais interessa, aliás, numa tradução de poesia, é obter uma série de correspondências - de ritmo, de tom, de atmosfera, de sentido -, ainda que para tal se tenha de entrar em guerra aberta com o Dicionário. Valery Larbaud, que discorreu como ninguém mais, sobre «a arte e o ofício» do tradutor, sublinhou a importância, entre todos os outros, do «Dicionário da nossa memória», observando, nomeadamente, que, por mais contrário que pareça toda a lógica, «uma única e mesma palavra, empregada pelo Autor em duas diferentes passagens não será sempre traduzível pela mesma palavra nas duas passagens correspondentes».
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Adagiário CLXV : Dezembro (4)
2. Por S. Nicolau (3), neve no chão.
3. Em Dezembro descansa, em Janeiro trabalha.
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