terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sobre a dificuldade em Poesia



A propósito da dificuldade em perceber, inteiramente, alguns poemas ou poetas, George Steiner (1929) diz numa entrevista: " Leio todos os dias Heráclito e certos poetas modernos como Paul Celan, e ainda quando talvez não compreenda bem os textos, aprendo-os de cor para que façam parte integrante do meu ser . A obra de súbito acolhe-me, sem se explicar e eu acedo finalmente ao poema. Nem por isso posso voltar para os meus seminários proclamando que enfim compreendi a obra, o que seria ao mesmo tempo arrogante e pretensioso. Todavia, é verdade que a incompreensão se transformou em amor, em fertilidade, em acto de confiança perante aquilo que me escapa."

D.Sebastião, o Desejado, (20/1/1554 - 4/8/1578)



O "Sebastianismo" é uma das diagonais mais profundas da mitologia portuguesa. Chame-se, ou tenha-se chamado: "saudosismo", fado, "Nova Renascença", Sidónio Pais, Salazar, iberismo... Mas esta espera por um milagre que se atrasa, ou não se cumpre inteiramente, é ,porventura, também origem de uma qualidade imperfeita que nos define enquanto portugueses: o "desenrascanço". As soluções de improviso de quem espera até ao limite e tem, no último momento, de arranjar uma saída para o problema ou crise que não se resolveu por si, nem por alheios factores,nem com o tempo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Eugénio de Andrade, ainda





Sobre Eugénio de Andrade que amanhã, 19 de Janeiro, completaria 87 anos, e sobre a momentosa decisão da Presidência de Conselho de Ministros que avalia a hipótese da extinção da Fundação com o nome do Poeta, sita na Foz/ Porto, há ainda tempo para relembrar o autor de "Até Amanhã"; ou sepultá-lo, mais uma vez.

Espero que prevaleça a gratidão e o reconhecimento em relação a Alguém que não "usava o coração com usura" e que nos deixou alguns dos mais belos poemas líricos do século XX, na Literatura Portuguesa.

P.S.: o pequeno texto "Post Scriptum sobre a alegria",reproduzido acima, sublinhava a exposição de Angelo de Sousa, na Cooperativa "árvore" do Porto, em 1964.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Como de Camus passei a Cioran, passando por O'Neill



Neste domingo, de amena temperatura, que mal parece de Janeiro, vou pela rua Garrett, com um objectivo bem definido: comprar na Fnac o último livro, inacabado, de Albert Camus - "Le Premier Homme". O manuscrito estava na mala do escritor , dentro do carro acidentado, onde perdeu a vida, juntamente com o editor Gallimard. A mulher tinha optado por não o publicar, mas a filha, Catherine, decidiu editar a obra inacabada, em 1994. Mesmo assim, grande parte dos críticos literários consideraram o romance uma obra-prima. Nunca o li e estava com grande vontade de o comprar, até porque era um dos poucos ou o único livro de Camus que não lera. Já na Fnac, percorro, atenta e milimetricamente, as prateleiras, e nada. O autor de "A Queda" tinha sido avidamente comprado e, por junto, restavam apenas 2 exemplares de "L'Homme Révolté".

Desanimado, procuro compensação. Acabo por trazer de Alexandre O'Neill "Anos 70 - poemas dispersos" que lera no DL, mas não tinha em livro; e de E. M. Cioran "Ébauches de Vertige" que, só depois me apercebo, contém excertos do volume "Écartelement", livro que eu já tinha. Mas vou lendo. Respigo de Cioran, uma amostra do que poderia ter sido o início de um romance de terror, não fosse o autor um preguiçoso confesso da escrita continuada e persistente e que, praticamente, só nos deixou admiráveis aforismos e pequenas reflexões, e memórias. De Camus, por exemplo, nunca gostou muito.

Mas aqui vai o texto de Cioran, em tradução livre e despreocupada de domingo:

"Paris acorda. Nesta manhã de Novembro, ainda está escuro: avenida do Observatório, um pássaro, um único, ensaia o seu cantar. Paro e escuto. De repente, uns grunhidos nas proximidades. É impossível saber donde vêm. Avisto entretanto dois ¨clochards¨ que dormem debaixo de uma camioneta. Um deles deve ter tido um pesadelo. Afasto-me rapidamente. Na ¨Place Saint-Sulpice¨, num urinol, dou com uma velhinha semi-nua. Dou um grito de horror e precipito-me para dentro de uma igreja, onde um padre corcunda, com olhar maléfico explica, a uma quinzena de deserdados de idades muito diversas, que o fim do mundo está próximo e o castigo será terrivel."

Memórias de Infância




Theodor Storm, Pole Poppenspäler



Theodor Storm (14.9.1817 - 4.7.1888), escritor alemão - de poesia e prosa - integra-se numa corrente literária do Realismo que, com cambiantes e influências próprias, cobriu, genericamente, o espaço europeu da segunda metade de século XIX.

São as novelas de Th. Storm que, no momento, mais nos interessam. Falamos, então, de pequenas narrativas em que a sua terra dos Frísios encontra, para além do enredo, um cativante espaço geográfico e afectivo a descobrir. São, de facto, os nativos que, por norma, conseguem traduzir melhor a singularidade do seu ambiente de pertença.

No entanto, o que poderá cativar, ainda, a leitura das pequenas novelas de Th. Storm, não sendo ele um dos escritores realistas de primeira linha, será, porventura, a frescura das suas palavras. Emprestando, com frequência, a sua voz a uma personagem de tenra idade, transporta-nos para um universo ficcional duplo. O enredo no seu conjunto, marcado por uma perspectiva realista do universo ficcionado, transmitido pelo olhar das crianças. A diferença de escala da vida dos adultos tem, para os pequenos, um encanto que, não obstante a rudeza do real, se transforma em mistério.

A pequena novela Pole Poppenspäler - com cerca de 300 edições registadas na Biblioteca Nacional da Alemanha, traduzida em vários idiomas, entre eles o inglês e o francês - conta-nos a vida, quiçá miserável, de uma família de saltimbancos que se dedica, de alma e coração, à apresentação de espectáculos de marionetas. Uma vida reprovável pelos adultos nativos de qualquer localidade, embora acolhida num espaço e numa realidade de trabalho sem grandes momentos de lazer, fará, no entanto, o encanto das crianças. Sem preconceitos percorrem os espaços estranhos da representação, convivem com os forasteiros, tornam-se amigos e, nos final, até marido e mulher.


Para sublinhar o encanto da escrita para a infância, e não só, nada melhor que recordar a Sinfonia de Brinquedos do pai de Mozart.


Post de HMJ

Apollinaire, Raoul Dufy, D. Pedro e o Dromedário


Os temas de origem portuguesa são raros na iconografia e literatura estrangeira. Destacam-se Pedro e Inês (Claudel), o terramoto de Lisboa, as "Cartas Portuguesas" de Mariana Alcoforado, e pouco mais. Menos conhecido, há um poema de Apollinaire, "Le Dromadaire", ilustrado por Dufy para "Le Bestiaire ou Cortege d'Orphée" que, apesar de algumas imprecisões, merece ser lembrado:


"Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro de Alfaroubeira
Courut le monde et l'admira.
Il fit ce que je voudrais faire
Si j'avais quatre dromadaires."

P.S.: com agradecimentos a H.N..

sábado, 16 de janeiro de 2010

A segunda morte de Eugénio de Andrade



No próximo dia 19 de Janeiro completam-se 87 anos sobre o nascimento de Eugénio de Andrade (1923-2oo5), poeta que tive o grato privilégio de conhecer pessoalmente. Em Junho próximo farão 5 anos sobre a sua morte. Mas parece que há gente, interesses e negligências apostados,

de uma forma mesquinha e sórdida, em sepultá-lo, mais uma vez.

O jornal "Público" de hoje faz-se eco de desavenças, equívocos e razões economicistas e de "Estado" que poderão levar ao colapso e desaparecimento da Fundação Eugénio de Andrade, sediada na Foz/Porto.

Para lá do poema que vou transcrever, abaixo, voltarei a Eugénio, proximamente.

"Frente a Frente


Nada podeis contra o amor.

Contra a cor da folhagem

que renasce,

contra a carícia da espuma,

contra a luz, nada podeis.


Podeis dar-nos a morte,

a mais vil, isso podeis

- e é tão pouco!"

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Miguel Torga




No próximo domingo, 17 de Janeiro, completam-se 15 anos sobre a morte de Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Rocha (1913-1995) escritor médico que, em 1960, no seu "Diário IX" escreveu estas sábias palavras : " É uma tristeza! Tudo esquece. Ou prescreve, como ouvi a um optimista. Até mesmo as horas mais intensamente vividas acabam por se apagar da memória.

A folhear há pouco um velho caderno de notas, verifiquei esta desgraça: quando não explicitei a ressonância que tiveram no meu espírito certos acontecimentos, só a muito custo e brumosamente consegui relembrá-los. Passava por cima das datas que simplesmente os assinalavam como os turistas pelos claustros pavimentados de lajes funerárias, onde apenas se lê o ano de nascimento e o da morte dos anónimos humanos que sob elas apodrecem."

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Poesia Provençal



Guilherme de Aquitânia (1071-1127), nono duque de Aquitânia e sétimo conde de Poitiers, foi poeta e guerreiro. É considerado um dos grandes nomes da poesia provençal. Há um poema, de sua autoria, que irei traduzir, parcialmente, abaixo, muito ambicioso na intenção. Guilherme de Aquitânia queria fazê-lo do nada; ou seja, que ele fosse pura poesia: início, meio e fim. Não sei se o conseguiu, mas tentou...


Farei um poema do puro nada.
Não falarei de mim nem de outra gente.
Não celebrará o amor nem juventude
nem coisa alguma,
só que o poema foi composto
dormindo sobre um cavalo.


Não sei a que horas nasci,
não estou alegre nem triste,
não sou estranho ou sociável,
e não posso fazer outra coisa,
que para isto fui de noite fadado
no alto de uma montanha..."

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Citações VIII : D. Francisco de Portugal

" Os tímidos roubam a si mesmos."

"Dos pequenos as culpas se chamam grandes, e as dos grandes pequenas."

"A boa fortuna não somente faz as obras mas autoriza as palavras."

in "Sentenças" de D. Francisco de Portugal (1485?-1549), 1º Conde de Vimioso.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Memória 9 : Éric Rohmer



Importante cineasta europeu, Eric Rohmer (1920-2010) realizou "A minha noite em casa de Maud" e "O Joelho de Claire", entre muitos outros filmes em que as palavras e os diálogos tinham um lugar nobre e imprescindível.

Escreveu também "Seis contos morais", em cujo prefácio diz : " A angústia das minhas seis personagens em busca de história reproduz a angústia do próprio autor perante a sua própria impotência criadora, que o processo quase mecânico de invenção aqui utilizado - a variação acerca de um tema - só imperfeitamente dissimula."

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Salão de Recusados VII : Nuno Bragança

"Eram 11 horas da manhã quando o homem reentrou na sua casa. O vazio dela não o angustiou no imediato, sentia-se cansado de mais para encontrar quaisquer pessoas.
Sentado no living escurecido pelos estores corridos, fumou metade de um cigarro, de que apagou o resto no cinzeiro branco, e carregou na alavanca que havia no centro do objecto. O disco de metal girou, fazendo desaparecer cinza e resto de cigarro no bojo do cinzeiro: o ruído metálico que ele ouvira através do vidro fosco iluminado, quando se dirigia do telefone à casa de banho às quatro e trinta da outra manhã.
Pensou em tomar banho, desistiu. Não lhe apetecia rever a casa de banho.
Entrou no quarto de casal onde pairava o perfume da mulher. Acendeu a luz porque o estore estava baixado e as cortinas tinham sido corridas. Abriu a cama. Enquanto se despia teve a impressão fugaz de ouvir ao longe a voz de uma mulher cantando
"Quem quer figos
quem quer almoçar"
Ficou imóvel, mas o som não se repetiu. Então meteu-se nu na cama e fechou os olhos.
Os ruídos da cidade chegavam-lhe remotamente aos ouvidos, o quarto estava quase silencioso e escuro.
O homem tentou relaxar o corpo, não pensar. Imagens da sua directa esbombardeavam-lhe a sensibilidade. Estava difícil o encontrar o vácuo necessário ao pegar do sono. Sem premeditação, o homem falou alto, na sua casa vazia. E disse:
"Vigiei trinta e uma horas seguidas. Acho que se não foi conTigo é porque não ressuscitaste."
Os minutos decorriam e ele não conseguia adormecer. Parecia-lhe que nunca mais ia conseguir adormecer."

( final ) de "Directa" de Nuno Bragança (1929-1985).

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um Poeta (quase) desconhecido

Sabe-se pouco sobre Joaquim Fortunato de Valadares Gamboa (1745-1815) e, o pouco mais que se sabe, hoje, é devido ao trabalho persistente e silencioso de Pedro da Silveira (1922-2003), também ele poeta, que publicou em 1999, em edição de "O Mirante - Jornal da Região do Ribatejo", Santarém, uma "Antologia Poética" do autor, na colecção "Alma Nova".
No panorama, um pouco desolador, da poesia portuguesa do sec. XVIII, encontram-se, por vezes, pequenas "pérolas" de poetas (quase) desconhecidos que nos deixaram versos que merecem alguma atenção. Eu tinha lido Valadares Gamboa no princípio dos anos 80, e sempre gostei deste soneto despreocupado mas realista, simples e despretencioso que o poeta,nascido em Lisboa, na freguesia da Madalena, escreveu à beira-rio. Aqui vai ele:

"Os seus nédios rebanhos pastorando
Além andam no campo os pegureiros;
Ali na seca praia estes barqueiros
A rota lancha estão calafetando;
Sobre as tortas fateixas balançando
Vejo dos ovarinos dois saveiros;
Carregado de pobres passageiros,
Um côncavo batel cá vem chegando;
Lá vão barcos à vela de água acima; Aqui passa de gente uma barcada;
Aquele ao duro peito a vara arrima;
Eu sobre esta muralha escalavrada
Isto que vejo vou compondo em rima, Porque não tenho que fazer mais nada."

Favoritos V : Soutine






Parece que tinha mau feitio...


Chaim Soutine nasceu na Lituânia - integrada na Rússia, nessa época - a 13 de Janeiro de 1893 e veio a falecer, em Paris onde se radicou em 1913, no ano de 1943. Foi grande amigo de Modigliani (1884-1920) que o retratou algumas vezes. A pintura expressionista de Soutine, na minha opinião, parece ter como antecedentes Bosch e El Greco, e, como sequente, Francis Bacon. Nunca pintava de memória, mas sempre com o modelo à sua frente.


Maurice Genevoix (1890-1980), esse grande esquecido, retrata-o, assim, no seu texto "O Vairão" do "Tendre Bestiaire": "...O homem, macilento e magro, com um chapéu de feltro cinzento muito enterrado na cabeça, de olhos escuros, ardentes, quase febris, falava alto, era o único a levantar assim a voz dentro do veículo, com uma autoridade talvez demasiado confiante e forçada, onde havia um certo tom de provocação."

sábado, 9 de janeiro de 2010

Bibliofilia 4 : Paul Verlaine



Nos anos oitenta do século passado, comprei, num alfarrabista de Lisboa, um voluminho - em bom estado de conservação - de poesias do poeta simbolista francês Paul Verlaine (1844-1896). A obra foi das últimas publicadas, em vida, do autor. Tratava-se de "Liturgies Intimes", impresso em 1892. Custou-me, na altura, Esc.2.200$00 (cca. Euros 11,00).
O pequeno livro tinha pertencido, inicialmente, a Alberto de Oliveira (1873-1940), poeta e grande amigo, que fora, de António Nobre (1867-1900), e tinha, na capa, marca de posse manuscrita: "Coimbra 1892 / Alberto d'Oliveira". O que quer dizer que os nossos poetas estavam actualizados na leitura dos seus congéneres estrangeiros.
Em Novembro de 2008, esta mesma edição, mas na sua vertente especial (de apenas 375 exemplares), estava à venda, por $654 dólares (cca. Euros 939,00), na "Libraire Laurent Coulet" e uma outra, edição normal, mas 2ª edição (1893), vendia-se por Euros 200,00, na "Libraire La Monne".
P. S.: para MR, que aprecia esta rubrica.

Luísa Todi





Luísa Todi nasceu em Setúbal, em 9 de Janeiro de 1753, tendo falecido a 1 de Outubro de 1833, em Lisboa, cega e desprovida, quase, de meios de subsistência. Foi célebre pela excelência da sua voz: Beethoven chegou a aplaudi-la. Cantou na Rússia, Itália, Alemanha e em Portugal, sempre com grande sucesso.
A tragédia da Ponte das Barcas, no Porto, aquando da fuga da população perante a invasão dos franceses, foi-lhe nefasta: perdeu grande parte dos seus bens. O excerto de "Armida e Rinaldo", de Giuseppe Sarti, fazia parte do seu repertório. É cantado, aqui, por Gloria Banditelli.

Para quem se queixa do frio...





"...Fui ver: a neve caía
do azul cinzento do céu..."
Augusto Gil (1873-1929)
P.S.: as fotografias foram tiradas em Coblença-Alemanha. Numa delas, vê-se o rio Reno .
Foram tiradas por M. J. Gschossmann.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Memória 8 : François Miterrand



Completam-se, hoje, exactamente 14 anos sobre a morte de François Mittérrand (1916-1996). Homem de cultura, político "florentino", resistente e persistente na luta pelo poder, amigo do nosso 25 de Abril, é bom lembrá-lo, neste tempo de políticos menores e videirinhos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ironias de Quevedo



Na "Origen y difinición de la necedad, con anotaciones a algunas necedades de las que se usan", Quevedo (1580-1645) escreveu:


"Que não se leve dinheiro pelo enterro dos poetas, nem dos músicos, nem dos valentes porque se esforçam mais em morrer do que todos os outros, em enterrá-los."

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Dia de Reis



Sendo Dia de Reis (e feriado no tempo da minha juventude) que se celebra, com toda a propriedade, em Espanha e na Bélgica, sendo eu,embora, laico e republicano, porque não? lembrar D. Luis (1838-1889) que até traduziu William Shakespeare, pintava e era um rei liberal, bonacheirão,(embora tivesse uma esposa que se pelava por luvas, como Imelda Marcos por sapatos) e que permitiu a criação de partidos políticos - com ampla e régia magnanimidade.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Adagiário III : Luar de Janeiro



1. Ao luar de Janeiro, se conta dinheiro.


2. Luar de Janeiro, não tem parceiro, mas lá vem o de Agosto que lhe dá no rosto.


3. Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Citações VII : ainda Albert Camus



"A arte tem movimentos de pudor. Não pode dizer as coisas directamente."


"Cahiers", Albert Camus (1913-196o)

De Memória e com Afecto



A literatura infantil (e, de algum modo, a juvenil) quase sempre foi tratada como parente pobre nos estudos literários. Quando de qualidade, as obras para crianças ou adolescentes, são alicerces estruturantes na formação de mentalidades e na criação de princípios éticos, sociais, de justiça, solidariedade e liberdade.


domingo, 3 de janeiro de 2010

Nos 50 anos da morte de Albert Camus






Completam-se, amanhã, exactamente 50 anos sobre a morte de Albert Camus (1913-1960), num brutal acidente de viação. Figura incontornável quer no desespero existencial do seu pensamento, quer na esperança quase juvenil e generosa de pensar o futuro, A.C. foi Prémio Nobel de Literatura, em 1957. Algumas das suas obras, mais importantes, ajudaram a crescer a minha geração. Destaco "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo" que ele terminava com esta frase lapidar : "É preciso imaginar Sísifo feliz."


Transcrevo um pequeno excerto do discurso que Albert Camus pronunciou, em Estocolmo, quando recebeu o Prémio Nobel. São palavras, ainda hoje, de grande actualidade.


"...Cada geração sente-se, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje destruir tudo, mas não convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir o ódio e a opressão, esta geração tem um débito para com ela mesma e para com as próximas gerações, que é restabelecer, a partir das suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer..."

sábado, 2 de janeiro de 2010

Favoritos IV : Alain Vanzo

A primeira vez que ouvi um excerto musical da ópera "Os Pescadores de Pérolas" de Georges Bizet (1838-1875), foi no cinema "Garrett" da Póvoa de Varzim. Esse pequeno excerto era difundido, imperterivelmente, antes de as luzes se apagarem e o filme começar. Isto, no mês de Agosto desses meus anos longínquos e juvenis. Eu achava esse pequeno excerto musical uma maravilha, mas, só muito mais tarde, vim a saber que era Bizet o seu criador.

A primeira vez que ouvi a ópera completa, o papel de tenor era interpretado por Alain Vanzo (1928-2002), nascido no Mónaco. Houve um tempo em que ele era considerado um dos melhores tenores de língua francesa. A ária "Je crois entendre encore..." cantada por Vanzo, justifica toda uma vida - na minha modesta opinião musical e pessoal.

Fascínio de Temas entre as Artes



Poucos quadros terão provocado o fascínio que "A Queda de Ícaro", de Pieter Brueghel, o Velho, exposto no Museu das Belas Artes, em Bruxelas, exerceu sobre tantos poetas.

A singularidade da obra reside, essencialmente, no facto de a figura de Ícaro - que dá nome ao quadro - ser quase imperceptível: apenas uma das pernas se lhe vê, fora das águas, porque o restante corpo está submerso. Por outro lado, quem trabalha não interrompe o que faz, apesar da queda (e morte) de um homem. A situação leva-nos, na sua origem, até um provérbio flamengo antigo que diz, mais ou menos, o seguinte: "Não é por um homem morrer que o lavrador deixa de lavrar."

É por aqui que W. H. Auden começa o seu poema "Musée des Beaux-Arts": "Sobre o sofrimento os antigos nunca se enganavam..." Além de Auden, também William Carlos Williams escreveu um poema sobre o mesmo quadro: "According to Brueghel/ when Icarus fell/ it was Spring..."; entre poetas de primeira água, Gottfried Benn tem dois poemas sobre o tema, e Michael Hamburger compôs "Lines on Breughel's Icarus". Muitos outros poetas abordaram, em verso, este célebre quadro: Edward Field ("Icarus"), Anne Sexton ("To a Friend whose work has come to triumph"), etc.

Em relação à obra de Pieter Brueghel, o Velho (1525-1569), que terá sido pintada entre 1555 e 1558, se não é rigorosamente segura a atribuição de execução ao pintor, é pelo menos certo, que a concepção do quadro lhe é atribuída, com segurança.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Salão de Recusados VI : Auto-Retratos



Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão de altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
de zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Sairam dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage (1765-1805)

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Retrato

Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.

Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo , Grego, Grego!
Homem, seja onde for.

Romano na ambição,
Oriental no ardil,
Latino na paixão,
Europeu por subtil:

Homem sou, homem só
(Pascal:"nem anjo nem bruto"):
Cristãmente , do pó
Me levante impoluto.

Vitorino Nemésio (1901-1978)

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O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada...)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer

___Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
___do que neste soneto sobre si mesmo disse.

Alexandre O'Neill (1924-1986)


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Boas Entradas



Não queria acabar 2oo9 sem citar o meu poeta português preferido: Sá de Miranda. Dele, o começo de um soneto dedicado a Diogo Bernardes:


"Neste começo de ano em tão bom dia,

tão claro, porque não faleça nada,..."


para desejar a Todos umas boas Entradas!

Memória 7 : Henri Matisse



Matisse (1869-1954), pintor francês, nasceu, faz hoje precisamente 140 anos, a 31 de dezembro.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Adagiário II : S. Silvestre



1. Quem vai a S. Silvestre, vai num ano, vem no outro e não se despe.


2. Dia de S. Silvestre, quem tem carne que lhe preste.