sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Uma fotografia, de vez em quando (27)


Haverá, com certeza, diferenças de mérito entre a, provavelmente, encenada fotografia Le Baiser de l'Hôtel de Ville (1950), de Robert Doisneau (1912-1994) e a placidez tranquila e natural do retrato de Jacques Prévert, sentado, num café, junto a uma menina (filha? neta?), tirado também pelo fotógrafo francês.
Sob fria análise mental do espírito humano, a justiça poética há-de privilegiar, quase sempre, o autêntico, em detrimento do espectáculo. Ainda que só intimamente, e não de forma expressiva e pública.

Inesperado


Nunca tinha ouvido Jacqueline du Pré tocar piano. E este é um pretexto raro, acrescido do ambiente informal e agradável a que Daniel Barenboim acrescenta cumplicidade e alegria, nesta bonita sonatina de Friedrich Kuhlau (1786-1832).

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Simenon era muito bem frequentado...


Mais uma tradução, para memória futura.

Curiosidades 21


Consultado Le Petit Larousse, o conciso dicionário francês é relativamente sucinto a explicar a palavra snobismo: "admiração por tudo o que está na moda". Ao contrário, o (grande) Larousse, citado por Pierre Daninos (1913-2005), no seu Snobíssimo (1964), é bastante mais prolixo e elucidativo. Assim:
"Snob: significa propriamente um sapateiro, um remendão. Compreende-se que se tenha podido dar, irrisoriamente, este nome àqueles que opinam a respeito de tudo sem nada saber. Outros vêem na palavra snob uma contracção de sine obolo, «sem vintém», outros a abreviatura de sine nobilitate; outros, finalmente, observam que os filhos de lordes eram inscritos nas listas dos colégios com a menção fil. nob. (filius nobilis), o que originou a denominação de nobs que lhes davam; os que se esforçavam por imitar os nobs teriam sido chamados quase-nobs e, por abreviatura, snobs. Não foi, como geralmente se crê, o Livro dos Snobs, de Thackeray, que introduziu este termo na linguagem corrente. Antes de o publicar, o autor de Vanity Fair tinha colaborado numa pequena revista humorística e satírica intitulada The Snob."

Bibliofilia 95


Esta obra de Alexandre Herculano, em três volumes, "Da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal "(1854/1855/1859), editada pela Imprensa Nacional, é considerada rara, por alguns alfarrabistas, muito embora apareça com alguma frequência, em leilões.
O meu exemplar dessa primeira edição, com um Ex-libris naïf mas curioso, custou-me no início dos anos 80, do século passado, Esc. 3.500$00, num alfarrabista de Lisboa, e está encadernado e em bom estado.
Em 1964, o "Mundo do Livro" (Catálogo 4), no seu lote 2715, anunciava a venda dos três volumes, por Esc. 500$00. Em Junho de 1992, no leilão Silva's/Pedro Azevedo (lote 439), a mesma obra foi arrematada por Esc. 16.000$00. Finalmente, na Net, hoje, no sítio da Cimélio Books (Cascais), apenas o 1º e o 3º volumes (obra incompleta, portanto) estão marcados para venda por US$ 140,07 dólares, o que me parece excessivo.

Síntese de 100 anos de moda

Seria difícil, em tão pouco tempo, dar uma panorâmica tão completa, ritmada e objectiva da efemeridade.

A AVP, o grato reconhecimento pela sua leitura sempre atenta e pelas suas contribuições amigas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Claude Debussy (1862-1918)

Os sentidos da vida, segundo D'Annunzio


"Nunca o sentido da vida é mais doce do que depois da angústia da dor; e nunca a alma humana se inclina mais para a bondade e para a fé como depois de ter pressentido o abismo da morte. O homem compreende, quando se cura, que o pensamento, o desejo, a vontade, a consciência da vida, não são vida... Ele percebe que a sua vida real é, como sempre foi, não a que ele vive, mas sim a combinação do involuntário, do espontâneo e das sensações instintivas; é tudo aquilo que é harmonioso e misterioso na vida vegetativa; é o seu imperceptível desenvolvimento em todas as suas metamorfoses e renascimentos. E é precisamente esta vida dentro da qual existe, e nela desperta, o milagre da convalescença: ele cicatriza as feridas, remedeia as perdas, reconstrói os tecidos, renova a carne lacerada, restaura a mecânica dos orgãos (...) e retoca a chama da esperança no coração, abrindo de novo, e uma vez mais, as asas às quimeras da fantasia." *
Gabrielle d'Annunzio (1863-1938).

* a tradução do texto de D'Annunzio foi feita sobre a versão inglesa.

Produtividade e gentileza


A loja Louis Vouitton, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, tem no lado interior da entrada um empregado, bem arranjado e com gravata, que tem por função abrir cortesmente a porta aos clientes que queiram entrar, ou sair, carregados ou não de embrulhos.
Em cerca de meia hora verifiquei que exerceu esta nobre actividade por duas vezes. A primeira, com uma cliente, julgo que portuguesa, que saiu; cerca de 15 minutos depois, franqueou a entrada a dois casais de chineses, trintões, que lhe agradeceram fazendo vários salamaleques.
Uma vez por outra, o empregado gentil e engravatado, encosta-se, disfarçadamente, aos umbrais da porta, para descansar.

Filatelia LXXXIV


Diz-nos a Wikipédia que hoje se celebra o dia da Literatura (Bibliografia) Filatélica, pelo menos, no Brasil. Sobre estudos filatélicos brasileiros, tenho de confessar a minha ignorância, mas em relação a estudos filatélicos portugueses há que referir, justamente e pelo menos, Cunha Lamas e Oliveira Marques, entre alguns mais. Mas ainda hoje me espanto com a qualidade e quantidade de trabalhos e estudos ingleses sobre os selos britânicos, onde, quase tudo se pode aprender sobre o que é importante saber. Só sobre o reinado e selos da rainha Victoria (1819-1901), a Stanley Gibbons editou, em 1963, um ilustrado volume (em imagem), com 270 páginas, onde se abordam, de forma minuciosa, as peculariedades de cada emissão victoriana.
Mas os ingleses sempre foram muito próprios e singulares. Penso que são dos pouquíssimos países, onde um selo novo nunca perde a validade. Assim o selo novo, de 1 penny, na primeira linha do pequeno classificador (em imagem), sendo de 1841, poderia ser usado, ainda hoje, numa carta, na Inglaterra. Claro que não compensava, porque o seu valor filatélico é muitíssimo superior à taxa... Outra curiosidade, é que os selos ingleses da borda da folha tinham, no período victoriano, uma das margens bastante mais larga. Em imagem, da última fila do classificador, podem ver-se 3 exemplares nestas condições, que, normalmente, são mais valiosos que os restantes selos da folha. Os ingleses chamam-lhes: wing margin.
Aqui ficam duas curiosidades, que são o meu contributo para o dia da Literatura Filatélica.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Revivalismo Ligeiro LXXXIX


Em jeito de bestiário, 3 poemas de W. H. Auden


Shorts

A conversa dos pássaros
diz muito pouco, 
mas significa muito.
...
As borboletas, pobre de mim,
ignoram-me, mas as melgas
não, infelizmente.
...
Entre mamíferos
apenas o Homem tem
orelhas inexpressivas.

Humor negro

com agradecimentos a C. S..

Interlúdio 42


Sem maldade, mas para memória futura.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Judy Collins e Leonard Cohen


Memória (85) : Soutine


Décimo filho, entre onze, de um modesto alfaiate de Minsk, Chaim Soutine (1894-1943) nasceu faz hoje, precisamente, 120 anos. Solitário por natureza, perfeccionista na pintura, destruía, com frequência, obras suas que o não satisfaziam ou lhe pareciam menores. Foi em França que atingiu a sua maturidade artística, e onde veio a falecer.
Lembrámo-lo através de duas telas: o "Retrato de Maria Lani", do MOMA, e um pequeno quadro da série de "Meninos de coro", pertença da Galerie Paul Guillaume.

Confiar ou desconfiar da Wikipédia?


A Wikipédia explica, a propósito de azulejos, que "corda-seca" é uma técnica "do final do século XV e início do XVI em que a separação das cores ou motivos decorativos é feita abrindo sulcos na peça que, preenchidos com uma mistura de óleo de linhaça, manganés e matéria gorda, evitam que haja mistura de cores (hidro-solúveis) durante a aplicação e a cozedura."
Ora, as imagens que deixo reproduzidas, a encimar o poste, são de objectos de uso doméstico de cerâmica de corda seca, mouriscos provavelmente, que se encontram no Museu de Mértola e foram datados, por especialistas, do século XII. Confio mais nos arqueólogos do Campo Arqueológico de Mértola, do que nos informes anónimos da Wikipédia. Que, neste caso concreto da técnica de corda seca, se terão atrasado cerca de três séculos...

Regionalismos transmontanos (21)


1. Carambato - sorumbático.
2. Carão - parte comestível da noz. Semente de fruta, pevide, carabunha. Descompostura.
3. Caravela - farnel para a jornada. Castanha que tem só casca.
4. Cardina - bebedeira.
5. Carocha - primeira fatia de pão, em forma de calote.
6. Carpins * - meias de criança, feitas de lã ou algodão grosso lustrado. Meias para homem, peúgas.

* usado no Minho (Carapins), com o significado de botas de lã usadas na cama, em noites frias de Inverno, para aquecer os pés.

domingo, 12 de janeiro de 2014

F. Schubert / A. Brendel


O galego Julio Camba, os caracóis, as rãs e os franceses


"...O primeiro francês que comeu um caracol não era, certamente, um epicuro, mas um esfomeado. Só a fome, com efeito, pode fazer levar à boca esse gastrópode de aspecto imundo, e hoje os caracóis de Borgonha têm na cozinha francesa um tratamento de excelência. E quem fala de gastrópodes fala do batráquio. As rãs não ofereciam ao homem uma aparência mais apetitosa que os caracóis, mas algum músculo deviam ter para darem saltos tão grandes.
- Não poderíamos provar as suas ancas? - pensaram, sem dúvida, os franceses numa época de necessidade, assolados, talvez, por uma das suas guerras frequentes.
E foi assim que começou a história do traga-rãs gaulês. ..."

Julio Camba (1882-1962), in La Casa de Luculo (pg. 49).

Recomendado : quarenta e seis - "The Silence", de Maysam Makhmalbaf


Não será um filme fácil, este "The Silence" (1998), do iraniano Maysam (ou Mohsen) Makmalbaf (1959), até pelo seu ritmo pacífico e poético, muito diferente do ritmo do cinema europeu, e ainda mais distante do habitual e trepidante ritmo da cinematografia ianque. Mas tem, ao longo de toda a película, uma beleza estranha constante.
É a história de um menino cego, que afina instrumentos musicais, e que é influenciado, distraído e afectado pela sua hipersensibilidade aos sons e à música. Não sei se o filme entrou no circuito comercial, em Portugal, mas pode ser visto na íntegra (1h27), no Youtube, clicando em pesquisa: "The Silence Iranian Movie 1998".
Fica a recomendação e um pequeno excerto.

Pinacoteca Pessoal 67


Será pelo lado aparentemente frívolo dos temas da sua pintura? Por privilegiar a grande burguesia? Ou pelo realismo datado de muitas das suas telas, que Jean Béraud (1849-1935) não é excessivamente conhecido? Este pintor francês é normalmente arrumado e classificado como impressionista, muito embora e no meu modesto entender, só a última fase da sua obra acusa as marcas distintivas desta Escola.
Passa, hoje, mais um aniversário do seu nascimento. Reproduzem-se duas telas suas, ambas de 1890. A primeira (Parisiense na Praça Concorde) pertence ao Museu Carnavalet (Paris), a segunda (Casino de Monte Carlo ou Rien ne va plus) integra uma colecção particular.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Auden por Auden


Adagiário CLXVIII


"Qui a deux femmes perd son âme, qui a deux maisons perd sa raison."

(Quem tem duas mulheres perde a sua alma, quem tem duas casas perde a sua razão.)

Nota: este provérbio, seja ele originário da região de Champagne, ou - como alguns referem - uma criação de Éric Rohmer (1920-2010), o certo é que foi usado, pelo cineasta francês, como epígrafe do seu filme "Les Nuits de la Pleine Lune" (1984).

Eugen Doga / Haim Shapira


A par e passo 74


Previno-vos que eu entro aqui naquele fantástico do espírito, sobre o qual escrevi atrás, referindo que nem Verne, nem Wells, nem o próprio Poe, o maior e mais profundo dos autores desta espécie, tinham ousado imaginar as possibilidades. Lembremo-nos, antes de mais, que não sabemos nada sobre o espírito em si e quase nada sobre os nossos sentidos. Aconteceu-me, algumas vezes, dizer a físicos, quando a conversa nos levava até às novidades e descobertas imprevisíveis, onde a ciência se embaraça nos nossos dias que, apesar de tudo, a retina deve ter as suas ideias sobre a luz, sobre os fenómenos ondulatórios nos quais se confundem as nossas expressões de linguagem antiga, matéria, energia, continuidade e descontinuidade.
- É preciso prever, dizia eu, que seremos obrigados, mais dia menos dia, a concentrar as nossas pesquisas sobre a sensibilidade e os orgãos dos sentidos.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pgs. 254/5).

Mais 3 fragmentos de René Char


Não nos julgam por aquilo que somos, mas por aquilo que somos capazes de ter sido. Daí a diferença de responder que não chega a despertar a nossa desconfiança.
...
A verdadeira violência (que é revolta) não tem veneno. Algumas vezes mortal mas por puro acidente. Escapar às ortodoxias. A sua conduta é atroz.
...
Comecei por sonhar as coisas impossíveis, depois, que as atingi, o possível por sua vez tornou-se impossível. O meu poder desapareceu.

René Char (1907-1988), in À une serenité crispée.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Dizer o que já foi dito, ou talvez não


Por uma mera circunstância temporal, coincidiu eu ter tido conhecimento de uma grandiosa exposição, em Roma (que seguirá em Março para Paris), bem como da saída de um livro, sobre o imperador romano Augusto (63 a.C.-14 d.C.), simultaneamente, com o facto de ter folheado um grosso volume, com vários estudos sobre Camões (Gulbenkian, Paris, 1981), que li muito em diagonal. Deste último, apenas um artigo de Andrée Rocha me despertou a atenção, pela originalidade de perspectivas apresentadas. Grande parte dos outros estudos falava do que já foi dito, por outros académicos, inúmeras vezes. Não tendo havido, que eu saiba, descobertas recentes espectaculares sobre Augusto, tenho dúvidas que esse novo volume, de 336 páginas, acrescente coisas novas sobre o Imperador romano.
No entanto, por vezes, temos surpresas. Em tempos, ofereceram-me um livro sobre D. João II, de Luís Adão da Fonseca (Temas e Debates, 2007), sabendo o ofertante que eu apreciava a figura deste rei português. Na altura, fiquei contente e agradeci efusivamente, mas também pensei que iria ler o que já sabia - enganei-me. Porque o historiador abordava, sob perspectivas originais, a estratégia de Poder do Príncipe Perfeito, sobretudo, no papel que atribuía às ordens religiosas. Assim, a leitura foi-me proveitosa, pese embora talvez a pouca exigência de um leitor amador, que não é historiador. Outra exigência é provável que encontrasse lacunas na fundamentação argumentativa e documental.
Por isso, e modestamente, há que ter confiança, ou dar o benefício da dúvida aos historiadores italianos (com Eugenio La Rocca, à cabeça), que talvez possam ter descoberto novas coisas sobre Augusto...

Palavras de hoje


"Em momentos excepcionalmente favoráveis ao apelo à dramatização e ao olhar que se satisfaz de maneira ambígua e cretina na sua própria emoção, as televisões mostram a sua face mais abjecta: é quando tudo fazem para induzir as ditaduras do coração, porque esse é o seu alimento preferido e aquele que lhes permite exibir, na mais larga escala, o seu poder. ..."

António Guerreiro, in ípsilon (jornal Público).

Nota pessoal: esta crónica, pela sua qualidade, justifica e merece leitura integral.

Anton Bruckner (1824-1896)