sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Máxima (?) de Baudelaire, com aditamento pessoal


Um homem que não bebe senão água, tem um segredo a esconder do seu semelhante.

Charles Baudelaire (1821-1867), in Du vin et du haschisch.


Aditamento pessoal:
penso que esta afirmação se aplicará, com ainda maior evidência, às senhoras...

O que eu não sabia de Modiano


De Patrick Modiano (1945), escritor de língua francesa, com ascendência paterna italo-judaica, recém-premiado Nobel da Literatura, para além do nome, pouco ou nada eu conhecia. Nem sequer tinha lido nenhuma obra sua.
Por curiosa coincidência, um dos últimos Le Monde (3/10/14) inclui uma recensão (Créateur d'ambiance), de Éric Chevillard, sobre um seu recente livro, Pour que tu ne te perds pas dans le Quartier, editado pela Gallimard. No jornal tinha eu, por acaso, feito alguns sublinhados nesse texto. Aqui os passo a alinhar, traduzidos:
- Para certos escritores, a unidade da medida é a frase. (...) Mas outros autores, pelo contrário, usam a frase como uma peça neutra de um puzzle. (...) Tomemos como exemplo a obra de Patrick Modiano. Os seus romances não são livros, mas aerossóis: ambiência Modiano.
- Patrick Modiano é há mais de quarenta anos uma bela figura da nossa literatura, que vive o seu sucesso com uma elegante modéstia e que persegue incontestavelmente uma indagação pelas brumas do passado.
- Segundo Modiano, a verdade dos seres e da sua história não existe senão no passado, um passado que se vai desnudando à medida em que eles se esforçam para se re-transportarem até ele.

Liszt / Shapira


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Por onde andarão os estorninhos?


E eu que abri a janela, de par em par, como se fosse o televisor, para ver os estorninhos, ao fim da tarde, e não apareceu nem um...
Três gaivotas sobrevoaram de pios roucos as proximidades, um melro passou fugidio, duas pombas ronronavam, no telhado em frente, ruminando o Outono entorpecente e cinzento. Mas nenhum estorninho se dignou aparecer por estas bandas.
Em retribuição também não os ponho na fotografia. Vai antes esta aguarela, que me encantou logo que a vi, para adornar o poste. Terá sido feita (mas não tenho a certeza) pelo poeta galês Andrew McNeillie (1946), ou, pelo menos, embeleza o seu livro Winter Moorings. E representa - creio - um ganso-patola ou alcatraz, que, ambas, são aves marinhas.

Bibliofilia 111


Um exemplo não justifica uma generalização, mas pode ser, no entanto, significativo.
Há cerca de três anos (27/10/2011), no poste Bibliofilia 52, e a propósito da primeira edição da obra "Apresentação do Rosto" (1968), de Herberto Helder, dizia eu que os preços dos livros usados/raros não estavam a ressentir-se da crise. E apontava a evolução progressiva dos valores de venda deste livro. Assim:
- Julho de 2006: Boletim Bibliográfico da Liv. Luís Burnay - 130,00 euros.
- Outubro de 2011: Boletim Bibliográfico da Liv. Antiquária do Calhariz - 190,00 euros. 
Para minha surpresa, hoje, ao folhear o Boletim Bibliográfico 55 (Outubro de 2014), da Livraria Luís Burnay, vou encontrar sob o lote nº 211, a obra de Herberto Helder, tal como as outras, brochada, ao inesperado preço de 65,00 euros. Ou seja, metade do valor de há 8 anos atrás, pese embora ter, e passo a citar: "insignificantes defeitos de abertura na margem superior da folha de rosto. Restantes cadernos por abrir."

Nota: a capa do livro, editado pela Ulisseia, é da autoria do pintor Espiga Pinto, recentemente falecido.

Leilão


Um novo leilão de livros que irá decorrer, no Palácio da Independência, durante os dias 13, 14 e 15 de Outubro, organizado por José F. Vicente. De destacar um magnífico e vasto acervo de obras de e sobre Luís de Camões.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Citações CXCIX


Não se pode conseguir com um pincel tudo aquilo que se pode atingir através de uma caneta, que é capaz de penetrar até às circunvoluções do cérebro.

Kazimir Malevich (1879-1935).

Uma nota longa para um poema curto de E. D., em versão portuguesa


A fé é uma invenção subtil
Como os cavalheiros podem constatar,
Mas os microscópios são prudentes,
Em qualquer emergência.

Emily Dickinson


Nota pessoal: falar ou tentar explicar um poema - quando de Poesia se trata - é sempre uma forma de lhe reduzir o horizonte. E limitar a infinita comunhão de leitura a quem o lê. Pondo em risco os mecanismos subjectivos de associação e imaginação do leitor. E da sua própria experiência pessoal.
A poesia de Emily Dickinson não é fácil. Não tem, pelo menos, a linearidade sábia e resolvida de grande parte dos poemas de Robert Frost, por exemplo.
Dito isto, eu acrescentaria apenas, para quem não saiba, e a propósito deste poema (ou quadra), que traduzi, que Emily Dickinson era uma mulher profundamente religiosa. E praticava.

Revivalismo Ligeiro XCIX

Uma associação improvável, esta, de 1963. Com música de Mikis Theodorakis, letra de William Sansom, cantam The Beatles.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Divagações 74


As gamboas já chegaram, a semana passada, e a marmelada já está feita - foi quase um dia de trabalho para a HMJ. Agora falta só esperar pelos frutos secos: castanhas, nozes, pinhões. E pelos afogueados diospiros, vermelhos ou translúcidos, de veios amarelados.
As camisas de manga curta são substituídas pelas de manga comprida, os casacos ficam à mão, nos guarda-vestidos; a lã, gradualmente, vai ocupando o lugar do algodão - vamo-nos preparando para enfrentar o Inverno. Mas é pelo Outono, já começado, que a palavra melancolia ou nostalgia se insinua, por causa desses dias de Sol, já extintos, do Verão. A chuva regressou e a luz é quase só penumbra pelo interior das casas.
Por vezes é difícil situar ou datar o nascimento de uma palavra. Não será o caso do neologismo nostalgia, que nasceu no ano já distante de 1688, numa dissertação (Dissertio medica de Nostalgia oder Heimweh) apresentada por Johannes Hofer (1669-1752), na Universidade de Basileia. O então futuro médico, suíço, criou o vocábulo para caracterizar o estado de espírito doentio que dominava os jovens soldados helvéticos que combatiam longe de casa, e tinham saudades.
A palavra é formada por 2 étimos gregos: nóstos (reencontro/ regresso a casa) e álgos (dor, sofrimento), segundo apurei. Só não consegui saber se, a primeira vez que foi escrita e dita, terá sido no Outono desse ano de 1688...

A par e passo 109


Viver, note-se, apesar da opinião bastante difundida, apesar da impressão que nos fornecem, sobre a vida, os jornais, os teatros e os romances, viver é uma prática essencialmente monótona. É um pouco ambiguamente que se diz de um espectáculo ou de um livro que ele é vivo quando ele se apresenta bastante desordenado, nos surpreende com imprevistos, com espontaneidade, com aspectos fulgurantes, com efeitos que nos emocionam. Mas isto não são senão características superficiais, flutuações da sensibilidade, porque o suporte destas aparências, a substância destes incidentes é um sistema de períodos ou de ciclos de transformações, que se cumprem fora da nossa consciência e geralmente na penumbra da nossa sensibilidade.

Paul Valéry, in Variété III (pg. 211).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Pequena história (31)


Tendo, ambos os livros, um cenário natural poderoso, e Blaise Cendrars (1887-1961) ter sido tradutor, para francês, de Ferreira de Castro (1898-1974), sempre pensei, até há pouco tempo, que "A Selva" (1930) tivesse sido escrito antes de "L'Or" (1925). Estava enganado. Esta ideia radicava, fundamentalmente, em eu saber que Cendrars tinha feito uma excelente tradução da obra-prima do escritor português, em 1938, para a Grasset. De tal modo a versão era primorosa que, com a sua crua mordacidade habitual, Almada Negreiros teria dito, ao ler a tradução de Cendrars, que seria óptimo que um bom tradutor pusesse em português a versão do escritor suiço, naturalizado francês... Um exagero, de facto!
Quer "O Ouro", de Blaise Cendrars, quer "A Selva", de Ferreira de Castro, são momentos altos da literatura universal.

Nota: o livrinho, em imagem, é o número 71 da Colecção Miniatura, traduzido por Freitas Leça (Mécia de Sena?), com capa de Bernardo Marques. O retrato de Blaise Cendrars é, visivelmente, de Modigliani.

Tielman Susato (1500-1561)


domingo, 5 de outubro de 2014

Heidegger, prós e contras


A figura de Martin Heidegger (1889-1976) continua a ser polémica e a despertar paixões, sobretudo pela sua adesão e ligação ao nazismo, durante os anos 30, que o filósofo alemão nunca explicou suficientemente, bem como pelos fundamentos das suas teorias filosóficas.
Este interesse apaixonado, que se acentuou recentemente com a saída dos seus "Cadernos Negros", em França, justifica que o jornal Le Monde (26/9/14) lhe consagre duas páginas inteiras, com depoimentos de cinco colaboradores e analistas.
Independentemente de eu não tomar posição, por insuficientes conhecimentos pessoais e próprios, não quero deixar de traduzir um pequeno excerto da análise de Jean-Marc Mandosio (1963), ensaísta e tradutor, que segue:
"...O problema principal é evidentemente que a filosofia de Heidegger é feita em grande parte de jogos de linguagem e revela-se de uma extrema pobreza: por trás do jargão heideggeriano, as suas interrogações, inçadas de citações poéticas, e as suas etimologias fantasistas que fazem derivar o alemão do grego, não têm muito de sério nem de consistente. ..."

Corrigir o tiro


Não deixa de ser curioso constatar que nenhum português republicano, à partida, se exima de celebrar o 1º de Dezembro, ou relembre sem alegria, historicamente, essa data nossa e colectiva de restauração.
Em contrapartida, é também verdade que alguns (poucos, é certo) portugueses vejam este dia de 5 de Outubro, com grande irritação ou procurem transformá-lo numa outra data, muito menos importante, alternativa.
Claro que há muitas formas de democracia...

Marcadores 23 : continente e conteúdo


Sempre que posso, aos sábados de manhã, passo pela rua Anchieta, para ver as bancas da feira dos alfarrabistas. Foi o que fiz ontem e a colheita foi proveitosa: 4 livros, um deles (de Tomaz de Figueiredo) para oferecer a um Amigo.
Num dos outros ("The new poets of England and America", 1957, com prefácio de Robert Frost), que tinha pertencido a José Palla e Carmo (1923-1995), pela assinatura de posse, vim a encontrar um pitoresco marcador de livros, que deixo em imagem (frente e verso), e que assinalava, na página 99, um poema de Michael Hamburger. Uma espécie de bónus inesperado, deveras agradável, e provavelmente dos anos 50 do século passado.

República


É uma das mais emblemáticas fotografias da implantação da República Portuguesa: da varanda da Câmara de Lisboa, José Relvas , na manhã de 5 de Outubro de 1910, anuncia ao povo a instauração da República. Que hoje se comemora.

Regionalismos transmontanos (56)


1. Nabo - indivíduo estúpido, néscio.
2. Naça - bebedeira.
3. Nangra - o m. q. boneca.
4. Nascida - o m. q. nascença, abcesso.
5. Negra - mancha na pele, resultante de contusão, negreira. Jogo de desempate ou para decidir o vencedor.
6. Névoa - catarata nos olhos. Mancha na córnea que perturba a visão.

sábado, 4 de outubro de 2014

Curiosidades 32

O rondó à la turca, incluído na sonata em Lá maior, K331, de Mozart, é uma das peças de música erudita mais conhecida e tocada. A sonata terá sido composta pelo Compositor, por volta de 1783, para celebrar o aniversário do levantamento do cerco a Viena, em que o exército polaco de  Jan Sobieski derrotou os otomanos. Da partitura original, de Mozart, apenas uma página era conhecida. Até que, em Setembro passado, na Biblioteca Nacional de Széchény, em Budapeste, Balázs Mikusi encontrou a partitura completa da sonata K331 - foi pelo TLS (nº 5817), que tive notícia do importante achado.  
Sendo simples e de fácil agrado, o rondó à la turca, inspirou várias versões ou glosas, em música ligeira, sendo que a mais conhecida talvez seja a de Dave Brubeck.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Pinacoteca Pessoal 85


A escultura tem sido minoritária nesta rubrica do Blogue. Por outro lado, e por razões algo subjectivas, a iconografia religiosa não é também muito frequente aparecer por aqui.
Quanto à representação de Jesus Cristo, em pintura  moderna, tirando Gauguin, Rouault e Dali, creio que pouco mais, daquilo que conheço, me entusiasmou, esteticamente.
No entanto, este "Cristo em Majestade" (1954/5), do escultor Jacob Epstein (1880-1959), judeu americano naturalizado inglês, colhe todo o meu agrado. A escultura pode ver-se na Catedral Llandaff, em Cardiff.

Valha a verdade, mesmo que tardia


É sempre justo e útil desmascarar os embustes ou acordar algumas almas mais cândidas, enlevadas em sonhos pueris e encantados.
A crónica (Atual-Expresso) tem já quase duas semanas (20/9/14), mas só a li hoje. E valeu a pena esperar por estas palavras iniciais de Manuel S. Fonseca:
"Os filmes só amam os livros quando os amam com segredo e reserva. Não me venham falar do «Clube dos Poetas Mortos», execrável exibição circense do acto e prazer da leitura. ..."

Retro (55) : respeito e boa educação


Aqui fica uma menina que respeitava e amava as pombinhas e a mãe. Teve, com certeza, uma aprimorada educação familiar...

Nota: o postal foi usado no já ano distante de 1919. E veio de França, para Portugal.

3ª. e última escolha, do último álbum

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Citações CXCVIII


Não há outro remédio, do nascimento até à morte, do que aproveitar o tempo que os separa.

George Santayana (1863-1952).

Memória (94)


Alentejano e discreto, o artista plástico Espiga Pinto (1940-2014) deixou-nos ontem, para sempre. Fica, dele, uma obra sólida e coerente, sobretudo no domínio da Pintura, mas também algumas capas de livros bem conseguidas e memoráveis, na sua geometria humanizada.

Paradoxo, ou a insensibilidade dos grandes números


Os números excessivos empurram-nos, quase sempre, para a abstracção e para uma certa insensibilidade. Será o caso deste título, em imagem que encima o poste, e que aparece na página 9, do jornal Público de hoje.
Se, no entanto, a notícia for, por exemplo, Sexagenário sovado por ladrão nocturno, o número singular, ainda que anónimo, acaba por não nos deixar inteiramente indiferentes. O que não deixa de ser um estranho paradoxo.
Quanto ao título, em imagem, muito haveria que dizer, mas não vem ao caso fazê-lo, agora...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Dos Saramagos


Do rústico assentador de baptismo, embriagado, que crismou o nosso Nobel com a alcunha da família, Saramago, sabia eu a história. De Alfredo Saramago, que escrevia, alentejano, sobre gastronomia, e que, na BNP, não terá deixado boa memória, também. Assim como conhecia, de nome, António Saramago, enólogo e produtor da Península de Setúbal e do Alentejo, que ainda hoje exerce e, ao que parece, bem, o seu ofício. Mas nunca lhe provei os vinhos.
Mas, do saramago terrunho e rasteiro, só lhe sabia o nome e nem sequer as feições. Lineu chamou-lhe assim, em latim: raphanus raphanistrum. Sobre eles, falou Jaime Lopes Dias ("Cozinha e Alimentação na Beira Baixa", 2003, Alma Azul), com conhecimento e causa: "Vegetais de folha larga e recortada, de cor verde escura. Nascem espontaneamente entre as culturas cerealíferas. Substituem as couves, quando estas faltam. São muito procurados para viandas dos porcos."
E parece que das raízes dos saramagos, que são tenras, também se podem fazer saladas, para além de sopa. Há que louvar uma planta assim!

Telemann, para um dia festivo

1 quadro para o aniversário de um Amigo


Não tendo a espectacularidade surrealista de L'Ange du Foyer (1937), esta paisagem simples e natural de Max Ernst (1891-1976) vai com os nossos sinceros parabéns para este novo ano, que lhe começa na Vida.

Adagiário CXC : Outubro (5)


1. Por S. Simão (28) semear, sim, navegar, não.
2. Outubro nublado, Janeiro molhado.
3. Outono ou seca as fontes ou salta as pontes.
4. Outubro: vaca para o palheiro e porco para o outeiro.