domingo, 15 de fevereiro de 2026

Gil Nozes de Carvalho : 1 poema


 
Os Antepassados

Tinham fome.
Vieram de madrugada pelo
baço cheiro da toutinegra possuídos
antes do cisne da luz.
Aberta só uma casa de petiscos,
cerveja, mexilhões, arenques em vinha d'alho
e batata frita era o que havia
na Flandres e a guerra.
O futuro, esse duro privilégio, derramou-se
na tijela dum deles.
Foi quanto bastou para lhe cortarem
a mão e a revelação da fé veio depois
na unha extirpada.
Não tivesse alguém fixado as figuras
e julgaríamos hoje o nosso mundo um
foral exausto.


Gil Nozes de Carvalho (1954-2025), in Alba (1983).



4 comentários:

  1. Escolheu um belo poema de Gil Nozes de Carvalho, cujo falecimento eu desconhecia.
    Boa semana!

    ResponderEliminar
  2. Conheci Gil Nozes de Carvalho, pessoalmente!
    Um Ser singular. Todos o somos... sendo uns mais do que outros.
    E, esquivo.
    Não possuía telemóvel.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu, não, mas HMJ conheceu-o, bem como à mulher, Mª. do Céu.
      Tem opinião idêntica à sua.

      Eliminar