terça-feira, 14 de julho de 2015

A longa espera


As orquídeas, para um ignorante como eu, são um projecto lento. Ou parecem ser. Exigem paciência desmedida e pouca água. Parecem florescer por capricho.
Dentro de casa, ou nas varandas que dão para o ar livre, exterior, quatro ou cinco pés morreram em silêncio, no decurso dos nossos 10 últimos anos.
Dos novos, um dos pés, no interior, não dá sinal de vida, há mais de 2 anos. Mas, na varanda a leste, o outro pé de orquídea, minuciosa e lentamente, com dois ramos, entre seis folhas verdes espessas e elegantes, vai-se pronunciando (sem abrir ainda) com nove brotos esperançosos. Que eu olho de lado, discretamente - quando lá me sento, ao fim da tarde -, para evitar que se arrependam de florir.
Longe vá o agouro!...

Divagações 93


As guerras, hoje, fazem-se de forma asséptica e burocrática, na sua maioria; não se usam soldados nem generais, mas drones, e os atacantes raramente sofrem baixas, porque combatem à distância, em escritórios marciais climatizados e informatizados. Claro que há excepções, as dos bárbaros do E. I. e as guerrilhas dos países pobres, e pouco mais.
Nos países ricos, também os genocídios e os holocaustos ganharam novas formas, em que o equipamento tecnológico já não é utilizado. Basta o estrangulamento económico e financeiro que provoca, de forma eficaz, a asfixia. O gás já não é necessário, nem os chuveiros letais, hoje, obsoletos.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Uma fotografia, de vez em quando (64)


O fotógrafo holandês Reinier Gerritsen (1950) dedicou algum tempo da sua vida a registar, no metro de Nova Iorque, passageiros anónimos em transe de leitura. Daí, veio a publicar, recentemente, The last book, repositório visual e fotográfico extensíssimo de nomes da literatura universal, que vão dos clássicos (Aristóteles, Dostoievsky, Jane Austen...) até aos modernos: Truman Capote, Kundera; passando pelo light Paulo Coelho e quejandos, em voga.

para MR, em complemento da sua temática "Leituras no Metro".

Wim Mertens Ensemble : "Their Duet"


Cerca de 20 segundos de aplausos, no final do vídeo - único inconveniente...

Uma tirada de Ionesco


Tomem um círculo, acariciem-no, e ele tornar-se-á vicioso.

Eugène Ionesco (1909-1994), in La cantatrice chauve.

domingo, 12 de julho de 2015

Apontamento 72: Grandeza



Curioso apelo de um jornalista, no DER SPIEGEL de hoje, apelando à Srª Merkel para “mostrar grandeza” perante um projecto superior a qualquer “racionalidade contabilística”, i.e. incentivando-a a optar por defender uma Europa de Paz.

Defendi, numa conversa familiar sobre a conturbada História da Europa, que a maioria dos alemães nem têm noção da sua História, como demonstra o seu actual “contabilista-mor”. Duvido, por isso, que a Srª promovida, durante algum tempo como protagonista da História Alemã, a chanceler, alcance o sentido profundo do apelo do jornalista.

Duvido, pois, da suprema inteligência de chanceleres cientistas, mesmo de físicas ou químicas, quando se reduzem ao seu terrunho. Sucede que, com frequência, não percebem o mundo na sua essência geográfica, humana, cultural e social. Por isso, apelos “a grandeza de espírito” não têm o seu efeito, porque a pessoa em causa não alcança o imperativo: ético, cultural e humano.

Para tentar redimir este pecado supremo de humilhação de um povo – neste caso da Grécia – lembrei-me da Sinfonia Renana de Schumann que, nos meus tempos de adolescência, abria o noticiário local. Era uma altura em que a cultura se aliava à política. Ou seja, bons tempos de grandeza de espírito que, infelizmente, não existem actualmente.


Post de HMJ 

Informação, jornais e ardinas por Lisboa, no ano de 1942


Pinacoteca Pessoal 98


Rigoroso realismo de traço, técnica apurada, notável sobriedade linear e uma claridade geométrica e solar definem, de algum modo, os quadros singulares do italiano Antonio Donghi (1897-1963), pintor cuja obra conheci há muito pouco tempo. Mas que me despertou imediata simpatia estética e admiração. Há, na minha opinião modesta, um tímido surrealismo que o aproxima, ainda que ligeiramente, de Magritte, mas também da metafísica pictórica de um Chirico, mais rigorosa, em Donghi, pela claridade que ilumina as suas telas.
Um Auto-retrato, de 1942, encima o presente poste. Bem como o quadro Carnaval (1923) e um retrato de jovem, sentada, no Café (1932), que completam esta pequena mostra, que aqui deixo, em partilha cúmplice.


(Des)União Europeia


Mais um Domingo decisivo para a telenovela europeia. Com ingredientes de tomo. Entre um misto de clima hitchcoquiano (dado pelo homem banal), com a direcção do duende maléfico das pernas bambas, a evocação dos pequenos dráculas e a participação especial do abominável homem das neves (finlandês). Não poderia haver melhor elenco internacional, nesta história fratricida e suicidária...

sábado, 11 de julho de 2015

Hosana!


Desconfiados, distraídos e macambúzios que somos, não ouvi ainda ninguém louvar, este ano, a fartura e excelências da terra portuguesa. E que ricas colheitas se têm vindo a fazer: as laranjas suculentas, as cerejas tensas de doçura, os figos chorando mel de alegria, os pêssegos aromáticos e deleitosos...
Acordai, compatriotas, para esta fartura doce da terra portuguesa! Nem tudo são agruras.

Niccolò A. Porpora (1686-1768) / Cecilia Bartoli (1966)


A par e passo 141


Da mesma forma que, sob o sono, acontece parecer que vivemos toda uma existência, enquanto o relógio não conta senão alguns segundos - assim, pelo sortilégio da leitura, também parece decorrer e esgotar-se toda uma vida; ou ainda, pela misteriosa operação da leitura de um poema, alguns instantes que seriam sem qualquer valor, insignificantes portanto, transformam-se numa duração maravilhosamente medida e enriquecida, que se torna numa jóia preciosa que se vai incrustar na nossa alma; e, por vezes, numa espécie de fórmula mágica, um talismã -, que conserva em si o nosso coração, e que se apresenta ao nosso pensamento nos momentos de emoção ou de encantamento como a expressão mais pura ou mais poderosa que o pode atingir e elevar mais alto.

Paul Valéry, in Variété IV (pgs. 149/150).

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Curiosidades 45


Quando li a informação no último TLS, não fiquei surpreendido, porque tinha uma vaga ideia sobre o assunto. Sobretudo, em relação aos E. U. A.. Mas não deixa de ser significativo que 62% dos norte-americanos não possuam passaporte e, por isso, provavelmente nunca foram ao estrangeiro. Isto vai de par com os seus parcos conhecimentos sobre geografia...
Mas a Rússia ainda fica pior na fotografia: já que 80% dos nacionais também não têm passaporte, nem ultrapassaram nunca as fronteiras do seu país.

Uma imagem / um poema, ou: "Nós não somos a Grécia!"


Primeiro levaram os negros,
mas não me preocupei com isso:
porque eu não era negro.

De seguida, levaram alguns operários,
mas não me preocupei com isso:
eu nem era operário.

Depois prenderam os malandros,
mas eu não me preocupei com isso:
porque eu não sou malandro.

Depois levaram alguns desempregados,
mas como eu tenho emprego
não fiquei preocupado.

Agora vieram para me levar,
mas já é muito tarde.
Como não me preocupei com ninguém,
ninguém se importa comigo.


Nota: versão muito livre do poema de Bertolt Brecht.

O óbvio e o verdadeiramente correcto


Vai por imagem, atendendo aos apressados cibernautas, a capa de um livro bem interessante. Para se corrigirem, se quiserem melhorar o seu português de lei... Com ou sem AO.

com os melhores agradecimentos a A. de A. M..

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Revivalismo Ligeiro CXXII

Judy Garland, Frank Sinatra, entre muitos outros, também interpretaram esta magnífica canção de 1956, criada por Betty Comden e Adolph Green. Que esteja à vontade, quem quiser cotejar as versões...

Um poema sem título, de Antonio Gamoneda


Consistência de fogo
sitiado pelo pranto.

Aquilo que primeiro se ama
são os olhos: porque incendeiam
com a sua luz a existência
reunida, olhando-se.

Mas a luz é uma causa
mortal. Ferido de transparência,
o meu coração oculta-se
e recolhe-se à beleza.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Citações CCXLIV


O poder não é apenas aquilo que temos, mas aquilo que o inimigo julga que temos.

Saul Alinsky (1909-1972).


Nota: por uma questão de curiosidade, posso informar que Hillary Clinton fez a sua tese universitária (1969) sobre a obra de S. Alinsky.

Interlúdio 51


Adivinha quem vem jantar


O filme (1967), de Stanley Kramer, cujo título plagiei para este poste, com interpretações de Katharine Hepburn, Spencer Tracy e Sidney Poitier, era uma espécie de fábula. No caso particular, sobre o racismo. Quando a filha (Katharine Houghton), do casal branco, traz o namorado preto ( Sidney Poitier) para jantar e apresentar aos pais, a única reacção negativa e discordante é a da velha criada (Isabel Sanford) - que é preta...
Ora, no caso do problema grego, curiosamente, os mais inflexíveis e intolerantes (Sigmar Gabriel, alemão, e o holandês encaracolado, com voz entre o falsete e a sopinha de letras) que, sendo socialistas (?) ou social-democratas (?), era suposto terem uma visão mais construtiva, não têm. Até mesmo Renzi, que entrou no governo italiano pela porta dos fundos, se mostra mais interessado num consenso e em ouvir os gregos.
E já nem falo dos criados (ou bons alunos), que completam esta nova fábula da Europa.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Eleni Karaindrou


Regionalismos transmontanos 86


1. Zamborrada - bátega forte e rápida de água.
2. Zambrulhada - trambolhão, queda, queda de barriga na água.
3. Zamponeiro - murmurador, mentiroso.
4. Zanfeira - prostituta, mulher de mau porte.
5. Zanglear - tremer com pouca violência.
6. Zanoio - zarolho, vesgo.

Maria Barroso Soares (1925-2015)


Uma gravura de Lisboa


Não creio que esta gravura, representando Lisboa, seja excessivamente conhecida. Terá sido executada por volta de 1619, e pertenceu ao Conde Magnus Gabriel de la Gardie (1622-1686). Em 1780, passou, em definitivo para o acervo da Biblioteca Real da Suécia.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Franz Liszt / Nino Gvetadze : Rapsódia húngara nº 10


A bolha?


Para um observador minimamente atento, não terá passado despercebida, em Lisboa, a proliferação desmesurada de novos hotéis e hostals, nos últimos 2 ou 3 anos. Nem dos tuk-tuk, dos eléctricos turistizados, ou das pindéricas lojas de lembranças, na Baixa. Nem dos paquidérmicos paquetes que descarregam, aos milhares, turistas-rapidinhos, que chegam de manhã e zarpam ao fim da tarde.
A instabilidade sul-mediterrânica (e a moda frenética e efémera) fazem de Lisboa e de Barcelona, presentemente, destinos seguros e apetecidos (até quando?). Mas trazem consigo, também, aspectos de perturbação diversa, que afectam a tranquilidade do viver e trabalhar de muitos lisboetas.
A autarca de Barcelona (Ana Colau) mandou parar, para ver... Creio que foi uma atitude sensata.

Sobre democracia


Seria estultícia argumentar que o povo não comete erros políticos. Comete e, por vezes, até erros graves. O povo reconhece-o e paga por isso, mas comparados com os erros que têm sido cometidos por todos os tipos de autocracias, esses erros do povo acabam por ser insignificantes.

Calvin Coolidge (1872-1933).

Paisagem interior


A noite sabe a laranjas e afecto. E a farturas, acabadas de fritar, na praça plena de esplanadas e toldos brancos, onde a estátua metálica do cubo e da esfera ficou sumida na fotografia. Aqui parava eu, há muitos anos atrás, antes de regressar a casa. Vinha sozinho, quase sempre e, nem sempre, o pôr-do-sol era este esplendor no fim do dia. Este róseo e azul suave sobre as águas tranquilas.
Mas hoje estou com eles, ou melhor, com tudo o que vai ficar deste meu sangue paterno e ancestral, ao mesmo tempo - o que trago, o que deixo. Antigo presente futuro. O dia, todo ele, se inscreve ameno e feliz, na minha vida.

domingo, 5 de julho de 2015

Bibliofilia 121



Abrangendo 28 sermões, seleccionados da oratória vasta do Padre António Vieira (1608-1697), distribuídos por 6 volumes de tamanho médio e agradáveis de manusear, esta edição Rolandiana foi publicada entre 1852 e 1853. A obra, com os cantos das capas de alguns livros um pouco puídas, encontra-se de interiores bem conservados, e está comigo há mais de 20 anos, comprada que foi num leilão, creio que levado a efeito por José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz).
Firmada a sua posse, em 1941, pelo Cónego José Ferreira Governo, o eclesiástico deu-lhe, pelos sinais, abundante uso. Talvez para melhor fundamentação às suas prédicas, no Asilo de Carnide. Há vários sublinhados (leves), a lápis, ao longo das páginas e alguns sermões estão marcados nos índices. É conhecida a poderosa e inteligente argumentação de Vieira, na defesa dos menos poderosos, fossem eles os índios brasileiros ou a sorte das armas ao serviço de D. João IV. Só comparável, nas sólidas passagens literárias, à estratégia premeditada de uma brilhante partida de xadrez...

Por entre as nuvens do medo e do conformismo, uma das vozes dissonantes