domingo, 17 de outubro de 2010

Do Livro Vermelho de Monserrate (Catalunha)

Cromos 3 : Raças Humanas



Foi, com certeza, das muitas colecções de cromos da Agência Portuguesa de Revistas, uma das que teve recepção mais entusiástica e calorosa, por parte da Juventude desse tempo (Março de 1956). De tal forma que houve uma segunda série, em 1959. A primeira série tinha 128 cromos. A colecção portuguesa reproduz o mesmo conjunto que, originalmente, foi distribuído pela Editorial Bruguera da Catalunha, em 1955, com desenhos de E. Vicente Rodriguez. Mas a versão portuguesa, da A. P. de Revistas, acrescentou-lhe mais seis cromos pela respectiva ordem: 1.Mulher vianense, 2.Mulher de Avintes, 3.Cantadeira de Fados, 4.Varina ou Peixeira, 5. Mulher de Vila Viçosa, 6.Mulher do Algarve. Na imagem reproduzem-se os cromos do nº 4 ao nº 9, da segunda página da caderneta de "Raças Humanas", 1ª série.

P.S.: para MR, conforme prometido, e com votos de bom Domingo.

Nos 86 anos de António Ramos Rosa


Foi um dos poetas de leitura mais frequente na minha juventude. Tem, na sua bibliografia, mais de 50 livros de poesia publicados. Mais 4 de Ensaio. Organizou o quarto volume de Líricas Portuguesas (1969), com grande sabedoria e sensibilidade. António Ramos Rosa (17 de Outubro de 1924) é um homem e poeta de grande generosidade. Mas o excesso, por vezes, também extenua. Sobretudo se a fidelidade for permanente. O último livro que dele comprei foi Dezassete Poemas (1992), que é uma espécie de glosa do livro Conjuntivo Presente, de António de Almeida Mattos, e a ele dedicado. Também me lembro que li A Nuvem sobre a Página, em Abril ou Maio de 1978, sentado num banco do jardim do Campo Pequeno, e com simpática ou sincera adesão aos poemas do livro. São coisas que se não esquecem. Mas, hoje, prefiro lembrá-lo através de um pequeno poema de Estou vivo e escrevo Sol (1966), intitulado "Diálogo Imóvel" (pg. 17):

No quarto lavado
perfeito quadrado
- que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada

Uma é vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada

Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?

sábado, 16 de outubro de 2010

Comic Relief (13) : Beef and Eggs

Areia Branca


Sempre gostei das praias no Outono. A areia sem lixo, imaculada de pegadas e limpa pelas recentes marés vivas. A soada tranquila e ritmada do bater das ondas e o espaço livre, para norte e para sul, no areal. No mar, três surfistas tentavam a sua sorte num ondular quase sem vento. Só a meio da tarde se descobriram as Berlengas que, ao longe, pareciam uma gigantesca baleia e, à frente ou à direita, a silhueta de um pequeno cachalote, pousados ao fundo, no horizonte. Estava assim a Areia Branca "posta em sossego" nestes idos de Outubro.
Depois H. mostrou-me a fotografia, que lá tinha comprado e que lhe disseram ser do início de época balnear (Julho?, anos 50?). O cenário é árido e despido, nesta antiga Areia Branca, quase circunspecta, quebrada apenas pela diagonal de 3 ninfetas reclinadas, uma fingindo(?) que lê, e as duas restantes desafiando o fotógrafo, com o seu sorriso juvenil.

P.S.: para H.N., com agradecimentos.

J. S. Bach

Conrad Peutinger

Conrad Peutinger ( * 16.10.1465 - 28.12.1547)
Conrad Peutinger faria anos a 16.10. - conforme a Neue Deutsche Biographie, Berlim, 2001 - embora outras fontes indiquem a data de 14.10.
Ora, nesta data, gostaria apenas de lembrar esse "amigo distante", o humanista Conrado Peutinger, de Augsburgo, a quem Valentim Fernandes confiou, muito provavelmente, os seus manuscritos sobre esse novo mundo descoberto reunido numa colectânea que, actualmente, conhecemos por Códice Valentim Fernandes.
Para além dessa preciosidade - que abordámos noutro lugar - Conrado Peutinger reuniu uma das bibliotecas maiores do seu tempo. Damião de Góis seria, porventura, uma testemunha valiosíssima na apreciação da biblioteca do humanista alemão. Na ausência de uma informação coeva e mais abrangente de Damião de Góis, houve quem se dedicasse, felizmente, à reconstrução do acervo da biblioteca de Peutinger, editando os seus catálogos (cf. Hans-Jörg Künast: Die Bibliothek Konrad Peutingers) e lembrando-nos que a História do Livro também se faz dos seus leitores e das suas bibliotecas.
Conrad Peutinger, não obstante a sua fortuna intelectual, teve, certamente, intuição semelhante na escolha da sua consorte, Margarethe Welser.
Para bom entendedor, o apelido da consorte diz tudo sobre outras fortunas, humanistas, ao serviço da humanidade.
Post de HMJ

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Nobreza de Espírito


Não sei se, muitas vezes, me faço entender inteiramente - gostaria. Houve um tempo (há cerca de 30 anos) em que eu tive, no meu local de trabalho, 2 colegas que me obrigavam, quando em diálogo, a saltos gigantescos, para os seguir, por associação e, algumas vezes, por intuição e palpite. Deixo apenas os apelidos: Perestrelo e Câmara Pina. Um era de direita, outro de esquerda. Pelo menos, um deles já morreu. Tinha uma educação britânica, e era um excessivo num dos pecados capitais (que a religião consagra). Era um homem isolado, muito inteligente e feliz, no sentido humanista do termo. Mas precisava, nesta sociedade de empresas que, às vezes, sendo grandes, são também imensamente reles, vulgarmente rascas e desprezíveis, de se auto-compensar através dum dos pecados bíblicos.
Eram dois homens nobres, dois aristocratas de espírito - que é a única nobreza que eu reconheço e respeito nalguns que não exigem, nos formalismos bacocos de quadros e fotografias togadas, o peito cheio de veneras. Os realmente nobres são simples no trato, tratam todos de igual para igual, não excluem ninguém. Fotografam-se em camisa, esgargalados. E, normalmente, são inteligentes e vêem o Outro.
Mas, por vezes, também são difíceis de entender. E reconhecer.
In Memoriam, com saudade.

Em sequência de registo : Liszt por Brendel

Iconografia moderna e laica (3) : Job


"Em todo este infortúnio, Job não pecou e não se permitiu nenhuma impertinência contra Deus" (Livro de Job, 1). O treslado de Job, para a nossa época, pode muito bem ser retratado por um Sem-abrigo. Só que não haverá retorno à felicidade e abundância, nunca mais. É um estado cristalizado e definitivo, sem um deus que se diverte a dar, tirar e voltar a dar, para entreter o tempo, na eternidade.

Civilidade (4) : beija-mão Real


"...Apenas se faculta a licença para o Beija-mão, irá seguindo na mesma linha os que vão adiante, fazendo ao entrar huma leve cortezia ao Mestre Sála, Esmoler Mór, e Camaristas, que estão defronte de El-Rei. Chegando junto á Magestade, lhe faz huma genuflexão, que consiste em dobrar hum pouco ambos os joelhos, ficando o corpo direito, e immediatamente pondo hum joelho em terra, lhe beija a mão; e levantando-se, torna a fazer-lhe outra genuflexão, como a primeira, e voltando sobre o lado direito, vai sahindo para fóra com muita gravidade. Dando quatro, ou cinco passos, se vira de todo para El-Rei, e lhe faz a segunda continencia, curvando, como disse, os joelhos; e para os Camaristas, que lhe ficão então fronteiros, huma leve inclinação; e voltando, como primeiro, dá os passos, que restão até á porta, por onde se sahe da sála, e dahi faz a ultima genuflexão á Magestade, e a segunda reverencia aos Camaristas, que lhe ficão ao lado, principiando daquelle, em que acabou na primeira cortezia até os ultimos; o que se pratíca igualmente nos Beija-mãos das Rainhas, e Princezas com as Damas, e Senhoras, que lhes fazem a Côrte. ..."

Padre D. João de N. Sra. da Porta Siqueira, in Escola de Política ou Tratado Practico da Civilidade Portuguesa com as regras... (4ª ed., Porto, 1803)

O que não mata, engorda


Antes de haver A. S. A. E., seria assim. Mas como diz o povo: o que não mata, engorda.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Revivalismo Ligeiro XXIX : Georges Moustaki

Além do mais porque, hoje, desenferrujei o meu francês.

(Pseudo-)Retro 2


São reproduções que me parecem de bom gosto, de postais de Lisboa, ainda no tempo da Monarquia. Encontrei-os, hoje, num alfarrabista, que há muito não visitava, do Largo do Calhariz, em Lisboa.
P.S.: para MR, especialista na matéria.

Citações XLVIII : Afonso de Albuquerque


"...Afonso de Albuquerque, como soube que era chegado outro governador e seus inimigos muito favorecidos de el-rei, levantou as mãos e deu graças a Nosso Senhor e disse: Mal com os homens por amor de el-rei e mal com el-rei por amor dos homens, bom é acabar.
Afonso de Albuquerque (1453-1515), in Comentários do Grande Afonso de Albuquerque.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Recomendado : Quatro


Em Agosto de 2009 estávamos em Leyden (Holanda), num dia que amanheceu chuvoso mas que, a pouco e pouco, foi abrindo em sol. Os canais da pequena cidade regurgitavam de barcos com estudantes e caloiros da Universidade que eram praxados, das pontes, pelos mais velhos que lhes despejavam enormes baldes de água, do alto, sobre as embarcações quando passavam. Era uma manhã dominada pelos seus gritos juvenis, mas alegremente contagiante.
Da esplanada, onde tomávamos café, reparei numa loja de vinhos de aspecto acolhedor, com bom gosto e madeiras polidas, nobres. Entrei e a minha primeira curiosidade foi ver se havia vinhos portugueses. Havia, e bastantes para o tamanho da loja: muitas marcas de Vinho Verde, alguns Dão, e duas ou três qualidades das Caves Vidigal (Cortes - Leiria). Esta última marca era conhecida, nos anos 60 e 70 mas, depois disso, nunca mais a vira à venda em Portugal. Como tinha uma vaga, mas boa, impressão, comprei duas garrafas, uma das quais se bateu, ao jantar, com um Rioja, em casa dos nossos anfitriões. Ganhou com galhardia a competição ao vinho castelhano. Sem favor, porque, embora o castelhano fosse bom, o vinho português era melhor. Fiquei, patrioticamente, orgulhoso.
Ora, há dias, num Lidl (passe a publicidade) encontrei um Caves Vidigal (Regional Lisboa), Reserva 2008, Syrah monocasta, tinto, ao imbatível preço de 2,59 euros. Não sendo um esplendor, é um belíssimo vinho se atendermos à dicotomia qualidade/preço - e, por isso, o recomendo. Acompanhará bem assados, caça (que está por aí a aparecer) ou queijos. Está no ponto para ser bebido, mas poderá aguentar, bem, 1 ou 2 anos, na garrafeira. E não se deve perder a leitura do contra-rótulo. É um texto saboroso, quase "doméstico", mas genuinamente português, na sua franqueza comercial. Bom proveito!, a quem seguir o conselho.

Filatelia VII : Colónias


Singularmente e, ao contrário de outros países europeus, em monarquia (Bélgica, Holanda, Inglaterra...), que representaram os seus reis nas primeiras séries das suas colónias, Portugal usou apenas a Coroa ( desenho de Augusto Fernando Gerard) como símbolo e não a figura do rei D. Luís. Embora, posteriormente, os réis portugueses viessem a aparecer representados nos selos. As primeiras colónias a ter selos próprios foram: Angola (1870-77), S. Tomé e Príncipe (1870-77) e a Índia Portuguesa, logo a seguir - 1871.
Os primeiros selos da Índia Portuguesa são muito rudimentares e artesanais. São chamados nativos porque os meios utilizados, no seu fabrico, eram exclusivamente locais, de início. Estão representados na última fila da imagem que encima o poste. O desenho foi feito pelo engenheiro José Frederico d'Assa Castel-Branco e a execução dos selos teve o ferreiro Gouvinda Zó, como autor. Os restantes selos, de S. Tomé e Príncipe - na imagem - são comuns, praticamente, no desenho da Coroa, às restantes colónias portuguesas.

Para JP, que também terá memórias destas...



Quando a colecção acabava, costumávamos jogar às rebatinhas (Aquilino dixit) com os repetidos que sobravam, entre os amigos: atirávamos os cromos ao ar e, quem os apanhasse, ficava com eles. Antes, além da troca, também jogávamos com os repetidos, pondo-os em pequenos montinhos no passeio ou numa mesa, de imagem para baixo, aquecendo, no bafo da boca, a palma da mão para os tentarmos virar. Os que ficassem com a imagem para cima, eram nossos.
Mas desta colecção de Reis e Raínhas de Portugal (Fábrica Universal, Lisboa) nunca consegui completar a caderneta. Falta-me "o mais ruim" (como se dizia, aqui há muitos anos): o Cardeal-rei D. Henrique, o cromo nº 40. Ficou-me repetido, no entanto, o D. João IV, nº 50, mas a colecção ficou incompleta, para sempre...

Favoritos XXXIX : Mafalda Arnauth

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Safo


LXXXVI

...
Na noite, em vigília,
cantam as raparigas,
cantam a tua amada,
de violetas cingida.

Que desperte a noiva
e se junte a nós:
seu sono é mais leve
que o sono das aves.


Safo, in Poemas e Fragmentos de Safo, tradução de Eugénio de Andrade.


Bibliofilia 32 : Abade de Jazente



Paulino António Cabral (1719-1789), mais conhecido por Abade de Jazente, freguesia próxima de Amarante, e a que, ao nome, acrescentaram Vasconcelos (indevidamente), foi poeta celebrado. Foi também padre, lavrador - pelo que dizem seus versos - amante da caça e de uma tal senhora Inês da Cunha, a quem ele chamava Nize, nos sonetos, muitos, que lhe fez. Arnaldo Gama, em Um Motim de há cem anos, romanceia-lhe a figura ("...um dos mais distintos poetas portugueses da época, a flor e a nata dos bardos do Porto..."). Foi aliás nesta cidade que saíram, da Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, os 2 tomos da sua obra "Poesias de Paulino...". O primeiro volume, em 1786, com tiragem de 2.000 exemplares, esgotou-se em 6 meses - o que é singular, para um livro de poesia, ainda hoje. O segundo tomo foi publicado em 1787, e é bem mais difícil de encontrar, à venda, actualmente.
Os meus dois exemplares foram adquiridos, com uma diferença de 3 ou 4 anos, nos finais dos anos 80, em Lisboa. O primeiro custou-me apenas Esc. 850$00 (cca. 4,25 euros), o segundo, paguei por ele, Esc. 3.000$00. Assisti, depois, à venda da obra completa (tomos I e II), em leilão, por 35,00 euros. Mais recentemente, há cerca de três meses, vi-os precificados por 50,00 euros, num alfarrabista lisboeta.

Adagiário XIX : Vinho


1. Vinho pela cor, pão pelo sabor.
2. Vinho, ouro e amigo, quanto mais velho melhor.
3. Vinho que baste, carne que farte, pão que sobre e seja eu pobre.

Sob a poeira do tempo : Sonja Henie


Sonja Henie, nascida na Noruega, em 1912, faleceu a bordo do avião que a levava, de Paris, para Oslo, a 12 de Outubro de 1969. Foi patinadora artística e campeã olímpica em 1928, 1932 e 1936, conhecida actriz de Hollywood, e das mais bem pagas, na sua época. Teve uma vida amorosa turbulenta, onde se incluem 3 casamentos e diversos relacionamentos, nomeadamente, com Tyrone Power e Van Johnson. Foi também acusada de alguma cumplicidade para com o nazismo.
É, hoje, creio, uma figura quase esquecida.
Não me lembraria dela, não fosse fazer parte do meu primeiro "álbum" rudimentar e artesanal (feito por amigas minhas mais velhas) de artistas de cinema. Creio que foi a minha primeira colecção de cromos. Viriam depois os jogadores de futebol, etc.. As imagens, que se reproduzem, são dessa caderneta primitiva que data dos anos quarenta do séc. XX. Onde aparecem também Hedy Lamarr, Ginger Rogers, Tyrone Power, Marlene Dietrich e a citada Sonja Henie, além de outros e outras artistas de cinema.
Sic transit gloria mundi...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Música e Poesia XXIV : Alain Vanzo

Alain Vanzo (1928-2002) num excerto de Lakmé de Léo Delibes (1836-1891).

Retro



Como se poderá resistir a um velhinho de 82 anos que ainda diz coisas tão sábias?
Não chega a custar o preço de 2 jornais diários e dá informações para um ano inteiro. Houve tempo em que havia que optar entre o Benfica e o Sporting. Mas creio que "O Seringador" já não se publica. Ficou só o "Borda d'Água".
Não resisti, hoje, a comprá-lo.

Iconografia moderna e laica (2) : o massacre dos inocentes


O Massacre dos Inocentes é referido por S. Mateus (2; 16). No treslado iconográfico, para o nosso tempo, pretendi lembrar o bombardeamento, pela esquadrilha Condor, da pequena cidade de Guernica, a 26 de Abril de 1937, através do quadro de Picasso. Como poderia recordar o massacre de Srebrenica, em 8 de Março de 1995, mas as imagens fotográficas são excessivamente chocantes. O facto é que a Humanidade se repete, nos seus actos mais hediondos, de tempos a tempos, indefinidamente.

Guillaume Dufay (1397-1474)

domingo, 10 de outubro de 2010

A meio da tarde


É uma aguarela cinzenta com pequenos laivos de azul pálido e anémico a que o sol, por momentos, atende sobre o rio. A neblina desfez-se. O branco das paredes acentua-se, como também o esmaecido café-creme degradado dos prédios mais antigos ressalta de humidade e gretas, como rugas, defronte. Sobressai, quase berrante, insólito, o tijolo vivo de alguns telhados substituídos, há pouco, e onde pousam pombas mansas, e um ou outro melro nervoso, no seu passo miúdo - mas demoram pouco. Duas gaivotas, em voo alto e sereno, sobre o Tejo. Um barco à vela sulca as águas do que parece um lago tranquilo. Palmela envolve-se e resolve-se de neblina, ciclicamente, ao longe.
Ouve-se o rumor quase aveludado e sem freio do 28 deslizando nas calhas lavadas pela chuva, da rua vazia de pessoas. Também um pássaro misterioso inicia um canto sibilino e breve. Sem os gritos roucos, habituais, uma gaivota passou quase rente à janela e, uma das asas, parece acenar-me de perto. Há silêncio, inesperadamente. Até chegarem os arrumadoraes de automóveis, lá para o começo da noite de domingo, com o seu cortejo de vozearia e palavrões...

Portugueses e Castelhanos


Nos jardins do Vaticano passeavam, numa tarde, o Conde de Cifuentes e D. Henrique de Meneses, respectivamente embaixadores de Espanha e Portugal. Subitamente o conde voltou-se para D. Henrique a perguntar:
- Porque é que os castelhanos se engrandecem sempre uns aos outros e à sua terra, e os portugueses se apoucam?
D. Henrique de Meneses respondeu com um fino sorriso:
- Não lhes dê ouvidos, mentem uns e outros.

António Chaves, in Anedoctas Históricas, 1917.

Memória 42 : Harold Pinter

Harold Pinter (1930-2008) faria, hoje, 80 anos. Grande dramaturgo, recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 2005. Já doente, não foi a Estocolmo para recebê-lo, mas gravou um vídeo onde disse aquilo que queria dizer. Era um intelectual interventivo, como já não os há, praticamente. Todos eles acantonados, hoje, no limbo do conforto, vivendo dos dividendos da patética submissão aos poderes dominantes. Falando de "Trifles, trifles. Bagatelles....", como diria Jorge de Sena, e assobiando para o lado neste mundo cada vez mais injusto e apodrecido de princípios éticos.