sábado, 8 de fevereiro de 2020

Citações CDXXVI


O espaço é um corpo imaginário tal como o tempo um movimento fictício.

Paul Valéry (1871-1945), in Tel Quel.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Ainda vai a tempo


Com a qualidade a que nos habituou a BNP, para celebrar o centenário do nascimento de Jorge de Sena (1919-1978), apresenta-nos uma magnífica mostra alusiva, até 29 de Fevereiro de 2020.


Composta por bibliografia de e sobre o Escritor, correspondência e um acervo iconográfico notável.
A não perder, absolutamente.

Registe-se...


... com agrado que o último Le Monde des Livres (31/1/2020) dedica a sua primeira página à tradução francesa do livro de Mia Couto (1955), "Les Sables de l'Empereur" (As Areias do Imperador). Com uma recensão crítica muito favorável, de Gladys Marivat.
A versão francesa do romance foi trabalhada por Elisabeth Monteiro Rodrigues, e saiu com a chancela da editora Métailié.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Bibliofilia 143


A bibliofilia escora-se, mais tarde ou mais cedo, em obras sólidas, quando não eruditas, que podem apoiar impressões pessoais nossas anteriores, vagas percepções, informações avulsas, mas também gostos e convicções que se vão tendo com os anos. Acrescem a prática e os conhecimentos adquiridos. Este Manual Bibliographico... elaborado por Ricardo Pinto de Mattos, funcionário da Biblioteca Pública do Porto, mas revisto e prefaciado por Camilo, é uma fonte rica de informações diversas, e até preços, de livros pouco frequentes e importantes.
No prefácio, Camilo aproveita para fazer o panegírico de outro grande conhecedor e bibliófilo nacional, a quem muito se deve - Inocêncio Francisco da Silva.


Esta obra conceituada de consulta editada pela Livraria Portuense, em 1878, adquiri-a usada ao livreiro Tarcísio Trindade, por volta de 1990, por Esc. 7.800$00, numa altura em que os livros de referência ou pouco frequentes tinham valor seguro, estável, quando não crescente. O volume (584 páginas) pertencera, como se pode ver pelo ex-libris, a Sebastião Alberto Centeno Fragoso, que foi médico e publicista, bem como foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, em 1946. E o livro está bem encadernado.


Exprimi, ainda não há muito tempo, a ideia e convicção, aqui pelo Arpose, que o livro usado, exceptuando obras raras, tem vindo a baixar de preço, de forma concreta e sustentada. Foi por isso que não me surpreendi excessivamente ao constatar que a Livraria Ecléctica leva a efeito um próximo leilão Online, de 31/1 a 6/2/2020, em que esta obra de referência tinha uma base de licitação de 11 euros, quando, aqui há 4 ou 5 anos, dificilmente os lances, sobre este título de bibliografia, se iniciavam por menos de 50...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Curiosidades 78


Dificilmente haverá capa de disco mais célebre e conhecida do que a do LP de The Beatles, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, de 1967, que pela sua original qualidade ganhou um Grammy em 1968. O sucesso resultou de uma estreita colaboração da artista pop norte-americana Jann Haworth (1942) com o seu marido inglês Peter Blake (1932) que ainda hoje passa, para muitos, como único autor deste trabalho muito bem sucedido.
A imagem compreende, para além da banda inglesa (em duplicado), um total de 58 personalidades célebres mundiais (4 gurus indianos, incluídos). The Beatles sugeriram 12 nomes e, entre outros, Hitler e Jesus Cristo (sugestões de John Lennon) que foram excluídos das hipóteses aventadas. Tendo constatado a ausência de figuras femininas, Jann e Peter resolveram  incluir, à última da hora, Mae West, Shirley Temple, Marilyn Monroe, Marlene Dietrich e Diana Dors. Aparece ainda, à beira desta última actriz, uma antiga fotografia da avó de Jann Haworth.


Numa reformulação actualizada, a artista norte-americana em colaboração com a filha, Liberty Blake, produziu, em 2016, um novo trabalho, desta vez apenas com personalidades femininas, intitulado Work in Progress, para a cidade de Salt Lake City, justificando que "o artista deve ver sempre o mundo em termos alternativos."
Entre outras figuras, estão representadas Anne Frank, Agnès Varda, Diana e Michelle Obama.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Steiner


Este Inverno tem-me sido fatídico, pessoalmente. E ainda não terminou...
Acabei de saber da morte de George Steiner ( 23/4/1929 - 3/2/2020 ) que, com A. Camus e E. M. Cioran, talvez tenha sido um dos ensaístas e pensadores que mais contribuiram para a minha formação pessoal e humanística.
Muito lhe fico a dever, sobretudo neste nosso mundo actual, em que os estímulos para reflectir são cada vez menores...

Um CD por mês (10)



Talvez eu não tivesse sido o mesmo, em relação à Ópera, se não tivesse ouvido, na adolescência e na Póvoa, a voz inconfundível do tenor monegasco Alain Vanzo (1928-2002) a cantar a ária Je crois entendre encore da ópera Les Pêcheurs de Perles, de Georges Bizet (1838-1875), que me havia de encantar para sempre.
Apesar de, no canto lírico clássico, eu já me ter iniciado pelo barbeiro sevilhano de Rossini, mais estridente embora...


Em contraponto feminino mais antigo, Mirella Freni (1935) chegou logo a seguir, e Aafje Heynes (1924-2015). Fischer-Dieskau (1925-2012) veio também a  integrar as minhas preferências. Recentememente, Cecilia Bartoli (1966) ocupou um lugar destacado. E, como não podia deixar de ser, Maria Callas terá sempre um lugar cativo (1923-1977).


Da EMI Classics, estes registos são de 1954 (Norma), remasterizado em 1997, e da ópera de Gluck (1957), aperfeiçoado em gravação de 1998.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

De Auden para Yeats





In Memory of W. B. Yeats
(d. Jan. 1939)

I

Morreu quando o inverno agonizava,
Os regatos estavam gelados, os aeroportos quase desertos,
E a própria neve desfigurava as estátuas pelas ruas;
Até o mercúrio se contraía pela boca do dia moribundo
E todos os instrumentos convergiam de frio, concordavam
Que o dia da sua morte era um negro, gélido dia.

Para longe da sua doença
Os lobos desapareceram no denso mais verde das florestas,
O rústico rio selvagem nem sequer foi atraído para os cais
Mais amenos; e as bocas mais gentis e discretas
Souberam poupar os seus poemas à morte do poeta.

Embora para ele tivesse sido, com efeito, a última tarde,
Um entardecer de freiras e rumores;
Todas as regiões do seu corpo revoltadas,
As praças da sua alma, de repente, despovoadas
E o silêncio invadiu todos os subúrbios;
A energia mais íntima do sentimento apagou-se. Ficou a dos outros

Seguidores. Agora ele está espalhado por centenas de lugares
E sente-se obrigado a ser gentil com os desconhecidos
Para encontrar a felicidade por entre estranhos tecidos
E ser castigado por códigos novos e alheios
De um outro vocabulário de homem falecido
Alterado pelas regras dos sobreviventes.

Mas no que vier a ser importante ou ruído de amanhã
Quando os corretores rugirem como feras pela Bolsa,
E os pobres tiverem sofrido tudo aquilo para que estão fadados,
E todos nas celas de cada um se convencerem da sua liberdade,
Alguns poucos milhares hão-de pensar na importância deste dia
Como quando alguém se apercebe no dia em que fez algo extraordinário,
Aquilo, no fundo, em que os instrumentos metereológicos concordaram
Que o dia da sua morte foi extremamente escuro e muito frio.

II

Eras tão ignorante quanto nós, mas o teu dom foi sobreviver a tudo:
À paróquia das senhoras finas, à física decadência;
A ti próprio. A loucura da Irlanda feriu-te bem fundo de poesia.
Agora a Irlanda tem outra loucura bem como o seu tempo tranquilo,
Pois a poesia não faz acontecer já nada de novo: sobrevive
No vale onde é feita e por onde os executivos
Não querem entrar, e desliza em direcção ao sul
De quintas isoladas e sentimentos diligentes,
Ingénuas cidades em que acreditamos e onde morremos;
Apenas sobrevive uma forma de ser, uma única boca.

III

Terra!, recebe este honrado hóspede:
William Yeats veio para repousar.
Deixa que o barco aporte
Despido de toda a sua poesia.

No escuro pesadelo
Todos os cães da Europa ladram
E as nações existentes aguardam,
Cada uma sequestrada no seu ódio;

A desgraça intelectual
Vai-se reflectindo em cada face,
E mares de misericórdia aí ficam
Fechados e gelados no olhar.

Segue, poeta, vai além
Até ao fim da noite,
Com a tua voz enfim liberta
Convence-nos ao júbilo.

Com o cultivo de um verso
Constrói o destino da vinha,
Contra o insucesso humano
Num êxtase de angústia;

Pelos ermos do coração
Deixa que rompa a ferida da fonte,
Pela prisão de cada dia
Ensina o homem livre a celebrar.


W. H. Auden


( versão portuguesa, feita em memória de A. de A. M.)

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Adagiário CCCVI


Cão lírico ladra à Lua, cão filósofo abocanha o melhor osso.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Mercearias Finas 153



Não fora a propósito, falávamos que, às vezes, perante uma enorme qualidade artística se perdoa ou esquecem proselitismos políticos demasiado indesculpáveis. Em grau muito diferente citáramos Céline, em grau mais brando, Almada...
Eu abancava frente a três bons nacos de Leitão morno, com o competente acompanhamento e meia de Dão Cabriz, tinto (2016). Do meu lado direito, e noutra mesa também acompanhado, estava o dono da Herdade do Rico Homem e que já foi  senhor da PT. Também começara como empregado de Eanes. Achei-o macilento.
Entrou depois, com a mulher, a segunda figura da nação, desempenado e sorridente. Cruzámo-nos à saída, com simpatia. Campo de Ourique é um mundo...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Mata-Borrões (5)


Úteis, pelo menos até mais de metade do século passado, os mata-borrões são hoje uma relíquia do antigamente que, provavelmente, já quase nem são usados. Tal como as canetas de tinta permanente que eu utilizo, por exemplo, apenas em rituais de circunstância ou para dar nobreza a manuscritos de maior responsabilidade e valor.

Os mata-borrões eram, nos anos 50, marca e oferta deixada, sobretudo em consultórios de médicos, por delegados de propaganda de laboratórios de referência. Até porque os clínicos costumavam passar as receitas, aos seus, pacientes, com canetas e era conveniente secar a tinta.
Hoje, nalguns casos, oferecem-se viagens, aos médicos, para congressos em paraísos turísticos...
Seria decerto caricato e quase um insulto presenteá-los com dois ou três mata-borrões.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Do que fui lendo por aí... 34


Não dará para inteiramente eu o recomendar, mas se o tempo de leitura tiver sido vertiginoso (como este foi) o balanço é, para mim, sempre positivo. Li Todo-O-Mundo (2007), de Philip Roth (1933-2018) entre as 16h00, de ontem, e ainda não eram as 23h30, descontando as funções humanas essenciais (refeições, etc.).
O livro não tem tempos mortos, o fluxo narrativo é ágil não deixando de ser denso, e a tradução (Francisco Agarez) pareceu-me competente. Pelo meio é que a obra, talvez pelo excesso de referências clínicas, às vezes, mais parece um vade-mécum de cirurgias cardíacas e correlativos cenários hospitalares.
Não fora isso...

Citações CDXXV


Uma grande democracia é tanto mais sólida quanto ela consegue suportar um cada vez maior volume de informação de qualidade.

Louis Armand (1905-1971), in Plaidoyer pour l'avenir.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Uma fotografia, de vez em quando... (136)


Talvez atraído pelo lado marginal da sociedade, o fotógrafo sueco Anders Petersen (3/5/1944) consagrou uma parte da sua obra a fixar a fauna exótica do sub-mundo de Hamburgo, clientes frequentes dum café (Lehmitz) do centro da cidade. É uma amostra pequena que por aqui deixamos registada.


sábado, 25 de janeiro de 2020

Divagações 156 ( bibliográficas, também)


O rearrumo inesperado de livros, na biblioteca doméstica, para que me deu no final do ano passado e  que se tem vindo a prolongar, fez-me folhear alguns números antigos (1920, 1922 e 1932) da revista Anais das Bibliotecas e Arquivos (BNP), com proveito erudito, mas também aperceber-me, através de alguns catálogos recentes de casas leiloeiras, que compulsei em simultâneo, como o livro usado (tirando as raridades) tem vindo a baixar de preço de forma muito sustentada e inexplicável, ultimamente.


É sabido que só em muito raros períodos da História a economia acompanhou com afecto a literatura e as humanidades. O hoje comprova-o, ampla e barbaramente. Mas já nos anos vinte do século passado, o conceituado secretário da BN, Raúl Proença (1884-1941) se queixava e ameaçava, em encartes por ele assinados, que os almoços iam deixar de ser grátis e que a cultura custa sempre dinheiro.


Em compensação, contemplemos com prazer estético gratuito esta imagem de uma folha de um livro de Horas, dos Iluminados (nº 42) e manuscrito, que se guarda, preciosamente, na nossa Biblioteca Nacional... 

Alan Hovhaness / Wynton Marsalis

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

W. B. Yeats (1865-1939)


The Four Ages of Man


Com o seu próprio corpo travou uma luta
Mas o corpo venceu; passou-lhe adiante.

Lutou depois contra o seu próprio coração;
A inocência partiu e com ela a paz.

Seguiu-se-lhe a luta com o espírito;
Deixando para trás o seu orgulhoso coração.

E agora começaram as guerras com Deus;
Ao bater da meia-noite, Deus vencerá.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Incursões culinárias 30: Aachener Printen - Ingredientes


Aproveitando o meu livro de receitas da Renânia, e completando o "post" de MR, no Prosimetron, apresento a foto com os ingredientes das ditas Aachener Printen, uma espécie de broa de mel, próprias para a época natalícia.

Ao lado encontra-se um molde, à moda antiga, altura em que os Printen eram maiores e tinham desenhos. 

Post de HMJ

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

De Inverno, o nº 8


Com a grande qualidade gráfica a que nos habituou, saiu recentemente o oitavo número da revista Electra. O núcleo duro desta edição aborda  a Memória e o Esquecimento, temas que me são caros e que, previsivelmente, serão tratados com a competência devida, por quem de direito.



terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Incursões Culinárias 29: Renânia - Himmel un Ääd



Himmel un Ääd

Em geminação com um "post" de MR, no Prosimetron, resta acrescentar que estamos a falar de um prato regional da Renânia, com algumas variações de umas terras para outras.

A presente imagem diz respeito ao modo como se faz e come em Colónia: "Himmel" - céu - são as maçãs, que faltam no texto de MR; e "Ääd" - terra em dialecto de Colónia -, que são as batatas. Por cima uma boa camada de cebola, frita juntamente com uma salsicha de sangue, cortada em fatias.

Bom proveito !

Post de HMJ

Interlúdio 72



Talvez excessivamente doméstica, desafinada, artesanal (basta reparar no estado do instrumento musical de Lead Belly...) e näif, para alguns, esta versão de um clássico da folk norte-americana poderá ser substituída, via Youtube, pela interpretação branca e mais sofisticada de Eric Clapton. A contento de outros alguns.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Filatelia CXXXV


Se o uso de sobrecargas em emissões filatélicas se destina, normalmente, a  actualizar ou dar conta de alterações institucionais em países ou nos próprios selos, as sobretaxas são usadas, muitas vezes, para suprir franquias que se esgotaram nos correios, de forma inesperada. Neste capítulo, os territórios de S. Tomé e Príncipe foram talvez a ex-colónia portuguesa onde mais sobretaxas foram usadas sobre emissões filatélicas anteriores.
Comecemos, então, pelo princípio. Por volta de 1890, apareceu por S. Tomé um cidadão inglês, de nome Burt, que resolveu comprar, nos correios da colónia, 2.500 selos da taxa de 5 réis, da emissão de D. Luís, de 1887, reproduzida, integralmente, na imagem inicial do poste. Não se sabe se o fez por gula filatélica, se para efeitos de especulação posterior. Nem sequer o que terá sido feito dessa enorme quantidade de selos.
Perante a emergência, logo Joaquim Augusto da Silva, administrador dos correios santomenses, oficiou ao Governador-geral no sentido de proceder à sobretaxa de alguns selos de 10 réis (mais tarde, de 20 réis e outros) da referida emissão de D. Luís, para substituir a taxa quase em falta. A sugestão foi aceite, superiormente.


Alguém, não satisfeito, e provavelmente com intuitos fraudulentos terá procedido de forma clandestina (?) à alteração das sobrecargas através de erros. Assim resultaram sobretaxas em posição invertida, duplas e outras variantes (como se pode ver na segunda imagem). E que, hoje, estão cotadas por altos preços quer em catálogos nacionais, quer internacionais.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Eugénio


Creio que nunca disse tudo sobre Eugénio de Andrade (1923-2005). Talvez me guarde para o centenário, se eu chegar lá, e ainda for a tempo. Para já, são só 97 anos que o poeta faria hoje, a 19 de Janeiro, se ainda fosse vivo. E a última vez que o vi foi na Feira do Livro, no Parque Eduardo VII. Estranhamente lhe notei um grosso anel de prata (?) no dedo anelar da mão esquerda. Ele que não era nada de penduricalhos, sobretudo em poesia. Autografou-me os dois livros de histórias infantis, que ele escrevera para o afilhado Miguel, trocámos breves palavras formais e despedimo-nos, para sempre.


Da sua poesia é que eu nunca me despedi. Como disse Óscar Lopes: " tudo em Eugénio de Andrade acaba por amanhecer de novo, alado, fresco, rumoroso e frágil de orvalho..."

sábado, 18 de janeiro de 2020

Apontamento 129: J.V. de Pina Martins - Centenário do Nascimento



A BNP fez bem, pela mão de João Alves Dias, evocar J.V. de Pina Martins no dia do seu centenário de nascimento.

Associando-me à evocação significa lembrar-me do Professor que, para além de literatura, transmitia esse universo ilimitado do livro, reunido também na sua Biblioteca de Estudos Humanístico e reproduzido acima.

Os ensinamentos recebidos durante um ano como discípula de J.V. de Pina Martins, de que falei aqui no Arpose a 30.4.2010, perduram ainda hoje, tanto nas releituras de obras que mencionava, como na dedicação ao seu objecto de eleição suprema, o livro.

Regresso, com proveito, ao “seu” Giovanni Pico della Mirandola (1463-1496) no Discurso sobre a Dignidade do Homem, e às palavras de J.P. de Pina Martins, no prefácio, relembrando-nos a Filosofia que se dedica à “valorização do homem na sua condição terrestre”.

Recentemente, porventura por estranha influência dos astros, retomei a leitura de um outro de seus autores citados nas longas conversas sobre literatura. Com efeito, de Petrarca (1304-1374) releio, de momento, De sui ipsius et multorum ignorantia. O livro constitui a invectiva contra pretensos amigos, que o acusaram de ignorância, invejosos, sobretudo, do renome e saber de Francesco Petrarca. Assumindo a sua própria ignorância nesta epístola, colocando a designação de “obra” entre aspas, as reflexões não podiam ser mais actuais. Rodeado de um mundo medíocre, ignorante e invejoso, Petrarca deseja apenas a “paz” e lamenta-se da “guerra” que os homens, indevidamente, lhe provocam.



Uma edição fac-similada, prefaciada por J.V. de Pina Martins, sobre o poeta Dante Allighieri, permite recordar também, para finalizar, as iniciativas de «O Mundo do Livro» dedicadas ao Livro Antigo.

Post de HMJ

Desabafo (52)


Há quem saiba reflectir, quem saiba simplesmente pensar. Quem pense mal. Afortunados os que têm sentido crítico sobre o que vêem, pois se poupam a muitos disparates. Depois, há os blogues abaixo de cão, os comentários burros ou disparatados, que se colam a postes bem intencionados - há que ter paciência e caridade e não re-comentar. Dos pobres de espírito há-de ser o reino dos céus, diz a Bíblia.
Metafisicamente, e  por prudência, evitei falar no inefável partido livre (livre?).

Brahms / Backhaus

Aviso


Um poeta deve deixar traços da sua passagem, não provas. Só os traços fazem sonhar.

René Char (1907-1988), in La Parole en archipel.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Pinacoteca Pessoal 160


Nascido em Kiev, o pintor Vitaly Tikhov (1876-1939) cedo demonstrou uma especial atracção por temas marítimos e por banhistas femininas de fina execução, que por vezes fazem lembrar Renoir. Recentemente (2011) o seu quadro Banhistas, em leilão, alcançou o alto preço final de 17 milhões de rublos.


A partir dos anos 30, no entanto, incorporou na sua obra pictórica temas caros ao realismo soviético de propaganda do regime vigente na U. R. S. S.. Perdendo assim alguma da sua originalidade natural.