sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Miró em Serralves


All's well that ends well

William Shakespeare (1623).

Eduardo Chirinos (Peru, 1960-2016)


Uma formiga, com esforço,
leva consigo uma folha.
                    A folha é enorme,
várias vezes o seu próprio tamanho.
Trata-se porém de um dever inevitável,
uma pura obediência atávica.
                   Na sua retaguarda
idênticas formigas vão fazendo o mesmo
com diversas folhas. Amanhã vão repetir
um ritual cuja razão totalmente ignoro.

Em breve, vou completar cinquenta anos.
Penso na formiga,
na sua cega dança até à morte.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

E. M. Cioran, sobre o poeta Paul Celan


7 Maio (1970)

Paul Celan atirou-se ao Sena. Encontraram o seu cadáver na Segunda-feira passada.
Este homem encantador e impossível, feroz com acessos de ternura, de quem eu gostava e de quem eu fugia, com receio de o ferir, porque tudo o fazia sofrer.
De cada vez que o reencontrava, punha-me à defesa e controlava-me de tal modo que ao fim de meia hora me sentia exausto.

E. M. Cioran, in Cahiers / 1957-1972 (pg. 806).

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pequena história (43)


Eu creio que as mulheres, de uma forma geral, são mais discretas sobre os casos e o seu passado amoroso; e os homens, mais gabarolas...
Ao ler A América dia a dia, de Simone de Beauvoir (1908-1986), fui verificando que as alusões directas a Nelson Algren (1909-1981) são mínimas e muito pouco explícitas. O escritor norte-americano, posteriormente ao caso que os reuniu, deu com a língua nos dentes, de forma algo desabrida e até desagradável. O amor, quando corre mal, transforma-se, por vezes, em ódio ou desencanto grosseiro.
Foi a irmã, Hélène (1910-2001), que deu a notícia, a Simone de Beauvoir, da morte de Algren. A escritora francesa não terá reagido, nem manifestou emoção alguma, aparentemente, na altura. Mas, ao que dizem, quando foi a sepultar levava ainda no dedo o anel que Nelson Algren lhe tinha oferecido, em 1949.

Desabafo (16)


religiões que obrigam a um constante aggiornamento. Ler (e falar d)o último best-seller das livrarias ou referir e ver com extrema devoção o filme recentemente mais oscarizado, comentar a última tirada moralista do Papa, apontar o dedo ao escândalo Saraiva-Gradiva, dar palpites sobre os exames de Guterres para SGNU, opinar sobre quem venceu o debate Trump-Clinton... E os Blogues são um bom exemplo desta sujeição ao efémero. São, no fundo, os coros cacofónicos da net. Onde pouco ou nada se diz e tudo se repete. Para prontamente se esquecer.
Até que ponto conseguirei eu evitar esta epidemia, este contágio avassalador?

Do tom


Os encómios, de leituras minhas recentes, que convergiam para A Ilustre Casa de Ramires, como obra preferida de V. S. Pritchett e Costa Pimpão, da bibliografia de Eça de Queiroz, levaram-me a repegar no volume e retirá-lo, da estante da biblioteca, levando-o para a mesinha de cabeceira. Até porque era o único romance de Eça de que eu não tinha a certeza absoluta de ter lido até ao fim. Depois, aquele carimbo circular da Livraria Académica, de Manaus, só poderia ter vindo do meu Tio Jorge, que andara pela Amazónia dos Brasis, em tenra e, muito provavelmente, difícil juventude... 
Foi, efectivamente, o reencontro confirmado. Com aquele atmosfera bem disposta, de gozo e de ironia, que faz reconhecível o tom ou estilo do "pobre homem da Póvoa de Varzim". Tal como a ambiência melodramática é a marca de água da escrita de Camilo, embora temperada, algumas vezes, por uma ironia mais sofrida. Para não falar do tom pungente de algumas obras de Raul Brandão, mais anoitecido ainda na prosa minhota de Tomaz de Figueiredo. Em contraponto com a algarvia claridade do tom de Teixeira Gomes, sulista e solar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Idiotismos 36


Na rubrica Idiotismos (nº 7, de 5/12/2012), abordei a expressão cortar na casaca. Por essa altura, e por associação de ideias, em parceria com um amigo, tentámos descobrir, também, a origem e razão da expressão virar a casaca que, de uma forma geral, se aplicava a pessoas que se adaptavam a novos tempos, mudando de opinião, partido e modos de ser, para melhor aproveitarem e se servirem de novas conjunturas políticas. João Abel Manta (1928), muito inspiradamente, pouco depois do 25 de Abril, num cartoon muito sugestivo (em imagem, a encimar este poste), exemplificou de forma humorística, os viracasacas, oportunistas que, tendo servido o antigo regime com devoção, se tentavam integrar, disfarçadamente, na nova ordem democrática.
Mas nem o meu amigo nem eu, nessa altura, conseguimos deslindar o mistério da origem do virar a casaca. Recentemente, porém, no livro Origem de várias locuções, adágios, anexins, etc. (Elvas, 1928), de António Thomaz Pires (1850-1913), preto no branco, tudo era explicado claramente. Acontece que Carlos Manuel (1562-1630), duque de Sabóia, tinha um carácter dúplice e oportunista, que o fazia apoiar ora a Espanha, ora a França, na guerra em que os dois países andavam envolvidos. Consoante os benefícios que, daí, poderia colher. E para não ter que mandar fazer duas fardas de cores diferentes (branca, cor da França, e vermelha de Espanha) mandou fazer um casaco branco por um lado e vermelho, do outro. Podendo assim igualmente servir dos dois lados, e ambos os países inimigos, conforme fosse a ocasião e opção escolhida. Assim se começou a usar a expressão: virar a casaca.

para A. de A. M., afectuosamente.

A par e passo 175


Descartes acertou as suas contas com a filosofia, - dos outros. Definiu ou determinou o seu sistema de vida. Ele tinha confiança plena no seu conjunto de modelos e ideais matemáticos e podia, no seu presente, sem necessitar de ir ao passado, sem olhar a nenhuma tradição, empenhar-se na sua luta que seria a sua vontade de clareza e de organização do conhecimento contra a incerteza, o acidental, o confuso e o inconsequente que são os atributos mais prováveis de grande parte dos nossos pensamentos.
Posiciona-se numa primeira certeza; afirma "que é necessário rejeitar como absolutamente falso aquilo que podia provocar a menor dúvida, de modo a descobrir se não existiria, depois disto, alguma coisa na sua crença que fosse inteiramente indubitável". E alega, fundando-se na sua experiência que nós temos sonhos, e que tudo pode ser talvez apenas sonho. Só a sua famosa proposição: Je pense, donc je suis, lhe parece uma verdade indestrutível, que é preciso tomar como primeiro princípio, e que lhe revela, por outro lado, que é, em si, uma base donde toda a essência se pode pensar, independentemente do corpo, do lugar, de toda a coisa material.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 229/30).

domingo, 25 de setembro de 2016

Nino Rota / Borislava Taneva : alguns dos "Prelúdios"


... uma atençãozinha especial ao Prelúdio nº 13, que começa por volta do 6º minuto do vídeo...

Do rifoneiro castelhano (6)


Más son los amenazados que los acuchillados.

(São mais os ameaçados do que os esfaqueados.)


Nota pessoal: este ditado espanhol fez-me lembrar, indirectamente, o provérbio português - "Cão que ladra, não morde."

sábado, 24 de setembro de 2016

Exposição, hoje, em Almada


Discreta e emigrada desde 1970, em Amesterdão, Maria Beatriz (1940) inaugura, hoje, em Almada e na Casa da Cerca, uma mostra subordinada ao tema Trabalho de Casa. O uso da colagem tem sido uma constante da sua obra, mantida, ao longo de dispersas exposições, que tem feito em Portugal. A artista está representada no C. A. M. (Gulbenkian).


Presente passado


Ler um jornal atrasado tem algumas peculariedades singulares, sobretudo porque nos desaproxima da emoção das notícias, deflaciona os acontecimentos, redu-los, muitas vezes, a cinza fria.
Será, de algum modo, a mesma sensação que perpassa pelas novelas de Somerset Maugham, quando o escritor britânico descreve a leitura de "The Times", duas ou três semanas depois de publicado, às mãos dos administradores do Império, na Índia, em Singapura... Provavelmente, impressões semelhantes que experimentavam os administrativos portugueses, nas colónias, quando recebiam, por exemplo, o DN, com semanas (?) de atraso. Isto, antes da Internet baralhar os dados, através das auto-estradas de informação.
Havia em tudo isso uma vantagem, porque o tempo resolve algumas coisas, remedeia outras, reduz os acontecimentos a uma mumificação do passado, com o seu valor mais relativo. E poupa-se na leitura. Hoje, ao folhear um jornal de há doze dias, fiz, natural e mecanicamente, uma triagem salutar. Ficaram as crónicas intemporais, uma entrevista que podia ser de ontem, duas ou três informações de interesse e pouco mais. A maior parte das notícias, até as de primeira página, tinham perdido o picante, a importância (que lhes tinha sido dada), a actualidade fremente, enfim, pela banalidade que o tempo introduzira nos seus desenvolvimentos.  

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Leonard Cohen

Iconografia moderna e laica (25)


Eu sabia que se me lembrasse do apelido, recordaria certamente o nome. Mas não consegui. O sonho, depois, consubstanciara-se apenas por impressões fragmentárias, intensas mas fluidas, em temas de remotas discussões de cariz profissional, onde a agressividade rondava mas não se revelava inteiramente; em que as ameaças, como um céu carregado, se perfilavam apenas, sem desencadearem um duelo mortal que definisse a situação futura, concreta. Nem o resultado final. Talvez a ironia dominasse as faces, num sorriso enganador - aliás, como eu o lembrava, trinta anos atrás.
O cenário era também improvável: o chão adocicado de fruta escorrida, e pegajoso, escorregadio ao mesmo tempo; juncado de lenços de papel usados e panos diversos muito sujos, já servidos. Por diversos compartimentos contíguos, circulavam protagonistas fardados entoando cantilenas diversas, como se de uma tragédia grega se tratasse, mesmo que ninguém o admitisse. E essas vozes, num coro e destino fatal, de súbito faziam-se grupo reordenado em fuga. Como se da terra procurassem a Arca, desesperadamente. Para escapar, sobreviventes por um pequeno tempo, ao Dilúvio.
Que a ficção não iria senão adiar o fim. Esse, sim, real.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Do cancioneiro tradicional espanhol (4)


Porque adormece sozinha
gelada amanhece
a água.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Divagações 116


É o anoitecer que colhe, o mais das vezes, a preferência do viandante. Seja sobre o Adriático ou sobre o Tejo, essa nostálgica despedida do olhar, que a memória quer trazer por sobre as águas.
Depois, o enquadramento dará algumas pistas sobre quem esteve por trás: o movimento fixado, as coisas, a ordem ou a desarrumação, a quietude que se pretendia para a noite a começar.
Ao amanhecer, não se peça uma opção definida e clara. Em todo o caso, podemos sempre convocar Turner...

Beethoven


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Apontamento 93: Passeios por Lisboa - 4


Afazeres vários desviaram-me, por uns dias, de pequenos percursos citadinos. Por vezes, são desvios, alongando ou modificando o caminho normal. Hoje, por desfastio e numa tentativa de esquecer um contacto bancário desagradável, resolvi descer a Rua da Emenda e encontrei, a meio caminho, esta figueira, frondosa, no meio da cidade. Fiquei com simpatia pelo proprietário que, assim, resolveu embelezar a sua entrada.


  [Foto de Sérgio Dias]

Descendo, a cidade deu-me a conhecer o Pátio do Pimenta, uma pequena reentrância ao fundo da Rua da Emenda. Espaço curioso e que tem um apontamento explicativo numa página chamada: Toponímia de Lisboa.
[https://toponimialisboa.wordpress.com/2015/09/25/que-pimenta-deu-nome-ao-patio/]

O meu fito era visitar a minha peixeira do Mercado da Ribeira, comprando um peixinho para o almoço de amanhã. Não sendo freguesa frequente, sou, no entanto, recebida com toda a simpatia e profissionalismo, porque a Teresa sabe arranjar, e muito bem, uns filetes de pescada.

A volta pelas bancadas, comprando pão e azeitonas, deu para encher o olhar das flores e dos frutos em exposição. Depois, no Jardim de D. Luís, sentei-me junto de um quiosque para tomar um café. A “fauna humana” daquelas paragens é que não se recomenda !


E, como já vai sendo hábito, a subida do regresso é com o apoio do 758 da Carris.

Post de HMJ

Boas novas


Não é todos os dias que nos podemos congratular com boas notícias. E, desta vez, foram duas que surgiram quase em simultâneo.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu oficial e garantidamente que o sarampo e a rubéola foram erradicados em Portugal. É o resultado de uma política de saúde consistente e perseverante, ao longo de várias décadas, mas também um objectivo alcançado pelos agentes, diversos, do Serviço Nacional de Saúde português.
A outra boa nova prende-se com a Cultura e o Património nacional. E interrompe dois séculos de desmazelo, ao ser anunciado o projecto de conclusão do Palácio Nacional da Ajuda que, segundo foi dito, ficará concluído em finais de 2018. O custo (15 milhões de euros) será suportado pelo Ministério da tutela e pela Câmara de Lisboa (através da taxa turística, que tanta polémica provocou, quando foi lançada...).

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ad usum delphini (5)


Hoje, manhã cedo (7h36), recebi uma prestigiante visita, ao Arpose, oriunda da Secretaria Geral dos Negócios Estrangeiros. Disse cá para comigo: Como amanhece cedo nas Necessidades!...
O diplomata (?) interrogava-se sobre Philip Larkin photograph. O Google, na sua inocência algorítmica, zarolha e mecânica, remeteu o(a) visitante para um poste (21/7/2012) em que eu traduzi um poema do poeta inglês - fraca consolação, por certo, pensei.
Entretanto, decidi documentar-me e cheguei à conclusão que a Fotografia era o hobby preferido de Philip Larkin (1922-1985). E que até houve um incidente um pouco grave, numa altura em que o poeta andou a tirar fotografias, a torto e a direito, pelo Soho. Minudências, decerto, do conhecimento cosmopolita do diplomata visitante e madrugador...

Citações CCXCVIII


A História é algo que nunca aconteceu, escrita por um homem que não estava lá.

Anónimo

domingo, 18 de setembro de 2016

Philip Glass : "Labirinto"


Filatelia CXV


O Bloco (filatélico), propriamente dito, aparece, pela primeira vez em 1923, emitido pelos correios do Luxemburgo. Destinava-se principalmente aos filatelistas, muito embora os selos pudessem ser destacados da folha ou no conjunto, que aliás em língua inglesa se denomina Miniature Sheet, e virem a ser usados como franquia postal em correspondência ou para envio de encomendas.
Os CTT emitem o primeiro Bloco português, em 1940, muito embora venha nele inscrita a data de 1939. Destinava-se a celebrar a Legião Portuguesa. Teve uma tiragem de apenas 10.000 exemplares e, sendo raro, tem hoje o valor mais alto dos blocos portugueses: 1.200,00 euros ( Catálogo Mundifil, 2016), novo e com goma inteira, no verso.


Os Estados Unidos da América emitiram o seu primeiro Bloco em 1926, para comemorar a Exposição Filatélica Internacional de Nova Iorque. O Bloco em imagem, de 1947, que se mostra, é o oitavo na sequência cronológica, porque as emissões desta temática eram parcimoniosas e usadas apenas para difundir acontecimentos importantes ou datas históricas de relevo. Em cerca de 20 anos foram emitidos somente 8 Blocos pelos correios norte-americanos.



O Reino Unido, que sempre foi conservador na sua política de Correios, até tempos recentes - exemplo seguido por Portugal até 1976 -, emitiu o seu primeiro Bloco apenas em 1980, como se mostra. A partir dos anos 90, do século passado, políticas comerciais desenfreadas e oportunistas dos correios mundiais fizeram da emissão de Blocos não um acontecimento de celebração e excepção, mas um motivo de regra mercantil e lucro fácil, graças à conivência de muitos cegos e generosos, para não dizer perdulários, filatelistas. Assim se foram banalizando os Blocos...

sábado, 17 de setembro de 2016

2 poemas de Oscar Hahn (Chile, 1938), traduzidos


Sociedade de consumo


Caminhamos de mão dada pelo supermercado
por entre filas de cereais e detergentes

Avançamos de gôndola em gôndola
até chegar às latas de conserva

Examinamos os novos artigos
anunciados já na televisão

De súbito olhámo-nos nos olhos
e desaparecemos um no outro

e nos consumimos.

...
...
Televidente

Aqui estou, mais uma vez, de volta
ao meu quarto na cidade de Iowa

Pouco a pouco vou sorvendo a sopa
Campbell, frente ao televisor apagado

O ecrã reflecte-me a imagem
da colher a entrar-me na boca

E sou o reclamo comercial de mim
mesmo, que anuncia nada a ninguém.

Curiosidades 58


A pólvora terá sido criada na China, no final do século X, e começada a ser usada, intermitentemente, em batalhas por volta de 1083, durante a dinastia Song.
No TLS (nº 5918), em recensão ao livro The Gunpower Age, de Tonio Andrade, são referidos vários aspectos curiosos do seu uso, mas não só. A intensidade das guerras, na Europa, causou-me surpresa.
Aqui deixo, em tradução, uma parte transcrita do texto em questão:
"...De 1480 a 1700, a Inglaterra envolveu-se em vinte e nove guerras, a França em trinta e quatro e a Espanha em trinta e seis. A dinastia Ming na China, iniciada em 1368, terá sido o primeiro poder a usar a pólvora consistentemente, mas a paz congelou, de algum modo, a sua criatividade balística. Por volta de 1520, é sabido que Portugal tinha as melhores armas. ..."

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Alberto Ginastera / Martha Argerich


Comic Relief (129)


Honni soit qui mal y pense...
Sempre prefiro a mal-casada (bruxa) ao presidente da junta ou tolo da aldeia (global).

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Apontamento 92: Novamente o ambiente e o direito ao silêncio

Não tenho nada contra programas de animação, desde que respeitem o direito dos cidadãos – a um emprego com condições de horários e que respeitem o silêncio e promovam a cultura.

Assim sendo, não me parece aceitável que qualquer animação ruidosa se enquadre no conceito de cultura.

Assistimos, pois, neste momento a uma “movida ruidosa”, certamente enquadrada na tal “venda nocturna”. Não entendo, portanto, por que motivo se tem de, com ruído, inquietar todo um conjunto de pessoas que procuram silêncio nocturno, com um “berreiro” a promover uma actividade essencialmente ECONÓMICA de promoção e venda de produtos.

O que parece saloio, i.e., a promoção, no Verão, de Festas Pimba, repete-se também neste momento na Capital. Meninas e Meninos a gritar para os microfones, para ver se alguém come ou bebe mais alguma coisa nas zonas, hoje, de Chiado até à Av. da Liberdade.

E o pacato cidadão tem que aturar mais este abuso? Não  será  possível introduzir limitadores de ruído? Deste modo, ouviam os que estão próximos do “ARRAIAL” e os restantes cidadãos também seriam respeitados no seu desejo e direito de silêncio.


Chega de animação de chinelo, disfarçada de acontecimento cultural !

Post de HMJ

Praxes


Quando, em 1931, Alberto de Souza aguarelou este Estudante, as praxes académicas circunscreviam-se a Coimbra, tal como nos anos 60, quando por lá andei. E até o Dux Veteranorum estava obrigado a respeitar as regras do Código, que tinham mais de lúdico do que de punitivo ou dramático.
Nos anos 80/90, com a proliferação de canhestras e oportunistas Universidades, de saber pouco rigoroso e duvidosa qualidade científica, o uso de capa e batina e as praxes alastraram de forma selvagem, permanente, exercidas por energúmenos ignorantes e sádicos, sobre caloiros submissos e, talvez, propensos ao exibicionismo.
Foi assim que tivemos o nosso Jonestown (da seita People's Temple), na praia do Meco, embora de menores dimensões numéricas nas mortes incompreensíveis e inúteis.
Parece que o novo Ministro do Ensino Superior está disposto a um braço de ferro que acabe com estas práticas medievais e aberrantes. Faço votos para que não perca a coragem e não lhe falte a perseverança!

Memória (112)


Por um acaso aparente, o nome de Mário Cesariny de Vasconcelos, nos últimos dois dias, cruzou-se várias vezes comigo. Inicialmente, e num Blogue amigo, em comentário, citei dele um pequeno poema. Depois, à noite, zapeando na TV, apanhei o falecido realizador Fernando Lopes, num programa antigo, a chamar-lhe Mago. Finalmente ontem, num jornal, vinha a notícia de que a Câmara de Lisboa lhe iria disponibilizar um jazigo individual, no Cemitério dos Prazeres. Lembro que ele tinha sido sepultado, anteriormente, no Talhão dos Artistas.
Há reconhecimentos que chegam tarde à nossa vida. Dei por Turner na meia idade, quando, por exemplo, comecei a gostar da obra de Soutine, na adolescência. Quanto a poetas, e surrealistas, sempre privilegiei mais, e desde cedo, Alexandre O'Neill, que tinha uma irreverência mais viva e criativa. Depois, não levei muito a bem que Cesariny tivesse trocado a poesia pela pintura (necessidades?) que, aliás, nunca me despertou grande interesse. Mas aqueles dedos trémulos, segurando o eterno cigarro, em dois leilões de livros, em que lhe fiquei ao pé, comoveram-me...
E, estando tão esquecido, há que lembrar que era um bom poeta.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Os inefáveis algoritmos e o tolo da aldeia (global)


Eu sei que há quem defenda o uso dos algoritmos, estão no seu legítimo direito democrático. Poupam trabalhadores, células cinzentas, pensar. Uniformizam ao nível da chinela e da grosseira generalização.
Hoje, o Youtube, entre outras baboseiras, infantilidades e parvoíces, recomendava-me um vídeo intitulado Evidence The Titanic Was Sunk on Purpose, que já tinha sido visitado por 1.501.678 inocentes.
Nunca pensei que houvesse tantos tolos de aldeia, no mundo...

Gabriel Pierné (1863-1937) : "Canzonetta"


Citações CCXCVII


A vaidade prega grandes partidas à nossa memória.

Joseph Conrad (1857-1924), in Lord Jim.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Apontamento 91: Cidades e Ambiente



Quando pensamos em diversos assuntos que nos apoquentam, tanto do ponto de vista dos princípios como nas suas implicações, frequentemente negativas, na vivência quotidiana, vale a pena não recusar a opção anterior de um determinado modelo de cidade. Em cima, uma praça no centro de Colónia, dedicada a Friederich Ebert, que se transformou, como se vê abaixo, num amontoado de pedra.



Recentemente, a praça do Toural, em Guimarães, sofreu uma remodelação semelhante. Tiraram o velho jardim, tão característico, embora datado, das cidades portuguesas, para implantar um “descampado” de pedra.

Servem os dois exemplos para não nos desviarmos do essencial. O mal de “ensaiar” a “Cidade do Futuro”, com arranjos duvidosos, não é nacional. Como não é o desvio de tempo e dinheiro nas obras públicas, como demonstra a “obra de Stª Engrácia” do novo aeroporto de Berlim.

No meio, sobra-nos sempre o dia-a-dia, em que o “arranjo” ao acaso, sem atender a questões elementares de um bom ambiente cívico – e civilizado – nos estraga a luz e a vista da cidade.

Comecei o dia bem, passeando por um bairro junto do Palácio dos Coruchéus e o jardim do Campo Grande.


 Acabei, e mal, na Baixa, com aquele enxame de turistas de chinelo, a olhar parvamente para umas foleirices – visuais e sonoras – sem que haja entidade que fiscalize e oriente a ocupação do espaço público por semelhante menoridade.

O mesmo sucede com a instalação de uma cadeia de “fast food”, conspurcando não só com publicidade as escadas do Metro como também as ruas com o lixo espalhado pelo chão.



E tal como os meninos, mal ensinados nas pretensas aulas de Ambiente, continuam a deitar todo o lixo no chão, o Mc Donald’s do Chiado não tem caixote do lixo dentro da loja e alega que a Câmara Municipal de Lisboa não permite colocar recipientes à saída.


Bastava recuar um bocado para recuperar a noção de educação cívica e civilizada para tornar o dia-a-dia mais agradável.

Post de HMJ, para maria franco, numa partilha de preocupação cívica e ambiental

Irrealidades


O velho almirante já um pouco escalavrado, depois de pesquisar as edições da A. G. U.  na segunda estante, à direita de quem entra, foi sentar-se pesadamente no maple verde de napa, ao fundo da loja, muito próximo do maçon insular, de memória prodigiosa, que folheava um livro, na estante dos truncados.
O gordalhufo, que escreve no Público às terças e quintas-feiras, sopesava " A Educação Sentimental", de Flaubert, mas já se tinha apossado de um folheto sobre as campanhas de África, quem sabe se no intuito de se documentar sobre os Comandos e vir a escrever uma crónica para denegrir um partido de esquerda.
O jovem historiador e ramalhudo universitário, que tentou branquear o salazarismo por palavras mansas e cristãs, arrebanhou um von Clausewitz, com gula, e perfilou-se a olhar, indeciso, para uns Ensaios, ainda literários, de Franco Nogueira. Creio que não os levou, que a literatura nunca foi o seu forte.
Eu trouxe umas recensões de V. S. Pritchett, que mais parecia um tijolo. Mas que falavam e tinham capítulos sobre Eça e Graham Greene, e isso me bastou para esportular alguns euros. Poucos. Com o livro, veio também um postal retro com uma aguarela de Alberto de Souza, que ainda há-de aparecer no Arpose.
No entretanto, chegou o meu Amigo.

para H. N., que sabe do que eu falo...

Em louvor do Tango : Horacio Salgán (Buenos Aires, 1916-2016)


Centenário já, Horacio Salgán faleceu dois meses depois de completar 100 anos, em Agosto passado. Era o último sobrevivente da idade de ouro do tango argentino. Maestro e pianista, com formação clássica, deixou obra vasta, donde se destaca A Fuego Lento e uma oratória dedicada a Carlos Gardel.
Num medley saudoso sobre o Tango e Buenos Aires, Daniel Baremboim não se esqueceu de incluir A Fuego Lento, que aparece assim, aqui, em duas versões.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Uma fotografia, de vez em quando (86)


É um momento explosivo de juventude, alegria, incontida emoção.
O marinheiro, em licença, George Mendonsa (1923-?) saíra duma sala de espectáculos, para Times Square (Nova Iorque), para se assegurar que a II Grande Guerra tinha, realmente, terminado; a assistente de dentista, Greta Zimmer Friedman (1924-2016) tinha vindo à rua, para confirmar a notícia. O fotógrafo Alfred Eisenstaedt (1898-1995) estava lá, e fixou, em instantâneo, esse arroubo de felicidade imensa que levou o marinheiro, radiante, a beijar uma enfermeira desconhecida que, talvez por intuição ou generosidade, o permitiu. Foi isto a 14 de Agosto de 1945.
A revista Life veio a publicar a emblemática fotografia na sua edição seguinte.
Segundo nos informa o jornal Público, Greta Friedman faleceu ontem, com 92 anos.

Da leitura (16)


                                                                                                                                              3 de Março
Cidades construídas em colinas à borda de água vi eu muitas. Por diferentes que sejam Marselha, Argel, Lisboa, Nápoles, todas elas têm um traço comum: as suas colinas foram utilizadas como elemento arquitectónico; as ruas adaptam-se-lhes às curvas, trepam em espirais, de modo que quase de toda a parte se vê o mar; o plano, complicado nos mapas, apresenta-se na realidade como natural e simples. (...)

Simone de Beauvoir, in A América dia a dia (pg. 139).

domingo, 11 de setembro de 2016

A par e passo 174


Pensem também que, de entre todas as artes, a nossa (poesia) é talvez a que coordena o maior conjunto de componentes ou factores independentes: o som, o sentido, o real e o imaginário, a lógica, a sintaxe e a dupla invenção do fundo e da forma... e tudo isto por intermédio desse meio essencialmente prático, perpetuamente alterado, por vezes manchado, conjugando todos os ofícios, da linguagem comum, com a exigência de se obter uma Voz pura, ideal, capaz de comunicar sem fraquezas, sem esforço aparente, sem perturbar a nossa audição e sem romper a esfera instantânea do universo poético, uma ideia singular de um  eu maravilhosamente superior ao Eu.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 162).

Do rifoneiro castelhano (5)


Alegría secreta, candela muerta.

( Alegria calada, candeia apagada.)

sábado, 10 de setembro de 2016

As palavras do dia (22)


Embora a citação (entre chavetas grandes, a esferográfica, na imagem) me pareça o cerne da questão, será de bom tom ler no jornal Público, de hoje, a crónica integral de J. Pacheco Pereira, que chama a atenção para alguns "mitos menores e maiores postos em circulação" por algumas Cassandras, alguns comentadores e economistas a soldo e ainda outros, pequeninos, historiadores portugueses de pacotilha.

Impromptu (28)


Um clássico de Dylan. Que, na minha perspectiva, e na interpretação de Peter, Paul & Mary, nada fica a dever à versão do seu talentoso criador...

Citações CCXCVI


As mulheres são como a Legião de Honra: e isso não se pede, não se recusa, nem se exibe.

Jean d'Ormesson (1925).

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Mercearias Finas 115


Mas quem me manda a mim guardar vinhos brancos, para além dos 5 anos regulamentares!?
Claro que vamos ter um especioso vinagre de Pfalz ( Palatinado alemão) como manda a lei, mas o Arinto de Bucelas (1972) foi pelo cano do lava-loiças, abaixo. Que intenso vinagrinho era com ele...
O tinto garrafeira CRF (1974) é que era outra louça, na sua cor avermelhada de brasido suave a apagar-se. A Touriga, que lhe estava de certeza nos genes, mostrou a sua raça, aroma e longevidade. Portou-se lindamente com um queijo artesanal de ovelha, da região de Castelo Branco.
Nem tudo se perdeu...

Bibliofilia 146


Anos e anos ambicionei ter uma Corografia, que me informasse, pelo menos geograficamente, sobre as terras portuguesas. Não estava sequer nos meus horizontes o Portugal Antigo e Moderno, obra maior de A. Pinho Leal que, além dos aspectos geográficos, informa exaustivamente o leitor sobre os detalhes históricos das povoações nacionais, por pequenas que sejam. Esta obra foi-me oferecida, há pouco, gentilmente.
Mas ao dobrar do século actual, no meu alfarrabista de referência, encontrei a bom preço (que as Corografias são caras habitualmente) este Diccionario Chorographico de Portugal... (1874), obra sucinta mas competente, que me encheu de satisfação e fui usando com proveito, com referência à parte geográfica. Encadernado modestamente, o volume encontra-se em muito bom estado, para os anos que já conta.
Por adenda e curiosidade vou referir algumas terras, e respectivo distrito, com nomes mais singulares:
- Ana Loura, distrito de Évora.
- Beberriqueira, distrito de Santarém.
- Farinha Podre, distrito de Coimbra.
- Mamarrosa, distrito de Aveiro.
- Minhocal, distrito da Guarda.
- Rosto de Cão, distrito de Ponta Delgada (Açores).
- Rio Cabrão, distrito de Viana do Castelo.
- Sobradelo da Goma, distrito de Braga.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ferré

Indeciso entre o canadiano Cohen e o monegasco Ferré, para fechar a noite, optei pelo velho anarca falecido que, no passado dia 24 de Agosto, se fosse vivo, teria completado 100 anos. Não chegou lá, mas as suas canções ainda têm vida...

E que MR me desculpe ter-lhe roubado uma canção francesa, que poderia vir a constar da sua rubrica, no Prosimetron. 

Retro (88)


Perdoe-se a publicidade, que isto depois de um almoço no Restaurante Nepalês, da rua de S. José, recompõe-se muito melhor com uma ginjinha fresca, com elas, ali pelas Portas de Santo Antão.
Por outro lado, estas lojas com tradição merecem a minha melhor estima e o nosso desvelo.
Sublinhe-se a indicação preciosa do pequeno folheto: "Esta Casa nunca concorreu a nenhuma exposição nacional nem estrangeira" - é assim mesmo!... Que isto de concursos, muitas vezes, já têm prémios assegurados de antemão, e só servem para enganar o pagode.


Desabafo (15)


Vou tendo cada vez menos paciência para poemas longos, que se desenrolam em versos repetitivos, que nada vão acrescentando, como o If do Kipling. Tal como me exasperam as perlengas moralistas ou retóricas sobre ninharias inúteis.
Vinte minutos contínuos, ontem, de incêndios no noticiário da TV. Penosamente vistos, inutilmente olhados. Contributo perverso para acicatar a coragem de alguns desarranjados pirómanos, que ainda não se puseram em campo, com os seus isqueiros de bolso?
Mas de que maneira um cidadão normal vê isto no ecrã televisivo? Com pavor? Com pena? Com caridade compungida? Ou como simples espectáculo - talvez desejo ardente dos directores de programas, sedentos de aumentar o seu share?
Não haverá meio de reduzir estas reportagens ao mínimo, a breves notas com discrição, evitando as vozes épicas ou empoladas de jornalistas enxundiosos e apalermados?

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Apontamento 90: A LENTA degradação da imprensa escrita


#Os Cursos EFA são, por isso, um instrumento basilar
para a prossecução dos objectivos definidos pelo XVII Governo
Constitucional para as políticas de educação e formação,
no qual assume particular destaque a generalização
do nível secundário como patamar mínimo de qualificação
da população.#
[citação de um diploma legal para jornalista tolhido pelo calor dos dias]

Após mais um pequeno “encontro espiritual amigável”, depois das férias, em que, entre outros muitos assuntos, se abordam, com alguma frequência, as fraquezas e a impreparação intelectual e falta de ética da imprensa, tanto nacional como europeia, não consigo calar-me perante mais uma destas “peças jornalísticas” menores.

Sob o título de “Os novos analfabetos” circula por aí, e num jornal semanal de responsabilidade, mais uma peça dedicada à educação, em que o referido semanário gosta de “meter o bedelho”, porque não tem mostrado preparação para uma discussão séria da educação e cultura no país.

Nem sequer discuto o desvario de meter, no mesmo propósito, cidadãs, aparentemente analfabetas, de 70 ou 29 anos actualmente, estes últimos com escolaridade obrigatória de nove ou doze anos, instituída após o 25 de Abril.

Recordar a circunstância de haver, sobretudo em meios piscatórios, idosas ainda com vontade de aprender a ler, faculdade matricial do ser humano que lhes foi negada durante décadas, merece apenas o consentimento de alguém que espera que a imprensa cumpra o seu essencial: informar sobre a situação social, cultural e política do país em que se insere.

Quando depois se começa a falar dos “novos analfabetos” – funcionais (?) ou outros (?) – falando de uma criatura de 29 anos, numa “mistura de vergonha e garra” por não saber ler nem escrever, entramos no terreno inclinado de uma imprensa que, cada vez mais, resolve, com o “modo fala barato de feira”, abordar, pretensamente, assuntos sérios da sociedade. Ora, a seriedade não resulta do discurso final, mas da ética e do saber profundo com que alguém se dedica à sua profissão.

De facto, os jornalistas não sabem, de todo, do que estão a falar, nem podiam, alguma vez, imaginar o que uma tal “criatura de 29 anos” – SOFREU – para que lhe ensinassem a ler e escrever, para além das aulas normais, com: aulas de apoio, programas especiais – de que já não me lembro de todos os nomes que se foram inventando para repescar meninos desviados – porque os infelizes eram, de facto, todos aqueles que insistiam, diariamente, em aplicar semelhante sofrimento em nome da Humanidade e do Estado de Direito que decretou a Lei de Bases do Sistema Educativo.

Se tenho simpatia pela senhora de 70 anos, com enorme vontade de aprender, abomino jornalistas impreparados – porque também me passaram pelas mãos sem nenhuma capacidade para formularem sequer uma ideia ou uma frase correcta – e parece-me altura para denunciar uma imprensa de espectáculo, sem critério ou um mínimo de preparação funcional, nem ética.

Post de HMJ

Do cancioneiro tradicional castelhano (3)


Pelo mar abaixo
lá vai Catarina,
as pernas de fora,
um frade por cima.

Franz Schubert / Alfred Brendel : "Seis momentos musicais" (D 780)

Para alguns, poucos...

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Abel Salazar


Ao iniciar a leitura do segundo volume da biografia (política) de Álvaro Cunhal (Temas e Debates, 2001), por José Pacheco Pereira, fiquei agradavelmente surpreendido ao saber que aquele tinha grande admiração pela obra de Abel Salazar (1889-1946), e lhe dedicara algumas referências críticas elogiosas na correspondência que trocaram.
Lembrei-me das primeiras pinturas de Abel Salazar, que conheci, no início dos anos 70, em casa de um amigo, perto de Urgezes, nos subúrbios de Guimarães. Pequenas telas intimistas, de interiores, com singular tratamento da luz, que me deixaram fascinado. Mais tarde, tomei contacto com mais trabalhos pictóricos deste médico nascido em Guimarães, que pintava muito bem, na Sociedade Martins Sarmento.
E porque lhe admiro, também, a obra, hoje, concluí que as suas pinturas talvez estejam subavaliadas e ele, como bom pintor, está muito esquecido por quem gosta de pintura portuguesa. Por isso, aqui o venho recordar pelo seu auto-retrato, por uma paisagem e ainda pela jovem das Galerias Lafayette.



Registo


Para que conste, aqui fica exarado que vi, esta tarde, a primeira nuvem de estorninhos sobre Lisboa. Cedo para o que é costume. Será por causa do calor intenso que se tem feito sentir?