terça-feira, 31 de maio de 2016

Citações CCLXXXVIII


A morte de um homem é sempre uma tragédia. A morte de milhares é apenas uma questão estatística.

Josef Stalin (1878-1953).


Nota: citado por Mary Soames, referindo uma conversa entre o pai (Churchill) e Stalin.

Wagner/ Liszt/ Bolet


Bibliofilia 134


Nunca fui muito atraído por primeiras edições de Eça ou de Camilo. Muito embora me tenha apercebido, ao longo dos anos, que o autor de "Amor de Perdição" era mais bem tratado a Norte. Pelos alfarrabistas. As diferenças de preços, das obras Camilo Castelo Branco (1825-1890), entre Lisboa e Porto, são bem notórias.
Creio que do romancista de Seide tenho apenas uma primeira edição, cujo frontispício se apresenta em imagem. Custou-me, em Lisboa e há mais de trinta anos, Esc. 1.200$00. O exemplar, em razoável estado de conservação, não tem, no entanto, as capas de brochura e mostra alguns picos de humidade no papel.
Em 1939, Arnaldo Henriques de Oliveira considerava "D. Luiz de Portugal...", na sua impressão original (Porto, 1883): "...obra rara e de cuidada edição". Era o lote nº 1371 do leilão da riquíssima biblioteca de Avila Perez, que foi arrematado por Esc. 17$00.
Hoje, num breve zapping por alfarrabistas de Lisboa e Porto, encontrei 3 exemplares, para venda, da mesma primeira edição de Camilo, com preços que oscilavam entre os 30 e os 80 euros. O que, sem dúvida, revela um certo desnorte...

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Última hora


Por informação fidedigna, posso comunicar que foram transformadas em patacos, nas últimas três semanas, 2 grandes bibliotecas que jaziam, respectivamente, em Castelo Branco e Colares. Esta última, embora anafada ou obesa, não contém preciosidades nem clássicos. Mais, não sei.

Divagações 113


Num dos últimos TLS, que li, perguntava-se para que serve um crítico, partindo de uma premissa de Baudelaire. No mesmo jornal literário inglês, mas noutro artigo, citava-se o crítico de arte Robert Walser: There is no elegance without a certain nonchalence. Hesitei em traduzir, para mim mesmo, este nonchalence por desprendimento ou indiferença.
Supervisor do gosto, a isenção do crítico, do meu ponto de vista, sofreu um certo abalo nos últimos tempos, porque raramente deixámos de perguntar se o crítico não estará a soldo de alguém - de uma editora, de uma galeria ou, pelo menos, de uma ideologia. Neste último caso - o menos perturbador - o facto é aceitável, desde que haja uma declaração  de interesses...
Académicos, autodidactas ou simplesmente dotados de uma estética própria, os críticos respondem a uma necessidade, do meu ponto de vista: mondar o mau gosto, com frequência, prevalecente nas maiorias. Não é pequena a importância da função.

domingo, 29 de maio de 2016

As escolhas pessoais


Dizia Sá de Miranda, na sua écloga Basto: "...bebemos das bem-querias/ que cada um consigo tem..."
E daí, normalmente, não abdicámos. Frequentes são as escolhas de cada um, a nível literário, as tais 10 obras que se levariam para uma ilha deserta. No que à Música diz respeito, não é habitual perguntarem-se, no entanto, as escolhas pessoais. Eu não hesitaria, porém, em seleccionar 3 das obras que mais gosto de ouvir, e que são, por ordem cronológica:
- A Sarabanda, de Händel, que Kubrick usou na banda sonora de "Barry Lindon".
- O allegretto, da 7ª Sinfonia de Beethoven, interpretado por Alfred Brendel, e/ou dirigido por Karajan.
- De Schubert, a maravilhosa Lied "Auf dem Wasser zu singen", interpretada ao piano por Jorge Bolet.
Este último, grande pianista cubano, já falecido, elegia como sua escolha pessoal, um dos Scherzo de Chopin, tocado pelo seu antigo professor, Josef Hofmann (1876-1957). É o vídeo dessa interpretação que deixo a encimar o poste, neste Domingo que amanheceu soalheiro. Pelo menos, por enquanto...

Recuperado de um moleskine (22)


Associações e sinestesias, na manhã

Há um sabor elástico, que se ouve no ar limpo, oriundo - vi, depois - de um traga-mundos que sobe uma ladeira de terra batida. É um carro silencioso em tudo o mais, só que os pneus de borracha densa, ao vencer a terra areenta, provocam esse ruído surdo, a meio gás.
Mas também o verde se projecta para além de si. Como se fosse de uma relva aérea, improvável, na copa alta dos pinheiros mansos que vejo da janela, ao longe. Desço a ambição, ao verde, e faço-o mais rasteiro. Pinto-lhe alguns cardos, lilazes e florais. Remato com papoilas, rubras, para dar mais cor.
Pintam a torre, por entre branco e verde escuro. Cordas do andaime oscilam ao vento, como num circo exterior os cabos do trapézio. Mas não há palhaços. A qualquer momento, no entanto, pode surgir um homem de fato-macaco, com uma brocha na mão, no ângulo da minha janela. Subindo, por artes mágicas, no elevador improvisado.

sábado, 28 de maio de 2016

O insólito acontece


Estava eu posto em sossego, lendo o TLS, seriam umas 11h00 da manhã, quando tocaram à porta exterior do prédio. Larguei o jornal inglês, em cima da mesa, e accionei o intercomunicador. Duas jovens trintonas, com bom aspecto, se apresentavam. Perguntei ao que vinham. Uma delas, talvez a mais composta, respondeu:
- Andámos a fazer algumas perguntas às pessoas do prédio... Acha que o sofrimento vai acabar algum dia, no mundo?
Ripostei, iracundo:
- Ó minha senhora, eu acho isso uma palermice de pergunta! Ainda para mais a incomodarem-me a esta hora.
É evidente que não lhes abri a porta. E o diálogo insólito acabou por ali.

P. S.: desenganem-se os intuitivos, as duas senhoras não eram Testemunhas de Jeová. Teriam - não sei - algum objectivo oculto que eu não consegui descortinar.

Citações CCLXXXVII


Pode afirmar-se que a história da cultura moderna não tem sido outra coisa senão a oposição contínua entre a exigência duma ordem e a necessidade de distinguir no mundo uma fórmula mutável, aberta à aventura, impregnada de possibilidades.

Umberto Eco (1932-2016).

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Richard Harvey (1953) : Concerto Antico (3º mov.)


Uma louvável iniciativa (52)


Não haverá muitas crianças que não sejam atraídas pelas "fabulosas máquinas voadoras". Algumas terão até coleccionado a sua reprodução miniatural. Teria eu cerca de 10 anos quando entrei, pela primeira vez, numa frágil avioneta, no rudimentar aeródromo de Braga, mas não voei... O meu baptismo de voo deu-se apenas em Abril de 1969, num Caravelle da TAP e no pequeno percurso Porto-Lisboa. E gostei.
Por isso, achei muito interessante que os Delta Cafés se tenham lembrado da Aeronáutica Militar para ilustrar, com esta temática, os seus pacotinhos de açúcar. Desta série, de grafismo simples, mas bem conseguido, consegui arranjar seis pacotinhos com os números: 2, 4, 6, 7, 9 e 12, que por aqui ficam em imagem. Não sei é por quantos números esta temática se distribui. Mas acho que foi uma boa ideia.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Comic Relief (125)


Recordar é viver: os primórdios do "tele-móvel"...


com agradecimentos a ms.

A par e passo (167)


Quanto a mim, tal como sou, confesso que presto mais atenção à formação e fabricação das obras, do que às obras em si; tenho o hábito de não apreciar as obras senão como acções. Um poeta é, a meus olhos, um homem que, a partir de um determinado acidente, sofre uma transformação interior. Ele distancia-se do seu estado normal de disponibilidade geral, e eu vejo-o a transformar-se num agente, um sistema vivo produtor de versos. Tal como os animais que se podem constituir como hábeis caçadores, construtores de ninhos, fazedores de pontes, perfuradores de túneis e de galerias, vemos surgir nesse homem um sistema organizado que aplica as suas funções a uma obra determinada.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 148).

quarta-feira, 25 de maio de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

Pinacoteca Pessoal 113


Da antiga Pintura Flamenga, que pontificou antes do predomínio da Renascença italiana, ninguém por certo diminuirá a excelência. Menos conhecida, no entanto, é a que se foi praticando ao longo do século XX, quer na Bélgica, quer na Holanda. Já por aqui falei de Eugène Laermans (1864-1940), um excelente pintor belga, que descobri há uns bons anos, num museu de Antuérpia, afortunadamente. Mas nunca tinha ouvido falar de Gust(ave) De Smet (1877-1943), não fora um postal bonito, que recebi de Antuérpia, anteontem. Nascido em Gand (Gent), De Smet é considerado o grande iniciador da moderna pintura belga. Começou impressionista, atravessou o expressionismo, para desembocar no cubismo de algumas das suas últimas obras.
A tela "La bonne maison", em imagem, é de 1926; Meditatie foi pintada em 1931, e faz-me lembrar alguma coisa de Gauguin. O relógio de parede parado nas 5 horas, é que me deixa na dúvida. Seriam da tarde, ou da madrugada? Talvez a segunda hipótese seja mais viável...


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Desabafo (12)


Será que, no futuro, os programas dos partidos políticos, antes das eleições, terão que ser submetidos à aprovação prévia do BCE?!...
Antes Filipe I!

Bisbilhotices


Diz-se que, no seu período mais agudo de dependência do álcool, entravam, por dia, em casa de Marguerite Duras (1914-1996), 6 garrafas de vinho de Bordéus.
Por outro lado, a romancista francesa gostava muito de ouvir e de contar anedotas. Uma das suas preferidas era a de um cavalo, que saía para o campo, de tarde, cruzando-se com uma zebra. E lhe perguntava: - A estas horas, e ainda de pijama?!

domingo, 22 de maio de 2016

Nick Drake (1948-1974)


Uma fotografia, de vez em quando (82)


Pouco consegui apurar sobre esta foto-jornalista alemã, nascida em 1912. Mais do que o aspecto estético da obra de Liselotte Purper, é o lado documental que sobressai, importante sobre a vida do cidadão comum, sob o III Reich, principalmente nos anos difíceis da II Grande Guerra. Muito embora convenha referir o seu apoio indirecto ao nazismo, de que se tentou desembaraçar no post-guerra... Uma boa parte das suas fotografias tiveram por cenário as cidades de Kiev e Lódz.


sábado, 21 de maio de 2016

Géneros(amente)


A estreia, este ano, deu-se há dias, perto de Palmela, num despretencioso restaurante à beira da estrada. Não eram ainda excelentes, mas comiam-se bem, as sardinhas. E tenho que agradecer a duas delas porque, femininas, tinham mílharas (ou ovas). Por circunstância de sexo, certamente, os restantes peixes não as tinham. Deviam ser sardinhos.
A propósito, e para acompanhar, veio, fresco, um monocasta Fernão Pires, masculino portanto, e das Terras do Sado. Mas sosseguem os ardentes prosélitos e as prosélitas defensoras do género, porque há em Portugal um criterioso equilíbrio. Esta casta, na Bairrada, tem outro nome - Maria Gomes. E fica, assim, tudo nos conformes.
Por igual, distribuído.

Forte de Santiago


A construção amuralhada data de 1657, do reinado do perturbado D. Afonso VI. Um pouco descaracterizada pelos acrescentos espúrios, a fortaleza, na foz do Sado, tem ainda imponência e nobreza arquitectónica. O último aditamento terá sido o Sanatório do Outão, que até tem praia privativa, embora pequena. Para os que gozam de saúde e não necessitam de iodo para os ossos frágeis, o dispositivo geral tem ainda algumas dependências habitáveis que dão pelos saborosos nomes de: Casa das Palmeiras, Casa do Faroleiro e Casa do Médico. Esta última é a mais luminosa. Por cima dela, há uma mansarda com vista admirável e ampla, embora com quarto e sala, exíguos - não se pode ter tudo...
Nos quintais anexos, relaxados no arranjo, há couves, papoilas, nespereiras e rosas. Dois gatos os ocupam ou habitam, um preto, azeviche, outro, malhado. Ambos ariscos.

Leonard Cohen (1934) : "Democracy"


sexta-feira, 20 de maio de 2016

O cerne do poema


Mais tarde ou mais cedo, uma, ou outra vez, há versos de um poema que vêm ter connosco.
Não falo do "Dai-me uma jovem mulher com a sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela...", dezenas (?) de vezes citado pelos leitores preguiçosos ou críticos rasteiros de Herberto Helder. Para não falar do "...quando a alma não é pequena..." pessoano, abastardado pelos turistas da Poesia, pelos políticos ciosos de serem importantes e fingirem de cultos, e até mesmo pelos basbaques que não sabem dizer nada de seu. Eu queria significar outra coisa. Referir esse encontro íntimo e autêntico que, às vezes, acontece entre nós e um ou mais versos de um poema, de forma, que parece, absolutamente exacto e nosso, na sensibilidade. Por uma iluminação do espaço, ou da experiência, que se torna comum e verdadeira.
O poema "Nocturno de Veneza"*, foi-me recomendado por Eugénio de Andrade, pouco antes de aparecer na Colóquio Letras. Assim diziam os versos:

Pergunto se não corre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.

Na altura, gostei do poema, mas não muito mais do que tantas outras poesias do Poeta. Estava ainda muito longe de o vir a viver e sentir, verdadeiramente. Passaram entretanto quase cinquenta anos, foi preciso eu defrontar-me com as águas do Sado, no Outão, para integralmente eu perceber essa música de tanto olhar a água. E fazê-la minha por inteiro.

* o poema veio a ser incluído, depois, em Ostinato Rigore, com o título "Nocturno da Água".

Para JQ, no seu Indícios, registando e agradecendo as suas palavras.

Divagações 112


...Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..., como disse Pessanha, a que eu ajuntaria pequenos juncos que vieram dos canaviais das margens do Sizandro, arrumar-se em cónicos e breves montículos na pequena praia de escassas areias, porque estava maré cheia. Dois ou três jovens pardais, da cor da fuligem, saltitavam e debicavam nessas breves colinas de lixo natural, em busca de não sei o quê.
O Sol declinava. À distância, parecia estar apenas a um metro da altura das águas e iluminava nuvens que iam do sulfúreo ao cinzento, passando por um róseo e um ainda mais escasso azul, tímidos. No pequeno bar-restaurante, meia dúzia de estrangeiros jantavam e nós bebíamos café. Um velho lobo do mar encostava-se ao balcão e beberricava um copo de tinto. Ciclicamente, olhava para trás, em direcção ao pôr-do-sol. E entoava, baixo, uma cantilena.
A uma sibilina pergunta da empregada do balcão, respondeu, alto: "Estou a ver se, desta vez, vejo o raio verde!"
E foi aí que eu me lembrei do meu Pai e de Júlio Verne...

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Outão


O Sado corre, generoso e incessantemente, para o mar. Num azul mais firme que o do céu.
Duas linhas de areia, paralelas, no horizonte; uma fímbria de verde vem de Tróia, com casas esparsas, ribeirinhas e térreas de brancura lavada. Tremem as primeiras luzes...
Como me vêm, assim naturais, os versos de Eugénio: ".../ música de tanto olhar a água,/..."

Da máxima, a mínima excessiva


Como se forma o gosto?
De muito ouvir, de muito ler, de muito ver. De viver e  de pensar.
Mas ainda é curto, falta mondar, perder.
Comparar e escolher.
Mesmo que já muito poucos nos acompanhem.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

De Nicanor Parra


Auto-retrato

De estatura mediana e voz
nem delgada nem grossa,
filho decano de um professor primário
e de uma modista que atendia em casa;
débil por nascimento
ainda que devoto em boa mesa;
de faces esquálidas
embora abundante quanto a orelhas;
de rosto quadrado
onde os olhos mal se abrem
e um nariz de boxeador mulato
por cima da boca de um ídolo azteca
- tudo isto banhado
por uma luz entre irónica e pérfida.
Nem muito ágil nem tonto no remate
fui o que fui: uma mistura
de vinagre e azeite de comer
um embutido entre o anjo e a besta.


Nicanor Parra (1914), in Epitáfio (1970).

Dia Mundial dos Museus


Não é, propriamente, o Parque Jurássico, mas quase poderia ser... Pena que, quando lá entrei pela primeira vez, estava já muito próximo dos meus 30 anos. Porque, se fosse na infância, teria sido um fascínio completo. Refiro-me ao magnífico Museu de História Natural, localizado na Cromwell Road, em Londres.
Das colecções de cromos de Zoologia, nos verdes anos da minha vida, o que melhor retive foram, talvez pela estranheza, as imagens dos animais pré-históricos. Que, neste Museu londrino, abundam, nas suas representações sugestivas. Imperdível visitá-lo, para quem for a Londres. Sobretudo, se for com filhos pequenos. Eles não mais o esquecerão...



terça-feira, 17 de maio de 2016

Comic Relief (124)


O ângulo perfeito do lirismo floral. Ou, o difícil equilíbrio na defesa e protecção ambiental...

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Richard Harvey (1953) : "Enfield Dances"


Ilustres portugueses desconhecidos


Hesitei algum tempo, antes de me decidir a fazer este poste. Não se enquadra na corrente dominante, não tem imagens sugestivas ou bizarras, que atraem sempre as borboletas que sobrevoam, na ligeireza habitual, a net, para desovar, depois, comentários estereotipados, às vezes despropositados, palermas e banais. Nem sequer, por aqui, eu irei dizer verdades como punhos, ou coisas muito importantes.
Calhou que, na nossa última peregrinação por terras portuguesas interiores, tivéssemos que parar em Cabeço de Vide, para consulta de um post-incunábulo, na Misericórdia local. Apesar do tempo ameaçar chuva, preferi  ficar pelo exterior e abanquei na praça principal, que é um Largo amplo e bonito. Abri o jornal, para acabar o sudoku já iniciado.
Raríssimos transeuntes passavam. O sossego era total. Anotei, como facto insólito e curioso, um hemiplégico a dar a volta completa ao largo, na sua cadeira de rodas motorizada, e com ar satisfeito. Provavelmente, porque não tinha mais nada que fazer pelas ruas tranquilas dessa vila alentejana perdida no interior de um Portugal esquecido.
Acabado o sudoku, e como HMJ demorasse na investigação que levava a cabo, resolvi levantar-me do banco para desentorpecer as pernas, passeando pelo Largo de que não decorei o nome. Deparei, então, com um pequeno busto que encimava uma coluna de pedra. Personificava, em memória de bronze, de forma ingénua e rudimentar, o dr. António da Silva Pitres (1908-1986). Nunca eu tinha ouvido falar deste médico.
Quem saberá, dos portugueses cultos, quem foi A. L. de Carvalho ou Manuel Alves de Oliveira, vimaranenses ilustres? Ou deste médico alentejano, que dava consultas à borla aos seus conterrâneos pobres? E que deixou  algum dinheiro para se fundar um Asilo para os necessitados, na sua terra? Para quem não acredita noutra vida, a fama é uma coisa supérflua. Embora...
Felizmente que todos os portugueses sabem quem é Cristiano Ronaldo. Haja deus!

Da dificuldade de ir até ao fim


Julgo que uma experiência muito comum a seres humanos, desde que letrados, é a que consubstancia a leitura de alguns livros que, passado o entusiasmo inicial, se revelam uma sensaboria e tornam exasperante a hipótese de os ler até ao fim. Já me aconteceu isto, muitas vezes, com romances policiais e até com obras de escritores consagrados. Que abandonei a meio.
Ao tomar banho, hoje, - e em sentido contrário -, quase acabei um pequeno sabonete branco, macio e oloroso, que tenho vindo a usar. De marca desconhecida, deve ser muito difícil eu conseguir comprar outro semelhante. Pelas dimensões, já muito reduzidas pelo uso dos últimos dias, foi um trabalho difícil obter espuma, mas o que eu lamentava mais era que estivesse a acabar, porque era muito bom.
Nos tempos, da velha senhora, em que poupar era uma das essenciais disciplinas domésticas, estes restos de sabonetes eram, com jeito, "colados" e acrescentados a um sabonete novo, sendo que, deste modo, eram utilizados até à última. Como as pontas dos lápis, que eram abertos, a faca ou canivete, para se lhes extrair as minas que iriam servir nas lapiseiras. Mas, hoje, quase já ninguém usa lapiseiras... E os lápis acabam por morrer antes do tempo. Assim como as velas de estearina, que eram aproveitadas até ao fim, antigamente.
Por vezes, também algumas conversas sociais nos enfastiam até à exaustão, e tentamos, em vão, uma maneira delicada de lhes pôr fim, embora não seja fácil, se o interlocutor for muito loquaz. A propósito disto, há um momento fílmico muito curioso, aos 59 minutos da projecção (mais ou menos), em "O Passado e o Presente" (1971), de Manoel de Oliveira. Num curto "Ora, viva!", entoado pela voz cavernosa  de João Bénard da Costa, o protagonista, irritadíssimo e abrupto, põe termo à conversa desgastante, e abandona a cena.
Bem gostaria eu de, no passado, em algumas situações limite, ter tido esta coragem, mas preferi conformar-me, estoicamente, como Rimbaud, que dizia: "par délicatesse/ j'ai perdu ma vie..."

Adagiário CCLII


O dente morde na língua e mesmo assim moram juntos.

Nota pessoal: este provérbio fez-me lembrar alguns casais que conheci e que passavam grande parte do seu tempo a discutir...

domingo, 15 de maio de 2016

Gerhard Taschner (1922-1976)


Da incompletude


Tem-se rodeado de alguma polémica uma recente e ambiciosa exposição, em Nova Iorque, intitulada Unfinished: Thoughts left visible. A mostra abarca diversas obras inacabadas que vão desde pinturas de Leonardo da Vinci a Picasso, passando por Van Eyck, Rembrandt, Turner e Cézanne, entre outros mestres.
O mote para esta exposição partiu de uma citação  de Plínio, o Velho, que, na sua obra História Natural, refere, mais ou menos, o seguinte: "...um facto pouco comum, mas memorável, são as últimas obras de um artista, inacabadas, que acabam por ser mais admiradas do que as que foram terminadas, porque naquelas se podem ver os traços preliminares e descortinar as intenções do pensamento do artista." Esta citação poderia aplicar-se a Da Vinci, sobretudo, ao quadro incompleto S. Jerónimo, que seria um bom exemplo.
Tenho alguma dificuldade em aceitar este postulado, que me parece excessivamente dogmático, considerando até o facto de saber-se que algumas pinturas (abandonado o tema original) foram pintadas por cima, com motivos divergentes dos iniciais. Mas Patrick McCaughey (TLS nº 5901) refere ainda, a propósito da inacabada Rue en Anvers-sur-Oise (1890), de Van Gogh, onde o  céu não foi completamente pintado: "Todos poderão reconhecer a veemência do trabalho de Vincent van Gogh, cujas pinceladas muito marcadas de azul parecem ter a força de marteladas que imprimissem na tela, a fresca revelação do poder e paixão do Pintor."
Mais convincente esta afirmação, mesmo assim deixa-me dúvidas.




sábado, 14 de maio de 2016

As paredes têm ouvidos...


Mas que pérola! E logo na primeira página do jornal Público de hoje (14/5/2016).
Não satisfeitos com a proeza, estes jornalistas de uma cana, repetiram o feito, em título de página interior...


Sobre rótulos de vinho


Que atire a primeira pedra quem nunca comprou um vinho, influenciado pela beleza do grafismo do seu rótulo.
Porque há de tudo: bons vinhos servidos por um rótulo foleiro e maus vinhos, às vezes, com rótulos soberbos.
Dos portugueses são de lembrar os clássicos Barca Velha e Pêra-Manca, inalteráveis, há dezenas de anos. Um péssimo exemplo, é o Grão Vasco, em que foi substituído, do rótulo, o quadro S. Pedro, do pintor viseense homónimo, por um grafismo anódino e medíocre, sem qualquer imagem nem estilo. Este clássico do Dão, produzido pela Sogrape, bem merecia melhor tratamento e cuidado...
Deixo aqui 3 rótulos de vinhos estrangeiros, que nunca bebi. O Pétrus vem pela nobreza e é um néctar que eu, só com muita sorte, conseguirei um dia provar, porque é caríssimo. Aos outros dois, achei-lhes graça e engenho criativo.





sexta-feira, 13 de maio de 2016

Cenários de fundo


Theodore Roosevelt (1858-1919), que foi presidente (republicano) dos Estados Unidos, de 1901 a 1909, e prémio Nobel da Paz (1906), foi uma criança enfermiça e asmática, na infância, contrabalançando essa sua desvantagem, mais tarde, com uma hiperactividade invulgar e uma grande vontade e vocação pelos desafios e aventuras. Uma das suas fotografias mais emblemáticas é a que encima este poste, tirada em 1903, no Yosemite National Park. De algum modo, estabelece um simbolismo no cenário que, provavelmente, Theodore Roosevelt queria deixar para o futuro da sua imagem. Não é caso único, em estadistas...
Os escritores são, por norma, mais comedidos e domésticos, e preferem ser fotografados tendo como pano de fundo os livros da sua biblioteca ou, então (tal como alguns PR...), sentam-se à secretária e fingem rabiscar qualquer coisa, ao tirar o retrato. Pelo menos, é isso que acontece na iconografia de grande parte dos escritores portugueses, da segunda metade do século XX. Quanto aos burocratas e gestores, menos imaginativos e muito mais padronizados nos seus tiques de imagem, usam preferentemente a companhia de um computador, para respeitabilidade de cenário. Tal como, antigamente, usavam o telefone, como adereço...

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ólafur Arnalds : "Tomorrow's Song"

Citações CCLXXXVI


Os poetas modernos metem muita água na sua tinta.

J. W. Goethe (1749-1832).

Da leitura (12)


Em biblioteca alheia, fui metendo a foice, que apenas trouxera comigo, para além do último TLS, as "Curiosidades da História Portuguesa", de Ladislau Batalha, bem interessantes, por sinal, e que acabei de ler. Arredio às prosas (ficção), como ando há já bastante tempo, despertou-me interesse o "16 Castas Portuguesas", de José A. Salvador, que li com extremo proveito, aprendendo coisas novas que não sabia sobre a Jaen, a Encruzado, a Tinta Roriz, a Baga...


Havia que dar, porém, alguma oportunidade à ficção prosaica, até para não lhe perder o jeito... Calhou a Paul Morand o privilégio, diplomata francês, um tanto ou quanto ligado a Vichy, mas que conhecia bem Portugal, embora o Estado Novo o considerasse persona non grata. A sua prosa é luxuriante, mas perpassa, por Lorenzaccio - O Prisioneiro de Sintra, uns resíduos finisseculares de desalento e um iluminado cinismo a que a elegância da escrita dá uma certa consistência e interesse. Não me posso queixar, porque não perdi o meu tempo.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

To be or not to be


Só um grande amigo nos pode pôr perante tamanha perplexidade. Por entre as areias brancas e um delicioso Queijo de Azeitão, à sobremesa, apesar da chuva que caiu toda a manhã. Para além dos gatos, da vizinha abusiva, que se passeiam, soltos e insolentes, saltitando de varanda em varanda...
Face ao dilema shakespereano, bastou lembrar-me do dito minhoto ( "Antes faça mal, do que fique...") - acabámos todos a provar dos dois...




um cordial abraço a H. N.. Com múltiplos agradecimentos...

Recuperado de um moleskine (21)


Entre o sono e o nada, há o chão molhado da madrugada, onde os candeeiros da rua se reflectem como num espelho envelhecido, de face desgastada. Amarelos, porque coados pelo vidro da janela, ensalitrado e empoeirado, que lhe retira a nitidez precisa da realidade. O mar é também uma fantasmagoria, ao longe, com pequenas orlas brancas de espuma das ondas que vêm morrer à praia.
O som sacolejante dos pequenos malotes de lata dos pescadores nocturnos que, de Sul para Norte, pelas ruas da pequena vila piscatória, se dirigem para os barcos anoitecidos na areia. Tilinta de metal a memória de Agosto, como as vozes cavas ecoam no ar lavado da madrugada. Mas o lamento inesperado da ronca parece vir enevoar a noite ainda presente. E tudo se embrulha, de novo, na imaginação.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Pinacoteca Pessoal 112



São vários os auto-retratos que Paul Gauguin (1848-1903) pintou, como também facetada é sua vida e errâncias. De Paris para Lima (Peru), de novo em Paris, Dinamarca, donde era a esposa e, finalmente, as Ilhas Marquesas, onde veio a morrer, já muito debilitado.
Mas também os seus amigos o usaram como modelo, a começar por Van Gogh. Eugène Carrière (1849-1906), classificado como pintor simbolista, fez-lhe dois retratos, pelo menos, que deixamos abaixo. Num deles abandonando, excepcionalmente, o tom quase monocromático, habitual das suas telas.

Finalmente, outro dos amigos, pintor post-impressionista como Gauguin, de nome Eugène Serusier (1864-1927) veio a pintá-lo como viandante incorrigível. Ou fadado pelo destino, numa busca incessante do espírito e de novas paragens de uma difícil felicidade. Assim: