segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Carlos Seixas / Grigory Sokolov


A par e passo 161


Eu observei, por diversas vezes, que um incidente não menos insignificante causava - ou parecia causar - um desvio muito diferente, um afastamento da natureza e um outro resultado. Por exemplo, uma aproximação brusca de ideias, uma analogia que me assaltava, como um sinal de alerta no interior duma floresta que nos faz levantar a orelha, e nos orienta virtualmente todos os músculos que se sentem convocados para algum ponto no espaço e para a profundidade da folhagem. Mas desta vez em lugar de um poema, era uma análise desta sensação intelectual súbita que se apossava de mim. Nada de versos que se destacassem, mais ou menos facilmente, do interior desta fase; mas alguma proposição que se destinava a incorporar nos meus hábitos de pensar, qualquer fórmula que devia, a partir daí, servir de instrumento às minhas pesquisas posteriores...

Paul Valéry, in Variété V (pg. 135).

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Uma fotografia, de vez em quando (78)


Antes de mais, eu julgo que uma fotografia pode atrair-nos pelo seu exotismo, ou prender a nossa atenção pelo seu ineditismo singular, pela exuberância, eventualmente, na sua forma mais vulgar e banal.
Pode, no entanto, passar a obra de arte se, pelo menos, cumprir três requisitos fundamentais, para mim: o enquadramento e a qualidade do ângulo, a oportunidade do momento em que foi tirada e o sentido estético intrínseco da foto.
Desde sempre, também, muitos fotógrafos encenaram as poses e adornaram os cenários dos objectos, pessoas ou acontecimentos que iriam retratar. Como aformosearam e retocaram as obras, no final. Como ainda acontece nos dias de hoje.
A foto que encima este poste foi tirada em 1931, por um fotógrafo não identificado, pertencendo agora ao acervo da National Portrait Gallery (Inglaterra). E integra-se no tipo de fotos que caracterizo no primeiro parágrafo deste texto. É sobretudo um documento sociológico de uma época.
Retrata um casamento inter-racial, entre duas celebridades muito conhecidas, na Grã-Bretanha desse tempo. O socialite Ras Prince Monolulu (de seu nome de baptismo, Peter Carl Mckay) e a actriz branca Nellie Adkins. O negro era conhecido, não só pela sua exuberância no trajar, mas sobretudo por dar palpites (remunerados) nas corridas de cavalos. E pela sua presença constante nos hipódromos ingleses. Onde, para se anunciar aos seus clientes, costumava gritar: "I got an'orse!"
A fotografia perdeu alguma importância sociológica, porque, hoje, os casamentos inter-raciais são muito mais frequentes, mesmo entre celebridades conhecidas do grande público... Mas não deixa de ser curiosa.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Uma louvável iniciativa (50)


Com estes três penúltimos pacotinhos de açúcar, que acompanham o Café Chave d'Ouro, fica apenas a faltar-me o número 13/20, das lendas portuguesa, que eu não sei a que terra é dedicado.
Se a lenda de Fátima e Ourém (5/20) refere D. Afonso Henriques e a vila anteriormente chamada de Oureana (posteriormente, Ourém), que lhe pertencia, convoca também a moura Fátima, de quem o cavaleiro cristão Gonçalo Hermingues se enamorou. A açoreana terra de Rabo de Peixe (8/20) deve seu nome aos pescadores da zona que observaram uma luta entre dois peixes, tendo o peixe vencedor engolido o vencido, deixando apenas o rabo como vestígio da refeição... Quanto a Odemira (15/20), terá tido origem num alcaide mouro, de nome Ode que, ao ver as tropas cristãs avançarem para assaltar a povoação, através do rio Mira, terá gritado: "Ode, Ode, Mira!". Para alertar os seus companheiros árabes a defenderem-se.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

D. Zipoli / H. Shapira


Opinião, memórias e recensões


Vem, hoje, no Diário de Notícias, um registo de memórias de Mário Cláudio, sobre Eugénio de Andrade, que eu recomendo vivamente. É despido de preciosismos saudosistas, mas documenta uma verdadeira amizade, que não se abstinha de reflectir sobre o Outro, mesmo quando negativamente.
O penúltimo TLS (nº 5889) traz dois artigos sobre Portugal. Num deles, faz-se referência ao livro Global City, a propósito de Lisboa no século XVI; no outro, vem uma recensão sobre um livro de Mia Couto, recentemente traduzido para o inglês. Em ambos se fala do passado colonial português.
Mas Landeg White (1940), na recensão sobre a obra de Couto, permite-se algumas considerações que me parecem sem sentido, para não dizer, disparatadas. Passo a traduzir o início e o final da recensão:
"Wole Soynka e o falecido Chinua Achebe foram classificados com escritores Nigerianos, assim como escritores Africanos, sendo ambos escritores post-coloniais (depois de uma breve caracterização classificativa de escritores da Comunidade) (...) Mia Couto, que nasceu na colónia de Moçambique, filho de imigrantes portugueses, tem sido desde o início da sua carreira um premiado «escritor Lusófono». Portugal nunca tendo descolonizado mentalmente (a expulsão das colónias é uma experiência bem diferente), o espaço que o artista ocupa é ambíguo. (...) Quando Couto acrescenta que os escritores Europeus nunca foram desafiados para tais assuntos, há que perguntar em que mundo é que ele vive."
Francamente, não percebo a ideia deste crítico literário do TLS (que parece que também é poeta)...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Desabafo (10)


Lembro-me bem. Foi pelo início dos anos 70 que, em Portugal e nas grandes empresas privadas, começaram a ser criados os departamentos de Organização e Métodos. Eram uma espécie de eufemismo asséptico, no nome, um bisturi cirúrgico para extirpar postos de trabalho e fazer aquilo que ainda hoje se pratica e se chama Reestruturação. Esses departamentos eram chefiados normalmente por cavalheiros matemáticos, discretos, com voz mansa e asseados no trajar e de corpo. Às vezes, tinham acne. Eram também meticulosamente frios, esteticamente feios. E gestores intermédios.
Se, dantes, os gestores desenvolviam as empresas, obtinham lucros e criavam postos de trabalho, hoje, os gestores de topo restringem as fronteiras das empresas, fazem reestruturações e eliminam postos trabalho. Alguns, dos mais sensíveis, são por vezes vítimas de depressões; normalmente, recuperam e voltam ao labor, ainda com mais gana. Conseguem multiplicar os prejuízos, às vezes demitem-se, ou são demitidos. Mas têm sempre prémios chorudos pelo trabalho desenvolvido...

Antonio Gamoneda (Oviedo, 1931)


Adiós

Esta é a terra onde o sofrimento
é toda a medida dos homens. Dão-
-me pena os condes com o seu leal faisão
e os cobardes com o seu fiel lamento.
A beleza vai-nos servindo de tormento
e a injustiça vai permitindo o pão.
Um dia brindareis pelos que tenham
convertido a dor em fundamento.
Nós que vivemos para dar alcance
a tão imensa luz que não poderia
um deus olhá-la sem tornar-se cego,
ainda teremos que atingir o lance:
de atirar ao silêncio a agonia
como quem lança o coração ao fogo.

Pré-anunciação


Subreptícia ou discreta, a Primavera vai-se insinuando, por entre a chuva que pintalgou de ferrugem as alvas pétalas das orquídeas que, desleixadamente, resolveram abrir pelo início de Fevereiro. Mais cuidadosa, uma minúscula rosa rubra não desabrochou ainda completamente. Mas ela vem aí, a Primavera... Ora são as folhas tenras do limoeiro, que despontam, ora um jovem pimentinho verde, em suspensão invernosa, que começa a desenvolver-se, já mais confiante.. Mas o mais inesperado e surpreendente, foi um pequeno, singular e único cacho de flores brancas do lilaseiro que, impaciente talvez, não quis esperar pelo mês de Maio...

Hugo Wolf (1860-1903) : "Morgentau" (Orvalho da Manhã)


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Os Trabalho e os Dias 10: Os cómodos e os precisos




Cedo aprendi que qualquer trabalho, prático ou mental, se executa, com mais gosto e eficiência, havendo as ferramentas adequadas à mão.

Nos trabalhos “mentais” não dispenso os chamados livros de consulta, dicionários, gramáticas e catálogos de livros, procurando, sempre, actualizar e completar o meu acervo.

Nas tarefas práticas, antes de as executar, vejo se tenho a ferramenta adequada para fazer o trabalho. Ainda noutro dia comprei mais uma “geringonça” para levantar um móvel e arrastá-lo. Foi “barata a feira” e ajudou imenso para pôr o lava-louça no sítio onde o queria colocar.

Assim, já há bastante tempo que ambicionava ter um fogão “como manda a lei”, funcionando a gás, mas com a indicação de temperatura para os trabalhos de forno. Com o fogão antigo, sobretudo na época natalícia, aborrecia-me, por vezes, quando as bolachas ou saíam muito branquinhas ou muito escuras.

Ora, houve quem atendesse o meu desejo, proporcionando-me os cómodos e precisos para a cozinha, oferecendo o fogão na imagem acima.

Hoje foi, então, o dia de experimentar o forno. “Sai uma pizza, para a mesa ...” e aqui está ela.

Bom proveito


Post de HMJ

Divagações 108


Julgo que é apenas no século XX que a denominação de "Sem título" faz a sua aparição plena nas telas dos pintores ocidentais. Quase sempre ligada a pinturas abstractas. Cortando assim, cerce, qualquer veleidade de sugestão, ajuda ou meio de interpretação da obra, em si. Terá sido por vontade expressa dos autores, ou apenas por dificuldade na denominação adequada do quadro? Porque, simultaneamente no tempo, um pintor figurativo, Magritte, desencadeava para as suas telas uma luxuriante panóplia de títulos poéticos, irónicos, riquíssimos de sugestões. Que, por sua vez, encaminhavam os observadores para caminhos precisos, quando não, desconcertantes, pela sua múltipla oferta direccional.
Entretanto, a onomástica musical, de há muito, se desdobrara (sinfonia, sonata, estudo...), metodicamente, em classificações generalistas, muitas vezes, acrescidas de uma numeração cronológica que, se não interrogavam os ouvintes amadores, pouco os ajudariam em entendimentos simbólicos das composições. A tendência vinha sendo antiga, no sentido da abstracção de títulos. Assim fora também na poesia (écloga, canção, soneto...), muito embora, pelo seu conteúdo de palavras, não pusesse dificuldades de maior, ao leitor, quanto à percepção muito próxima do assunto ou temas tratados. De uma forma pouco rigorosa, eu diria que há, nos três casos distintos de arte, uma substantiva distinção onomástica.
Esta Prudência, a que Wim Mertens (1953) chamou Virtude (ver/ouvir poste-vídeo de 21/2/2016), na sua expressão musical singular, não sei se o será, imediata para mim. É certo que, por extremo, uma obra musical pode conter uma espécie de ficção, ou sugeri-la, em termos muito primitivos ou inconscientes, que nos despertam para emoções próprias, por associação longínqua de memórias, nem sempre explicável. Mas só por especulação eu posso interpretar esses silêncios cautelosos, entre os sonidos claros do piano, como uma espécie de hesitação, cuidado ou prudência (criativa?) do compositor belga, antes de se abandonar à sequência, mais livre, do resto da composição, sobretudo entre os minutos 1.08 e 1.47 da execução musical dessa obra referida.

Citações CCLXXX


Quarenta anos é uma idade terrível. Porque é a idade em que nos transformámos naquilo que somos.

Charles Péguy (1873-1914).

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bach / Kempff / Dinu Lipatti


Regionalismos alentejanos


Da leitura da Revista Lusitana (vol. 34, 1936), que foi dirigida por J. Leite de Vasconcellos, deparei com parte de um trabalho de J. A. Pombinho Júnior, sobre regionalismos alentejanos, que abarcava as palavras começadas pela letra E. Dessas, seleccionei 6 regionalismos que aqui deixo:

1. Émbeque - coisa pouca, pequena porção, sobretudo referindo restos de comida.
2. Empata-caminhos - o mesmo que lobo (colhido nas zonas de Mértola e de Serpa).
3. Enchaboucado - diz-se de pessoa que tem a fala rouca, presa.
4. Enganido - tolhido, arrepiado com frio.
5. Engorvinhar - enrugar, envelhecer, especialmente referido a mulheres.
6. Entoirar - zangar-se, amuar, embezerrar; encamelar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Portuguesa em destaque (9)


Tem 23 anos, chama-se Leonor Teles e o pai, já falecido, era de etnia cigana.
Foi a mais jovem vencedora, de sempre, do Urso de Ouro, para curtas metragens, no Festival de Berlim. O pequeno filme (11 minutos), intitulado "Balada de um Batráquio" aborda a supersticiosa fobia dos ciganos pelos sapos. E dizem que é um filme muito divertido...

Nota: no vídeo, em alemão, os cerca de 5 últimos minutos são dedicados à entrevista da jovem realizadora Leonor Teles. A língua, usada nas perguntas e respostas, é o inglês.

Na Tate Britain






Só a partir  dos finais do século XIX e início do XX, a arte africana ganhou estatuto estético e interesse para o coleccionismo privado e museológico, europeus. Sobretudo, creio, pelo seu contributo de influência nalguma parte da obra de Picasso, e de outros artistas. Antes, só parece ter interessado os etnógrafos e de um ponto de vista meramente funcional, como simbologia e actividade de outras civilizações. Mas, mesmo hoje, é vista ainda como uma arte menor, pelo centralismo dos padrões europeus, que exercem um cânone rígido sobre as manifestações artísticas gerais. Está assim um pouco equiparada à arte naïf, à arte popular e outras manifestações folclóricas, que se enquadram num plano estético secundário.

A Tate Britain decidiu, no entanto, inaugurar uma exposição (Artist and Empire) sobre este tema, aberta ao público até 10 de Abril de 2016 - segundo informa o TLS -, em que a arte africana (Nigéria, principalmente) tem um papel  significativo. Embora haja também várias obras de pintores e artistas europeus, naquilo que parece ser uma espécie de nostalgia post-colonial ( ou talvez melhor, post- imperial). Deixámos, para efeitos de ilustração, três esculturas que retratam a imperatriz Victoria, todas elas executadas nas imediações do século XX. Creio que apenas a primeira integra a mostra da Tate.


2 pequenos excertos de Simone de Beauvoir, sobre leitura


Se não estou de acordo com um autor, não me entrego francamente à leitura e esta não resulta.
...
Ler a obra de um escritor cujas opções se recusam radicalmente coloca um problema: para que um texto tenha um sentido é necessário empenhar nele a sua liberdade, silenciar-se e instalar em si uma voz estranha.


Simone de Beauvoir (1908-1986), in Balanço Final (pgs. 112 e 113).

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Wim Mertens: "After Virtue 2 Prudence"


Perguntar


É o homem que faz o tempo, ou a época que faz o homem?
Se "Os Lusíadas" e a "Peregrinação" acompanharam, de algum modo, o dinamismo português do seu tempo, que dizer da obra maior de Pessoa, gerada num período nacional (quase todo ele) baço e parado, restritivo, talvez desinteressante, até?
E agora?

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Obituário


Nesta semana, que amanhã termina, desacompanharam-nos duas figuras maiores da literatura mundial. A singular romancista norte-americana Harper Lee (1926-2016), celebrizada por, praticamente, um só livro publicado (To Kill a Mockingbird), no bom exemplo dos nossos António Nobre e Camilo Pessanha, embora poetas. É certo que, da romancista, veio a sair, em anos recentes, um seu livro antigo (escrito nos anos 60), Go Set a Watchman que mais não seria senão do que uma primeira versão da sua obra inicial cujo título, em português, foi traduzido por Mataram a Cotovia.
A outra figura desaparecida foi o italiano Umberto Eco (1932-2016). Nas altas esferas intelectuais, não era uma figura consensual. Não lhe perdoaram, talvez, ter tido um imenso sucesso com o seu romance O Nome da Rosa (1980) e, mais ainda, por ter dado origem a uma prole numerosíssima de danbrownsinhos medíocres, por todo esse mundo fora...
Eco era uma figura polifacetada, não se esgotando na sua obra de ficção. Era, também, um professor universitário reputado, um fílósofo, um linguista. E um bibliófilo respeitado. Nessa qualidade, foi-lhe atribuído, em 2014, o prémio Gutenberg, pela Sociedade homónima, sita em Mainz (Alemanha). O Gutenberg-Jahrbuch, de 2015, publicou o seu texto de agradecimento. Pelo tom despretencioso e saborosamente coloquial do discurso, vou traduzir 3 pequenos excertos:

"A bibliofilia é certamente o amor pelos livros, mas não necessariamente pelo seu conteúdo."
...
"O amador de leitura, ou estudioso gosta de sublinhar os livros contemporâneos, até porque existe um certo tipo de subterrânea literatura, nisso, um sinal à margem, um destaque a lápis preto ou vemelho, que irão recordar, no futuro, uma experiência de leitura."
...
"Era uma vez um Mister Salomon, um velho livreiro e alfarrabista de Nova Iorque, no ângulo da 3ª Avenida com a 9ª Rua, a quem eu comprei, por quantias que oscilavam entre um e dois dólares, páginas belíssimas de livros antigos, óptimas para alindar uma casa de campo (...) Dizia-me ele: «eu faço vandalismo democrático, e a quem não possa permitir-se ter a Crónica de Nuremberga, eu, por não muitos dólares, posso vender-lhe uma página. Mas sejamos claros: eu adquiro apenas livros que estão condenados ao massacre.»"

Retro (81)



Os desenvolvimentos, em Portugal, do 25 de Abril de 1974, concitaram alguma atenção por parte dos meios de comunicação franceses, bem como de alguns cartoonistas gauleses. Talvez só comparável com o interesse dispensado aos 2 últimos Bragança (D. Carlos e D. Manuel II), da nossa quarta dinastia. Mas, aí, encontro uma explicação mais simples: D. Carlos tinha casado com a filha (Maria Amélia) dos condes de Paris, que acabou por ser a última rainha de Portugal. E mãe do nosso último rei. A contiguidade era, por isso, flagrante, tendo despertado alguma curiosidade e interesse nos meios franceses.
Desta temática iconográfica, por aqui deixo quatro exemplos mais sugestivos. Dois sobre D. Carlos e outros tantos que têm como motivo D. Manuel II. Todos eles são postais provectos e centenários...



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Dispersos e desarrumados


Às vezes, visito 3 ou 4 blogues de que não sou um fiel seguidor comprometido e declarado. Estes dispersos, que se seguem, são fruto de reacções pessoais, quer de leituras que vou fazendo pelos dias, quer desses sobrevoos que vou fazendo pela blogosfera. Para usar um título feliz e plagiando Milos Forman (1932), e lembrando o genial desempenho de Jack Nicholson, eu diria que os escrevi enquanto "voando sobre um ninho de cucos"...

1. Não sendo a última morada dos monarcas ingleses, nem o panteão nacional britânico, o Poets' Corner, na Abadia de Westminster, consagra a imortalidade de alguns, raros, artistas. Lá está sepultado, por exemplo, Geoffrey Chaucer. O protocolo inglês de decisão, para a jazida eterna, é lento e muito rigoroso. Demora alguns anos, pelo menos, de forma a que o facto não seja afectado pelo calor da emoção após a morte, ou pelos interesses (muitas vezes, familiares, como em Portugal já tem acontecido...) corporativos. O poeta Ted Hughes, que faleceu em 1998, só foi trasladado em 2011 para o Poets' Corner.  Os ingleses estudam agora a hipótese de, também, levar para a Abadia de Westminster o poeta Philip Larkin que morreu em 1985. Como se vê, os britânicos têm o seu timing próprio e a sua avaliação metódica. E um de cada vez...
Ao contrário dos católicos, que são mais voluntaristas, pressurosos, empreendedores... Veja-se, por exemplo, a rapidez com que foi canonizado o papa João Paulo II. Ou as 3 mais recentes aquisições do nosso panteão nacional, sito na Basílica de Santa Engrácia.

2. Um dos blogues a que vou, embora irregularmente, é dirigido unipessoalmente por uma figura pública conhecida, de origens transmontanas, que já teve funções diplomáticas. Muito interessante, o blogue aborda assuntos muito diversos, com preponderância de temas políticos. Os textos são bem escritos, sugestivos no estilo, bem humorados e, quase sempre, muito actuais. O blogue tem imensos comentadores e visitas, justificadamente, porque também se destaca, na sua qualidade, do cinzentismo ligeiro ou infantilismo militante da grande maioria dos blogues portugueses.
Um senão, porém. O comentariado, tirando poucas e honrosas excepções, é do estilo de "abaixo de cão", roçando por vezes o insulto soez, entre os comentadores de que, também, uma boa parte escreve desleixadamente, parecendo usar os pés, em vez das mãos... E, o que foi assunto sério tratado, no poste, transforma-se, muitas vezes, numa posterior arena sangrenta de vaidades. Porque me parece, na verdade, que não se comenta o essencial, mas se pretende ganhar protagonismo perante o pagode que vem ler. O comentariado acaba por ser um vomitório desgostante, frequentemente, e enjoativo.

3. A previsibilidade banal, a corrente dominante de celebrar determinadas datas, como se de uma obrigação religiosa se tratasse, torna grande parte dos blogues numa vulgar exibição de rodriguinhos estereotipados, na linha de uma uniformização insípida que, mais do que irritar, me perturba. Alguns dirão que é o fruto da globalização, esta clonagem massificada. Talvez, mas não só. Demonstram também o medo de fazer e pensar de forma diferente e autónoma. Que é uma coisa que faz sempre falta...

4. O tédio é uma varanda nenhuma, que dá para um deserto sem dunas, nem areia.


Joseph Bodin de Boismortier (1689-1755)


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

De uma entrevista, Valéry a Giovanni Papini


"Desde os gregos até nós, a verdadeira poesia é também pensamento e, por outro lado, o verdadeiro filósofo não o chegaria a ser se não tivesse em si alguma imaginação, que é a trama secreta da poesia. Poetas e pensadores escrevem ditados fornecidos pelos deuses mas, como você sabe, os deuses são avaros e invejosos, e não ditam mais do que o primeiro verso do poema e o parágrafo inicial do discurso."

Inter-consequências...


Quem não tem cão, caça com gato.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Pêerres


Recebi, recentemente, um e-mail em que, por parcelas discriminadas (pessoal,  despesas de representação, viaturas de serviço, arrendamento de imóveis...), se afirma que a Presidência da República, nos últimos 10 anos, gastou, em média, cerca de 21 milhões de euros anuais. Não sei se os números são credíveis, nem se as contas são exactas. Também não poderei dizer se é abusivo, ou não. Mas sei que este tipo de e-mails são recorrentes, e vão no sentido de denegrir e descredibilizar a classe política. E, por isso, não deixo que me afectem grandemente.
Sei que o primeiro cargo da Nação se deve revestir de um mínimo de dignidade, não compatível, portanto, com restrições avaras excessivas, nem com dificuldades financeiras que denunciem uma debilidade da instituição, sobretudo no exterior. Independentemente da personagem que a represente. Porque o povo (e perdoem-me o subjectivismo), às vezes, também escolhe mal...
Dos 4 Presidentes da República eleitos, depois do 25 de Abril, dois deles eram originários de famílias modestas; os outros dois, da classe média-alta. Penso que estes últimos, por hábito e condição, teriam, decerto, tendência a serem mais perdulários, enquanto os outros (Eanes e Cavaco), de modestas origens, em princípio, tenderiam a ser mais morigerados nos gastos. Neste último consulado presidencial, embora num período em que a inflação esteve mais controlada, as despesas não diminuíram, antes pelo contrário...
Em voto de piedosos desejos e esperança, o e-mail que recebi, deseja que o Professor Marcelo, proximamente, ponha cobro ao despesismo perdulário dos últimos tempos. Deus o ouça!...

Curiosidades 53


Passando, no presente ano, o 4º centenário da morte de William Shakespeare (1564-1616), o Arquivo Nacional Inglês, em Kew (próximo de Londres), vai inaugurar, a 3 de Fevereiro, uma exposição documental, subordinado ao título de By me William Shakespeare, sobre grande dramaturgo e poeta britânico.
De sublinhar o contínuo e persistente culto de que Shakespeare sempre tem sido objecto na Inglaterra, bem como os estudos interessantes, muitas vezes inovadores, que a sua obra continua a despertar, através de investigações e análises críticas muito frequentes, que vão sendo editadas.
Da exposição, referida acima, consta o seu testamento, firmado pela sua assinatura, no ano da morte - 1616. Assim como mais três, dos 6 documentos conhecidos e conservados, que têm o seu autógrafo autêntico. A mostra shakespeariana inclui ainda mais 30 documentos do Arquivo Nacional Inglês, dos 75 mundiamente reconhecidos como importantes sobre a vida e para a biografia do escritor. Outros 30 encontram-se em Stratford-upon-Avon, no Shakespeare Birthday Trust. Donde se conclui que apenas 15 estarão fora da Grã-Bretanha. O que, de algum modo, indicia o interesse e o acrisolado culto (para não dizer, amor) que Shakespeare sempre despertou nos ingleses.

René Aubry : "Passing Time"


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Idiotismos 34


 A expressão perder a cabeça pode ter duas realidades significantes. A mais imediata será: uma pessoa exceder-se, ou num sentido mais extremo, e ainda em português, enlouquecer. Mas, em língua francesa, a primeira associação será com a guilhotina e com o período do Terror, ocorrido após a Revolução. Terá vindo de França, para Portugal, a referida expressão? Não o sei dizer, mas seria credível.
Dizem que D. Maria I (1734-1816) terá enlouquecido, gradualmente, ao saber das atrocidades cometidas em Paris. Mais uma proximidade com a expressão, em si. E é curioso, também, que muitos loucos encarnem a personagem de Napoleão, num excesso indicativo de megalomania interior. Aliás, é no período da Revolução Francesa que a psiquiatria começa a ganhar a importância de ciência estudada e respeitada.
Há que nomear, para o efeito, o físico francês Philippe Pinel e J. Esquirol, como precursores destes estudos. Do primeiro, e não confirmadamente, se cita a história de ter libertado das correntes, as loucas do hospício de La Salpêtrière, em 1795. Esses estudos vieram a ser acompanhados por desenhos e retratos de loucos, feitos pelo pintor miniaturista George-François-Marie Gabriel (1775-1835).
Nenhuma destas 3 últimas personalidades, acima referidas, perdeu a cabeça, ao que se saiba...


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

8 versos de Pessoa, num eco de Blake


O que o seu jeito revela
sabe à vista como um gomo,
e a vida tem fome dela
nos dentes do seu assomo.

E nêle mesmo, vibrante,
a êsse corpo de amor,
espreita próximo e distante,
o seu tigre interior.

(1932)


Fernando Pessoa - Obra Poética ( Ed. Aguilar, 1960).

A par e passo 160


Mas como fazer para pensar - quero eu dizer: para repensar, para aprofundar aquilo que parece merecer ser aprofundado - se nós temos a linguagem por essencialmente provisória, como é provisória uma nota de banco ou um cheque, a que nós chamamos "valor", que exige o esquecimento da sua mesma natureza, e que é apenas a de um bocado de papel habitualmente sujo? Este papel que já passou por tantas mãos... Mas as palavras que também já passaram por tantas bocas, por tantas frases, por tantos usos e abusos, que as preocupações mais sérias se impõem para evitar uma excessiva confusão nos nossos espíritos, entre aquilo que pensamos e procuramos pensar e o que o dicionário, os autores e, de resto, todo o género humano, desde a origem da língua, querem que nós pensemos...

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 133/4).

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Revivalismo Ligeiro CXXVIII


Dia de S. Valentim


Hoje, não embarquei...

Glosa (6)


Domingo. No tempo em que eu ia à missa, e já começara a pensar, embora impreparadamente, apreciava bastante aqueles oficiantes (raros, aliás) que, depois da leitura do Evangelho, glosavam de forma inteligente e clara aquilo que tinham acabado de ler para os paroquianos, através de uma interpretação pessoal comentada. A grande maioria dos padres, no entanto, limitava-se a reproduzir a história do Evangelho, de forma canhestra, vacilante, como que num eco desfasado e paupérrimo de palavras banais. O que me dava um grande tédio, quando não, bocejo e sono...
Há dias, e durante cerca de 25 minutos, na SIC-notícias, a propósito do recente terramoto de Taiwan, uma inepta e verborreica jornalista tentava, por palavras, comentar as parcas e repetitivas imagens que iam aparecendo no ecrã sobre a tragédia. O que ela dizia não ultrapassava, em nada, o que íamos vendo, porque decerto não sabia chinês, nem lho traduziam para ela poder acrescentar um pouco mais de explicação a essas imagens que, continuamente, iam passando no ecrã. Repetiu, assim, as mesmas banalidades umas quatro ou cinco vezes, num péssimo trabalho jornalístico.
Mas não é caso único. Já me habituei, também, a que depois de um corriqueiro discurso político (do PR, por exemplo) o(a) inefável jornalista de serviço, imediatamente e durante quase outro tanto tempo, comece logo a debitar em sotto voce, como que a explicar aos palermas dos telespectadores, as sábias palavras da mensagem política ouvida. Tudo isto me provoca um inenarrável tédio e uma cansada irritação.
Para não falar da multidão de comentadores minorcas que pululam por aí e que glosam dias e dias, interminavelmente, aquilo que vai acontecendo (política, futebol...) numa linguagem de pau seco e num eco de plágio sistemático que, mesmo muito espremido, não traz sequer uma ideia nova ou uma única achega original. Será que isto nunca mais muda? Será que esta gente não tem um mínimo de sentido crítico?

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Uma definição excêntrica de G. K. Chesterton (1874-1936)


Uma cadeira é um dispositivo de quatro pernas de pau para um aleijado de duas.

citado por Alberto Manguel em "Uma história da curiosidade".

Mais uma interpretação (e notável versão) de Eva Cassidy


Da leitura (10) : o livro e o marcador


Eu queria dar uma última oportunidade ao homem, porque até simpatizo com ele, no seu ar canhestro ao dar entrevistas, na sua aparente simplicidade desarrumada, no seu discurso gaguejante e pouco objectivo.
E a oportunidade surgiu. Numa loja próxima do Largo do Rato, que se dedica, principalmente, à venda de material informático usado, há uma pequena secção de livros, daqueles de capas berrantes e que são efémeros best-sellers por cerca de um mês, e que também podem ser vistos nos transportes públicos a serem lidos por leitores anónimos e muito variados... E, de repente, vejo numa das estantes um dos mais badalados títulos de Patrick Modiano (1945), publicado antes mesmo (1997) de ele ter sido premiado com o Nobel, em 2014. A obra, Dora Bruder, foi publicado pela Edições Asa, em 1998, e estava ali, naquele improvável alfarrabista, ao preço simbólico de 50 cêntimos, ainda por cima com o marcador original e tudo...
E eu, que tinha lido, desalentadamente, Pedigree (2004), que me parecera um relatório repetitivo e cheio de nomes, resolvi dar uma segunda e última oportunidade ao homem, e lá trouxe o livro para casa, para o ler e tirar conclusões sobre o romancista francês. De uma coisa, estou eu certo: o homem sabe escrever, e contar. Mas é sempre a mesma sensaboria desinteressante, o itinerário das mesmas ruas de Paris por onde lhe passeia a memória, o registo desordenado e repetitivo, numa burocrática nostalgia que mais se assemelha a um balanço seco de um contabilista de uma firma envelhecida no tempo. Quanto a Modiano, resumindo, fiquei vacinado...

P. S.: da leitura, retenho o mais interessante, que é uma carta, comprada por Modiano a um alfarrabista das margens do Sena, e que ele transcreve na íntegra (pgs. 104/9), quase no final da novela Dora Bruder. Trata-se de uma missiva de recomendações e despedida de um tal Robert Tartakovski, judeu, em trânsito para um campo de concentração, onde veio a morrer. O mais curioso é que ele não tem nada a ver com Dora Bruder e nem sequer é seu parente ou conhecido... Essa carta, em itálico, é assim uma espécie de colagem despropositada, um apenso sem justificação. Embora um documento humano tenso de desespero com grande qualidade dramática. Penso que é a melhor parte do livro... Hélas!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Citações CCLXXIX


É difícil imaginar figuras tão diversas como Hitler, Barack Obama, ou Jeremy Corbyn alcançarem a chefia, sem a sua habilidade para inspirar esperança.

Clare Carlisle, in TLS (nº 5885).

Comic Relief 121


O enfraquecimento da vista, ou as consequências da idade...


com agradecimentos muito bem dispostos a C. S..

Da metafísica e da estatística dos blogues


Claro que podemos reflectir sobre ninharias - é essa a liberdade dos blogues, sobretudo, os nossos...
Dos últimos 100 postes, colocados no Arpose, o mais frequentado foi "Uma coutada, na Faculdade de Direito de Lisboa" (24/1/2016). Teve nada menos do que 71 visitas, até agora.
Entretanto, num espaço de pouco mais de uma semana, houve 2 postes com quadras populares: "Femininas e alentejanas" (3/2/16) e, ontem, "Mais 2 quadras populares alentejanas". Enquanto o primeiro teve apenas 16 visitantes, o que coloquei na quinta-feira (11/2/16) já soma 25 visitas, em apenas um dia.
Se o mais antigo foi ilustrado com uma bonita aguarela de Alberto de Souza, o de ontem contou com uma interessante fotografia da planície alentejana (com um monte e um sobreiro, ao longe). E digo isto, porque as imagens - já me habituei - têm uma importância e atracção, fundamentais, sobre os visitantes...
Como interpretar esta discrepância no número de visitas, sendo o tema, exactamente, o mesmo? Não sei. Só me ocorre um provérbio popular: "Mais vale cair em graça, do que ser engraçado"...
E vou à vida!...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Bipolaridades


a)  "O humor literário de uma nação é a sua mais frágil e perecível exportação: nalguns casos, isto acontece por razões linguísticas, noutros pelo contexto cultural, e ainda noutros porque algumas anedotas não têm mesmo graça nenhuma." (Barbara Heldt, TLS, nº5887)
Eu acrescentaria que, de país para país, o humor difere bastante: por razões regionais, pelo clima, pelo ADN secular, pelo momento histórico que, eventualmente, atravessam. Seria uma enormidade, no mundo anglo-saxónico, por exemplo, associar-se o sentido de humor britânico ao alemão...

b) É salutar e útil diminuir as importações. Assim o recomenda a economia nacional, ou a "austeridade de esquerda".
Pululam na net e em blogues nacionais as citações em línguas estrangeiras, talvez por preguiça ou, muito simplesmente, porque os citadores, na sua timidez e pudor linguístico, não ousaram traduzi-las. Aceito e compreendo.
Mas também as anedotas (brasileiras, sobretudo) inundam os e-mails (abra-se uma excepção!), e são o prato substancial de muitos blogues, a quem falta graça. E os bloguistas (lusos), preguiçosos e desleixados, nem sequer se dão ao trabalho de transformar, às vezes, o brasileiro macarrónico, rupestre e pedestre, num português de lei...
Irra!

Eva Cassidy (1963-1996)

Mais 2 quadras populares alentejanas


As moças do Sagraçal
todas são sagraçaleiras,
são bonitas, bailam bem,
prestam-se para as brincadeiras.

...

Não há amor como o primeiro,
nem lenha como o azinho,
nem filhos como os do padre
que chamam ao pai padrinho.


Nota: uma vez mais, as quadras foram colhidas na obra "A sul do Tejo", de Manuel Mendes (1906-1969).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Lembrete 32

Excessivo. Seria o adjectivo que eu usaria para sintetizar o filme de Marco Ferreri, La Grande Bouffe (A Grande Farra), de 1973, com desempenhos notáveis de Marcello Mastroiani e Michel Piccoli, entre outros. Hoje, na RTP2, pelas 22h48.

Osmose 60


Da brumosa manhã não se consegue dobar uma ideia. Como do exterior, o interior é vago, circunscrito e orientado para pequenas tarefas domésticas, mecânicas, que não exigem novos planos ou uma planificação mental excessiva. Só o ordenar das palavras, agora, obriga a alguma reflexão prévia, uma articulação de dados mais precisos, uma intuição de vocábulos a haver, um caminho para sair do nevoeiro. Ou, melhor, da bruma instalada que, do exterior, por osmose, veio ocupar o interior, numa empatia indesejada, embora mansa e nada incómoda. Neste vagar do ser.

Pinacoteca Pessoal 109



O sobreiro, a que os alentejanos chamam chaparro, é uma das mais emblemáticas árvores nacionais e, também, das mais longevas. Predomina no Alentejo e Algarve e, embora com menor mancha florestal, no Ribatejo. É por ela que somos o primeiro e maior produtor mundial de cortiça, que dele se extrai. E da bolota muito porco preto se alimenta, na planície alentejana.
A árvore inspirou, pelo seu aspecto singular e sugestivo na paisagem, inúmeros pintores portugueses, desde o rei D. Carlos (1863-1908), até, mais recentemente, o alentejano Dordio Gomes (1890-1976), que se radicou no Porto, e aí veio a falecer. São deles as imagens de sobreiros que acompanham este poste. Quer na sua forma naturalista ou clássica, quer numa visão mais modernista.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Pequena história (40)


Era moroso no cumprir das obrigações, o poeta algarvio João de Deus (1830-1896). Ou seria preguiçoso? Por Coimbra se arrastou 10 longos anos, para se licenciar...
E, nas férias, se a mãe o não acordasse, ficava na cama, a dormir até às tantas.
Um dia, já o Sol ia alto, a mãe para o fazer levantar, gritou-lhe:
"Levanta-te, meu filho. Olha que por se levantar cedo achou o nosso vizinho uma bolsa de dinheiro!"
Ao que João de Deus respondeu, com voz ensonada:
"Mais cedo se levantou quem a perdeu, minha mãe!"

Lisa Gerrard (1961)



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Casas de morrer


Agora, têm nomes floridos, folclóricos e apelativos: Cantinho da Paz, O Jardim dos Avós, A Idade da Razão... Quando eu era menino e moço, eram nomeados de forma muito mais prosaica - Ordem Terceira de... E havia poucos; hoje, são como cogumelos, nos subúrbios, muitos deles, e são negócio rentável, em vivendas adaptadas, nem sempre licenciados. Fora dos centros das cidades, como lazaretos. Porque a necessidade é muita, e os velhos cada vez são mais, naquela falácia dos hipócritas que falam da qualidade de vida, de viver até mais longe.
Não se vem de lá feliz. A fragilidade humana extrema, os corpos inertes como de flébeis passarinhos que já não cantam e jazem por terra, o olhar desbotado e sem brilho, o silêncio pesado de gente que conhecemos nas suas plenas faculdades, e que agora parecem vegetais sem nome, nem identidade. Fomos depois até à praia, para espairecer e ganhar forças. Difícil. Porque estarmos no Carnaval até parecia uma ironia despropositada e aberrante.
Por isso, Testamento Vital ou Eutanásia Assistida, para mim, fazem todo o sentido. E podem ser um acto humano misericordioso, pragmaticamente justo. E que vão para o diabo as virgens ofendidas e os hipócritas do costume e de serviço, com os seus pretensos sentimentos piedosos e moralistas.

Sinopse de viagens régias portuguesas, por um modesto amador de História


Talvez por extremos, na Europa, foram os nossos reis parcos viajantes. Se a capital oficiosa portuguesa foi descendo pelo mapa e no tempo, de Guimarães até Lisboa, passando por Coimbra e Leiria, e chegando a Évora, nos últimos reinados da segunda dinastia, as deslocações para fora do território nacional, tirando Espanha (por negócios políticos, tratados, escaramuças ou batalhas, e casamentos) e o norte de África (pela conquista), foram sempre raras e episódicas, por parte dos nossos monarcas.
Se o conde D. Henrique, pai do nosso primeiro rei, veio de França, e D. Afonso III lá esteve, antes de subir ao trono, terá de se esperar até D. Afonso V, para que um rei português pise, de novo, o solo gaulês, se exceptuarmos o regente D. Pedro, seu tio, duque de Coimbra, que esse, sim, cumpriu as "sete partidas do mundo", para depois vir a morrer em Alfarrobeira, ignominiosamente. Sublinhe-se, também, na primeira dinastia, o triste destino de D. Sancho II que foi morrer a Toledo, por exílio, onde está sepultado. E o único rei luso que nem depois de morto regressou a Portugal.
De resto, só os Braganças, da quarta e última dinastia, viajaram mais. D. João VI, em direcção ao Brasil, para escapar aos exércitos de Napoleão, e D. Pedro IV que por lá andou e gerou numerosa prole. Mais um grande intervalo, para registar, as visitas diplomáticas de D. Carlos pela Europa, bem como as viagens de D. Manuel II, nosso último rei, que acabou por morrer exilado na Inglaterra.
Mais domésticos e sedentários do que cosmopolitas, os nossos reis foram-se ficando, quase sempre, pelo terrunho pátrio. O que também terá contribuído, porventura, para uma certa estreiteza de horizontes mentais, em muitos casos.

Manoel de Barros (Brasil, 1916-2014)


A Disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso a menos.
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.

Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores.


Manoel de Barros, in Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Fé, café e música


16.000 igrejas abandonadas ou encerradas, no Reino Unido, segundo refere George Steiner, em entrevista concedida a Laure Adler, em 2015. A escassez ou ausência total de fiéis assim o justificou.
Em Antuérpia, ainda não há muitos anos, na paróquia de Sint-Norbertuskerk, na Dageraadsplaats, o padre da paróquia, em emergência, convocou os fregueses católicos para lhes dar conta que a igreja poderia vir a ser transformada em mesquita. Perante a fraquíssima afluência de fiéis, a autarquia ponderava a decisão, a pedido da comunidade islamita da zona, de a entregar para readaptação a mesquita. A reunião da comunidade católica decorreu com alguma preocupação e dramatismo, mas foram tomadas medidas, ajustadas à questão, para debelar o problema candente.
Ainda hoje, Domingo, depois da missa das 11h00, foram servidos bolinhos e café, aos fiéis que quisessem retemperar forças e também aos que se encontrassem em jejum, por causa da comunhão. A música passou também a ter lugar cativo (Cantatas de Bach, hoje) durante os ofícios divinos. A assistência de fiéis e frequência recompôs-se satisfatoriamente, nos últimos tempos...

Por falar na Arrábida, as aves...


O sossego de terra deserta faz daquela ponta de areal o paraíso das aves marinhas, que no tempo primaveril vêm brincar para as praias abandonadas, principalmente do lado do rio, e ali chapinham na água, correm à desfilada pela areia dura da baixa-mar, ou aprazidamente se catam ao sol, gozando a tranquilidade dos entardeceres tão lúcidos e silenciosos. Os maçaricos andam aos bandos, correm num passinho lépido, levantam em voos súbitos; as gaivotas pairam alto, ou poisam à beira das ondas, paradas e soturnas; mas entre a bicheza que por aqui abunda, a mais cativante é decerto a garça, de uma alvura estreme, compassada e mesureira no seu andar de bicho pernalta, quedando-se às vezes estática, a remirar-se, a presumida, no espelho de alguma poça. Parece um reino encantado. O mar, o céu e a praia, o fresco hálito salino que de tudo transpira e a espaços se alterna com o respirar resinoso das matas próximas, sobretudo o sossego e isolamento, tão apetecido destas aves, suspicazes em seus modos, ao mesmo passo que serenas, tudo imprime ao lugar um sabor edénico - surpreendente e aprazível cantinho de um mundo de sonho.

Manuel Mendes (1906-1969), in A Sul do Tejo (pgs. 55/6).

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Impromptu (23)


Mercearias finas 110


Na Arrábida (Portinho), em meados dos anos 60, no café-esplanada existente à beira-mar havia, apenas e sempre, um único tipo de bolo disponível: um industrialíssimo e sensaborão pastel de feijão, embrulhado em celofane (ou seria em papel manteiga?). Quanto a vinhos, brancos, se por lá almoçássemos, não havia escolha: apenas o canónico Casal Garcia, para peixe grelhado, da região marítima.
Pela mesma altura e década do século XX, uma leitaria-mercearia da rua Brancaamp, em Lisboa, costumava fazer montra, ciclicamente, com garrafas de Barca Velha, a seiscentos e tal escudos (para comparação, na mesma época, o Grão Vasco, tinto, custava cerca de 7$50, creio). Eu cobiçava o vinho de Fernando Nicolau de Almeida (1913-1998), mas não lhe chegava, nas minhas fracas posses...
Com os anos, porém, os vinhos brancos foram ganhando quota nas minhas preferências. E, recentemente, vim a conhecer dois de magnífica qualidade, quase em simultâneo. Num almoço de anos, foi-me presente um Vinha Paz (2013?), com 14º, lotado com Encruzado, Malvasia-Fina e Gouveio. Da família do meu tinto preferido do Dão, com o mesmo nome, enólogo (António Canto Moniz) e marca. Elegantíssimo, acompanhou um Pargo assado, à maneira.
Depois, veio este Senhor D'Adraga, branco, de 2014, com equilibrados 12,5º (preço: 4,39, numa média superfície), que é feito, numa propriedade já muito próxima do Cabo da Roca. Dir-se-ia que é o vinho mais extremo-ocidental da Europa... E se é bom! Bateu-se, dada a sua requintada personalidade, cavalheirescamente, com uma Garoupa, pescada à linha no Atlântico. Quanto a castas, o rótulo disse nada. E eu fiquei intrigado pelo seu sabor especioso e nobre. Inclinei-me, não totalmente convencido, para que tivesse Arinto que, ali por perto (Bucelas), atinge a suprema excelência e elegância, em bons anos de colheita. Mas não descansei enquanto não soube de que castas era feito. Procurei, procurei e, para minha grande surpresa, dei de caras com duas castas minhotas, raríssimas no Sul: Alvarinho e Loureiro - quem diria!...
O resultado é excelente. O que contraria, de algum modo, os puristas ortodoxos do Terroir, como eu.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Da Janela do Aposento 63: Ordem para Formatar


A estatística reproduzida na imagem acima parece-me bastante clara quanto aos tempos que vivemos.
Relativamente a explicações para o facto da “melhoria de resultados” dos Bancos, vieram-me à memória vozes cândidas – nacionais e europeias – a quererem impor uma nova disciplina escolar: formação económica e financeira.
Esse objectivo de formação neoliberal situa-se na sequência de posturas bem mais autoritárias, de um tal “senhor sonae”, querendo impor, ao corpo docente nacional, uma sua “ordem para formatar” funcionários diligentes e submissos.
A este senhor, cá do burgo, também não interessa um ensino que se centra na sua essência, i.e., fazer pensar e, sobretudo, falar e escrever bem e correctamente. Quanto às lições neoliberais económico-financeiras, tenho dúvidas que pretendem explicar a jogada por detrás dos números acima representados.

Para mim, bastam-me as lições paupérrimas dos malfadados “gestores de conta” que se intrometam na nossa vida de forma abusiva.

Post de HMJ