terça-feira, 30 de setembro de 2014

Apontamento 54: É de Almanaque !



Todos os que frequentam bibliotecas, nacionais ou estrangeiras, públicas ou privadas, sem esquecer uma espécie muito especial que, por cá, se chama Arquivo Nacional, já estabeleceram, por força das circunstâncias, preferências em função dos serviços prestados aos leitores.
 Embora com procedimentos próprios de cada instituição, o balanço geral é positivo. O atendimento, presencial ou à distância, é prestado por funcionários que, normalmente, têm a noção do seu papel na divulgação do acervo. Existem, obviamente, casos de excelência que nos fornecem informações preciosas.
Por outro lado, também se gravam na memória os casos em que a instituição se fecha ao exterior, sem a mínima noção relativamente à razão da sua existência. Nestes casos, o acesso presencial é vedado. As respostas a pedidos de informação – ou confirmação sobre obras do seu acervo – são nulas.
E também há casos que são de “Almanaque”, como a resposta que recebi hoje, da Biblioteca Nacional do Brasil, ou seja, a Fundação Biblioteca Nacional, e que reza assim:

“A consulta bibliográfica é presencial.
Venha à Fundação Biblbioteca [sic] Nacional”


Pedia, apenas, a confirmação de uma determinada obra no acervo da respectiva biblioteca, fornecendo a cota, com uma mensagem electrónica identificada com a abreviatura: pt, i.e., para bom entendedor, Portugal. Bem sei, e se quisesse ou pudesse, que a consulta de obras raras é presencial.
Pergunto, no entanto, se o/a menino(a) que respondeu – e sei lá quem seja –  saberá onde fica Portugal ? Porque se ficasse ao virar da esquina da Fundação Biblioteca Nacional não teria, certamente, enviado qualquer pedido de esclarecimento.


Post de HMJ, dedicado a JAD, num dia especial

Bucólica e aérea


Altíssimo, único e pairando em círculos cada vez mais alargados, só podia ser, ao longe, o peneireiro que eu já não via há muito. Mas quando, à pressa, fui buscar os binóculos e voltei à varanda, já não o consegui mais localizar, no azul, a sudeste.
Daí a estranha ausência de pássaros, no horizonte próximo: nem gaivotas, nem pardais e os dois casais de rolas, que por aqui vejo todos os dias, devem ter-se remetido ao abrigo de alguma árvore mais entrançada, que os esconda e proteja.

Palavras do dia (4), com breve p. s. pessoal


"...A esquerda à esquerda do PS olha Costa com uma invulgar agressividade porque receia a atracção do «voto útil» que Costa poderá representar para o seu eleitorado. O efeito «eucalipto» que Costa pode representar para a esquerda, fazendo o deserto à sua volta, preocupa BE e PCP e não só. ..."

José Vítor Malheiros, in jornal Público, de 30/9/2014.

P. S.: não só "a esquerda à esquerda do PS", mas também a direita, que o teme, começou já a atacar António Costa, embora de uma forma mansa e subtil. O que não quer dizer que ele seja um homem sozinho e isolado...

Modest Petrovich Mussorgsky (1839-1881)


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Filatelia XCV


Numa aproximação temática, que me pareceu interessante, aqui deixo, por curiosidade, a imagem de alguns dos primeiros selos da Rússia (os números 3, 4 e 5, e 18, 20, 24 e 25, com variantes, segundo o Catálogo Michel), dos anos de 1858 e 1866. Contemporâneos, portanto, dos trinta anos de idade de Leão Tolstoi (1828-1910).
Não deixa de ser insólita a pequenez das estampilhas, se pensarmos na extensão geográfica, na altura, do Império dos Czares russos.

Reflexões sobre o ócio, a propósito da leitura de "Guerra e Paz", de Tolstoi


É habitualmente aceite, hoje em dia, que o ócio é imprescindível à criação artística, muito embora o facto possa ser mal visto pela grande maioria das pessoas comuns.
Haverá, porventura e para um leitor, duas formas fundamentais de ver e apreciar uma obra de ficção: pelo enredo ou pela construção do romance. É mais ou menos óbvio que a sociedade descrita por Tolstoi, em "Guerra e Paz" é a de uma classe social que se dedica, quase sempre, a ocupar os seus tempos livres, da forma mais agradável que acha possível.

...O gosto da ociosidade permaneceu no homem depois da queda, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só porque é obrigado a ganhar o pão que come com o suor do rosto, mas ainda porque a sua natureza moral o impede de encontrar contentamento na indolência. Uma voz secreta nos insinua que é culposo entregar-nos à preguiça e, entretanto, se o homem pudesse encontrar um estado onde lhe fosse dado sentir que continua a ser útil e a cumprir o seu dever permanecendo inactivo, deparar-se-ia nele uma das condições da felicidade pretérita. Esse estado de ociosidade imposta e não digna de censura é aquela de que goza uma classe inteira da sociedade, a dos militares. É esta ociosidade que constitui e constituirá sempre o principal atractivo do serviço no exército.
Nicolau Rostov experimentava plenamente essa beatitude a partir de 1807, continuando a servir no regimento de Pavlograd, onde comandava já o antigo esquadrão de Denissov. ...

E, se o excerto antecedente, de Tolstoi (pg. 88 do II volume de "Guerra e Paz"), aponta um dos ócios consentidos pela sociedade russa da época - o ócio dos militares -, também é verdade que eu nunca tive o meu tempo mais ocupado do que quando cumpri o meu serviço militar, já lá vão uns bons anos. Porque , ao não haver nada de útil e concreto para fazer, havia que ocupar, milimetricamente, todos os minutos e dias da vida militar: em exercícios, em arengas que exortavam à guerra, em treinos de tiro, em caminhadas e na dita instrução.
Hoje, o ócio mais consentido e dignificante, do ponto de vista social, é, sem dúvida, o dos CEO e o de alguns gestores de nomeada que se dedicam e desmultiplicam em assinaturas muito desenhadas, nas administrações de várias empresas e multinacionais - o ócio post-moderno.
Mas há, também, o ócio compulsivo: do desemprego crescente, actual.

Dias e sabores


Bem se afanam os comentadores de vinhos e outros produtos naturais em tentar, surreal e caricatamente, classificá-los poeticamente, enquanto os especialistas afirmam que o ser humano só tem possibilidade de sentir quatro sabores básicos: doce, amargo, insosso e salgado. Ao que parece, haverá um quinto sabor, de origem japonesa, que aguça o apetite, mas de que eu não me lembro do nome. E é tudo.
Há sinais e sintomas que marcam os dias. Se os dias úteis nada têm que os distingam, salvo algum acontecimento fortuito que possa vir a acontecer e a marcá-lo na memória, já o domingo é reconhecível, logo ao acordar: há, quase sempre, mais silêncio em volta. E se eu fizer uma retrospectiva memorial, há, pelo menos, quatro pontos característicos nesses meus domingos provinciais: a manhã, que era um tempo espiritual, a carne assada e o leite-creme, ao almoço, o futebol e a reunião alargada de família, durante a tarde dominical.
Hoje, porém, este dia útil de segunda-feira, soalheiro, tem, por razões diversas, um sabor marcante e diferente. Porque o Verão quase parece ter voltado. E, por causas distintas, também regressou a esperança em melhores dias.

domingo, 28 de setembro de 2014

Assim se fez...


Citações CXCVII


Todas as cores concordam no escuro.

Francis Bacon (1561-1626), in Of Unity of Religion.

Mercearias Finas 90 : uma escolha


Embora possa parecer publicidade encapotada, não é disso que se trata. Move-me o mesmo sentimento de gosto que me faz dar informação de leilões de livros, destacando algumas escolhas de lotes.
O que distingue, hoje em dia, as feiras de vinhos - que as grandes superfícies, pelo Outono, começaram a realizar nos anos 80 -, das primeiras efectuadas, é a muito maior oferta de produtos, actualmente. Há também, hoje, alguma contenção e modéstia nos folhetos, cuja apresentação gráfica e informação enológica era quase luxuosa e de muito boa qualidade, antigamente. Os preços dos vinhos, que subiram escandalosamente nos anos 90, apresentam-se agora muito mais moderados e acessíveis, felizmente.
Desta feira, cujo folheto vem reproduzido em imagem, e que termina a 8 de Outubro, eu faria uma restrita escolha de 10 vinhos, que passo a discriminar, com a indicação dos preços e regiões:
Minho - Alvarinho Deu-La-Deu, Grande Escolha (branco) - 7,99 euros.
Douro - Quinta de la Rosa (tinto) -7,49.
             Duas Quintas (tinto) - 8,88.
Dão - Duque de Viseu (branco e tinto) - 3,19.
          Quinta da Ponte Pedrinha (tinto) - 3,49.
Tejo (Lisboa) - Adega de Pegões (tinto) Colheita Seleccionada - 3,99.
                        Adega de Pegões (branco) "  "      "       "     "    - 2,39.
Bucelas - Prova Régia (branco) - 2,49.
Alentejo - Herdade Grande (tinto) - 5,99.
As razões da minha opção nortearam-se pelo binómio qualidade/preço destes 4 brancos e 6 vinhos tintos, que aqui deixo, em jeito de recomendação a quem quiser aproveitar.

sábado, 27 de setembro de 2014

Uma fotografia, de vez em quando (47)


Raras serão as fotografias, a preto e branco, de Elliot Erwitt (1928), por onde não perpasse uma ponta de ironia ou um pormenor absurdo que ele tenha fixado com o seu olhar perspicaz. Nascido em França, de uma família judaico-russa, cedo se fixou nos Estados Unidos. Integrou a Magnum, em 1953, e passou grande parte da sua vida a colaborar nas revistas Life, Collier's e Look. A partir de 1970 dedicou-se, maioritariamente, a realizar filmes e documentários. Colaborou também no filme Bob Dylan: no direction home, de Martin Scorcese.


Música e Poesia LVIII : "The Lass of Aughrim"


Esta espécie de balada, The Lass of Aughrim, de origem irlandesa, já surgiu no Arpose, em 28/8/2010, secundarizada, porém, pelas dramáticas imagens que antecedem o final do filme "The Dead", de John Huston, baseado no conto homónimo de James Joyce, do livro "Dubliners".
A incontestável beleza da canção justifica que, aqui, a coloque de novo, na sua versão inteira. A guitarra usada no acompanhamento, e que foi restaurada, pertenceu ao próprio James Joyce.

A par e passo 108


Mas no homem, que está dotado de memória, de atenção e de faculdades de combinação e antecipação para além do necessário, a ideia de morte, deduzida de uma experiência constante e, por outro lado, absolutamente incompatível com o sentimento de ser e o acto da consciência, essa ideia desempenha um papel importante na vida. Ela excita, ao mais alto nível, a imaginação que convoca. Se o poder, a perpétua iminência e, em suma, a vitalidade da ideia de morte se restringisse, não saberíamos o efeito que provocaria na humanidade. A nossa vida organizada tem necessidade das simples propriedades da ideia da morte.

Paul Valéry, in Variété III (pgs. 189/90).

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

"Este mundo não é para velhos"


O título deste poste plagia, com a diferença de apenas uma palavra, parte do verso inicial (That is no country for old men...) do poema de Yeats, "Sailing to Byzantium", que aqui traduzi, em 1 de Maio de 2010. Os irmãos Cohen também o usaram para título de um seu filme recente.
Pese embora o facto do irlandês Yeats ter aceitado muito mal a sua velhice, também Leonard Cohen a encara com amargura e, em muitos casos, essa idade ser propícia à insegurança e ao cepticismo acentuado para com o mundo à volta.
O regresso à "estrada" das digressões e a intensidade de gravações, nos últimos anos, explica-se, sobretudo, pelas necessidades financeiras do cantautor canadiano. Que, já no início do século XXI, foi vítima de abuso de confiança por parte da sua antiga companheira, Kelly Lynch, que era também gestora dos seus dinheiros. E o defraudou, desviando 3,8 milhões de dólares...
No seu último livro, também Herberto Helder diz, no poema final:

...e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,/ ...

Diferentes perspectivas que convergem por motivos de insegurança e tristeza na velhice, mas que não impedem, porém, a existência de beleza nos poemas tardios destes três poetas de países bem diferentes.

Sequência matinal


Clico na abertura do computador. Enquanto espero, acendo o primeiro cigarro do dia. Sintonizo o Arpose, verificando depois, no sitemeter, os visitantes nocturnos: 14 (6 estrangeiros e 8 nacionais).
Confirmo eventuais novos comentários a que deva responder. HMJ, que chega entretanto, informa-me que a "bola de fogo" já se vê, a Nascente. Passo aos Blogues que sigo, a ver se há novos postes: só há um, da Isabel.
Passo aos email. Youtube, de seguida, a ver se há novidades. Regresso ao Arpose, clico no vídeo de Leonard Cohen, para re-ouvir...

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Em jeito de Nocturno, com Leonard Cohen


Comic Relief (95)


com agradecimentos a H. N. .

Da crítica e da Poesia maior


A crítica, em Portugal, está pela "hora da morte", ou seja, vem tarde e a más horas - que os livros de qualidade já são recenseados no JL, quase como na Colóquio: com ano(s) de atraso.
Só no último JL (nº 1146) é que foi apreciado o último livro de Echevarría (Categorias e outras paisagens), saído em Outubro do ano passado. Quantas frioleiras, entretanto, lhe passaram à frente, em recensões de compadrio, sempre muito em cima da hora? Quando não em pré-apreciação e pré-publicação. Antes que esses livros desapareçam das montras das livrarias e recolham ao refugo dos armazéns, para serem depois expostos, em saldo, nas estações de metropolitano, em fugazes lojas de qualidade duvidosa e sazonal.
Aqui fica mais um poema desta Poesia difícil, mas maior:

Tornou-se, aos poucos, sensível
a tez da velhice. A mágoa
recolheu-se ao doce timbre
de azular-se na palavra.

E a palavra desceu
ao halo feliz da tez,
com a velhice a crescer
dentro da luz que se fez.

Regionalismos transmontanos (55)


1. Mondongueiro - indivíduo moleirão, preguiçoso. Namorador.
2. Montijo - montículo de verdura.
3. Morchetar - depenicar, beliscar.
4. Morgar - copular, ter relações sexuais.
5. Motril - aprendiz, ajudante de escritório. Criado desprezível.
6. Mulatinho - passarinho sem penas, ainda no ninho.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Jean-Philippe Rameau (1638-1764)


Do tempo que fez


Já se tinha retirado a mesa amovível, da varanda a leste, e se arrumara, na despensa, a cadeira de lona azul, quando Setembro, hoje, nos decidiu brindar, inesperadamente, com uma tarde amena e quase quente de Verão serôdio, que uma levíssima aragem não chega a perturbar. Há que repô-las, a mesa e a cadeira, por agora.
Os limoeiros, a oliveira, os tomateiros e os pimentos (bebés, ainda) têm de ser regados porque, a meio do dia, já a terra dos vasos está seca e gretada.
Só as andorinhas é que já não se vêem pelo ar. Deviam estar desesperançadas de todo e rumaram para Sul. Sob o ar tépido da tarde, eram 16h32, acabo a leitura da última página de La Mort d'Auguste, de Simenon:

"Antoine regarde les deux visages en face de lui.
Ils étaient aussi vides que le sien."

Leilão de Outono


Sob a direcção de Pedro de Azevedo, inicia-se a nova temporada de leilões de livros. Como habitualmente, esta almoeda terá lugar no Amazónia Lisboa Hotel, no próximo dia 6 de Outubro de 2014, pelas 19h30.
A sua importância decorre de virem a ser leiloadas obras que pertenceram à biblioteca de Carolina Michaelis e seu marido, Joaquim de Vasconcelos. Do acervo, e pessoalmente, eu destacaria os seguintes lotes:
146 - Frei Luiz de Sousa, de Almeida Garrett, na sua edição primeira de 1844, com uma estimativa de venda de 200/ 300 euros.
217 - Poesias, de Sá de Miranda, edição de Halle, 1885. Exemplar de trabalho, com anotações manuscritas de Carolina Michaelis. Com preço previsto de venda entre 800,00 e 1.200,00 euros.
230 - Só, de António Nobre, na sua edição original de 1892, impressa em Paris. O livro tem dedicatória manuscrita do Poeta, para António Cândido. Tendo uma estimativa de venda de 1.200/ 1.800 euros.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O novo Cruzado


Um pouco a contra-gosto, aqui vai.
Em recentes declarações à televisão, o católico Blair defendeu uma nova escalada de tropas ocidentais no terreno do Médio Oriente, para aniquilar o recém-criado Estado Islâmico (EI). Esqueceu, ou desvalorizou o facto de ter sido ele, com o evangélico Bush, filho, e a cumplicidade de Aznar e Barroso, anfitrião, que, indirectamente, foram a origem do caos político na região, iniciada com a invasão do Iraque, em 2003.
Falarmos, ainda que mal, de figuras sinistras, é também uma forma de lhes darmos publicidade e lhes fazermos propaganda, trazendo-as ao primeiro plano. Sempre que posso, evito fazê-lo.
Correm por aí, na net e nas redes sociais, fotos e imagens de encenações macabras de mortes violentas e despojos humanos provocados pela sanha irracional do novo califado medieval, que já ocupa partes consideráveis da Síria e do Iraque, numa superfície maior do que a França. O gosto pelo sensacionalismo explica esta difusão tonta e de mau gosto.
É por estas e outras imagens, falsamente heróicas, que algum lumpen juvenil de emigrantes de 2ª geração, dos bairros sociais degradados europeus, se empolga e vai juntar, no Médio Oriente, a essas hordas de fanáticos selvagens e animalescos. Até porque a juventude é, também, excesso, sobretudo quando deseducada e desestruturada. E pode ser, também por isso, de uma crueldade irresponsável.
Mas se os nazis, à noite, se reuniam para ouvir e tocar Schubert - como refere Steiner - e, de manhã, voltavam ao seu sinistro labor  nos campos de concentração, essas imagens que correm na net, e de que eu falei acima, não deixam de ser uma "remake" semelhante também a outras que surgiram durante a nossa guerra colonial. De um e de outro lado...
O homem continua a ser, muitas vezes, um sanguinário animal disfarçado. Um monstro desconhecido.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Leonard Cohen : "Nevermind"


Bibliofilia 110


Nos recessos e recantos de uma biblioteca, existem sempre algumas coisas semi-escondidas e de que perderamos o rasto, há muito: um pequeno livro afogado entre dois maiores, um folheto magríssimo, uma folha volante de quase transparente dimensão...
É o caso deste Formato-in-plano (termo técnico), suplemento especial do "Jornal do Fundão", editado em 24 de Janeiro de 1965, dedicado à Poesia Experimental portuguesa. E que contém colaboração de António Aragão, António Ramos Rosa, E. M. de Melo e Castro, Herberto Helder, José Blanc de Portugal, entre outros.
Não erro - creio - se disser que este Folheto é raríssimo. Nunca mais vi nenhum exemplar à venda. E veio ter às minhas mãos, gratuitamente, no próprio ano da sua impressão, por uma sorte do destino...
Em partilha, aqui fica o texto da colaboração de Herberto Helder, e o cabeçalho da publicação, em imagem parcial.

Sem título


9.
Vai sendo tempo de largares o Verão
soltá-lo no caminho mais estreito
à boca do Outono ou numa praia
onde já não passe mais ninguém.

Alberto Soares, in Escrito para a Noite (pg. 37).

Beethoven / Gilels


domingo, 21 de setembro de 2014

Produtos nacionais 18


Não sei se, hoje em dia, nas cervejarias ao servir um Fino (no Norte) ou uma Imperial (no Sul), ainda fornecem, gratuitamente, um pratinho de tremoços. Julgo que não e é pena porque, dizem, ajudam a combater a diabetes.
Nestes últimos anos, por circunstâncias fortuitas, mas também de gosto nosso, temos comido, com muita frequência, azeitonas. Soube, há pouco tempo, que reforçam o colesterol bom.
Uns e outras são entradas modestas ou acompanhamentos baratos, mas saudáveis de uma gastronomia que, na mesa do povo, sempre foi exígua. Na planura alentejana, pão e azeitonas foram, muitas vezes, única sustância dos ganhões e outras gentes do campo.
É já um pouco tarde, na minha vida, para me vir a ilustrar e conhecer profundamente as diversas castas de azeitonas portuguesas - e elas são muitas. Quanto aos tremoços, também de origem mediterrânica, e da família das favas, a variedade é menor.
Seja como for, a forma de os curtir, nacional, é que lhes dá o seu bom sabor característico e português.

As tarefas menores e necessárias


Acabada, a meio da tarde, a leitura do primeiro volume de "Guerra e Paz", de Leão Tolstoi, dediquei-me, durante quase vinte minutos, à abertura das 456 páginas do segundo livro. Tarefa levada a cabo com a macia, mas incisiva faca talhada da carapaça de uma tartaruga santomense.
Consegui não rasgar nenhuma das folhas, do papel amarelecido pelo tempo, deste volume editado pela Inquérito, comprado com os outros dois, por Esc. 150$00, na Casa das Novidades, em Guimarães, há já 57 anos. A leitura, deste segundo livro, iniciá-la-ei em breve.
A adesão a um projecto tem que ser acompanhada de disciplina e vontade. E, mesmo que não retire especial prazer da leitura de "Guerra e Paz", creio que, quando completar a leitura dos três volumes, a que me comprometi, retirarei alguma satisfação do dever e objectivo cumpridos.

A par e passo 107


O Animal, sem dúvida, não rumina a ideia da morte. Ele não teme senão o constrangimento de temer. Desaparecido o perigo, a força do pressentimento funesto desaparece: a morte não tem mais a forma de um aguilhão e não desempenha mais nenhum papel.
E isto porque nada de inútil, nada de desproporcionado existe na conduta do Animal. Ele não é, a cada instante, senão aquilo que é. Ele não especula sobre valores imaginários, não se inquieta sobre questões às quais os meios de que dispõe não lhe permitem responder.
Daqui resulta que o espectáculo da morte dos seus semelhantes que pode, nesse preciso momento, emocioná-lo ou irritá-lo, não lhe causa tormentos ilimitados, nem altera em nada o seu sistema bem positivo da existência. Dá a ideia que ele parece não possuir tudo aquilo que é necessário para conservar, manter e aprofundar esta impressão.

Paul Valéry, in Variété III (pg. 189).

sábado, 20 de setembro de 2014

Sidney Bechet, encore


para MR, por sobejas razões, e com votos de um bom fim-de-semana.

Carpeaux


Dentro de 8 dias, encerrará ao público, no Museu d'Orsay, uma grande exposição sobre a obra do escultor francês Jean-Baptiste Carpeaux (1827-1875). Numa sequência genética curiosa (o pai era pedreiro) a evolução familiar transformou em arte o que, anteriormente, tinha sido ofício...
A sua obra mais conhecida, "La Danse", provocou intensa polémica na sociedade francesa do tempo de Napoleão III. Tinha sido uma encomenda para adornar a nova Ópera de Paris, projectada por Charles Garnier, mas as reacções foram tão negativas, que a escultura acabou por ser retirada da fachada do edifício. Hoje, esta censura pública parece-nos um absurdo.
Desse acto e sobre a peça escultórica, Zola escreveu na altura: "O grupo do sr. Carpeaux é o império: é a sátira violenta da dança contemporânea dos milhões, de mulheres à venda e dos homens que já todos se venderam. Na estúpida e pretensiosa fachada da nova Ópera, no meio desta híbrida, vergonhosamente vulgar arquitectura no estilo de Napoleão III, explode um verdadeiro símbolo do império... O sr. Carpeaux, ingenuamente pensando que estava a esculpir um grupo completamente inocente, gravou uma hostil alegoria que a posteridade não terá dúvidas em intitular: os prazeres do Segundo Império".

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Dos Cadernos de E. M. Cioran


29 de Dezembro de 1969


As nações. Uma nação afirma-se pelo orgulho e pela arrogância. Enquanto conservar a consciência da sua superioridade, ela constitui um perigo; por outro lado, é graças a esta megalomania que ela cria os seus valores e se vai caracterizando a si própria. Mas acaba por chegar um momento em que este processo de dilatação e tomada de consciência declina, ou ela sofre derrota após derrota, até que cessa de acreditar em si mesma. Humaniza-se, perde o seu orgulho, ela já não conta mais. O Império romano no seu declínio, a Inglaterra de hoje, a França depois da guerra de 14, etc.
- Qual é o sentido da História? Permitir aos povos exercer e liquidar o seu génio.

E. M. Cioran, in Cahiers / 1957-1972 (pg. 779).

Memória (93)


Outubro de 1974.
O vídeo, embora de fraca qualidade, reproduz um pequeno excerto do primeiro concerto de Theodorakis, em liberdade, depois da ditadura dos coronéis, na Grécia. Festa e electrizante alegria...

O não


Devo confessar que fiquei mais descansado. Porque, desde há dias, me perguntava, angustiado, se a Escócia se tornasse independente, o que seria feito de Balmoral. E só encontrava uma saída airosa para esse grande problema: transformar esse Estate régio num novo Vaticano. Com a papisa Isabel à frente da pequena vila-estado, que o falecido príncipe Albert tinha comprado, em 1852, para a sua querida Victoria.
Felizmente que ganharam as tias...

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Regionalismos transmontanos (54)


1. Mescambilha - enredo, trapaça, batota. (Conheço moscambilha, com o mesmo significado.)
2. Mexerufada - mistela, mistura, miscelânea. 
3. Mílhara - papa de milho misturada com leite. (Conheço mílharas com o significado de ovas de peixe.)
4. Mirocho ou mirolho - vesgo, zarolho, o m. q. birolho.
5. Mochilar - ferir, esmoucar.
6. Molego - pão de trigo dividido em quatro cantos. Pão de trigo pequeno.

Nota: a magnífica fotografia que encima este poste foi tirada pelo fotógrafo francês Georges Dussaud (1934) que, nos anos 80, descobriu e fotografou Trás-os-Montes, de forma admirável, deixando-nos um precioso testemunho visual, sobretudo do Barroso.

Os números da Emigração


Quando eu comecei a aprender Geografia, o número de cidades portuguesas não ultrapassava as 40, na plataforma continental. E a mais pequena, em população, era Pinhel, que contava 2.100 habitantes recenseados. A elevação de vila a cidade, nesse tempo e em Portugal, era um processo moroso, difícil e nem sempre bem sucedido, mas sempre desejado pelas populações regionais.
A emigração, nesses longínquos anos 50, ainda não era muita. Veio a acentuar-se, significativamente, sobretudo nos anos 60, resultado de políticas de maus governos e de justas aspirações de vida melhor, por parte dos portugueses - como hoje, aliás.
A fazer fé nestes números, do pacotinho de açúcar da Nicola, fornecidos pelo Observatório de Emigração, estes 9.224 portugueses emigrados em Moçambique dariam para refundar mais de 4 cidades de Pinhel, pelas tabelas antigas. Por aqui também se pode compreender melhor a desertificação do interior...

Citações CXCVII


A verdadeira ironia - porque há uma falsa ironia - é a ironia do amor. Ela nasce do sentimento de finitude e da limitação própria e da aparente contradição entre o sentimento e a ideia de um infinito contido no verdadeiro amor.

Friedrich Schlegel (1772-1829).

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Termine-se a noite em beleza, com Mozart

Reencontro


Os reencontros, passados muitos anos, nem sempre são felizes. Por crescimentos diversos de quem se revê, divergência nos interesses que se aprofundaram entretanto, pelas rugas do tempo na face outrora jovem - sentimento que nem sempre pensamos poder ser recíproco...
Há muito que eu não voltava à poesia de Reinaldo Ferreira (1922-1959) que li, empolgado, em anos de extrema juventude, por um livro emprestado por um amigo. E, hoje, no alfarrabista que frequentemente visito, o livro (em imagem) oferecia-se-me, acusando o tempo, mas até com as páginas por abrir. Lá o trouxe, que o preço era convidativo.
No prefácio, José Régio, certeiro, aponta-lhe as influências de Cesário e Pessoa, com muita justeza. Bem como uma certa desigualdade na qualidade dos poemas. A leitura de "Receita para fazer um herói" já não me empolgou como na juventude. Até porque já nem há a guerra colonial, no horizonte.
Mas continua a ser interessante um pequeno poema que eu quase sabia de cor, e voltei a ler:

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

Breve nota sobre efemérides e imortalidade


Será talvez um dia auspicioso para o nascimento de poetas, esta data de 17 de Setembro. Nada menos de 4 respiguei eu de várias fontes informativas:
Francisco de Quevedo, em 1580.
Guerra Junqueiro, no ano de 1850.
Em 17/9/1883, nasceu William Carlos Williams. 
Finalmente, José Régio, em 1899.
Também se diz que, depois da morte, os poetas (e outros artistas) terão de passar vários anos no limbo, até serem redescobertos, e ressuscitarem, nalguns casos.
Sobre Quevedo, não tenho eu dúvidas. Quanto a Junqueiro e Régio, tão conhecidos em vida, rezemos-lhes pela alma, a ver se ressuscitam...

Uma louvável iniciativa (38)


É uma boa oportunidade para se ficar com uma ideia sobre a enologia bairradina. A região demarcada da Bairrada é, porventura, a mais mal-amada das regiões portuguesas. Injustamente, aliás, bastaria lembrar os vinhos do Palácio do Buçaco, para deitar por terra essa ideia enraízada e peregrina.
Estas monografias que o jornal Público (re)começou a distribuir, aos sábados, com o periódico, custam apenas 1,00 euro. O primeiro lançamento (2012?) terá sido um fiasco, mas o preço dos livrinhos também era excessivo: 4,90 euros. As sobras terão sido muitas, provavelmente. E o Jornal reincidiu, agora, na distribuição, mas a preços de saldo...
As obrinhas, belamente ilustradas, têm uma apresentação gráfica muito cuidada e são úteis do ponto de vista informativo: história da região demarcada (desde 1866), produtores mais importantes, restaurantes, castas usadas na região...

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Rodrigo Leão & companhia

Os pequenos indícios


Alguém, Amigo, me traz semanalmente, numa triagem salutar, o miolo essencial de um hebdomadário pesado e espesso que, hoje em dia, se dedica substancialmente às frioleiras habituais do mainstream.
(Por uma vez, farei de advogado do diabo contra mim mesmo!) E pergunto-me: porque é que se não gosta de uma pessoa? Enviezando a pergunta, eu responderia, de pronto: detesto poses.
Nesse miolo útil e brevíssimo, do semanário denso, Pedro Mexia escrevia: "...que lembram a brasileira Lispector." Há dias eu escrevi, num comentário a um poste, num Blogue amigo: ... a ucraniana e "poseuse" Clarice.
Como diz o povo: Pela boca morre o peixe.

Divagações 73 (nubladas)


Para melhor dominar os assuntos ou arrumar as ideias, o homem procurou sempre sistematizar e classificar as coisas. Um nome é, em muitos casos, uma fórmula tranquila, um sossego gramatical ou biológico, a maneira de circunscrever o imprevisível, de formatar as circunstâncias, de chamar. Nem a Natureza escapou a esta febre disciplinar humana, embora, por vezes, se permita perturbar e baralhar essa estabilidade classificativa: um animal exótico que nunca fora visto, um peixe estranho que pede uma nova reordenação, uma planta pequena e humilde, ou uma flor que, sendo discreta, escapou, durante séculos, à visão humana. E as regras do jogo são postas em questão...
Embora arrumado nas ideias, considero-me indisciplinado nas coisas: papéis, livros, pequenos objectos que vou juntando e não consigo classificar, para poder arrumar, rasgar ou deitar fora, em definitivo. Há sempre livros que se escusam a uma classificação exacta, como as nuvens, das quais só consigo identificar e nomear, com certeza, os cirros (do latim, cirrus, e porquê?), que têm sido bem raros nestes últimos dias tão nublados e cinzentos deste Verão de Setembro. Também ele inclassificável.

Comic Relief (94)


com agradecimentos cordiais a A. de A. Mattos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Igor Stravinsky (1882-1971)


Recomendado : cinquenta e um - do Douro


De pedra (xisto...) e cal, e na primeira linha das minhas preferências gustativas, estão de memória três produtores durienses de vinhos de grande qualidade: Alves de Sousa, Sophia Bergqvist e Dirk Niepoort. Sendo este último, sem sombra de dúvida, o mais ousado e inovador, até por ser o mais jovem.
Das minhas últimas férias, no Alto Douro, não poderia deixar de visitar a Quinta de la Rosa, que é dirigida pela senhora Bergqvist, de ascendência dinamarquesa. Lá adquiri alguns produtos vínicos, entre tintos e brancos, para trazer.
Ontem foi a vez de provar o douRosa, tinto de 2011, com uma perna assada de porco, batatas e cebolinhas, mais um feijão verde, refogado a primor. O vinho é magnífico e está no ponto. Apesar dos seus assustadores 14,5º, tem a macieza dos melhores vinhos do Dão (isto é um cumprimento!). Touriga Nacional e Franca, Tinta Roriz - que me parece predominante - compõem o lote.
Pena foi não ter à mão um queijo Serra, de Serpa ou Azeitão para celebrar o douRosa, condignamente. Teve que ser com um queijinho do Pico (Açores) que era modesto, embora honesto...

Diferentes velocidades


É provável que a velocidade de leitura de um livro seja proporcional ao prazer que nos dá.
Se "O Aprendiz de Feiticeiro", de Carlos de Oliveira, me ocupou, ininterruptamente, uma noite de Verão, quase em claro, já o primeiro livro que li (A história da Carochinha...) levou-me 3 dias a ler, porque a prática de leitura era nenhuma.
Os ritmos de leitura, por uma mesma pessoa, podem ser bem diferentes - é uma verdade de La Palice, que só recentemente compreendi na sua verdadeira extensão. E dependem, fundamentalmente, do interesse e gosto pelo livro e/ou pela acção da própria narrativa, e pela curiosidade (também) que desperta. Serão mais lentas, como é evidente, as leituras de romances de ideias ou ensaios.
Entre a parcimoniosa e lenta leitura que venho fazendo de "Guerra e Paz", de Tolstoi, na versão portuguesa de José Marinho, e a velocidade a que avanço na tradução/leitura do original (em francês) de La mort d'Auguste (1966), de Simenon, vai uma diferença de tomo...
Será, porventura, um sacrilégio, mas não tenho vergonha de o constatar, naturalmente.

domingo, 14 de setembro de 2014

A par e passo 106


Nada de mais "nobre" do que a expressão, o olhar, o acolhimento, o sorriso e os silêncios de Mallarmé, inteiramente devotado a um fim secreto e alto. Tudo nele procedia de algum princípio sublime e reflectido. Actos, gesto, propósito, mesmo quando familiares; até mesmo as suas invenções mais fúteis, os nadas muito graciosos, os pequenos versos de circunstância, (em que ele não deixava senão surgir a arte mais rara e mais sábia), tudo procedia do puro, tudo parecia conformar-se à nota mais grave do ser, que é a sensação de ser único e de existir apenas uma vez.
Seria por isso necessário que ele não consentisse senão na perfeição.

Paul Valéry, in Variété III (pg. 19).

Nota pessoal: o meu insuficiente conhecimento da obra de Stéphane Mallarmé (1842-1898) não me permite ter uma opinião fundamentada sobre esta citação de Valéry, a propósito do poeta simbolista francês.

Alfred Schnittke (1934-1998)


2 haiku de Verão


Sobrevoando um cravo
uma borboleta branca -
ou alma alucinada.

Masaoka Shiki
(1867-1902)
...

A luz que se apaga,
frescas estrelas vão
entrando pl'a janela.

Natsume Sôseki
(1865-1915)

sábado, 13 de setembro de 2014

Aquilino


Lembro-me bem que, aqui há muitos anos atrás, no mês de Agosto e na Póvoa de Varzim, havia, frequentemente, duas pessoas que eu conhecia ( um médico e um advogado, vimaranenses) a lerem, frente ao mar e sentados em cadeiras de lona, Aquilino Ribeiro. Eu sabia que eram livros do Escritor, porque as capas da Bertrand eram iguais e inconfundíveis.
Hoje, passa mais um aniversário do seu nascimento (13 de Setembro de 1885). Como costumo fazer, com os meus autores predilectos, fui relê-lo - Camões, Camilo, Eça e alguns mais. Relembrei, pelo menos, duas coisas. Aquilino dá como autênticas, das conhecidas, 3 cartas de Camões. É uma posição intermédia: Hernâni Cidade concede 5, Costa Pimpão, apenas duas.
E, depois, a propósito do "rostinho de tauxia de uma dama lisboeta" (que vem na carta da Índia), refere, em nota de pé de página o saboroso provérbio: "Da pita a preta, da pata a parda, da p... a sarda". E por aqui o deixo, e me fico.

Fé, futebol e finança


A fazer fé nas últimas notícias, o tempo não parece correr de feição aos beatificados. Se Paulo Bento, que estava na Selecção má, se demitiu, o outro Bento (Víctor), segundo um hebdomadário de referência, vai pedir a demissão do Banco bom. Nem sequer aqueceu o lugar salgado...
E se um (o seleccionador nacional) talvez não soubesse bem ao que ia, o outro (ainda para mais, tonsurado) deve ter contado com a protecção divina, que não veio ao seu encontro. Destaque-se, porém, a sua ingenuidade sacrossanta que, para os leigos como eu, é inexplicável.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Mikael Tariverdiev / Peter van der Zwaag


Regionalismos transmontanos (53)


1. Marracho - porco pequeno.
2. Marralheiro - preguiçoso. Diz-se do tempo quente mas chuvoso, que faz dormir. (Conheço com o significado de pessoa que discute muito o preço, com o vendedor, antes de comprar.)
3. Mastroque - estalo produzido pela fricção dos dedos polegar e médio.
4. Maula - corpulento, muito forte e malfeito.
5. Mequetrefe - individuo que não vale nada. Vadio.
6. Merujar - cair chuviscos. Ir à conquista de raparigas.

Adagiário CLXXXIX (semi-críptico)


Vi um homem que viu outro que viu o mar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Uma fotografia, de vez em quando (46)


Terão sido muitos poucos, os escritores célebres do século XX, que Gisèle Freund (1908-2000) não retratou. Fotógrafa, episodicamente, ligada à Magnum, nascida em Berlim, mas oriunda de uma família francesa judia, fugindo ao nazismo, viveu alguns anos na América do Sul onde fez relações de amizade e retratou Rivera, Frida Kahlo, Neruda e Borges. Captou expressões magníficas de Malraux, Sartre, Beauvoir, bem como de T. S. Eliot e de Virginia Woolf ( em imagem). Mas também captou imagens da investidura de Perón e Evita. Tendo sido apontada, também, para fazer o retrato oficial de Miterrand. Mas as cenas de rua e do proletariado também ocuparam a sua atenção visual.
A primeira foto do poste é o seu auto-retrato, fixado em 1931.

Brel


Onírica e burlesca


Esta chuva contínua de ontem, este cerco líquido, este dilúvio em redor das casas, talvez ambicione, em si, um cenário interior de defesa, o ambiente e os ingredientes necessários para, entre paredes, contar ou ouvir histórias. Mas estamos no princípio de Setembro e o tempo propício às narrativas eu costumo situá-lo, com mais propriedade, nas longas noites de Inverno.
O pior, no entanto, é que esta imemorial vontade narrativa, pela água excessiva e exterior, acaba por exsudar para o sonho ou, neste caso mais próximo, para um pesadelo que, como em quase todos, eu conto e faço viver a mim próprio. E em que não controlo o desenvolvimento, nem prevejo o fluxo narrativo e nem sequer tenho poderes para abortar a acção, ou dela sair.
Imagine-se um gueto hostil, onde há dois mensageiros benéficos que me vão aconselhando, duvidosos, tudo isto num cenário que parece de velhas metalurgias abandonadas. Vou descalço, num chão viscoso e escorregadio. Procurando, obstinado, um táxi livre que não há, por um dédalo de ruas estreitas e sombrias. Preciso urgentemente de transporte, para seguir para um casamento de quem não sei, nem os noivos, nem a hora, nem mesmo o local, talvez à volta de Belas...
Que o sr. Freud me dê uma ajuda! Ou me faça chegar, a tempo, à boda!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Apontamentos 53: Efemérides



Curiosamente, numa altura em que o cenário da emigração do Sul para o Centro da Europa se repete, é da Alemanha que surgem as notícias sobre uma efeméride que, afinal, continua a passar ao lado das preocupações principais da construção da Europa, ou seja, o ser humano como fundamento das instituições democráticas.
Parece que foi no dia 10.9.1964 que mais um emigrante – no caso um cidadão português – chegou a uma das estações de comboio de Colónia. Mereceu um destaque na imprensa da altura, como se vê pela imagem acima, porque era o emigrante 1.000.000 a alcançar o seu destino.
De facto, os anos sessenta eram tempos em que passámos a conviver com pessoas vindas do Sul da Europa e que, por motivos económicos, se alojavam à nossa volta. Com o devido desconto normalmente atribuído a uma pretensa evolução da sociedade, convenhamos que os contactos eram, tanto no passado como hoje, resultado de um espírito mais esclarecido dos cidadãos do que de uma famigerada “política de integração”.
Com a devida distância, os cenários repetem-se. Com a diferença de que a apetência do capital exige, actualmente, “pessoal qualificado”, sendo apoiado, nessa exigência, mais uma vez pelas forças políticas do país de “acolhimento” em detrimento dos custos de formação ora remetidos aos países de origem e com as implicações que bem conhecemos.
De toda a memória vivencial de contacto com os primeiros emigrantes, sem excluir a realidade actual, fica a revolta profunda de uma Alemanha oportunista e desumana, sob a égide, tanto no passado como no presente, do partido maioritário no Governo.
Não se poderá aceitar, em consciência, como a CDU/CSU continua a apoiar associações reaccionaríssimas de refugiados do pós-guerra e dos antigos domínios do leste da Europa, a não ser como tropa de choque de partidos da direita, sem ter nenhuma política consistente, no passado como no presente, relativamente aqueles que escolhem a Alemanha como país não só para trabalhar como para VIVER.

Post de HMJ

Citações CXCVI


A memória de um acontecimento extremamente desagradável é geralmente muito mais inconsolável do que o próprio acontecimento.

John M. Coetzee (1940).

Favoritos LXXXIX


Convenientemente nascido em New Orleans (E. U. A.), a 14 de Maio de 1897, Sidney Bechet passou a viver em França, a partir de 1925, e onde veio a falecer a 14 de Maio de 1959, com 62 anos, acabados de completar. Saxofonista notável, o seu maior êxito terá sido "Petite Fleur", que consta do arquivo do Arpose, e que ainda hoje me lembra o perfume dos bailes de juventude...
Para não repetir, aqui deixo registado "Rose de Picardie".

Pintura e fotografia


Em Iowa, fiz também desenhos do natural, de pessoas, de modelos. Tirei muito poucas fotografias; eram principalmente em polaroide e punha-as em álbuns. Mas eu não tirava conscientemente fotografias com o objectivo de as utilizar na minha pintura. De certo modo, fazia aquilo que faço agora. Uso a fotografia como referência; é difícil pintar a partir de uma fotografia. Se a fotografia não foi tirada por nós, só com a imaginação se pode fazer alguma coisa com ela. Se a tirámos, pelo menos podemos lembrar-nos de que apenas a usamos para avivar a memória, para anotar uma aparência. Acho que é impossível desenhar a partir de fotografias. As fotografias não nos dão suficiente informação. Se se observar qualquer fotografia de um rosto, ela não nos dá nenhuma informação real.

David Hockney, in David Hockney by David Hockney (Nikos Stangos, Londres, 1976).

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Alegria, segundo Cioran


A alegria não é um mistério: é simplesmente uma sensação pura - que não se experimenta senão em raros momentos em que desaparece a obsessão de sermos vítima, em que não invejamos ninguém, ou perdoamos a todos, ou em que somos invejados por um deus.
A alegria: nada me diz respeito daquilo que me acontece, e além disso nada acontece ou pode vir a acontecer. É uma luz que se devora em si mesma, inesgotavelmente: é o sol nos seus inícios.

E. M. Cioran, in Cahiers / 1957-1972 (pg. 775).

Impromptu (8)


O todo ou o tudo são conceitos informes e estranhos, quase tão inapreensíveis como é a noção de infinito. Ambos têm aspectos de material e imaterial, que mais dificultam, ainda, a sua compreensão humana. Serão, de algum modo, conceitos-limite.
Livros, animais, plantas, numa vida, só deles poderemos abarcar e conhecer, ao vivo, uma pequena parte, ínfima se tivermos em conta a sua totalidade. Saber, por exemplo, que a primeira girafa (o mais alto dos animais terrestres) a pisar solo europeu, só terá acontecido no ano 49 a. C., dá que pensar...
Terá sido uma oferta de Cleópatra a Júlio Cesar e, vinda de África, chegou a Roma nesse ano já distante.