quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Incursões Culinárias 23: Brôas de Mel



Como gosto de folhear livros de cozinha e experimentar receitas, também costumo ver, no Expresso on-line, as receitas do Chefe Tiger.
De um lado ou outro, vou recolhendo sugestões ou, como foi o caso de hoje, aproveito a receita na íntegra.
Com mel de Mértola, uma oferta de amigos, lá saíram do forno as brôas, quentinhas, como se pode ver na imagem.
O provador de casa achou-as "um figo".

Post de HMJ 

Do legado de Michel Giacometti (1929-1990) II : Rio de Onor


Regionalismos transmontanos (12)


Inicia-se, hoje, a selecção de regionalismos de Trás-os-Montes começados por B. Seguem-se:

1. Babaraca - palerma.
2. Bacamarte - pessoa grande e desajeitada. Mulher dissoluta, desregrada.
3. Bafareira - baforada, fumaça.
4. Baionesa - maçã grande, doce e parda junto do pé.
5. Baldebalhoz - homem desinquieto, mas de bons sentimentos.
6. Bandarrear - vadiar, andar na gandaia.

Deus escutado pela NSA


Só lembraria ao Diabo, querer escutar Deus mas, pelos vistos, os maníaco-depressivo-obsessivos da NSA também andaram a escutar o Vaticano. Provavelmente, para desfazerem as suas dúvidas metafisicas sobre a existência do Altíssimo... E, vai daí, puseram-se a ouvir as conversas do papa Bento e do papa Francisco.
Já nada me admira. Ainda não chegamos ao meio do dia, hoje, e os coscuvilheiros da NSA já vieram ao Arpose por 9 vezes. Deixá-los, que andam a perder tempo e dinheiro. Mesmo assim, cá vão as referências por onde vieram:
- Colorado, Colorado Springs via adelphia.net: 69.171.235, 69.171.237 e 69.171.245.
- e ainda IP.Adress: 31.13.99; 173.252.73, 173.252.77, 173.252.99; 173.252.102, 173.252.112.
Que lhes faça bom proveito!, aos lélés da cuca - como diria o Prof. Marcelo.

Pequena história (26)


Apesar de ter um valor meramente simbólico (cerca de 10 euros), o Prémio Goncourt é talvez o prémio literário mais prestigiado de França, pela isenção - fora dos circuitos editoriais - que preside à escolha do agraciado. O prémio criado  em 1896, por Edmond Goncourt, em memória do seu irmão Jules, foi atribuído, pela primeira vez, em 1902.
O júri, integrando os nomeados da Academia Goncourt, reúne-se nas primeiras terça-feiras de cada mês, almoçando no Restaurante Drouant, em Paris, onde discute as opções sobre romances publicados em França. E, no início de Novembro, é anunciado o nome do escritor escolhido. O livro vem a constituir, normalmente, um best-seller. Alguns dos autores premiados foram: Marcel Proust, Malraux, Simone de Beauvoir, Vaillant...
Ao que parece, os académicos da Goncourt resistiram, talvez por não apreciarem, ou por lhes parecer moda passageira, a destacar obras da escola dita do Nouveau Roman mas, finalmente, em 1984, resolveram atribuir o Prémio Goncourt a Marguerite Duras, pela sua obra L'Amante. Ao que dizem as más línguas, por interferência exterior de François Mittérrand.
Na altura, Robert Sabatier não resistiu a lançar a diatribe assassina: On a donné Duras à Goncourt.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Exposição de Pintura em Novembro


No próximo dia 14 de Novembro, pelas 19h30, na Galeria Bloco 103 (Av. Rodrigo da Fonseca, 103B, Lx.), inaugura-se uma exposição do pintor Justino Alves (1940).

Heitor Villa-Lobos (1887-1959) : "O canto do cisne negro"


Bibliofilia 89


Não se pode dizer que este livro, com poemas de Cecília Meireles, ilustrado por Vieira Silva, seja raro, até porque esta edição brasileira (1979), de 1.500 exemplares (o meu tem o número 455), promovida pela Confraria dos Amigos do Livro, em Portugal, demorou uns anos a esgotar-se. Custou-me cerca de Esc. 1.200$00, por volta de 1985, porque andei a namorá-lo algum tempo, até me decidir. Mas a beleza da edição e a qualidade do conteúdo venceram a hesitação.
As dimensões avantajadas do livro (29,5 por 31,5 cm.) não permitiram escanar a obra de forma que fosse visível, amplamente, a qualidade desta edição cuidada, que foi acompanhada por Carlos Lacerda e Luiz Forjaz Trigueiros. A capa, em pano verde, é do próprio editor. E as ilustrações de Vieira da Silva, vê-se que foram feitas com afecto. O que não admira, porque Cecília Meireles e Vieira da Silva foram grandes amigas.
Creio que, em leilões, só assisti à venda de um exemplar semelhante, no final dos anos 90, e que atingiu um preço que rondaria Esc. 5.000$00. Para a qualidade do livro, não me parece que tenha sido excessivo.

As palavras de hoje


"...é preciso ir buscar coragem à imaginação."

Rui Tavares, na sua crónica "Por que estamos bloqueados?", no jornal Público, de hoje.

A par e passo 63


O estilo resulta de uma sensibilidade especial em relação ao idioma. E não se adquire; mas pode desenvolver-se. Este desenvolvimento produz-se no interior de nós, não unicamente pelo diálogo íntimo do artista com o seu pensamento, as suas ambições de solitário e os seus recursos verbais, mas ainda pela excitação da concorrência e do exemplo, nos meios restritos que tiveram, em diversas épocas, e constituiram a corte, os salões, os cafés, as capelas e o público escolhido de certos teatros... Bem como as jurisdições todo-poderosas e os fóruns de espírito crítico virulento.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pg. 219).

terça-feira, 29 de outubro de 2013

L. Cohen, com pequeno remate autobiográfico


Mercearias Finas 79 : da Ribeira


Não era La Boqueria, mas lembrava, apesar de mais recto e pombalino no traçado geométrico interior. A Teresa tinha a banca pequena bem fornida e a preços tentadores: o polvo, que este ano tem sido generoso a deixar-se apanhar, anunciava-se a 7 euros, os salmonetes e o linguado estavam classificados a 18. Mas fomos no atum, que estava fresquíssimo também e que, de cebolada, foi um pitéu dos deuses, banhado por um Arinto bucelense, Prova Régia, do ano que passou.
A senhora da Padaria, em bata imaculada, rilhou com a faca serrilhada, à minha frente, um bom naco de broa de milho, apetitosa, sobre a banca. E na mercearia, que faz esquina com a 24 de Julho,o empregado fatiou-nos, solícito, um salpicão róseo e limpo de gordura, para saborearmos logo à noite, com a broa.
Não será porventura o melhor de Lisboa, mas o Mercado da Ribeira, neste fim de Outubro luminoso, não precisa de puxar pelos pergaminhos: tem de tudo e de qualidade.

Winsor McCay

Conhecido, sobretudo, pela criação de The Little Nemo, Winsor McCay (1874-1965) é um pioneiro americano do desenho animado. A linearidade elegante do traço e a exiguidade de meios utilizados, faz dele um clássico. Como se pode, aliás, comprovar por este pequeno vídeo de 1912.

Citações CLVII


O que há de cómodo nos princípios, é que podemos sempre sacrificá-los quando é necessário.

Somerset Maugham (1874-1965).

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O lado certo, honesto e autêntico duma artífice da Arte

Comic Relief (77)


Uma família feliz: o paizinho e a mãezinha, reencontrados.

Com a devida vénia a Jorge Fallorca  e ao seu O Cheiro dos Livros. 

José Tolentino Mendonça (1965)


Os versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

J. T. Mendonça, in Baldios.

domingo, 27 de outubro de 2013

Críptica (ou só entendível para os muito próximos)


Sempre tive muita dificuldade em pronunciar ou escrever o verbo adorar.
E há situações limite a que devemos resistir com todas as forças da razão, sob o perigo de exagerarmos, de sermos levianos ou mesmo, despudoradamente, ridículos. É um facto que, hoje em dia, a impropriedade no uso da língua portuguesa é abundante, mesmo em pessoas com credenciais académicas, responsabilidades públicas e obrigações éticas ou políticas. O exagero acabou por banalizar-se, da mesma forma que Hannah Arendt falava da banalização do mal.
Lembro-me do cuidado e do tempo que Costa Gomes demorou para decidir-se a  declarar o estado de sítio, em Portugal, numa altura convulsa do PREC.
É por isso que se deve aplicar, com usura e muita parcimónia, a caracterização de mais dois casos de situações limite:
- o estado interessante
- o estado de choque.

Abrindo para a noite, Rameau

Azul


Dos azúis superiores, no alto sobretudo, há que ter muita atenção a vê-los - diacrónica e sincrónica. Se não, perdemos os pormenores, os nomes específicos e o que há de melhor. E não haverá outra vez, creio...
Escolha-se o Outono português, nas suas cores melancólicas e dos poetas nostálgicos. E temos, nada menos, de pelo menos três: o azul pálido (talvez porque o Sol anda cansado), o azul bebé e o azul cinzento que se quadra bem com as elegias.
Regressa o Verão, e a gama é mais rica: o azul vibrante dos postais turísticos, o azul cobalto (muitas vezes, nas águas do Tejo), o verde azul  de alguma folhagem que nos dá sombra, e ainda o ultramar e o azul violeta. E, isto, se não recorrermos aos ingleses e alemães que, classificativos, minuciosos e atentos, registam ainda: o azul prússia, o indigo, o azul régio, o azul mirtilo...
E ressalve-se a imodéstia subjectiva de eu dar nome a um azul inconfundível: o azul-arrábida, que se pode ver, de Verão, no céu e nas águas límpidas e oceânicas do Portinho e arredores marítimos, onde já não vou há muito.

Campo de Ourique e F. A. P.


Da minha circunstância lisboeta, Campo de Ourique sempre ocupou pouco espaço, até há pouco mais de dois anos, a esta parte. Até lá, chegava-lhe aos contrafortes, uma vez por outra, fui ao Cinema Europa (hoje derribado), e pouco mais. Nos últimos tempos, porém, passei a lá ir quase semanalmente. E afeiçoei-me bastante.
É um bairro "fechado" pela sua singularidade harmoniosa e própria de casas não muito altas, mas aberto a amplas espectativas. Liso para se poder andar a pé, com grande capacidade de ofertas (Livrarias, lojas de roupa, alfarrabistas, mercearias de qualidade e uma enorme gama de restaurantes bons com preços módicos). Ruas, normalmente espaçosas, jardins pequenos, mas agradáveis. Praças e esplanadas, onde apetece ficar. Além disso, é habitado por gente urbana e simpática, que parece feliz por lá viver.
Pessoa, que muito estimo e a quem agradeço, ofereceu-me, ontem, um recorte de uma pequena crónica de Fernando Assis Pacheco (segue em imagem, a encimar este poste), que seguramente lá deve ter vivido. Também ele se deve ter enamorado do bairro de Campo de Ourique.

Favoritos LXXXVII : Graciliano Ramos


Para ser verdadeiro, eu teria de dizer que nenhuma das obras de Graciliano Ramos (1892-1953), das que li até hoje, me desagradou. Acabei, ontem, este S. Bernardo, cuja capa de Santa Rosa aparece em imagem, e também gostei de ler este romance de paixão, ciúme e morte. Não terá o fôlego encantatório de Infância, mas não desmerece, em nada, o escritor brasileiro. Até por lá se encontra uma interpelação ao leitor, que me lembrou Camilo. Aqui vai um bocadinho:
"...Essa conversa, é claro, não sahiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, malentendidos, incongruencias, naturaes quando a gente fala sem pensar que aquillo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Supprimi diversas passagens, modifiquei outras. (...) Uma coisa que omitti e que produziria bom effeito foi a paizagem. Andei mal. Effectivamente a minha narrativa dá idea duma palestra realizada fóra da terra. ..."
Desengane-se o improvável e futuro leitor que S. Bernardo não é uma hagiografia, embora inclua um padre sertanejo e algumas incursões sobre Religião, nem sempre abonatórias. É um romance sobre a terra e o amor fatal de um homem bruto, no melhor sentido da palavra, com sentimentos densos, e uma Desdémona loura e frágil, professora na província.
Graciliano vem à colação porque passa, hoje, mais um aniversário do seu nascimento. E morreu cedo, há precisamente 60 anos. Aqui fica lembrado, para que o leiam.

Clara Schumann (1819-1896)

sábado, 26 de outubro de 2013

Regresso ao Passado


Quem disse que não podemos regredir no Tempo?
Será por breve espaço mas, amanhã, pelas 2 horas da madrugada, regressaremos à 1 hora de 27 de Outubro de 2013.
Por isso, e para que o milagre aconteça, há que atrasar os relógios uma hora, para o novo Presente.

Traduzir


A propósito da saída de mais um volume da Library of Arabic Literature, edição bilingue (inglês e árabe) de obras importantes da cultura muçulmana, sob o patrocínio do Abu Dhabi e da New York University Press, o penúltimo número do TLS (5767) traz um artigo de Lydia Wilson (do Departamento de Filosofia Árabe Medieval, da Universidade de Cambridge), muito interessante. A estudiosa inglesa, além de referir algumas das obras traduzidas, que vão de relevantes textos Sufi, a tratados de medicina, poesia e até o livro de gastronomia Scents and Flavors the Banketer Savors, de Ibn al-Adim, Lydia Wilson - dizíamos - tece algumas considerações pertinentes sobre a tradução, que achei que valeria a pena verter para português e deixar aqui no Blogue. Seguem:
Traduzir é uma luta, e o resultado inevitavelmente um compromisso entre o literal e o lúcido; uma luta para preservar as associações de palavras e as referências culturais (muitas vezes impossível, por exemplo, nos trocadilhos e jogos de palavras). Se a tradução é literal e espera-se que o seja, em parte, e desejável, de algum modo, os resultados podem ser desajeitados e muitas vezes incompreensíveis - como o provam versões de pessoas impreparadas. A substituição mecânica, de palavra por palavra, sacrifica o sentido e torna-se disparatada, muitas vezes, como se pode ver nas traduções do Google. ...

Ainda mais 3 greguerías ramonianas


1. A lava parece um crocodilo que avança.
2. O gato, a máquina fotográfica do mistério.
3. As borbulhas são olhos que morrem ao nascer.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Capas e capas


Talvez os autores tenham as capas que merecem, no bom e no mau sentido. Mas também é verdade que, até há pouco, por cá, os escritores não abdicavam e tinham sempre uma palavra final a dizer sobre as capas dos seus livros. Mesmo que não fossem autores de primeira linha.
Não sei o que se passa, hoje, em Portugal, mas parece-me existir uma enorme falta de gosto estético, neste particular. Ontem, em diálogo com um bom Amigo, falámos do equilíbrio gráfico das capas dos livros franceses, que se tem mantido e apurado, ao contrário das nossas.
Da Vinci e Musil, certamente, mereciam o melhor, e estas capas francesas, já do século XXI, testemunham respeito, bom gosto e qualidade indiscutível.

W. G. Sebald, sobre criação em Pintura


"Por outras palavras, a criação da ilusão perfeita depende não só do grau vertiginoso da habilidade técnica, mas em última instância do canalizar instintivo de um estado suspenso (breathless) no qual o próprio pintor não sabe mais se o seu olhar ainda vê ou se a sua mão ainda se move."

Winfried Georg Sebald (1944-2001).

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Talvez mais pela beleza das imagens, do que da música...

o poeta das minúsculas


Talvez todos tenhamos destas fraquezas: não gostamos, mas repetimos, na secreta esperança de virmos a gostar.
O tempo que eu demorei até ficar convencido de que destestava os chamados "pèzinhos de coentrada" e a "mão de vaca à jardineira"!... Ao fim de um ou dois anos de insistência sacrificada e de 10 ou 12 refeições tristonhas, abandonei o projecto, e decidi nunca mais comer, na vida, estes dois (horrorosos) tradicionais pratos da gastronomia portuguesa.
Ora, de algum modo, aconteceu-me o mesmo com a poesia  de e. e. cummings (1894-1962) - respeitosamente, grafei em minúsculas, como ele usava e gostava. E até nem foi pelas minúsculas, mediocremente plagiadas por alguns menoríssimos escritores deste nosso mundo, que me desaproximei dele. Era, antes, por uma razão de fundo: a poesia dele não me dizia nada.
Li-o no original, li-o nas traduções de Joaquim Manuel Magalhães, e era sempre a mesma coisa - não gostava, simplesmente, mas ia insistindo... Reincidi, há dias, até porque o livro era barato (usado, na imagem, custou-me apenas 1 euro, no meu alfarrabista de referência), numa teimosia desabusada, em mim.
É uma tradução francesa de Jacques Demarcq, creio que cuidada e atenta. Mas não gosto, pronto!
Está decidido: o e. e. cummings vai-se juntar, definitivamente, aos pèzinhos de coentrada...

Adorno, sobre a poesia épica


"A exactidão da palavra descritiva procura compensar a não-verdade de todo o discurso. (...) Emancipar a representação da razão reflexiva, assim acontece com a tentativa sempre desesperada, até aqui, da linguagem que procura, levando ao extremo da sua intenção determinante, curar-se daquilo que há de negativo na sua  intencionalidade, da manipulação conceptual dos objectos, para fazer surgir tudo o que há de real na sua pureza, preservado do domínio da ordem. A estupidez e a cegueira do narrador - e não é por acaso que a tradição fez de Homero um cego - exprimem desde logo a impossibilidade e o carácter desesperado de uma tal empresa. ..."

Theodor Adorno (1903-1969), in Notes sur la Litterature.

arte menor (14)


Deus não amanhece
nunca na fotografia,
só um respiro de morte
se ausenta da folha que renasce.

Um olhar vivo, inesperado,
uma sombra ondulada pelo vento
que projecta
a coreografia inacabada.


Ch., 23-24/10/2013.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Robert Schumann / András Schiff

Uma fotografia, de vez em quando (18)


A fotografia, em imagem, correu o mundo e foi, na altura, um libelo e denúncia, importantes, contra a guerra do Vietname. Instantâneo, captado pelo fotógrafo Eddie Adams, em 1968, ganhou o Pulitzer. Em termos concretos retrata a execução sumária de um prisioneiro vietcongue, por um chefe de polícia do Vietname do Sul, de nome Nguyen Ngoc Loan.
Para o texto que citarei a seguir, deveria dizer que é uma fotografia pré-morte, ou de morte antecipada.
Com a finura mental que lhe é característica, Roland Barthes, no seu admirável "La chambre claire", teoriza sobre o documento de morte que é uma fotografia, quando de qualidade: prova que houve esse momento na realidade, mas jamais vai existir. Mas acrescenta (e passo a traduzir): "Todos estes jovens fotógrafos que se agitam pelo mundo, dedicando-se à captação da actualidade, não sabem que são agentes da Morte. É a forma com que o nosso tempo assume a Morte. Sob o elemento de denegação daquilo que é profundamente vivo, de que o Fotógrafo é de algum modo o profissional. Porque a Fotografia, historicamente, deve ter alguma relação com a «crise de morte», que começa na segunda metade do século XIX; ..." 

Pinacoteca Pessoal 61


Parente menor desta rubrica, embora incluída e prevista no propósito do poste inicial (13/1/2011), a Escultura tem aparecido pouco na Pinacoteca Pessoal.
Hoje, dou lugar, aqui, a Henri Gaudier-Brzeska (1891-1915) que teve vida muito breve (morreu nas trincheiras da I Grande Guerra), mas influência notória nos seus pares.
A sua escultura emblemática, denominada "Cabeça hierática de Ezra Pound" (1914), pertence ao acervo da Royal Academy of Art (Londres) e é talvez a sua obra mais conhecida. O "Pássaro engolindo um peixe" guarda-se na Tate. O francês Henri Gaudier-Brzeska (que adoptou o último apelido da sua companheira polaca) produziu também algumas telas de que se reproduz um auto-retrato.

Adagiário CLX


Chova água, chovam dias, quem o paga é o Matias; água vá, agua venha, não se vai ao mato, vai-se à lenha.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Apontamento 26: Dois pesos, duas medidas



A imagem representa o dia de "tomada de posse" do novo Parlamento Alemão, com uma falta de organização evidente. Sucede que passou um mês desde que a Senhora Merkel ganhou as eleições com meia dúzia de deputados. Mas, por enquanto, ainda não existe governo, facto insólito que muitos não comentam.
A confraria vencedora, CDU/CSU, tem andado em conversações para uma coligação, já que os anteriores partidários da FDP nem sequer tiveram votos para entrar, de novo, no Parlamento. Ao que parece, e passado um mês de "conversas preliminares", tudo se encaminhará para uma "grande coligação" entre a CDU/CSU e o SPD. E o novo governo, senhores ? Para quando ?
Não obstante o "vazio de governo", os anteriores titulares ministeriais ficam em funções. Sucede, no entanto, que o Senhor Presidente da República Alemã entregou, hoje, as cartas de demissão aos ministros do FDP, sem representação parlamentar (!).
Ora, se um tal atraso na formação de um governo sucedesse num outro país da Europa, que avaliação se faria ? Ineficiência, atraso, incompetência, certamente.
Não me parece que a Senhora Merkel tenha adoptado o modo de viver à italiana, embora goste de passar férias na Itália. É preciso reconhecer que, com tamanha ineficiência, o "Império Germânico" não consegue subjugar os "povos vizinhos", cientes do embuste dos pequenos merceeiros a tentar enganar os clientes com ares de sobranceria.

Post de HMJ

Miscelânea para rematar o dia


Umas vezes, a gente procura, procura, e não encontra. Outras vezes, coisas curiosas vêm ter connosco.
Houve um tempo, na minha juventude, em que procurei saber tudo o que havia para saber sobre Stonehenge e, depois, sobre as esculturas colossais dos Moai, na Ilha de Páscoa. Mas não fiquei particularmente bem esclarecido.
Há dias, soube que o obelisco de 25 metros, da Praça de S. Pedro, no Vaticano, tinha vindo do Egipto para Itália, no tempo de Calígula. E que a lenda dizia que ele continha no seu interior as cinzas de Júlio César; outra história referia que o obelisco teria sido erigido, no Egipto, precisamente no local onde S. Pedro teria sido martirizado e morto...
E, hoje, inesperadamente, tive conhecimento que Picasso pediu muitas vezes a Eluard que desse títulos aos seus quadros. Vieira da Silva fazia o mesmo, mas com René Char.

Não por acaso, The Piano Guys


Os rapazes fizeram o vídeo, tendo por paisagem o estado americano de Utah, onde se situa a sede da NSA. Logo de início, em legenda,  aparecem  os nomes de 2 agentes: Nelson e Schmidt - é evidente que não foram postos inocentemente. Por isso aqui ficam estas variações sobre a música de Vivaldi, para fazer companhia ao Irmanzão, e em sequência natural...

NSA = Gestapo + KGB + paranóia ianque


Na imagem, fica o mau da fita ou o chefe do asilo de alienados marcanos. Amovível, no entanto, por qualquer outro paranóico, em breve, mas que seja um pouco mais discreto, como convém às toupeiras.
A Sra. Merkel, calvinisticamente feminina, queixou-se, discreta. O sr. Hollande protestou, afirmativo e clássico. O sr. Cameron, apoucado, engoliu; mas o Presidente do México, latino, fez uma peixeirada sincera e autêntica. Então não é que os ianques estavam a escutar os seus aliados?! Ao menos, se fosse o Sr. Putin ou a China, ainda vá que não vá...  Entretanto, o sr. Obama, na sua sombra escura, sorriu.
Muito embora o paranóico general Keith (Bryan) Alexander deixe, em 2014, a chefia da NSA (National Security Agency), e seja substituído por um louco mais discreto (como é o desejo do sr. Obama), continuaremos quase todos a ser escutados e registados pelos americanos, e traduzidos pelos mórmons poliglotas, para ver se somos perigosos.
Já dei algumas pistas (poste de 21/9/13) para identificar os coscuvilheiros ianques. Aqui vão mais algumas:
- Colorado, Colorado Springs, via adelphia . net IP Adress 69. 171. 224 ou 69. 171. 229, ainda 69. 171. 248;
- Simi Valley (California) IP Adress 199. 30. 20.
E ainda ficam várias em carteira, para uma próxima oportunidade.
(Já sei que, hoje, o Arpose vai ter imensas visitas. Sobretudo, da NSA.)

Regionalismos transmontanos (11)


Derradeiros regionalismos de palavras começadas por A, escolhidos da obra "Dicionário de Transmontanismos", de Adamir Dias e Manuela Tender, que temos vindo a seguir:

1. Atrapar - agarrar. Concluir, acabar. Ultrapassar.
2. Atrecido - encolher-se de frio.
3. Atrombar - comer e beber sofregamente.
4. Augado - o que sente crescer água na boca por lhe apetecer algum alimento. Desejoso. O m. q. aguado.
5. Ausio - o m. q. ousio. Audácia.
6. Azucrinar - o m. q. zucrinar, atordoar, entontecer. Importunar, azoinar.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Thomas Arne / Emma Kirkby


Trafalgar e Turner


Passa, hoje, mais um aniversário sobre a Batalha naval de Trafalgar, ocorrida a 21 de Outubro de 1805, e que sublinha a supremacia da marinha britânica, na Europa. Comandada por Horatio Nelson (1758-1805), que morreu na batalha, a armada inglesa venceu as frotas napoleónica e espanhola, ambas sob o comando do francês Villeneuve.
O sucesso desencadeou, na Inglaterra, uma onda de optimismo patriótico, a que William Turner (1775-1851) não ficou indiferente. Sobre o tema da Batalha de Trafalgar pintou, pelo menos, três telas, onde a contaminação das cores, mais tarde intensificada nas marinhas, não é ainda notória.
Em imagem, duas das obras de Turner: o aceso da batalha e o regresso do navio-almirante "Victory", após a batalha naval.

domingo, 20 de outubro de 2013

Comic Relief (76)


Citações CLVI


A virtude não iria muito longe se a vaidade não lhe fizesse companhia.

François de La Rochefoucauld (1613-1680).

2 ou 3 coisas que eu soube sobre Woody Allen


1. Que os seus heróis de cinema são: Ingmar Bergman, Groucho Marx e Bob Hope.
2. Que o título inicial do filme Annie Hall teria sido "Anhedonia", palavra criada pelo psiquiatra francês Théodule-Armand Ribot para significar "a inabilidade para sentir prazer nas acções que normalmente são agradáveis, e o proporcionam".
3. Que, quando criticaram Woody Allen por ele, nos seus filmes passados em Nova Iorque, nunca incluir personagens afro-americanos, ele ter respondido: "Eu não conheço suficientemente bem a experiência negra, para poder escrever sobre ela, com autenticidade."

O poder avassalador da imagem e da música, sobre a palavra


É um facto que começamos a ver muito antes de aprendermos a ler. E também é verdade que a memória das imagens, embora de natureza mais fragmentária e desordenada, é mais "fácil" do que a fixação memoriada de textos, e até frases.
Mas quantos de nós, ao ouvir falar de "Il Gattopardo" (O Leopardo), antes de pensarmos em Tomas de Lampedusa, lembramos Visconti, Nino Rota, Burt Lancaster, Claudia Cardinale. Mesmo que tenhamos lido, com intenso agrado, a obra-prima do escritor italiano. E a memória sobreleva, indiscutivelmente também, da "Morte em Veneza", o Adagietto de Mahler ou expressões de Dirk Bogarde, em prejuízo das palavras da novela de Thomas Mann.
E, até por cá, o célebre "Ninguém!", do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett - para quem viu o velho filme português - poderá ficar sombreado pela imagem luminosa de Maria Dulce, muito jovem, ou pelo avultado corpo e voz de João Villaret.

A par e passo 62


Um Francês que escreve encontra no nosso (idioma) recursos e lacunas, facilidades e sobretudo rigores que se vão fazer sentir mais ou menos nitidamente na sua obra. A nossa língua opõe-se muitas vezes a uma expressão imediata do pensamento, e obriga-nos a uma elaboração penosa, sem dúvida, e mais íntima das nossas intenções e impulsos que não é necessária noutras nações. Mas as construções que daí resultam, que não podem ser levadas a bom termo senão através de um conjunto de condições antagónicas, e que exigem tanto da ciência, da lucidez e da vontade persistente como da invenção, dão muitas vezes a impressão de um acordo admirável entre a vida e a permanência, a luz e a matéria, a «forma» e o «fundo».

Paul Varéry, in Regards sur le Monde actuel (pg. 216).

sábado, 19 de outubro de 2013

Alan Hovhaness (1911-2000)


Brincar com o gás


Se por cá, na periferia portuguesa, mal se ouve falar no gás de xisto, nos Estados Unidos e no resto da Europa, ele é objecto de debates acalorados. Para não falar da sua exploração desenfreada nos States, onde a sua quantidade no consumo de gás natural tem já um percentagem de cerca de 20%.
Acontece que a sua extracção hidráulica provoca danos irremediáveis nos solos e poluição intensa nas águas subterrâneas; e há também cientistas que alertam para a possibilidade de intensificação de terramotos.
O Governo francês, avisadamente e apoiado no seu Conselho Constitucional, legislou no sentido da sua proibição mas, em sentido contrário, a Hungria, a Inglaterra, a Alemanha, a Dinamarca, a Polónia e a Roménia, pelo menos, prosseguem os seus projectos de exploração. A coberto (quem diria?) da permissiva orientação do inefável Parlamento Europeu que apenas obriga, celestialmente, a um mero "estudo de impacto ambiental", numa sua vaga directiva...

O ovo da serpente


Repare-se no cuidado de quem dá e no carinho de quem recebe.

Catorze versos de Nemésio


Soneto Coimbrão

Levantou-se o clamor das prostitutas
(Não o digo por arte decadente),
Verdadeiro clamor que, de repente,
Acorda o eco em maré alta às grutas.

Lá se chamaram mutuamente frutas
Do pomar, e outros nomes. Comovente!
No Terreiro da Péla ainda se sente
O picante sabor destas disputas.

E, entretanto que a noite refluiu
Outra vez ao silêncio começado
E de novo as janelas entanguiu,

As perdidas mulheres cantam o fado.
Eu penso nestas coisas, debruçado
Sobre as águas poéticas do rio.

Vitorino Nemésio (1901-1978), in Versos de Coimbra.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Em sequência musical adequada


Em relação com o poste sobre John Le Carré, a música de Sol Kaplan (1919-1990), que acompanhava o filme "The Spy who came in from the Cold" (O Espião que veio do frio), realizado, em 1965, por Martin Ritt, e baseado no romance homónimo do Escritor inglês.

Recomendado : quarenta e três - John Le Carré


A propósito da recente saída do último livro de John Le Carré (1931), o "Obs" (nº 2554, de 17/10/13) fez-lhe um oportuna entrevista, na sua casa da Cornualha.
O Escritor aborda, com objectividade e crueza, a política e situação mundial, traçando retratos realistas e impiedosos de alguns políticos (Blair, Bush, Arafat...), mas não só, embora a literatura não seja o prato de resistência.
Altamente recomendável, esta entrevista de 7 páginas, para quem leia o francês e goste da obra de John Le Carré. Não dará, com certeza, o tempo por mal empregue.

Assobiar para o lado


Sempre achei uma suprema hipocrisia, a denúncia acrisolada do trabalho infantil, na primeira página dos jornais ou no prime time televisivo e, ao mesmo tempo, a apologia descarada, em desfiles de moda, de modelos infantis. E, que me lembre ou tenha conhecimento, nunca vi esta ambivalência ética desmascarada.
Nem o facto de, em muitos casos, serem os próprios pais dos menores a incentivarem esta prática, aproveitando-se, descaradamente, dos benefícios. Para não falar do que se passa com as telenovelas... A própria lei, como tantas vezes, é ambígua: se condena um dos casos, absolve ou esquece o segundo, assobiando para o lado.
Não será, por acaso, a mesma coisa?

Amanhecendo


Amanhece à Turner, com pequenas diferenças de tonalidades, por entre o laranja e os azúis: claro e cinzento. Há pequenas linhas brancas que também podem ser de algum avião esquecido, que passou. Mas vão-se desfazendo em espuma aérea. E as águas do Tejo vão lisas e calmas, num prateado pálido com leve neblina.
No telhado em frente, uma pomba fulva veio inspeccionar e ver nascer o Sol. No vão triangular, por entre as casas, um veleiro magnífico, de 5 mastros nus, entra soberano pelo rio, deslizando elegante pelas águas.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Estes revisores de jornais...


De História, sou apenas um interessado amador ignorante e, por isso, confesso que fiquei extremamente baralhado ao ler, no jornal Expresso (suplemento Atual) de 5 de Outubro, uma entrevista a um reputado historiador, catedrático mas também romancista de horas vagas, sobre a controversa figura do Infante D. Henrique. Vou citar (sic):
"...Em 1522 começa (D. Henrique) a enviar homens para tentarem passar o Bojador.";
e, na página seguinte da Atual, aparece:
"O infante só recebe Sagres em 1493, nove anos depois de Gil Eanes ter passado o Bojador."
Vou ter de consultar alguma das Cronologias de Fernando de Castro Brandão para desfazer o nó da minha dúvida. Em História, sempre gostei da claridade dos textos. 
Malditos revisores!

Franz Schubert / Sviatoslav Richter

À boca de um tempo feio


A Primavera, em grande parte do Brasil, deve estar visível e pujante, porque os migrantes jacarandás, no Rossio, já começaram a florir, timidamente, por entre a filigrana verde da intensa ramaria - não perderam a memória, que os faz florir por duas vezes, todos os anos, em Portugal. Abençoados sejam, na sua alegria!
Foi esta a minha visão mais feliz do dia, hoje. Que o resto é usura, sujeição, mediocridade, secura de pele e alma, pequenez, horizontes cerrados. Um "tempo feo", de que falava, a propósito de um quadro seu, o pintor espanhol Manolo Millares.

Roland Barthes, sobre Fotografia


"...Ora, desde que eu me sinto olhado pela objectiva, tudo se altera: eu constituo-me na perspectiva de «posar», fabrico-me instantaneamente noutro corpo, crio uma metamorfose antecipando-me à imagem. Esta transformação é activa: eu sinto que a Fotografia recria o meu corpo ou que o mortifica a seu prazer (apólogo deste poder mortífero: alguns homens da Comuna pagaram com a vida a sua complacência em posar sobre as barricadas: vencidos, eles foram identificados pelos polícias de Thiers e quase todos fusilados). ..."

Roland Barthes (1915-1980), in La chambre claire (pg. 25). 

Filatelia LXXVI


É o que se poderia chamar: uma multiplicação régia... 22 isabéis, é obra! O que vale é que há mais dois selos, para quebrar a monotonia. Recebi, ontem, este insólito envelope franqueado, da Inglaterra.