quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Favoritos LXXII : Albert Schweitzer

Quase um epigrama, de Eugenio Montale


O doutor Schweitzer

lançava peixes vivos a pelicanos famintos.
São vida também os peixes, observou alguém, embora
de hierarquia inferior.

A que hierarquia pertencemos nós
e para que mandíbulas...? E aqui se calou o teólogo
e enxugou o suor, pelo seu rosto.

Citações CXXIV : Bismark


A política não é uma ciência exacta.

Otto Bismark (1815-1898).

Retro (23) : ansiando pela Primavera


Aqui fica o conjunto saia e casaco feminino que a Chanel propunha para a Primavera de 1961. Apesar de ter mais de 50 anos, a elegância do traço e corte mantém a sua estética de modernidade.

para MR, recém-chegada.

Flaubertiana (última) : letras U, V, W e X


Seguem-se as últimas palavras, por mim seleccionadas, do livro "Dicionário das Ideias Feitas", de Gustave Flaubert. Aqui vão:

Urso - chama-se, em geral, Martim. Citar o caso do inválido que, vendo um relógio caido no fosso do urso, desceu e acabou por ser devorado.
Usum (ad) - Locução latina que fica bem na frase: "Ad usum Delphini". Deve empregar-se ao falar-se de uma mulher chamada Delfina.
Vaidoso - sempre precedido de extremamente.
Vinhos - assunto de conversa entre homens. O melhor é o "bordeaux", dado que os médicos o receitam. Quanto pior ele for, mais natural ele é.
Wagner - troçar ao ouvir o nome dele, e dizer umas gracinhas sobre a música do futuro.
Xadrez (jogo de) - imagem da táctica militar. Todos os grandes capitães eram bons a jogar xadrez. Demasiado sério para ser jogo, demasiado fútil para ciência.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Brahms / Gilels

3 notas breves


1. Sinto-me lisongeado e o caso não é para menos: o Arpose recebeu, hoje de manhã, uma visita directamente do gabinete do Ministro das Finanças (juro que é verdade!), às 10h58. E sabem onde é que foi parar? Ao poste "Mercearias Finas 27 : a Favada", de 6/3/2011. Aquilo deve ser de algum assessor esfaimado...
2. Mas pouco depois, senti-me recompensado: o pintassilgo, meu vizinho, veio visitar-me, na varanda a leste. Eu estava imóvel, à mesa, e ele, decerto por causa da cortina, não me viu. Pousou na roseira, quase 5 minutos, a debicar uma ameixa seca, que a HMJ lá espetou, carinhosamente, e depois voltou para o ninho.
3. Não posso também deixar de referir que, na varanda a sul, temos um raminho de hortênsias albinas. Floresceram prematuramente, porque o sol de Inverno não chega para lhes dar cor. São de um verde muito esbranquiçado e pálido, mas merecem toda nossa simpatia.

Curiosidades 69 : o juiz pintor


Não será caso único, porque a mim também já me aconteceu: no meio de uma reunião, palestra ou conferência entediante, ir fazendo traços e desenhos, a esferográfica, na folha branca que tivesse à minha frente. Dizem que também Álvaro Cunhal, nalgumas sessões parlamentares, o praticava. É possivel que o facto ateste alguma irrequietude de espírito.
Agora, que juizes também o fizessem, e com alguma arte, é que eu desconhecia. Ao que parece, e segundo o TLS (nº 5733), o All Souls College (Oxford) guarda uma colecção interessantíssima de cenas de tribunal, aguareladas. O seu autor, Pierre Cavellat (1901-1995), juiz e francês, era particularmente dotado de sentido estético. E, provavelmente, aborrecia-se, às vezes, com alegações intermináveis e verborreicas, durante os julgamentos. E, para se entreter, ia deixando correr a mão sobre o papel. Depois, aguarelava em casa...

Ilustrações e discordâncias


Penso que um dos perigos maiores que nos podem assaltar, na maturidade, e quando julgamos ter adquirido algumas verdades essenciais e inamovíveis, é constatar, muitas vezes com desagrado e até alguma irritação, que nem todos pensam como nós. E termos dificuldade em perceber, nos outros, o facto de terem chegado a conclusões tão diferentes das nossas - por vezes, até, diametralmente opostas.
Há dias, numa deambulação despreocupada pela net, fiquei profundamente chocado ao ver, num blogue, um poema de um dos meus poetas de referência, com os versos amplamente intersectados (melhor diria: decepados) por quadros célebres, que lhe interrompiam a leitura, num profundo desrespeito pela obra e num barroco e despropositado exibicionismo de cultura (?).
O mesmo acontece, frequentemente, com ilustrações de vídeos, na net. Músicas estimáveis em vídeo são, por vezes, acompanhadas por ininterruptas imagens redundantes, despropositadas e cheias de rodriguinhos bacocos ou paisagens "bonitinhas". Como se a música, em si, não bastasse. E o problema é que, às vezes, não há outra escolha possível... Com alguma melancolia há que concluir que não há só uma verdade.

Da Janela do Aposento 28: Pensar




Como explicação assaz curiosa da imagem acima, verifica-se que o menino preenche uma folha, com exemplos em Castelhano, embora acompanhasse uma notícia sobre os resultados recentes de alunos portugueses em diversas áreas do saber. Para o efeito tanto importa, porque o mal é global e não exclusivamente português, porque falamos, certamente, de uma importação indevida e nociva, designadamente no que respeita ao essencial do ser humano.

Portanto, o acessório da imagem representa, em Português ou Castelhano, o grau zero da mobilidade manual e do aperfeiçoamento do movimento no desenho das letras, pousio indispensável ao desenvolvimento das ideias, ou seja, o domínio do exercício mecânico sobre a esfera do pensar.

Contrariando muitas almas caridosas, sempre rejeitei e não aceito, testes de importação, “à americana”, “de cruzinhas”, de “escolhas múltiplas” e quejandos, sobretudo no ensino da língua e da literatura, pela matricial incapacidade de representar o universo infinito de combinação da Língua e, sobretudo, de pretender abarcar um universo tão vasto como a Literatura. Confesso que a importação pobre de “testes de escolha múltipla” facilita, e muito, o trabalho de correcção, aumenta a estatística, sobretudo daqueles que, maioritariamente, apostam no factor “sorte” do ensino, em detrimento dos alunos que, com esforço, acham que vale a pena pensar antes de escrever.

E, à semelhança dos indigentes “exames de condução”, os testes “de escolha múltipla” costumam premiar os “sortudos” e penalizar os que pensam pela sua própria cabeça. Convenhamos que a Semântica e, sobretudo, a Pragmática não se esgotam numa simples frase fora do seu contexto. Desgraçados os que pensam pela sua cabeça e que, perante o beco sem saída do exemplo, frequentemente redutor, não podem escrever nem justificar as opções de um universo muito maior.

Assim, chegamos ao essencial do “post”. Ou seja, o lento abastardar das Ciências Humanas e, sobretudo, da Língua e da Literatura a um exercício contabilístico imediato, um “deve” e “haver” que, de todo, o pensamento, suportado por qualquer língua, rejeita.

Post de HMJ, recordando o Pensar, de Vergílio Ferreira.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Política e corrupção - uma análise fundamentada


O previsível e desastroso resultado das recentes eleições italianas, de que uma das maiorias possíveis pode verificar-se (cerca de 55%) pela junção dos votos que beneficiaram um palhaço e um comediante, mostra até que ponto o desnorte e a irresponsabilidade, ajudadas pelo populismo, reinam na Europa.
Esta dispersão de votos, semelhante à que se verificou na Grécia, poderá vir a acontecer, também, em Portugal, nas próximas eleições legislativas, se não houver bom senso. Por essa razão é que deixo aqui este vídeo, com uma lúcida intervenção de Paulo Morais. Embora longo (32 minutos), vale a pena ouvi-lo.

os melhores agradecimentos a CS.

John Dowland / Jordi Savall


Idiotismos 13


Algo documentada, desde há muito, em obras literárias, a expressão ir bugiar ou mandar bugiar significa mandar à fava ou, mais literalmente, mandar pentear macacos, como refere Alexandre de Carvalho Costa, na sua obra já aqui referida. No fundo, uma forma mais extremada de dizer: Não me aborreças!
Parece que a expressão terá tido origem em Bougie (Argélia), onde os espanhóis, quando lá aportaram teriam visto muitos macacos. Foi esta terra do norte de África que Teixeira Gomes escolheu para exílio, e lá acabou por morrer.
Mas, e voltando ao princípio, a expressão já aparece na Ulysipo, de Jorge Ferreira de Vasconcelos:
 Vai, vai Joana bugiar,
não andes no alparvado.
E Gil Vicente usou-a também, no Auto de Mofina Mendes:
Senhora não monta mais
semear milho nos rios.
Que queremos por sinais
meter coisas divinais
na cabeça dos bugios.
Porque, classicamente, bugio é uma classe de macacos. Muito embora já tenha visto o vocábulo utilizado para significar rochedo, no meio das águas. E no feminino (bugia) valha, também, por pequena vela de cera, ou griseta.
Antenor Nascentes lembra que o étimo do nosso bugiar talvez possa ter origem comum ao do verbo italiano bugiare - dizer mentiras. Custa-me a aceitar. Mas seja como for, a expressão está ligada a macacos e, sobre isso, não há dúvidas.
A propósito, já agora, pergunta-se porque chamaremos nós, Forte do Bugio, à pequena fortaleza, com farol, na Barra do Tejo? Com planos mandados fazer, ainda no reinado de D. Sebastião, mas só edificada no tempo de Filipe I, foi instalada na ilhota de Cabeça Seca. Inicialmente denominado por Forte de S. Lourenço, o povo crismou-o, para sempre, como Forte do Bugio (do macaco?).

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Comic Relief (64)


Aqui fica a recém-formada orquestra que irá acompanhar, por todo o país, os coros nacionais a interpretar de José Afonso: "Grândola, vila morena".

abraço grato a AVP.

Pinacoteca Pessoal 46 : 2 escolhas do Museu Ludwig (Colónia)


Houve tempo em que não resistia a comprar livros com reproduções das obras dos meus pintores preferidos: Dürer, Botticelli, Van Gogh, Renoir, Modigliani, Dufy, Soutine... Mas cheguei à conclusão que, uma vez lido, raramente voltava a pegar no livro; a não ser, uma vez ou outra, para relembrar algum quadro específico, por algum motivo muito especial.
Por isso, comecei a evitar estas tentações, até porque os livros de arte, devido às reproduções a cores são, normalmente, caros. Contento-me, nos últimos tempos, em fazer uma escolha criteriosa de postais, das obras que mais gostei de ver, num museu ou numa exposição. Da última visita que fiz ao Museu Ludwig, de Colónia, trouxe 3 postais, de que deixo dois na imagem deste poste.
O quadro "Menina Espanhola" (1927), de Georg Grosz (1893-1959), e "Duas Raparigas a vestirem-se" pintado, em 1908, por Oskar Kokoschka (1886-1980). Esta última obra faz-me lembrar, talvez pelo tema, alguns quadros de Paula Rego.

John Surman : "At dusk"


O beco


Entre a recente imolação pelo fogo do desempregado francês de Nantes (que, se calhar, nunca foi ao Louvre, mas precisava de comer e alimentar a família), o diálogo fecundo, mas inconclusivo (no último "Obs."), entre Cohn-Bendit e Stéphane Hessel, e, finalmente, o lúcido artigo de Pacheco Pereira, sábado no "Público", o triângulo isósceles fecha-se irremediavelmente num beco. Sem saída, senão por recuo.
O mercenarismo de muitos políticos corruptos, o corporativismo extremo dos partidos políticos e o desespero dos cidadãos conscientes - eis as razões deste cul-de-sac espiritual que dá razões ao mais profundo dos pessimismos ontológicos actuais. E que poderá dar justificação a movimentos anárquicos agressivos, singulares ou colectivos, mas também permite, em terreno inculto, o temível desenvolvimento do populismo mais grosseiro (Berlusconi, por exemplo).
Se a imolação pelo fogo já pode ser, recentemente, global (Tunísia/ França), se 2 gerações (Hessel/ Cohn-Bendit), quase se irmanam, no sentimento de claustrofobia, como poderá o comum da terra manter a serenidade e clareza de espírito, para não começar a bombardear as paredes do beco, para não ter de recuar ainda mais?! Ou para ouvir, com paciência cristã, as perlengas do professor da TVI que, arengando de gravata, prega, como um clássico cura de aldeia, a resignação, em nome do reino dos céus, como recompensa, ao fim de tudo?

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Brian Patten (1946)


Viajando entre lugares

Deixando nada por nenhures, além;
quando páras pelo fim da tarde
o céu estará em ruinas,

quando ouves os pássaros tardios
cantando com suas gargantas já cansadas
pensas como é bom que eles

sabendo que tu vens, se mantenham
acordados até tarde para te saudar
tu que viajas por entre lugares

quando o crepúsculo final
se insinua pelos bosques, quando
nada especialmente já te importa.

Interlúdio 27


A escandalosa impunidade


Nem sempre o humor nos salva da cólera a que estas águas mansas portuguesas e a idade nos condenam.
O cão vai-se espaçando nos latidos, como o sinal de alarme, na intensidade, com o tempo passando. Do "Grândola, vila morena", que vai, pouco a pouco, perdendo peso mediático, ao funambulista cibernauta e ligeiro que, em 5 segundos, lê (?) 12 postes de assentada, vai a medida da responsabilidade humana do nosso tempo. Do juiz refastelado na poltrona, com vinte processos em atraso, até ao médico que, com um piparote cirúrgico mata uma mosca incómoda ou um doente terminal, vai uma diferença ética.
Será tudo uma questão relativa, que os nossos generais, em ameno convívio recente e prandial, poderiam resolver, de vez, com duas granadas defensivas, em local próprio, porque os coelhos já não devem ser muitos e as tocas já não chegam para os abrigar... Nem seria preciso ressuscitar as FP-25.
(Não, não é um convite à subversão, é apenas o meu direito à indignação total!)
As cantigas já foram uma arma - hoje, já não bastam, contra a impunidade cívica de quem nos governa. E as palavras (aliás, como estas) são meros alfinetes de dama, para lutar contra este pântano apodrecido, tão igual aos anos salazarentos onde, pelo menos, a corrupção era mínima. E punida, normalmente.

Os delírios desarrumados do ciberespaço


Não atingindo, embora, os delírios geniais e imaginativos de Gómez de la Serna, alguns cibernautas esforçam-se bem (ou mal?). Ora atente-se nas últimas search words que nos chegaram ao Blogue:
- "youtube violetta capitulo de sexta frederico vai embora disney"
- "decoração era uma vez de coruja outonal"
- "jogos de tom jerry rodin hoo"
- "mostrar missa banda rainha com frei sebastião"
Perante estes desarranjos e desmandos mentais, o senhor um pouco tolo, da imagem, até parece bem arranjado e composto...

Mais 3 delirantes greguerías de Don Ramón


1. O último orgulho da galinha depenada é parecer um cisne por onde se alonga o colo com a morte.
2. A couve-flor é um cérebro vegetal que nós comemos.
3. Há um momento em que o astrónomo debaixo do grande telescópio, se converte no micróbio do microscópio da lua que vem observá-lo.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

G. F. Händel : do Concerto "O cuco e o rouxinol"


VA - Restos de colecção


Os trabalhos alheios, feitos com qualidade e gosto, assim como os objectos nobres, constituem, frequentemente, estímulos irresistíveis. Com efeito, de um "post" de maria a., recente seguidora do ARPOSE, no seu blogue: Arte, Livros e Velharias, sobre a louça Silvinha, da Vista Alegre, nasceu a ideia de "geminar". Apresentamos, pois, os restos de colecção, a começar pela "Silvinha", porque tanto gosto do nome como das peças.

1


2


3


4


5


6


Algumas notas finais. Exceptuando a "Silvinha" que tem o carimbo VA antigo (1881-1921), as restantes peças devem ter sido produzidas entre 1922 e 1947. Gosto, particularmente, dos pratos apresentados com o número 6. Dos serviços de chá, prefiro a "Silvinha" por achar o segundo, com o número 2, um pouco foleiro nos desenhos. As duas chávenas de café, com o número 3 nas imagens, foram compradas recentemente, mesmo sem pires, sobretudo pela forma um pouco invulgar. 

Post de HMJ, dedicado a maria a., pela inspiração

René Char (1907-1988)


Que Ele Viva

Este país não é senão uma intenção de espírito, um anti-túmulo.

No meu país, as tenras evidências da primavera e os pássaros
desprotegidos são preferidos aos fins incertos.

A verdade espera pela aurora ao lado de uma tocha.
Desprezamos o vidro das janelas.
Que interessa apenas ao curioso.

No meu país não se questiona um homem comovido.

Não há sombras maléficas sobre a nau submersa.

Dizer apenas bom dia, não se faz no meu país.

Só se empresta aquilo que regressa acrescido.

Há folhas, muitas folhas nas árvores do meu país. Mas
os ramos são livres para darem, ou não, frutos.

Não acreditamos na boa fé do vencedor.

No meu país, agradecemos.


Nota pessoal: este poema de Char, que leio, ou interpreto como se fora um hino de afecto à  França, foi traduzido por mim, para integrar a "Escolha Pessoal VI", no blogue amigo Prosimetron, em Novembro de 2009. Pese embora o imperfeito trabalho que é uma tradução, achei que era altura de incluir esta versão, também, no arquivo do Arpose. Aqui fica portanto, com as imperfeições humanas que possa ter, por minha culpa.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Notas de Leitura V: "Propos", de Alain



“Jeannot era um artilheiro sem medo, que conhecia até ao mais pequeno detalhe tudo o que se pode aprender das formas, das cores e dos ruídos. Quase iletrado; lia penosamente e só aprendeu a escrever nos finais do ano catorze. Cabouqueiro de profissão e orgulhoso como são quase sempre os cavalheiros da pá, que não vivem propriamente para bajular; e ainda para mais respondão, não se esquecendo nunca de reclamar os seus direitos. Todavia, nos momentos difíceis, silencioso, calmo e pronto, adivinhando a ordem e enxotando o medo apenas pela sua presença. De resto sabendo fazer de tudo na perfeição; tirava do buraco de um canhão cheio de água lenços brancos como neve que dir-se-iam passados a ferro. Como impedido venceu a escravatura militar em tempo de paz por força desse género de talento. Mas, em tempo de guerra, Jeannot jogava um jogo mais nobre. Tive muitas vezes a oportunidade de observar aquela fronte (…) arquitectural (…); o género de fronte que não suporta o desprezo (…).
Perito experiente do terreno, das baterias inimigas e do tiro, conhecendo as boas e as más horas como os bons e os maus caminhos, Jeannot era o mais seguro companheiro para as surtidas de infantaria que são a prova do artilheiro. Nessas missões o homem de engenho está necessariamente submetido ao homem de decisão e de expediente, sejam quais forem as respectivas patentes. O nosso Jeannot tinha essa decisão e essa economia de movimentos que pareciam afastar o perigo e que na realidade afastavam os perigos imaginários. Daí a amizade de um dia para o outro e uma real igualdade entre o artilheiro de rústico falar e o chefe timorato. Em consequência Jeannot recebia uma cruz, regava-se com água-de-colónia, engraxava as botas e olhava o chefe com um orgulho desafiador (…).Mas (…), passado o perigo, a glória não durava muito e Jeannot voltava aos trabalhos de rotina e sentia novamente o peso da administração militar que esmaga os talentos, sobrepõe obrigações a obrigações e acolhe duramente aqueles que reclamam. Nem todos os dias há a oportunidade de ir buscar uma sopa atravessando mil perigos, de resgatar um ferido de um qualquer abrigo bombardeado ou de apagar um fogo junto ao paiol das munições. Após semanas de perseguições, de meditação e de resmungo consigo mesmo, o artilheiro Jeannot (…) pedia a passagem para a infantaria.
Era colocar a vida em jogo, mas era também a oportunidade de ficar por cima, de ser escutado; aquela cabeça orgulhosa não exigia menos.
Por muito desprezado que seja o homem de tropa nesse regime de despotismo oriental, esse homem pode sempre afrontar os seus superiores desde que seja capaz de ultrapassar o medo; e é por essa via que aqueles de quem se diz serem fracas cabeças acabam muitas vezes como heróis. Diz-se frequentemente que um chefe deve o seu poder ao facto de nunca se mostrar inferior àquele em quem manda; eu, por mim, anotei um outro efeito do poder despótico, que nunca tinha previsto, o facto de o subordinado orgulhoso querer ser pelo menos superior nalguma coisa e de quase sempre o conseguir (…).
Entretanto ia observando Jeannot que continuava a travar as suas batalhas e alcançava a vitória unicamente pela sua coragem. Mas onde estava o inimigo que era preciso vencer? Muito próximo, era o seu comandante. Jeannot combatia pela liberdade como diziam os jornais, mas não como eles a entendiam”.


Não é de Jeannot o olhar que desde o retrato nos olha com a certeza do mal- estar do corpo, atolado na água e na lama de uma trincheira da frente da guerra de catorze, e de que de tudo o resto sobra a dúvida. Do homem, do olhar, do porquê do gesto e do quase desafio do sorriso ficam hoje, como porventura ficaram ontem, as razões por saber, mesmo que o próprio as dissesse de viva voz, pois é sempre grande o abismo que separa aquilo que, de facto, um homem é e sente e aquilo que a sua circunstância permite traduzir, e de que talvez só o corpo guarde concreta memória.
Mas é a partir de pedaços da realidade como este que os propos de Alain alcançam a nitidez de um positivismo quase solar, de quem persegue o lado incómodo e difícil de pensar, não o pensamento “subalterno” e “politécnico” mas o pensamento encharcado nos fios esconsos da vida, em conflito aberto com as suficiências do lugar-comum e que vai iluminando o proprium do Homem: a dignidade, o sofrimento e o saber de ofício, distinguindo sempre a sujeição de quem obedece do acto livre de quem respeita.
Iniciada em 1906 no jornal La Dépêche de Rouen et  Normandie, a escrita dos  propos nasce e constitui-se, como refere o próprio Alain, (pseudónimo de Émile Chartier, 1858-1951), no espaço livre de duas páginas que são a sua medida, uma medida em que o texto se desdobra e se afeiçoa como o dos poetas perante a medida de estrofe. Por um lado, a obrigação diária de escrever, numa espécie de corrida a galope que terminava dia a dia por mais um texto fechado (ritmo que perdurou até à guerra de 1914, em que Alain participou como artilheiro), por outro a regra jornalística que impunha ao escrito os constrangimentos próprios do verso acabaram por ditar a forma fragmentária a que chamou propos, na qual, por assim dizer, é o sentido do texto e não o seu pretexto, isto é, a pedagogia do acto de pensar sobre as coisas e não a coisa pensada aquilo que verdadeiramente se oferece ao leitor, no espaço contido de uma espécie de poema sumário em que, sob o chapéu de uma metáfora ampla – algures a meio caminho entre a dispersão egocêntrica de Montaigne e a síntese provocatória de Valéry – filosofia e literatura se confundem.
Alinhadas como que “seguindo o curso do tempo e os movimentos do pensamento”, as cerca de seis centenas de textos que constituem esta edição dos Propos (La Pléiade, 1956), da responsabilidade de Maurice Savin, com prefácio de André Maurois (e que cobre o período compreendido entre 1906 e 1936) assemelham-se hoje a uma escolha de posts de persistente blog onde se recortam a acção e o perfil do cidadão e professor Émile Chartier e do filósofo Alain. E embora tratando-se de pouco mais de 10% da totalidade dos propos (que serão ao todo cerca de 5000), mesmo assim a escolha de M. Savin permite-nos desfrutar do essencial de um pensamento em acto, de uma espécie de estaleiro da razão, de conversa continuada, sempre transbordando da certeza para a dúvida, em estado de deliberada imperfeição.
E é no decurso dessa conversa com o leitor que os propos se transformam no lugar onde se interrogam as aparências, se duvida das evidências, se massacram os lugares-comuns e se reconduz a filosofia ao valor primeiro de uma ética, em que Descartes e Pascal são, de algum modo, as traves-mestras de um olhar perscrutador sobre os múltiplos recantos do corpo e da vida, e em que os ecos de Montaigne e de Balzac se reconhecem, quer pela forma como o pretexto se expande num exercício aditivo e continuado de pensar, quer pelo modo como, à maneira de Balzac, o detalhe se vai revelando como reflexo do todo e a palavra reencontra no “bom juízo (que) é a alma da moral”, para lá dos fatalismos razoáveis, o homem livre, senhor do sentido e da ordem das coisas e sempre capaz de dizer não, como mais tarde sublinhará Camus.


Pode, portanto, dizer-se que é pelo radical sentido da liberdade e do exercício da razão que na obra de Alain, nomeadamente nos seus propos, se desenha e se revela o fio da sua modernidade. Considerados no seu alinhamento cronológico, que são afinal os propos senão fragmentos de uma indagação incessante sobre as múltiplas facetas da realidade humana, sempre refractária, na sua aparência caótica, a toda a ideia de sistema e em que ao luzir da certeza se segue a sombra da dúvida, que não é outra coisa senão a responsabilidade de ser livre e de perguntar, como essa dúvida fosse a forma irónica de libertar a realidade dos atavios do mistério e do conforto das ideias feitas.
“Quando uma criança grita e não quer ser consolada, a ama faz muitas vezes engenhosas suposições acerca daquele jovem carácter e daquilo que lhe agrada e lhe desagrada; chegando mesmo a convocar a hereditariedade em seu socorro, reconhecendo até o pai naquele filho; esses ensaios de psicologia prolongam-se até que a ama descobre no alfinete a causa real de tudo (…).
Os males do ano de catorze vieram, conforme creio, do facto de os homens importantes terem sido surpreendidos; e daí terem tido medo. Quando um homem tem medo, a cólera não anda longe; a irritação segue-se à excitação. Não é uma coisa agradável um homem ser bruscamente privado do seu ócio e do seu repouso; muitas vezes modifica-se e modifica-se muito. Como um homem acordado de repente; acorda demais. Mas não digais nunca que os homens são maus; não digais nunca que eles têm um tal carácter. Procurai o alfinete.”
Embora contendo, como todos os escritos, as marcas de um tempo extinto, que são os nódulos, quiçá salutares, do próprio envelhecimento, reconhece-se nos propos o apelo de uma irreverência bem medida, sobretudo na maneira como, colocando-se do lado oposto do panfleto, prossegue uma indagação sempre próxima das coisas e longe da abstracção fácil dos sistemas, revelando no seu lastro de realismo, sempre rente ao corpo e por vezes surpreendendo-se com o formato da própria humanidade, a necessidade de obedecer, para que “a regra (que) é a verdade do homem” subsista, mas que ao mesmo tempo celebra com apurada ironia, o direito à resistência surda e ao irrespeito militante pela vã glória de mandar.
Filosofia para não filósofos, ou talvez não; para ler com o vagar e a tenacidade de um pescador de águas profundas.         

Post de H. N.  

Nota: O Arpose acolhe honrosamente, e com satisfação amiga, mais uma leitura atenta de H. N. - que muito lhe agradecemos. 

Da Janela do Aposento 27: Há 70 anos



Passam, hoje, 70 anos sobre a execução de Sophie Scholl (1921-1943), na imagem com o irmão e outro membro do grupo conhecido por "Weisse Rose" e de que já falei, no ano passado, a propósito do dia 20 de Julho de 1944.
A revista SPIEGEL recorda a efeméride, lembrando, e bem, embora pelos piores motivos, também este facínora que deu pelo nome de Roland Freisler.


Responsável não apenas pela execução dos jovens estudantes do grupo acima mencionado, acabou por morrer, em Berlim a 3.2.1945, quando uma bomba dos Aliados atingiu o Volksgerichtshof, i.e., o Supremo para os crimes políticos. Morreu com um processo debaixo do braço, o que salvou a vida a mais um resistente, a ser julgado em data próxima do bombardeamento.
É caso para acreditar que Deus escreve direito por linhas tortas.

Post de HMJ, recordando alguns nascidos no mesmo ano de 1921

J. S. Bach : 2 minuetes do livrinho de música de Anna M. Bach


A par e passo 30


LXI
Cólera Ultrapassada

No meio de um monólogo terrível, interno, toda a justiça pessoal se levanta, o olho fixo, a cólera e o despeito por tudo, à vista da vingança sobre si mesmo (que é como imolar o mundo inteiro), - através destas respostas assustadoras, destas ordens de tirano, destas palavras de juiz culpado, destas imagens excessivas - um súbito despertar acontece, que surpreende a cegueira mecânica, que escuta estas enormidades horríficas, estes clamores e estes dramas, e que faz troça e assobia ao furor, - e que remete para... a natureza, para as bestas, para as tempestades...
Há portanto uma espécie de movimento súbito para sair de este eu que acaba de ser, e para um eu capaz do meu interior apaixonado, - que vê o que viu, e julga o que julgou.
Este movimento criado no ser e que já não o possui mais, pelos choques, as surpresas, os flagrantes delitos da estupidez por que se toma, pelo eco da sua voz, - este movimento criador duma consciência mais elevada, é no entanto em si mesmo um reflexo.

Paul Valéry, in Tel Quel II (pg. 203).

Nota pessoal: apesar de a pontuação muito própria de Valéry, por vezes, criar algumas perplexidades no leitor (e eu tenho-a mantido, escrupulosamente), este texto sobre as nossas tempestades interiores, e sequentes bonanças, parece-me de uma agudeza de pensamento dificilmente ultrapassável.

Capas com gosto


Não faço na menor ideia por onde anda o gosto estético da grande maioria dos actuais capistas gráficos portugueses. Se calhar, nunca o tiverem. Mas, se o têm, deve andar pelas ruas da amargura, do mau gosto chineleiro. É evidente que Sebastião Rodrigues e Victor Palla eram únicos. Mas mesmo outros capistas, mais modestos em génio, nos anos 60 e 70, faziam capas estimáveis que não envergonhavam ninguém. Hoje copia-se (mal) o que há (de pior) lá fora. E, se calhar, ficam todos contentes, editoras inclusive, com o (péssimo) trabalho feito. Primam a foleirice e o quitche mais parolo e provinciano, sobretudo.
O bom gosto, antigamente, era quase obrigatório nas capas de obras de autores conhecidos, até porque eles se empenhavam, também, nisso. Lá fora, como em Portugal. Das muito sóbrias capas dos romances de Aquilino, da Bertrand, às inovadoras e mais exuberantes capas modernas de Cardoso Pires. Mas todas primavam pelo predomínio de um nítido equilíbrio estético, que acompanhava os conteúdos de qualidade. Lá fora, a preocupação era idêntica, mesmo que a edição fosse modesta  e popular, como se pode ver pelas capas inglesas e americanas (anos 50/60), que deixo em imagem, a encimar este poste.
Porque, hoje em dia, contemplar as montras das livrarias portuguesas (Bertrand, ao Chiado, inclusive), quase me dá vontade de vomitar. Esteticamente - quero eu dizer.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Memória (77) : Nina Simone (1933-2003)

Passam, hoje, 80 anos sobre o nascimento de Nina Simone.

Da importância dos nomes em literatura


Para a grande maioria dos escritores, não são inteiramente indiferentes os nomes que usam, para os protagonistas, nas suas obras de ficção - às vezes, são maduramente pensados, por várias razões. Fixáveis, sonantes, sugestivos.
Henry James costumava coleccionar nomes que apareciam em "The Times", para depois os vir a utilizar nos seus romances. Simenon, quando se hospedava em hotéis estrangeiros, frequentemente folheava as listas telefónicas dessas cidades, anotando nomes que lhe parecessem memoráveis, para futuras obras de ficção. T. S. Eliot era mais original e criativo, ideando nomes exóticos e inexistentes, até aí: Prufrock, Madame Sosotris, Mr. Apollinax...
Por cá, Eça era sucinto, normalmente: "Os Maias", "O Primo Basílio". Quanto a Camilo, atente-se nestes dois títulos de romances:
- "Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado"
- "O carrasco de Víctor Hugo José Alves",
que, apesar de longos, são nomes facilmente fixáveis. E eu quero crer que Camilo não os usou por mero acaso.

Citações CXXIII


A ironia e a inteligência são irmãs de sangue.

Jean Paul (1763-1825)

A arca mexicana de Robert Capa


Não terá, provavelmente, o valor da arca de Pessoa, mas esta arca ou grande mala, descoberta há pouco tempo, no México, contém cerca 2.800 fotografias sobre a Guerra Civil Espanhola. Grande parte delas, foram tiradas por Robert Capa (1913-1954), mas também as há de Gerda Taro e Chim (Chimin). E são um documento importante dessa época.
A 27 de Fevereiro de 2013, em Paris, no Museu de Arte e da História do Judaismo, será inaugurada um exposição, com a parte documental mais significativa do acervo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Léo Ferré : "La Solitude"

Divagações 40


Por vezes, o acaso vem ter connosco. Para bem ou para mal.
Porque há vidas que se infernizam nos últimos anos, pela cupidez dos outros, à volta (nem será preciso citar Sartre), e por jogos de poder, tantas vezes, sinistros. Por onde as máscaras caem de vez, definitivamente. Mas há outros infernos a que somos poupados pela morte, pelo seu silêncio apagado - que não ouve, mais. Pelo caminho há sempre amizades que se perdem, filhos que naufragam, impossíveis afectos destroçados.
Mas foi com alegria discreta que sopesei e folheei, ao fim da tarde, o primeiro livro da reedição da obra de Eugénio de Andrade, com prefácio de Gastão Cruz, editado pela Assírio e Alvim. E o dia cumpriu-se, bem.

O Recanto do Chá



Embora já tenha passado a hora mais apropriada para o chá, deixo esta imagem para aguçar o apetite para mais logo, ao jantar.

Post de HMJ, dedicado ao benfeitor

Retro (22)


Agora, as coisas são mais desbragadas (ou objectivas?) e simples. O que se perdeu em romantismo e subtileza complicada, ganhou-se em tempo, certamente. E, depois, os lenços de papel não dão para estes requebros e torcidos, que hoje nos parecem anacrónicos.

Flaubertiana : letra T


Na sequência alfabética do "Dicionário de Ideias Feitas" de Flaubert, chegou a vez das palavras começadas pela letra T:

Tabelião - mais lisongeiro do que notário.
Tamancos - um ricaço que teve princípios difíceis veio sempre de tamancos para Paris.
Tempo - eterno assunto de conversa. Causa universal das doenças. Queixar-se constantemente dele.
Testa - alta e calva, sinal de génio ou sobranceria.
Touro - pai do vitelo. O boi não é mais do que tio.
Transpiração (dos pés) - sinal de saúde.
Travesseiro - nunca usar, porque faz as pessoas marrecas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Missa Crioula


A Missa Crioula, do argentino Ariel Ramírez (1921-2010), embora mais tardia (1963/4), é o contraponto, do continente Sul-americano, à Missa Luba africana. Integra folclore, ritmos e instrumentos musicais andinos, na sua execução. Aqui fica um excerto do Sanctus, numa interpretação de José Carreras.

Mercearias Finas 69 : globalização, cavalos e batatas


Às vezes esquecemos que a primeira globalização, no séc. XVI sobretudo, contribuiu grandemente para o enriquecimento cultural, gastronómico e até para uma maior biodiversidade dos continentes. Por termos visto muitos filmes sobre o faroeste americano, temos dificuldade, por vezes, em lembrarmo-nos que os primeiros cavalos que pisaram o solo americano, foram levados da Europa, por Fernando Cortez.
Mas também recebemos em troca. Por exemplo a batata, que veio dos Andes e acabou por substituir as castanhas, no acompanhamento das refeições, em muitos países europeus. No entanto - e era aqui que eu queria chegar, para o dizer -, nunca, até há 15/20 anos atrás, me chegou ao prato batata de tão fraca qualidade como agora. Na maior parte dos casos, vem de França, para as grandes superfícies. Mesmo que a dividam em batata para cozer e batata para fritar e assar. Farinhentas, descoradas, insípidas - uma lástima...
Longe vai o tempo em que elas começavam a aparecer, primeiro, da Lourinhã e do Montijo, depois iam amadurecendo nas Beiras, até chegarem, finalmente, de Trás-os-Montes - bons tempos de produção nacional, porque a batata era, quase sempre, boa. Agora, só através de deslocações às terras saloias e por ofertas amigas, vindas de Constância ou da Lourinhã, temos o gosto de as saborear no seu sabor inteiro.
Claro que a França, com a parte de leão que recebe da PAC para a sua agricultura, pode bem vender o rebotalho da produção aos Santos e aos Belmiros, ao preço da uva mijona, para eles encherem os bolsos, depois, e as grandes superfícies de toneladas de péssima batata, para consumo do pagode luso.
E vem tudo isto a propósito porque, no domingo passado, dois magníficos linguados grelhados iam-se perdendo no meio de reles batatas cozidas, francesas... que acabamos por deixar no prato, quase todas.

Filatelia LX : as diferentes perspectivas e os erros


As disciplinas humanas têm regras diferentes e valores, por vezes, antagónicos. Se a contrafacção de um incunábulo deprecia muitíssimo o valor desse livro antigo, já, em filatelia, há selos falsos que, algumas vezes, valem mais do que os originais. Compreende-se: as falsificações tiveram uma tiragem muito inferior ao selo autêntico e oficial (é o caso do "Pera de Satanaz", falsificação relativamente bem feita do selo de D. Luís, de 1882-83, que vale cerca de 20 vezes mais do que o original).
Mas também a imperfeição, muitas vezes, tem valor. Um erro de impressão valoriza, quase sempre, um selo, do ponto de vista filatélico, porque o torna raro, por ter sido um acontecimento fortuito que não mais se repetiu. Em imagem, para melhor se perceber, damos um exemplo do selo Ceres, taxa de 1 centavo, castanho (nº 221), da emissão de 1917-20. Nalguns, poucos exemplares, veio a "colar-se", durante a impressão, um obstáculo que se traduziu por uma incómoda vírgula (ou cedilha) branca, ao lado esquerdo do C. (de centavos). Este erro, não muito frequente, valoriza o selo imperfeito para o dobro do valor do selo perfeito.

Movimento contínuo


A frequência continuada de obras de arte, poesia e, até, música, pode permitir-nos vislumbrar as cumplicidades, ligações, os movimentos progressivos, as "famílias" que se prolongam, sequencialmente, e onde, com pequenas variantes, avançam, mais ou menos ousadamente, os seus representantes, ao longo dos tempos. Normalmente, é um percurso cronológico a que assistimos. Mas também existe a sincronia, de que o caso mais flagrante - para mim, ignorante amador - é o dos pintores pré-rafaelitas ingleses que, num mimetismo de tiques, motivos e cores, dificilmente conseguimos distinguir uns dos outros.
Do uso das luzes, por Picasso, até aos néons de José de Guimarães, da luminosa sensualidade dos nus de Renoir, até às adolescentes de Pavia; da carne retalhada ou apodrecida, nas pinceladas violentas de Francis Bacon podemos, facilmente, chegar até à sombra tutelar de Chaim Soutine. Se não quisermos ir mais atrás. Teria existido Cesário, se antes não houvesse um Gomes Leal? Só que, por vezes, o discípulo vai muito mais longe e ultrapassa a lição do mestre. 
Parecem-me raras as gerações espontâneas, em Arte. Raros, os artistas "sem família". E, se os encontramos ou julgamos ter descoberto, é porque não procurámos bastante. Ou não conhecemos o suficiente.

W. A. Mozart


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Soneto de Jazente, em louvor do seu cão "Diamante"



Se parto, tu Diamante, descontente
Ficas aguardando o solitário assento;
Mas bem que triste, com robusto alento
Vibras contra o ladrão o agudo dente.

Se volto, tu me esperas diligente,
Mostrando-me um fiel contentamento;
Pois logo com festivo movimento
És em casa o primeiro que me sente.

Se caço, com gentil velocidade
De um salto abocas a ligeira presa,
E a trazes com leal docilidade.

Oh como eu fora descansado à mesa!
Se pudesse encontrar tanta lealdade
No António, no José, e na Teresa.

Abade de Jazente (1719-1789), in Poesias.

Adagiário CXXII


A quem tem mulher formosa, castelo na fronteira e vinha na carreira, nunca lhe falta canseira.

Bons livros em leilão


Mais uma almoeda de Inverno, com livros, alguns raros, e manuscritos, a cargo da Livraria Olisipo, de José Vicente, que se vai realizar no Palácio da Independência, às Portas de Santo Antão, a 25 e 26/2/2012. Muitas obras essenciais do séc. XX português, livros importantes sobre a história da Imprensa (portuguesa e francesa, principalmente), enfim, um leilão para todos os gostos, mas nem sempre para todas as bolsas...
Pessoalmente, destacaria: a primeira edição dos "Comentários..." (1557), de Afonso de Albuquerque, raríssima (com estimativa de venda entre 2.000 e 3.500,00 euros), "Adolescente" (1942), obra renegada por Eugénio de Andrade (com perspectiva prevista de venda de 80/150,00 euros), "Os Lusíadas" (1613), de Camões (2.000/4.000,00), "As Obras..." (1614) de Sá de Miranda (entre 1.200/2.000,00 euros), a primeira edição de "Perseguição" (1942), de Jorge de Sena, com uma estimativa de venda entre 80,00 e 150,00 euros. A maioria das encadernações das obras são de grande qualidade e beleza.

Brian Crain : "Northern Lights"


Regionalismos minhotos (32)


Ainda com palavras iniciadas por R, mais seis regionalismos respigados da obra de M. Boaventura, "Vocabulário Minhoto II". Em sequência:

1. Rechelo (ou rachelo) - anho pequeno. (Conhecia "reichelo" e, exactamente, para significar: carne dura - o contrário do que a explicação de M. Boaventura deixa supor...)
2. Rechinar - ressecar. (Costumo usar para definir as sardinhas, quando grelhadas.)
3. Redulhões - andar em redulhões, andar atarefado. (Conheço "rodilhões", com o mesmo significado.)
4. Refentar - arrefecer pouco a pouco.
5. Refogado - estrugido.
6. Regateiras de Abril - chuveiros que caem ao mesmo tempo que o sol brilha.

Nota pessoal: a propósito do regionalismo 6. lembro-me, na infância, de ouvir a expressão - "A chover e a dar Sol, nosso Senhor com um guarda-sol".

domingo, 17 de fevereiro de 2013

"My kingdom for a horse!"


Na sequência do poste anterior, referente à descoberta das ossadas de Ricardo III, aqui ficam as cenas finais do filme "Ricardo III" (1955), e da batalha de Bosworth, baseado na peça homónima de Shakespeare, protagonizado por Laurence Olivier.

Necrofilias ?


Aqui há uns anos, provocou alguma celeuma a decisão sobre a abertura do túmulo e devassa, para investigação científica (?), sobre o corpo do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques. A acção foi recusada, in extremis, pelo ministério da Cultura. A ter acontecido, ter-se-ia esclarecido a ideia que o Rei era de altura gigantesca, para a sua época, pois a lenda refere que teria mais de 1 metro e 80.
Os despojos de pessoas célebres sempre provocaram curiosidade humana. No entanto, para mim, as inúmeras múmias que se exibem no Museu Britânico provocam-me sentimentos desencontrados, onde entra uma certa repulsa pelo desrespeito e aberração pela exposição desses corpos, que deveriam merecer o silêncio e o repouso na sepultura de um cemitério, e não a exibição num museu. Mas os exemplos abundam: Tutankhamon, o corpo embalsamado de Lenine, o sangue de S. Gennaro (Nápoles), que se liquefaz de tempos a tempos, o corpo mumificado e escuro de S. Torcato, em redoma de vidro, na zona de Guimarães... Parece que a necrofilia paga bons dividendos.
Calhou agora a vez do corpo de Ricardo III (1452-1485), rei de Inglaterra, que andava desaparecido e foi descoberto por um grupo de arqueólogos, muito recentemente. As ossadas comprovaram a morte violenta que sofrera na batalha de Bosworth e a escoliose da coluna de que muitos autores - Shakespeare, nomeadamente - se fizeram eco. Teria valido a pena? Apetece-me concluir com o título de uma das peças do dramaturgo inglês: Much ado about nothing...

Comic Relief (63) : Equidistância



Idiotismos 12


Na sua Crónica de D. Fernando, Fernão Lopes refere: "...Convidou el-rei D. Fernando o conde e todos os capitães que com ele vinham, e a rainha, a condessa e as donas e donzelas da sua companhia; e este convite foi nos paços[...]onde foi feita sala mui honradamente..." Este fazer sala é por isso de origem antiga, datando pelo menos do séc. XV. O significado, a princípio, seria talvez mais amplo, porque, hoje, vale por: entreter o tempo, eventualmente, conversando. Podendo alargar-se a receber alguém com delicadeza. Ou ainda, entrar num estabelecimento e lá ficar, sem fazer despesa.
Analisada a frio, no entanto, esta expressão não deixa de ser estranha, como se as pessoas a quem é aplicada, fossem como que paredes ou cenário de um aposento. E mais não digo, porque não sei.

Favoritos LXXI : Lucas Cranach, o Velho


Dedicado amigo de Lutero, Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), que lhe pintou vários retratos, pôs a sua arte ao serviço das novas ideias religiosas e, por isso, a sua obra reparte-se entre os temas laicos e os da nova fé. É também um retratista notável da alta burguesia alemã, a que também pertencia.
Esta "Vénus Negra" (provavelmente assim intitulada pelo escuro do fundo) terá sido pintada em 1532 e integra o acervo do Museu do Hermitage. Escapou à vaga de vendas, um pouco indiscriminada, que os governos bolcheviques, para restaurar as suas debilitadas finanças, fizeram para o Ocidente. Como por exemplo a "Diana" de Houdon, adquirida por Catarina, a Grande, e vendida, discretamente, a Calouste Gulbenkian, em 1930. Que, hoje, integra o Museu Gulbenkian, de Lisboa.
Pouco conhecida, a obra em imagem, de Cranach, tem, para mim, a qualidade de uma obra-prima.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Schubert / Brendel


Bibliofilia 76 : Eugénio de Andrade


Não é uma edição rara, mas é uma edição cuidada e bonita, com oito ilustrações de Mario Sarroco, a cores. Custava, inicialmente, 4.000 liras. Impressa e saída em Itália (Ed. Abete, Roma), em 1975, sob orientação de Carlo Vittorio Cattaneo, creio que não haverá, em Portugal, muitos exemplares à venda, em alfarrabistas, ou na mão de particulares. É uma antologia bilingue de parte da obra poética de Eugénio de Andrade (1923-2005), com um estudo introdutório e versão dos poemas da autoria de C. V. Cattaneo.
O meu exemplar foi comprado, em meados dos anos 90, por Esc. 500$00. A última vez que vi o livro à venda (Studio Bibliografico Marino Alai) pediam por ele 44,00 euros. E estava em muito bom estado, tal como o meu exemplar, em imagem de capa.