sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Discos pedidos

Tem faltado música ao Arpose, ultimamente. O bicho-computador ambulante e emprestado, que tem andado comigo, näo me consegue dar música, nem sequer ouvi-la do Youtube. Mas, hoje, com os 3 graus matinais de Koblenz, a nevar já na Turíngia, e antes da última "transumancia" para Colónia, daqui a pouco, eu optaria, em contraste, por colocar:
- René Aubry - Scirocco (2 minutos e 24 segundos); ou
- Astor Piazzolla Oblivion (3 minutos e 52 segundos).
Que seria, prometidamente, o último poste teutónico que eu poria, na Alemanha. Os meus Amigos e Seguidores podem experimentar, entretanto, se assim desejarem. Bom fim-de-semana!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Durar

Nunca saberemos se é a última vez. Que vemos ou falamos. Que estamos à beira de um amigo, e lhe falamos; que vemos uma paisagem ou passamos num lugar. Acabam, inesperadamente, muitas coisas numa vida. Seja ela longa, embora.
Custa-me a acreditar que, para o ano, se completa meio século, sobre a primeira vez que visitei a Alemanha.
O Reno vai cheio e as árvores despidas pelo Outono. Pequenas aldeias se namoram de margem a margem - que a distancia é, às vezes, bem pequena.
Vejo Brühl, Bona, Remagen, que passam rápidas na janela do comboio que nos leva a Koblenz. Voltarei a vê-las, neste aconchego grato da memória?

Em jeito de aditamento ao Adagiário de Dezembro

A Natureza ensina-nos, pelo menos, uma coisa importante: o verde (Esperança?) resiste sempre. Apesar do frio ou  da neve,  ou mesmo do Inverno mais intenso. E ,aqui (ainda na Alemanha), ele cerca-nos de tal modo, que é impossível esquecê-lo. Na sua fidelidade persistente, resistindo.

Adagiário CVI : Dezembro (3)

1. Entre o menino e Tomé (21), 3 dias é.
2. Se queres a desgraça de Portugal, dá-lhe 3 cheias antes do Natal.
3. Pelo Natal, bico de pardal.
4. Depois de o menino nascer, tudo vai crescer.

Nota: vai o Adagiário antecipado porque, provavelmente, já só em Portugal darei notícias. Até...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Passado e Presente

Sá de Miranda tem um verso muito sugestivo e amplo para definir momentos difíceis e de incerteza psicológica. Vou citá-lo de cor: "Que farei, quando tudo arde?..."
Em Agosto de 1975, era eu ainda jovem, e Portugal estava ao rubro. Num passado recente, congressistas do CDS, reunidos no Porto, tinham sido cercados e ameaçados por grupos de populares enraivecidos; os deputados, também foram sitiados no Parlamento, em Lisboa, e impedidos de sair, durante várias horas; as sedes do PCP, de Rio Maior para Norte, iam sendo incendiadas, os militantes agredidos, os arquivos, deitados das janelas para a rua. 
Ora, quando me falam dos "brandos costumes" dos portugueses, eu lembro-me disto.
Nesse Agosto, duplamente quente, eu fui a Londres, por alguns dias. Só se podiam levar para o estrangeiro apenas Esc. 20.000$00 - que era pouco -, mas eu senti um alívio enorme, nos dias que lá passei. Deixei de me questionar, quotidianamente: "- Que vai ser de Portugal?" E, embora no regresso, tudo voltasse à mesma pressão explosiva, em Novembro, as coisas foram-se modificando.
Agora que vim à Alemanha, embora por razões que nada tem de deleitosas, a incerteza, insegurança e destino, que parece macabro, atenuou-se muito. Foi, outra vez, um alívio. Deixar de ouvir as pitonisas agoirentas, a mediocridade de muitos políticos, o determinismo da desgraça anunciada pelos media. Parei, por algum tempo de pensar: " - Que vai ser do Futuro?"
Embora o meu optimismo seja pequeno, eu diria que as coisas que parecem definitivas, duram apenas o seu tempo. A eternidade serve causas mais nobres.

Flaubertiana : letra H

Cronologicamente pelo alfabeto, aqui seguem as ideias feitas de Gustave Flaubert, numa escolha pessoal de palavras iniciadas por H. Seguem:
Hálito - te-lo forte dá um ar distinto. Evitar alusoes às moscas e afirmar que o mau hálito é causado pelo estomago.
Haxixe - nao confundir com um fruto chamado maxixe, que nao provoca qualquer espécie de extase.
Hermafrodita - excita curiosidades mórbidas. Procurar ver.
Hipótese - frequentemente arriscada, sempre corajosa.
Histeria - confundi-la com ninfomania.
Hotéis - bons, só na Suica.
Hugo (Victor) - cometeu, na verdade, um grande erro ao dedicar-se à política.
Humidade - causa de todas as doencas.

Os gatos de R. J.

De gatos, e na intimidade, só me lembro da "Violeta", da minha estimada tia Ermelinda. Gata sibilina e traidora, que me deixou 3 arranhadelas soezes, na infancia. E muito poucas saudades, apenas memórias doridas e sangrentas.
Mas estes pequenos felinos germanicos sao de outra estirpe, mais aristocrática, domada e subtil. Todos negros, excepto o Thom (Rodrigues, para mim) que é mosqueado e um pouco doente: bronquite, estomago delicado - velhice, enfim.
De pelo alinhado, naturalmente para trás ("Nunca se deve afagá-los a contra-pelo" - diz-me R. J.), macios e silenciosos no andar, filósofos sonolentos quando imóveis, devem sonhar muitas vezes com a burrice humana. Porque pragmáticos e soberanos, nada cedem do que lhes é essencial. E raramente miam, só por necessidade de algum mimo, em zonas próprias e corporais sem acesso autónomo. Ou algum petisco que desejem, felinamente.

Perto da casa de Rubens

Parou de chover. A Graanmarkt está quase deserta de gente, cruzada embora, na diagonal, pelo voo e grasnar de um corvo enorme, quando saio do Bourla, para vir fumar, cá fora. De artistas e actores, o café mantém uma atmosfera boémia e informal de anos sessenta, com prateleiras espelhadas que multiplicam as garrafas de gin, whisky, Porto, conhaque e licores.
Quando volto para dentro, na mesa do canto, duas balzaquianas elegantes estao a ser servidas de Möet & Chandon, pela empregada solícita e jovem. Mas eu nunca virei a saber quem é este Lawrens que marcou a mesa ao lado da nossa, para as 17h45, porque tenho de sair antes. Sei que virá acompanhado, porque a reserva é para 2. Como reza o pequeno bilhete sobre a mesa.
Antes que feche, quero ir à De Slegte, onde há 3 anos comprei uma abada de Simenon, usados e por pouco dinheiro. E valeu a pena, mais uma vez. Trago de lá "Le Fils", que me faltava. E que já comecei a ler, depois de  um Cordon Bleu muito saboroso, em casa Amiga, acompanhado por um aconchegado Tempranillo da Ribera del Duero (2011). Porque também se come muitíssimo bem, na Bélgica: é só lembrar as bem fornidas mulheres de Rubens...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Camilo, para manter o pé e lembrar a língua...

Fui lendo e lá acabei "O Carrasco de Vítor Hugo José Alves", refundido de "A Infanta Capelista", que Camilo Castelo Branco mandou destruir, talvez a pedido de D. Pedro II, do Brasil. Porque o romance inicial beliscava, e muito, a casa de Braganca. Nem será das melhores obras de Camilo, mas consegue ler-se bem. E aqui vai uma interessante tirada camiliana:
"...Amor espasmódico, amor macabro, amor epiléptico. Há destas tres castas de amor na zona luminosa da mulher peregrina. O espasmódico é o contemplativo; o macabro é o que salta e se estorce nas vascas voluptuosas do deleite; o epiléptico é o que escabuja debaixo da garra da perfídia. Há uma quarta espécie de amor, do qual ninguém faz livros porque é a mais analfabeta: é o amor de mercearia, o amor sebáceo e rúbido como o buril antigo o imortalizou nas cascatas, e no coracao de nossas avós. Encontra-se esta relíquia dos tempos honestos no terceiro andar das famílias cujos chefes labutaram nas suas tendas. Está sentado na travesseirinha do leito nupcial, brincando com os folhos e borlas azúis da almofada. Resfolega, por bochechas de cravelina, frouxos de riso à esposa, quando ela, depois da ceia, desaperta os nastros da ceroula conjugal, enquanto ele encarapuca o marido no barrete de dormir. Nao temos que entender com algum desses amores nesta crónica, exceptuando o primeiro, o espasmódico. Nem Stendhal criou adjectivo tanto ao ponto. Deixemo-nos de cristalizacoes. Espasmos, macabrismos e epilepsias - é o que há. Mais nada.

Nota: que os meus bons Amigos e Seguidores se vao habituando a por o til, a cedilha e o acento circunflexo, onde eu, infelizmente daqui, os nao consigo por...

Diário presente, em pretérito perfeito


Pelas quatro e meia da tarde, em Aachen, já o Natal se ilumina. Cheira a gengibre, cardamomo e amendoa torrada. À volta das velhas termas, convenhamos: cheira mal - ácido sulfúrico?...
E, nas lojas inebriantes e tentadoras, acotovelam-se os fregueses gulosos. Há perfumes estranhos de frescura lavada e brisa ligeira. 
Para evitar pagar a licenca, um jovem é, em si mesmo, vendedor e máquina ambulante. E cozinha, com estufa aquecida ao peito, onde prepara e vai vendendo aos transeuntes, cachorros quentes a 2,20 euros.
No interior triangular do "Am Kamin" (À Lareira), a gordíssima empregada loura (que sabe tudo da Cidade), paulatinamente enquanto conversa, na pausa do trabalho, mergulha pequenos nacos de carne da travessa do "goulash", numa tijela de chocolate quente, líquido - para, depois, os levar à boca, com prazer.
Seis da tarde, melhor dizendo, seis da noite - que ela já caíu cerrada, e sem chuva, felizmente.

A par e passo 18


Tudo o que dizem de nós é falso. Pouco mais falso do que aquilo que nós próprios pensamos. E que é um outro tipo de falso.
...
A maior parte dos nossos aborrecimentos sao nossa causa original.
...
Os grandes elogios devem ser silenciosos.
...
Os amigos de longa antiguidade acabam por se classificar na ordem da delicadeza do seu tracto.

Paul Valéry, in Tel Quel II.

Regressar, pouco a pouco


Reaprender o acender das luzes, quando se muda de casa, é essencial, como um cego adivinhar os interruptores da alma, em lugares diversos.
Finou-se, entretanto, a rosa de 36 pétalas, que pensei que durasse até Dezembro. Mas, no jardim de R. J., em Merkenich, o azevinho já tem pequenas bagas brancas e amarelas. Pelo Natal, vermelhas, como em Portugal.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Novembro, 22

Por entre o canto rouco das gralhas, corvos e pegas que, por aqui, as pombas pouco aparecem, as folhas de Outono atapetam as ruas húmidas e frias. Castanhos matizados, verdes desbotados, brancos sujos e amarelos predominantes. Mas há um pequeno Sol tímido que iluminará as cerimónias, daqui a pouco. E, depois, em Antuérpia, devem aparecer as gaivotas, que o Reno, por agora, nem sequer trouxe às margens.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Singularidades humanas

A crónica de Francois Reynaert (1960), no último "Obs." (15/11/12) aborda, com bastante crueza, o caso acontecido com Rachilda Dati, ministra da Justica, no último governo de Sarkozy. Dati, a meio do exercício ministerial, deu à luz uma menina, embora fosse solteira. Recusou, no entanto, revelar o nome do pai, na altura. Especulou-se muito, vindo a público que seria Aznar, outras personalidades conhecidas, ou até mesmo Sarkozy... E assim ficou a incógnita até há muito pouco tempo.
Ora, recentemente, deu entrada em Tribunal um processo para reconhecimento de paternidade, por parte de Rachilda Dati, contra Dominique Desseigne, dono do grupo Barrière, multimilionário, e grande amigo de Nicolas Sarkozy. E o motivo é simples e único: dinheiro. O mistério deixou de o ser. Na crónica, que dedica ao caso, Reynaert inicia o texto assim: "Singularidade dos negócios humanos: de altas reflexoes saem por vezes acontecimentos que descem ao mais baixo. ..." Polémico, no mínimo.

A rosa


Os pássaros pareciam desaustinados, pelo vento forte e gelado, em voos descordenados e caóticos, paralelamente acompanhados, da terra, pelos gatos que pareciam perseguir-lhes as sombras fugidias, em saltos felinos, pelos canteiros desvastados e húmidos de orvalho.
Mas a rosa senhoril, enorme e perfeita, quase rubra, presidia imperturbável no centro da mesa interior, na sua jarra alta e, apesar de colhida há já dois dias, mantinha a compostura e beleza inicial. Pus-me a contar as pétalas: e eram 6, cada vez menores, em 6 círculos concentricos, que se iam fechando sobre os estames interiores, pouco visíveis. Eram, portanto, 36 pétalas, numa simetria que, embora natural, tinha qualquer coisa de divino, na sua totalidade rigorosa.
Sabia como as rosas naturais eram "difíceis em Dezembro". Talvez esta, por ser perfeita, possa chegar até lá. E eu ainda estarei cá para ver, se ela resiste, na sua grande beleza.  

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pinacoteca Pessoal 40 : Pieter Brueghel, o Velho

Aqui perto, em Wuppertal, anunciam uma mostra de Rubens, que pouco me tenta. Entre flamengos, escolheria Brueghel (1525?-1569), de que gosto bastante mais. Como deste quadro insólito, de cerca de 1550, intitulado: "Extraíndo a pedra da Loucura, ou uma Cirurgia à Cabeca". Que pertence ao Museu Sandelin.

Gatos, gansos e panteísmo

Vai o Arpose, cada vez mais, panteísta, porque é difícil ir resistindo ao verde já raro, que tenta subsistir por entre o amarelo predominante e o castanho escuro do que vai morrendo, o ocre da terra e o azul palidíssimo do céu. Porque, depois, além das pegas gordas que pousam no cocuruto dos abetos, sempre verdes, há os gatos, quase sempre presentes. Uns atrevidos (Thom, a quem eu chamo: Rodrigues), outros ronronando sonolentos e misteriosos; e, ainda, a blandiciosa "Molly" que, noutra mais tenra idade, terá sido agressiva e valquiriana, q.b..
Mas tenho, absolutamente, que lembrar os gansos. As suas penas macias e pródigas, que nos aquecem, de noite, em édredons levíssimos,  quase celestiais no aconchego e quentura. E, imperdoável seria, eu esquecer, no dia de chegada, a tenríssima perna de ganso, assada, com a inevitável couve roxa saborosa. Troquei as "Knödel" (uma espécie de pequenas bolas de puré), pelas batatas fritas, que prefiro. E, na dúvida, dos vinhos, atirei-me a uma "kölsch", bem fresca, que o restaurante era "cosy", e estava aquecido, como devia.

O til e o "c" cedilhado

A falta, no teclado germanico, do til ibérico e do c cedilhado, bem como o acento circunflexo, provoca um constrangimento difícil de explicar. Há que procurar alternativas, nem sempre fáceis. Hoje, por exemplo, eu queria falar de "ouricos"-cacheiros, mas tenho que falar de porcos-espinhos...
Temos 7 cá em casa, porque o último chegou ontem, magro, impreparado para hibernar, mas bonito e tímido. Foi a R. J. que o descobriu, perdido no jardim, e o trouxe para dentro, para o calor da casa. Fez-se-lhe mais uma casota cartonada, junto aos outros: e lá se iniciou a engorda: abundantes amendoins, cenouras, pedacinhos de abóbora para poder aguentar o hibernar de 3 ou 4 meses. Só de noite, eles fazem alguns ruídos estranhos a roer o amendoim. No resto do tempo ficam tranquilos e discretos.
Em finais de Dezembro, iniciam o sono profundo que durará até Abril. Mas é preciso que estejam bem gordos, para aguentar o hibernar, porque podem morrer durante o sono, por debilidade. A cuidadosa R., entretanto, vai-os pesando, diariamente.
Pela Primavera, voltam à sua vida, cheia de perigos: automobilistas distraídos, que os atropelam, predadores diversos - animais e humanos. Por agora, no aconchego da casa aquecida, devem sonhar com cenouras e frutos secos, beatificamente...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

À beira Reno

O moleskine trazia já algumas notas escritas e antigas, quando o abri. Nomes estranhos, vagos lembretes, que tentei decifrar. Aniversários, mas que ocupavam apenas os primeiros 4 meses de um ano distante. Havia  uma nota com a data de um último dia de trabalho: 3 de Julho. E, também, uma partida (6 de Agosto), bem como um regresso: 31 de Dezembro. Algumas frases de Goethe, Camus e Grass ocupavam toda uma página escrita, numa letra apressada.
Mas havia imensas páginas vazias, no moleskine, e, por isso, eu comecei a escrever:
Na aldeia, a noite cai mais cedo e, a luz amarela à Fassbinder, que ilumina o átrio da casa defronte, parece acompanhar o canto rouco, sinistro, dos corvos que se ouvem ao longe...

domingo, 18 de novembro de 2012

Até...


A partir de hoje, o Arpose fará uma suspensão temporária e involuntária, da sua actividade diária. Mas voltaremos.
Até!...

sábado, 17 de novembro de 2012

Franz Liszt / Daniel Barenboim / Pierre Boulez


Para quem me conhece ou acompanha, com alguma atenção, aqui no Arpose, é sabido que Franz Liszt é um dos meus compositores preferidos.
Eu sei também que, o tempo médio de visita ao Blogue, raramente excede os 3 minutos. Por isso escolho, quase sempre, peças ou videos musicais curtos, para não abusar da paciência e tempo dos meus Amigos e Seguidores.
Mas como vou estar ausente, durante algum tempo, deixo-Vos, com uma obra mais demorada de Liszt, e de que gosto muito - o Concerto nº 2, para piano e orquestra. Além disso, nele confluem três Mestres: Baremboim, Boulez e Franz Liszt.

Nota: há pequenas deficiências neste vídeo (por volta dos 19 minutos, da audição), de que peço desculpa, mas são, com paciência, ultrapassáveis. 
Em tempo (26/8/13), pelos serviços do Youtube terem sugado a versão original desta obra de Liszt, fui obrigado a colocar uma versão mais curta, pelos mesmos interpretes, com cerca de 13 minutos, apenas.

Em tempo (6/1/2016): depois de outra "sugadela" soez do danado do Youtube, aqui vai mais uma (3ª) transcrição do Concerto nº 2 de Franz Liszt.

Ironias que o tempo traz

Por mero acaso, abri na página 141, o V e último volume do "Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa" (Horizonte/ Confluência, 1980), de António de Morais Silva, para confirmar o significado de uma palavra menos usual. Ora, ao final da página, inesperadamente, deparei-me com o seguinte:
"Sida, s. f. Bot. Género da família das malváceas, // Zool. Género de crustáceos cladóceros. // S. m. Nome dado nas escrituras bramânicas a seres possuidores de uma pureza perfeita e de poderes sobrenaturais." (sic)

Ficção Científica


A digníssima Administração do Metropolitano de Lisboa (ainda serão 5, os cônsules?), ao que parece, anunciou, com pompa e circunstância que, em 2020, terminarão as obras de beneficiação, nas estações, para facilitar o acesso, a pessoas com reduzida capacidade de mobilidade. Deficientes motores, melhor dizendo. Um homem do povo, espantado, diria: "Andam com o carro à frente dos bois!..."
Entretanto, e cronicamente como de costume, um dos lanços das escadas rolantes, hoje, estava avariado, na estação Baixa-Chiado. Mas, durante a semana, até houve música e uma conferência sobre Cinema, num corredor da Blue Station.
Imagine-se o luxo e a benemerência...

Teimosamente, e sem saída


Eu não conseguiria viver assim: clicando incessantemente, no computador, dia após dia, obsessivamente, as search words - "castanhas assadas" crónica maria judite carvalho. E, inutilmente, vir dar ao Arpose. Eu ia a uma livraria de referência, ia à Fnac, à Biblioteca Nacional. Se fosse crucial, tentava chegar à fala com Urbano Tavares Rodrigues, que ainda está vivo, ou com a filha, Isabel Fraga, poeta estimável, mas abandonava de vez o Google, ou qualquer motor de busca, que eles são sempre marretas e teimosos, e ajudam muito pouco.
Comecei, eu próprio, a ficar incomodado com este alguém obstinado e fechado no seu labirinto, e que procura, no ciberespaço, as castanhas assadas de Maria Judite de Carvalho. O sinal, na " linguagem de ervilhaca" (Camões) do Google, provirá de Ftima/Santarem, mas o cibernauta deve andar desesperado e acaba por vir sempre dar ao Arpose... Que seca, que tormento! Eu mandava tudo às malvas, ou abaixo de Braga e procurava, antes, umas castanhas cozidas, com um cheirinho de erva-doce - que ficam bem boas.

Partir


Há um lado íntimo que já me vem de fora e, talvez por isso, alguma coisa me conforta no partir.
Desta vez, não serei eu a fechar a gaveta e a porta, ficando com uma chave, inútil, entre as mãos. Sem saber a quem a dar, porque é apenas minha. E de mais ninguém.
É possível, no entanto, que seja eu a fechar a mala que levarei comigo. Levarei Simenon e Camilo, para ler - está decidido. Para um vacilar momentâneo, que venha ter comigo, que a velhice é, apenas, um antecipar de despedidas. E ninguém deveria sonhar eternidades fictícias ou fúteis paraísos.
Mas, não o posso evitar, porque as viagens me instalam, agora que passou o gosto da aventura, um desconforto, não só físico, também mental.
Adoço-me à ideia dos amigos que me esperam, e não vou sozinho. Lembro-me dos brancos do Mosela, acidulados, frescos, cordiais. E, também - porque lá irei -, das ruelas estranhas de Antuérpia que nunca percorri em Novembro. E, se não partir feliz, irei decerto conformado, atento e completo. De bem comigo e com os outros. Mesmo que não possa, nunca, perdoar à Morte.

A magia das palavras e os costumes no Barroso


Não será para desprezar o sentido mágico das palavras, onde por vezes se reconhece a origem, mas poucas, a razão. E não será apenas na construção da poesia, mas nos exorcismos, nas imprecações, nos solilóquios da comunicação com os animais ou, simplesmente, nas orações, nos mais íntimos diálogos. A invocação ao divino é uma constante etnográfica ancestral. Em abono, refira-se esta interessante "Oração para rezar após se ter amassado o pão", oriunda da região do Barroso (Trás-os-Montes), e pronunciada quando a farinha de centeio, já amassada para fazer pão, ficava a levedar:

S. Mamede te levede,
S. Vicente te acrescente,
S. João faça bom pão,
O Senhor te cubra de benção
E te ponha virtude
Que eu da minha parte
Fiz o que pude
Pelo poder da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Avé-Maria.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Citações CXV


"...en Art la verité commence, quand on ne comprend plus rien à ce qu'on fait..."
(...em Arte a verdade começa, quando já não se compreende mais nada daquilo que se faz...)

de um músico anónimo, citado por Henri Mattisse, em Jazz. E, em epígrafe, de um quadro de Pedro Chorão (1945), nesta sua recente mostra.

Dmitri Shostakovich (1906-1975) : uma valsa


90 anos


Nascido a 16 de Novembro de 1922 (bem como José Saramago, como o amigo Blogue Prosimetron recordou), José-Augusto França completa, hoje, 90 anos. Crítico e historiador de Arte, a sua faceta de ficcionista é menos conhecida. Por isso aqui deixamos a capa da 2ª edição de "Natureza Morta", com um belo trabalho gráfico de Victor Palla, executado para a Arcádia, em 1961. A obra publicada, inicialmente, em 1949, é um dos poucos romances portugueses, de tom existencialista, tendo por cenário Angola.

Do meu Amigo repentista...


...recebi este soneto sobre os dias que correm, mal governados. Os versos vinham no verso deste postal com um móvel Art Deco, muito interessante. Vão ambos em imagem, com agradecimentos a A. de A. M. .

A grande diferença


Quando vejo, nos jornais, fotografias destes encapuzados (como se fossem assaltantes) juvenis ou mascarados de Guy Fawkes pindéricos e esbranquiçados (ia jurar que 95% deles nem sabem quem foi Guy Fawkes...) a esconder a cobardia da sua identidade, vejo a enorme distância de atitudes entre a geração de 68 e a de 2012. O que as une é, unicamente, o legítimo verdor do lúdico dos anos juvenis e o arrancar pedras da calçada, para atirar à Polícia. Mas, se os de 68 escavavam para atingir "a praia" ou o Mar, os de 2012 cavam por cavar, simplesmente, sem outros objectivos, nem substância ou projectos - e escondem o rosto, com medo...
Daniel Cohn-Bendit é, hoje, deputado europeu pelo grupo dos Verdes, no Parlamento Europeu - continua a defender causas. O que serão estes pequenos guy fawkes mascarados, em 2050?

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

W. A. Mozart : Lacrimosa (Requiem)


À memória de L. W. J. (1919-2012).

Costa-Gravas, a propósito da Europa


Não se esgota a Norte, a riqueza e a alma da Cultura Europeia, no que há de generoso, ético e humanista. Se a ciência, a filosofia e a música privilegiaram o Setentrião, o Sul contribuiu, largamente, com os favores da poesia, do humor e da gastronomia - coisas mais térreas, é certo, mas que, com o sol, ajudam a viver, com um bocadinho mais de felicidade... E despreocupação. Mas desta confluência de Norte e Sul, com muita miscigenação pelo meio (árabe, africana, judaica...), se foi fazendo a Europa da tolerância, naquilo que, ainda hoje ela tem de melhor, e que alguns bárbaros apátridas (porque vendem tudo e se vendem), para seu bem-estar, querem destruir.
E, por isto que disse, eu queria também falar de Costa-Gavras (1933), realizador grego que, para mim, é um dos cineastas vivos que mais admiro. Se eu disser: "Z" (1969), "L'Aveu" (1970), "Missing" (1982), talvez me faça entender. Mas, embora não brinque em serviço, e leve as coisas a sério, sobretudo nos filmes que faz, também Costa-Gavras é capaz de um humor europeu e acutilante, no melhor sentido da palavra. Dois exemplos, que verti para português, bastarão:
" Outrora, com Yves Montand, Simone Signoret, Jorge Semprun, discutia-se até ao limite as directivas do Partido comunista. Hoje, é o mercado que dita a sua lei. No fundo, o mercado tem hoje a mesma função que tinha, ontem, o PC: ele tinha sempre razão."
"Para fazer fortuna, é preciso caminhar por cima dos cadáveres."

Da janela do Aposento 20: Testemunhos vivos da História





Quase no mesmo dia em que nascera a minha avó há 123 anos, desapareceu mais um testemunho vivo de uma parte essencial da História da Alemanha. Essas vozes iam recompondo o que a História dificilmente conseguirá guardar para os vindouros.
A amplitude de saberes e experiências acumulados vai-se apagando, infelizmente, para sempre. O “puzzle” que se tentou reconstituir, ficará incompleto.
Sobrou, no entanto, o legado do inconformismo, da veemência perante a incultura e a ausência de uma ética e de uma estética nos gestos diários.
Com exemplos assim, torna-se difícil compreender, tanto no passado como no presente, a falta de reflexão sobre o supremo bem da paz, da liberdade, da cultura e da Humanidade, na Alemanha e na Europa.

Post de HMJ, dedicado a "Möllchen"

Flaubertiana : letra G


Seguem-se hoje algumas ideias feitas de palavra iniciadas por G, seleccionadas da obra, já referida, de Gustave Flaubert:
Ganha pouco - bom nome para uma loja, inspirador de confiança.
Génio (o) - não há motivo para o admirar, trata-se de uma nevrose.
Ginástica - nunca é demais. Extenua as crianças.
Glória - não passa de uma nuvem de fumo.
Gordura - sinal de riqueza e ociosidade.
Gótico - estilo arquitectónico que, mais do que os outros, leva à religião.
Guarda da Polícia  - nunca tem razão.

Amancio Prada


Divagações 33 : da matéria dos sonhos


De umas vezes, nos castigam. Outras, nos favorecem. De uma irrealidade que poderia ter sido, ou vir a acontecer e ser real. Porque o Tempo, neles, é flexível e corre sempre sem relógios em sequência absurda, muitas vezes caótica, de poder vir atrás ou saltar para diante. O diálogo apenas pelo diálogo raramente existe, apenas acompanhando acção e movimento. Mas não se envelhece nos sonhos, antes acontece o rejuvenescimento impossível, em cenários estranhos. Não me lembro de música, e o pensamento é sempre linear, directo. Há constrangimentos, mas também liberdade, sensações e sentimentos que vem à tona. Deles saímos para o dia. Umas vezes, querendo voltar para trás, outras sem as tentações da mulher de Lot. E tantas, tantas vezes que a história fica inacabada, num luar de tristeza ou num alívio ensolarado.

De Sá de Miranda, um pequeno excerto de "Montano"


...
Assi vivem sem vergonha
vestidos de mansidão,
mas dentro no coração
anda escondida peçonha,
que por mezinha nos dão.
Não sei já o que te diga;
todo o mal é da panela:
se ela dá e se dão nela
dela só é a fadiga,
dela só é a querela.

Tudo é contra os piquenos!
Destas leis tais arrenego!
A justiça não a vemos,
senão no manco ou no cego,
em nós, que pouco podemos!
...
Sá de Miranda, in Obras Completas (versão de Rodrigues Lapa).

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Dia de Greve geral: o que vi e não gostei de ver

O que vi, fez-me recuar, no tempo, cerca de 38 anos. E não gostei. Nem gostei de ver ou ouvir:

- Um PR a fazer declarações.
- As máscaras de Guy Fawkes, em alguns jovens.
- A carga policial.
- As pedradas e o vandalismo.

Creio que não será necessário explicar porquê.

Pinacoteca Pessoal 39 : Anselm Kiefer




Nascido na Alemanha, a 8 de Março de 1945, Anselm Kiefer passou a viver em França, a partir de 1991. Mas o jornal Público (27/8/2009) dá a notícia que se teria fixado em Portugal, mais concretamente, em Alcácer do Sal (não consegui confirmar se ainda por cá se mantém).
Autor de instalações e quadros de dimensões cada vez maiores, onde espelha um pessimismo pictórico que virá, quanto a mim, muito na linha de Soutine, Kiefer utiliza frequentemente pequenos detritos, cinza, palha, para pontuar as suas colagens e telas. Há quem o queira incluir no Novo Simbolismo. O pesadume de Celan cerca muitas das suas obras, às vezes, até usando versos do Poeta, como títulos, ou marcas dessa influência.
Muitas das suas obras não deixam de ter uma beleza singular, normalmente dramática. Os quadros, em imagem, intitulam-se: "Cada um fica debaixo da sua redoma" e o outro, sem título, tem escrito, em alemão - "Que mil flores floresçam!".

Um rondó de Johann N. Hummel (1778-1837)


Nascido a 14 de Novembro de 1778, na Alemanha, o compositor e pianista Johann Nepomuk Hummel foi aluno de Haydn e Mozart. Faleceu em 1837.

Mais vale prevenir do que remediar...


Anote-se, preventivamente, que o "argueiro no olho" (ou araújo sulista) atacou novamente, hoje. Obsessivo, ajuntador das ideias dos outros, "transcrevinhador" prolixo, andou pelo Arpose durante 52 minutos e 37 segundos, debruçando-se sobretudo e mais atentamente nos seguintes postes:
- Sobre  "Crise", palavra e sentido.
- Patrocínios e filiações.
- Eugénio, sobre os desenhos de Rodrigues.

Assim, e preventivamente, deixei o alarme ligado...

Mais uma vez, refiro que este poste tem endereço único.

Sobre "Crise", palavra e sentido

Só muito recentemente o nome de Myriam Revault d'Allonnes começou a ter sentido, para mim, embora não tivesse sequer conseguido saber o ano do seu nascimento. Creio que será sexagenária. Filósofa francesa, especialista e tradutora da obra de Hannah Arendt (1906-1975), Myriam aborda, com maior incidência, as relações do Poder, a Política e, mais recentemente, a Crise, no seu sentido mais lato e abstracto, não desprezando, porém, as suas razões concretas. Coligi e traduzi, do francês, algumas respostas dela, em entrevistas, a que junto um vídeo em que Myriam R. d'Allonnes fala da crise que atravessamos, a propósito do seu último livro, intitulado "La crise sans fin". Como se segue:

Crise e Crítica têm, em grego, a mesma origem etimológica: critica-se para tentar chegar àquilo que deve ser e para tomar uma decisão.
...
Eu creio que a autoridade consiste em dar aos vindouros, aos que vierem depois de nós, a oportunidade de começar alguma coisa.
...
Chegaremos quase a preferir um futuro sombrio a um futuro incerto.
...
Em vez de antecipar a catástrofe como uma certeza, afrontemos a incerteza. Uma incerteza criadora: sim, o futuro não será forçosamente o melhor, mas nós temos possibilidade de agir.
...
No campo político, novas práticas emergem (petições, fóruns de cidadãos, lutas colectivas) que, mesmo que nem sempre sejam bem sucedidas, deixam rasto. A mobilização dos "Indignados" não resultou na instauração de contra-poderes ou mecanismos institucionais mas, em si, não é um fenómeno insignificante.


A par e passo 17


Obras
A forma é o esqueleto das obras; há obras que não o possuem.
Todas as obras morrem; mas aquelas que têm um esqueleto duram bem mais por este facto do que as outras que não eram senão informes.
As obras deixam de divertir, de excitar. - Elas podem ter uma segunda vida durante a qual são consultadas, por razões de ensino - e uma terceira - a título de informação.
Alegria a princípio. - Depois, lição técnica. - Finalmente, documento.
...
A arte
O belo exige talvez a imitação servil do que é indefinível nas coisas.
Quando as obras são muito curtas, o mais pequeno detalhe é da ordem de grandeza do conjunto.
A proporção do pormenor na beleza de um soneto deve ser enorme.
...
A ideia habita a prosa; mas assiste, vigia, guia a poesia.

Paul Valéry, in Tel Quel II (pgs. 130/3).



terça-feira, 13 de novembro de 2012

Schubert-Liszt / Rachmaninov


Em resumo


O fim da tarde foi bem empregue: vi Amigos, aprendi algumas coisas interessantes, que não sabia. E, embora o tema, parcialmente, não fosse "my cup of tea" (como os ingleses dizem), até fiquei com curiosidade de relembrar alguns factos de que me esquecera, com o tempo. Por isso, repeguei neste livro de 1940, da Portugália, que tem uma capa bem interessante.
Mas para que não fique nenhuma dúvida, desde já e aqui, me declaro: republicano e laico.

As caves do Vaticano


A notícia não foi muito difundida, mas não deixa de ser importante: o papa Bento XVI, em Junho de 2006, autorizou a consulta dos arquivos do Vaticano, até ao papado de Pio XI, ficando ainda sob reserva o acesso à documentação referente ao controverso Pio XII. Os arquivos da Igreja católica ocupam uma espécie de bunker, com 85 quilómetros de extensão e, diz o "Obs.", sendo bem diferentes dos do filme fantasista e light "Código da Vinci", são semelhantes aos corredores do KGB, nos anos 70 do século passado.
No riquíssimo acervo, o mais antigo documento data dos finais do séc. VIII e é o "Liber Diurnus Romanorum Pontificum", com a pragmática e rituais da chancelaria pontifícia. Inúmeros escritos, explicações e segredos que se abrem para o investigador encartado. Desde as actas do processo contra Giordano Bruno (1548-1600), até ao pedido de Henrique VIII, para a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão, dirigido ao papa Clemente VII. De um manuscrito mongol do séc. XIII até uma carta de Isabel I, de Inglaterra; de Lincoln ao imperador Hirohito, de tudo isto estão os arquivos do Vaticano, bem recheados.
Os sérios historiadores, os bons escritores e, até mesmo os escrevinhadores light, tipo browns e rodrigues dos santos, aqui poderão encontrar fontes de importantes investigações ou enredos, e dos próximos best-sellers indigentes.

Mercearias Finas 64 : Alvarinho


É, talvez, a casta branca portuguesa, autóctone, mais complexa, rica e de melhor qualidade. Pelo menos, para mim, assim a considero e, apenas, o Arinto de Bucelas, às vezes e em raros anos (1992, foi um exemplo, que pude confirmar, em Novembro de 1998, no restaurante Jordão, de Guimarães), lhe possa pedir meças, pelo seu aroma delicado e elegante. Por outro lado, o Alvarinho, da sub-região de Monção e Melgaço, assegura uma longevidade (5 anos, garantidamente) incomum, no Noroeste peninsular dos vinhos verdes. E faz lotes de segura qualidade, como é o caso do Muralhas (90% de Alvarinho, 10% de Trajadura, habitualmente) que, com imenso e merecido sucesso, a Adega Cooperativa de Monção produz, generosamente, todos os anos. Nas nossas irmãs Rias bajas da Galiza, esta casta branca ganha o nome de Albariño. Que é também de muito boa qualidade. Porque o clima é gémeo do do nosso Alto-Minho.
O terreno e as condições climáticas são considerados como a base fundamental da personalidade e características próprias de um vinho, seja ele tinto ou branco, pela forma, sabor e aromas que, as castas aí plantadas e amadurecidas, adquirem, inconfundivelmente. Daí os franceses terem criado a palavra terroir, com um significado enológico exclusivo. Ora, muito recentemente, um conceituado produtor de vinho de Napa Valley's (EUA) saiu-se a dizer que o terroir era um mito e que tal coisa não tinha nenhum fundamento. Saíram-lhe à estocada e com argumentos, e bem. Eu faria o mesmo, escandalizado com o dislate.
Aqui há algum tempo, nesta mesma rubrica, afirmei que a casta Alvarinho era exclusiva do Alto-Minho. Os produtores gostam muito de fazer experiências, e, por isso, a minha afirmação já não corresponde à realidade. Plantam-na no Ribatejo, na região de Lisboa, nas Terras do Sado e, até (pasme-se!), no Alentejo - mas com medíocres resultados. Até José Neiva, que costuma ser um mágico dos vinhos que produz (empresa DFJ), fez, no Ribatejo/Estremadura/Lisboa, um Alvarinho estreme que é um desastre. E, refere o "Fugas" (jornal Público) de sábado passado, que a Adega de Borba também fez a experiência, no Alentejo, com maus resultados ("...um branco sem muita graça e nenhuma personalidade..."). Em resumo: Alvarinho, só na sub-região de Monção e Melgaço - terroir é que é!

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Beach House : Better Times

Eu explico !



De acordo com uma notícia divulgada, hoje, pelo "Diário Económico", existem, por aí, alguns alemães ou luso-alemães que estranham a indignação em torno da visita de A. Merkel. 
Com o peso da idade e experiência, e em louvor do país e dos amigos que tão bem me acolheram, eu explico.
Os alemães que costumam andar em "bicos de pés", reais ou na blogosfera", não representam, para mim, a cultura, a ética e a estética de uma Alemanha que eles, frequentemente, ignoram para além do domínio de procedimentos administrativos e técnicos para aumentar a produtividade. 
Aliás, há várias décadas, conheci um, de nome "Frischmuth", qualquer coisa como "fresca coragem". Poderá servir como exemplo para aqueles técnicos das multinacionais que, em início de carreira, vinham para o Sul da Europa ou América do Sul, como trampolim para a subida na carreira. A criatura em questão, nada sabia de Portugal, passando a gozar da facilidade de ter criada e de uma promoção social - tipo funcionário da "Troika". Como estes, tinha sempre uma "solução" para os portugueses "madraços", seguindo o seu Adminstrador-Delegado que, como Schäuble, tirava os "coelhos da cartola" para salvar os indigentes.
Ora, a criatura em questão, "pairava" por umas "instalações fabris" indescritíveis, com cobertura de zinco e sem qualquer isolamento. No Verão, a temperatura ultrapassava os 40º e, no Inverno, em vez de cuidar das condições de trabalho, a criatura proibiu as fogueiras que as operárias faziam para se aquecer. No entanto, com os "rácios" de produção que recebia da Alemanha, não se ensaiava a exigir a mesma produtividade. Estamos, pois, a falar de condições de trabalho, numa multinacional alemã, de antes e depois do 25 de Abril e não do século XIX ou início do século seguinte. 
Como eu, não acredito que as operárias se esqueceram do seu primeiro contacto com o "patrão alemão". Para elas, sobrou-lhes a indignação, para mim a vergonha. 
Foi a vergonha que sempre me impediu de fazer parte de uma "chamada comunidade alemã", fechada numa redoma, ao ponto de o seu representante, o Embaixador da Alemanha, ter achado estranho nunca ter dado por uma ovelha tresmalhada.
De facto, a minha indignação vem de longe e assenta na ausência ou ignorância dos valores supremos da liberdade e humanidade que aprendi, na Alemanha do pós-guerra, e com muito gosto.

Post de HMJ

Citações com humor


O TLS, do passado dia 2/11, regista o sucesso do recentemente editado Dictionary of Humorous Political Quotations, de Fred Metcalf, referindo algumas das melhores citações do livro. Damos, de seguida, uma pequena selecção das referidas:
1. De Margaret Tatcher: "Sou extraordinariamente paciente, desde que atinja o final do meu caminho."
2. De Freud: "A América é um erro, um erro gigantesco."
3. Do comediante Rory Bremner: "Cameron é uma séria ameaça para mim. Consegue imitar Tony Blair, melhor do que eu."
4. De Dan Quayle (ex-Vice-Presidente americano), para crianças de uma Escola: "Se não estudarem, podem vir a acabar como Vice-Presidentes."

Filatelia LIV : selos clássicos alemães


Dos 16 estados alemães e cidades hanseáticas, o primeiro a emitir selos foi a Baviera, a 1 de Novembro de 1849, logo seguida, em 1850, pela Prússia, Hanover, Sachsen e Schleswig-Holstein. A partir de 1872, foi feita a reunificação postal e os selos passaram a ser os mesmos, para todo o território germânico, muito embora a Baviera e Würtemberg tenham mantido emissões próprias até ao ano de 1920, cumulativamente.
As emissões de selos comuns, a partir de 1 de Janeiro de 1872, ostentavam a indicação de Deutsches Reich. E traziam, em relevo, o escudo alemão com a águia imperial. A emissão inicial tinha o escudo em tamanho pequeno, mas a emissão seguinte já ostentava um escudo maior, e os selos eram de cores diversas, consoante o valor das taxas. São alguns destes selos, da primeira e segunda emissão, que se mostram na imagem.

Baldassare Galuppi (1706-1785)


domingo, 11 de novembro de 2012

Da janela do aposento 19: Em louvor da cultura, da ética e da estética





De forma adequada para a efeméride, escolhi da obra de A. Lorenzetti, a sua representação alegórica do “bom” e “mau” governo para encimar o “post”, destacando, sobretudo, a expressão viva e convincente do mau governante.



Existem, contudo, razões substanciais para desconfiar da capacidade de interpretação, por parte de quem nos visita, de manifestações culturais e estéticas, nomeadamente, dos países do Sul da Europa. A incultura tão arreigada nesta tecnocracia reinante, não lhes permite elevarem-se acima da “forma” de mestres-escola tipo Sarah Palin em que o recurso a “sebentas dos chefes financeiros” anula, à nascença, qualquer pensamento autónomo ou aceder a uma visão humanista do mundo.
Com efeito, a visitante costuma falar do alto do seu “pequeno” mundo, com a obstinação de quem desconhece que “a sabedoria faz os reinos fortes e dá vitória aos príncipes”, para além de roçar o pecado que a figura seguinte tão bem representa.


A “Superbia” [i.a. a soberba] manifesta-se, frequentemente, nos desprovidos de ética e estética pela sua postura de se colocarem “em bicos de pés”, ignorando que existem mais mundos para além da sua disfarçada voracidade de “pescadores de pérolas” em terra alheia.
Contudo, a falta de ética destes “actuais heróis” na sua desenfreada cruzada de subjugar a dignidade dos cidadãos europeus aos interesses da “roleta financeira” terá o seu climax e, como na antiga Grécia, conduzirá ao castigo daqueles que desafiam, indevidamente, os valores supremos da civilidade, da cultura, da ética e até da estética.
De facto, o Prémio Nobel da Paz, atribuído à Europa recentemente, não é para esses anti-heróis, mas para estadistas de craveira, cujo empenho nos ideais da paz permitiram uma reunificação de que a senhora visitante foi e é a principal beneficiada.

Post de HMJ, dedicado a todos aqueles, sobretudo portugueses e alemães, que desejam um outro rumo para a Europa

Revivalismo (remix)


Boa noite!

A propósito de S. Martinho


Sabe-se que o Serviço de Saúde, na Alemanha, funciona muito bem. E a cobertura médica, até nas aldeias, é excelente. O que nem todos saberão é que, recentemente, entrou na agenda política germânica, a discussão sobre os custos consideráveis do apoio e assistência a idosos. Num país onde a esperança de vida é das mais altas, na Europa. E alguns "jovens turcos" da política encararam até a hipótese de enviar idosos para países de Leste, onde os gastos seriam muito menores. A questão, por fracturante, tem sido silenciada, ultimamente. Mas este tipo de estratégia, despudorada e economicista, já tinha sido posta em prática pelos alemães, anteriormente, ao enviar jovens problemáticos e "corrécios" em pequenos grupos, para o Alentejo: houve (há?) várias "colónias de recuperação" no interior alentejano. Mais uma vez, porque os custos eram incomparavelmente mais baixos do que na Alemanha...
Há uma velha lenda portuguesa que conta que, em determinado lugarejo, era costume o filho mais velho, quando o pai já anoso e inútil para o trabalho, fosse "imprestável", levá-lo para um monte ermo e distante, e deixando-o com alguma comida e um cobertor, abandoná-lo à sorte e à morte antecipada. Mas houve um pai mais sábio que, quando o filho varão se preparava para o deixar, lhe pediu uma faca. E, cortando o cobertor em duas partes, lhe deu uma, dizendo: "Esta metade é para ti! Para quando o teu filho mais velho também te trouxer para aqui, te possas agasalhar melhor."
Não sei o fim desta história, nem se o filho reconsiderou no acto que ia praticar, mas lembrei-me desta lenda, por contraste, a propósito do bom exemplo de S. Martinho - Santo que hoje se celebra.

Eugénio, sobre os desenhos de Rodrigues




Nos tempos que correm e em que se escreve tão mal o português, sabe bem ler um texto assim. Também já o disse aqui: além de magnífico poeta, Eugénio de Andrade era, também, um excelente prosador. 
As palavras de Eugénio, sobre a obra de José Rodrigues, vem  numa pequena brochura feita para a exposição do Artista portuense, na Cooperativa Árvore (Porto), em 1967.
Julgo que este belo texto não se encontra acessível na obra do Poeta. Por isso, aqui fica em partilha, neste dia de júbilo, pelos 3 anos do Arpose. Para os meus Amigos. Para os estimados Seguidores. Cordialmente.

Händel, para o 3º aniversário


O que a direita não perdoa à esquerda


Estou à vontade para o dizer, até porque nunca fui um grande admirador do recente ex-líder do BE, embora lhe reconhecesse méritos indiscutíveis. No seu conjunto, no entanto, apreciava mais o estilo e a prática política de um Miguel Portas, prematuramente falecido. Mas ao mesmo tempo ficava, e fiquei surpreendido de, até na hora da despedida, verificar a sanha carniceira com que, alguma direita cavernícola, se atirava e atirou a F. Louçã. Sobretudo uma direita que não é ideológica, mas simplesmente emotiva, irracional.
Percebo, hoje, algumas das razões que estavam (estão) por trás disto. Louçã era inteligente, era um acutilante orador, um economista respeitado, um político preparado e coerente.
A direita ultramontana sempre preferiu um Papa-açorda a chefiar a esquerda. Um promíscuo que se adapte, um cata-vento ideológico, um fraco, de preferência, mal preparado - porque a direita sabe que, desses, não tem nada a temer. A direita sanhuda não perdoa (ou não perdoou) a um Lopes Cardoso, a Cunhal, a Melo Antunes, a Ferro Rodrigues, a Louçã. A direita sanhuda e ultramontana tem medo destes homens íntegros e coerentes. Porque eles têm princípios, não são corruptíveis, nem mudam ao sabor dos ventos. São inteligentes e não se desviam, um milímetro que seja, da sua coerência de homens de esquerda.